quarta-feira, março 20, 2013

Jovens Adultos

Mavis Gary (Charlize Theron) é o tipo de pessoa que se sente ameaçada com a felicidade dos outros. Um incômodo que vem da sensação de que ser feliz é algo fácil para qualquer um, menos para ela. Mas a compreensão desse fato não surgirá facilmente. Antes, Mavis terá de percorrer um constrangedor caminho até conseguir enxergar isso.

O título original do filme, Young Adult, cuja tradução mais correta seria Adultos Jovens, faz uma referência tanto à vida quanto ao trabalho de Mavis. Ela é uma escritora de aluguel para uma série decadente de livros voltada para o tipo de público que acaba de entrar na vida adulta, mas sem ter ainda se desligado completamente da adolescência.

Aos 37 anos e com um casamento rompido, ela poderia ser considerada um exemplar bastante tardio e problemático desse tipo de público. Mora em Minneapolis (maior cidade do estado de Minnesota) e acha que as pessoas de sua adolescência, que ainda vivem em Mercury, a pequena cidade onde nasceu, são fracassadas e infelizes. Enxerga a si mesma como alguém melhor do que aqueles que deixou para trás, embora termine quase todas as noites alcoolizada e dormindo vestida.

Mas quando ela recebe por e-mail a foto do filho recém-nascido de um antigo namorado, fica simplesmente obcecada. Decide, então, que precisa salvá-lo daquela vida medíocre de cidade pequena e mostrar para ele que foram feitos um para o outro. Mesmo que para isso tenha de destruir uma família.

A escritora e roteirista Diablo Cody repete com o diretor Jason Reitman a bem sucedida parceria que fizeram em Juno (2007). Mais uma vez, criam um personagem que segue códigos paralelos aos considerados socialmente aceitos, dando à história uma estranheza que não busca necessariamente empatia com o público.

Se a personagem-título em Juno era uma adolescente grávida que tomava uma decisão questionável dentro dos padrões sociais normalizadores – mas com a qual se poderia simpatizar e até entender – o mesmo não acontece com Mavis. Em sua atitude doentia, determinada a destruir conscientemente um casamento, há algo de maldade que a excelente atuação de Charlize Theron revela. Mas por trás dessa maldade há o claro desespero da solidão.

Na volta à sua cidade, Mavis reencontra também Matt Freehauf (Patton Oswalt), um sujeito que foi violentamente espancado no tempo do colégio por acharem que ele era homossexual. Tendo ficado com sérias sequelas nas pernas e no pênis, Matt funcionará como uma voz da consciência de Mavis ao descobrir seu plano diabólico.

A amoralidade determinada da protagonista de Jovens Adultos gera uma antipatia cômica, mas que o filme trabalha de forma não caricata, gerando um desconforto maior que qualquer riso. Além de não ser caricato, o filme também evita o maniqueísmo ou o moralismo. Se a visão que Mavis tem das pessoas de sua cidade é preconceituosa e arrogante, esta visão não chega a ser desmentida pelo filme, que revela de fato uma atmosfera que flerta com o tédio e a conformação.

Não se trata, porém, de julgamentos, mas de criar um filme em que as situações e os personagens não sejam esquemáticos. Nesse sentido, Jovens Adultos funciona muito bem. Dentro do desconforto de seguirmos a constrangedora determinação de Mavis, há o estranhamento da protagonista sem caráter, mas que no mau-caratismo desconhece que há apenas desespero e melancolia em si mesma.

Com um ritmo muito bem ajeitado, o filme vai desfolhando as camadas desse caráter, revelando aos poucos o que Mavis não quer admitir. Nem comédia, nem drama, nem moralismo. Jovens Adultos é uma peça de pequena reflexão sobre a insatisfação e o amadurecimento. Não entrega redenções e perdões hipócritas, fecha-se tão somente na dureza de assumir-se diante de um espelho, mas sem falsas elevações morais depois disso.
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Young Adult
Jason Ritman
EUA, 2011
94 min.

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terça-feira, março 19, 2013

Cineasta Samuel Fuller ganha mostra em SP



Intitulada Se você morrer, eu te mato!, a nova mostra de filmes promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo traz a obra completa do cineasta norte americano Samuel Fuller (1912-1997).

A partir desta quarta (20), o público poderá ver na tela todos seus 24 filmes, além de dois documentários sobre o diretor, realizados pelo cineasta francês André S. Labarthe.

Samuel Fuller
Samuel Fuller é considerado um dos diretores mais influentes de sua geração. Nomes como Jean-Luc Godard, Wim Wenders, Martin Scorsese e Steven Spielberg já declararam a força dessa influência em suas obras.

Dono de uma obra autoral de forte teor independente, apesar de ter trabalhado com grandes estúdios, seus filmes são marcados pela violência, pelo sarcasmo e pela abordagem de temas indigestos como o racismo, a guerra, a loucura e o submundo.

Repórter e combatente
Tendo iniciado sua vida profissional como repórter policial e servido na Segunda Guerra Mundial, Fuller fez dessas duas experiências um tema recorrente em seus filmes. Além dos filmes de guerra, muitas de suas produções apresentam uma carga jornalística através de seus personagens e do retrato feito a partir de “camadas párias” da sociedade.

Agonia e Glória (1980)
É a partir de sua visão da guerra, por exemplo, que nascem obras como Capacete de Aço (1951) e Baionetas Caladas (1951), ambos sobre a guerra da Coreia, além do marcante Agonia e Glória (1980), que trazia suas memórias da Segunda Guerra.

Da experiência nas ruas como repórter, o gênero noir torna-se uma marca de muitos de seus filmes, levando para a tela tipos pertencentes a um universo ambíguo de violência latente. Dessa áspera realidade surgem filmes como A Dama de Preto (1952), Anjo do Mal (1953), O Quimono Escarlate (1959) e A Lei dos Marginais (1961).

Western sem heroísmo
Fuller também realizou westerns, como é o caso de seu primeiro longa metragem, intitulado Eu Matei Jesse James (1949). Mas ao abordar o gênero clássico do cinema americano, o diretor subverte seus elementos para revelar personagens sem heroísmo, calcados em inseguranças, covardias e contestações da sociedade.

O Beijo Amargo (1964)
Da mesma forma contestatória, a perturbação mental está presente em obras como Paixões que Alucinam (1963) e O Beijo Amargo (1964). Estes revelam com crueza e perturbadora construção a hipocrisia da sociedade conservadora norte americana. Nessa perspectiva, trazem um sempre iminente desvio doentio de comportamento. Desvios que a sociedade oculta sob a máscara da normalidade, bem guardadas nos porões de seus tabus.

Polêmico, incômodo e corajoso, o cinema de Samuel Fuller é marcado por uma estética que desmascara e aterroriza uma sociedade que vivia a dissimulação de um sonho de fortuna e prosperidade pós-guerra. Seus filmes revelam o outro lado – aquele que nem sempre se deseja ver – e refletem o descompasso entre aparência e verdade.

O Quimono Escarlate (1959)
Cru e cruel, brilhante em suas composições cênicas, ácido na sua indigesta perturbação e franco em dizer o que não era dito. 

“Se você morrer, eu te mato”, frase dita por um sargento em Capacetes de Aço, serve perfeitamente como metáfora de um diretor provocativo, roteirista da maior parte de seus filmes, que levou ao cinema não apenas sua visão de mundo estetizada na crueza perfuradora de sua câmera, mas também o instigante debate a respeito de nossos instintos estúpidos, estupidificados e dissimulados.
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Serviço:

O quê: Mostra Samuel Fuller: Se você morrer eu te mato!
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil - Rua Álvares Penteado, 112 – Centro
Quando: de 20 a 31 de março
Quanto: R$ 4,00 (inteira), R$ 2,00 (meia-entrada)
Mais informações: www.bb.com.br / Tel: (11) 3113-3651/52

domingo, março 17, 2013

Piaf – Um Hino ao Amor


Filmes que nos levam às lágrimas costumam partir de uma manipulação de emoções que tentam sempre nos “convencer” a chorar. Essa manipulação vai desde a mais óbvia, que é subir o volume da música durante uma cena triste, até a mais sofisticada, como é o caso desse Piaf – Um Hino ao Amor.

Cinebiografia da cantora francesa Edith Piaf (1915-1963), o filme deu o Oscar de melhor atriz para Marion Coutillard por sua brilhante interpretação do personagem título. Uma produção que dificilmente poderia escapar de fazer lágrimas no espectador, já que a vida da cantora nunca foi fácil.

Nascida pobre, Edith passou parte de sua infância entre a negligência da mãe alcoólatra e a distância de um pai errante, contorcionista de circo. Uma errância que a levou a viver, ainda muito criança, sob os cuidados da avó, dona de um bordel. A certa altura, a jovem Edith se vê obrigada a cantar nas ruas para conseguir algum dinheiro. Até que das ruas vai para os bares e dos bares para os grandes palcos.

Edith, que recebeu de um de seus primeiros incentivadores o nome “piaf” em referência a como são chamados os pardais em uma região da França, foi um talento nato, aprimorado pela expressividade amargurada de uma vida marcada por afetos muitas vezes ríspidos e uma saúde frágil.

Para representar o conturbado dessa trajetória que ascende rapidamente ao estrelato, ao mesmo tempo em que é abalada por tragédias, excessos e desventuras, o diretor Olivier Dahan opta por uma narrativa fragmentada. Faz idas e vindas no tempo, lança mão de elipses e recortes de momentos determinantes na vida da cantora.

Este recurso de picotar a narrativa, ainda que não a confunda, tampouco mantêm facilmente claras as relações de causa e efeito nos grandes acontecimentos da carreira de Piaf, especialmente na segunda metade de sua vida. Mesmo datando com precisão alguns momentos fundamentais dessa trajetória, a montagem do filme elide algumas conexões entre fato e consequência.

Ao longo de dois terços do filme, essa opção parece incômoda, na medida que embaralha essa trajetória. No entanto, mesmo esse leve desconforto não interfere na forma como o filme deixa transparecer o que realmente importa ao dar uma personificação bem definida da cantora, de seus caprichos, de sua personalidade, de seus amores e de suas mágoas.

Talvez a grande e bem montada armadilha do filme esteja em aflorar nos mais apressados um desejo por uma narrativa linear, cronológica, que satisfaça um anseio de compreensão clássica das coisas. Mas depois de insistir na sua opção fragmentária, e sem abrir mão dela, o último terço do filme realiza uma amarração que oferece uma clara explicação da forma que se optou para contar a história de Piaf.

Deixa claro no final que não se trata mais de explicar a vida da cantora como um relato documental de fatos, consequências, causas e efeitos. No lugar desse didatismo morto, percebe-se que ao filme interessa muito mais simbolizar e significar o que há de mais essencial na trajetória da cantora. Uma essência marcada pela grande atribulação de uma vida de altos e baixos, cheia de um sentimento profundo de busca pelo amor. Um amor do qual sempre se ressentiu pela falta que fez em sua vida, tracejada na melancolia indisfarçada presente no grande sentimento de suas interpretações.

É na compreensão das intenções reais do filme que este cresce imensamente, pois fica claro que a ele não interessa relatar a vida de Piaf, mas de senti-la naquilo que é mais marcante: a inconstância da felicidade e a permanência do grande sentimento. Como em uma entrevista em que a toda pergunta feita em tom de “que conselho você daria para...” a cantora responde: ame, ame, ame.

Assim, a atribulada montagem se transforma em metáfora da atribulada vida que quer representar. Uma representação que muito deve ao trabalho extraordinário de Marion Coutillard como Piaf. Uma prova do talento da atriz, na qual revela uma atuação inspirada, articulada com riqueza de tons e intensidades.

É Coutillard quem dá vida à arquitetura de filme, que no seu arranjo não deixa de ser manipulador de nossas emoções. Essencialmente por construir-se de forma a reservar para o fim o grande golpe de emoção, presente na letra da canção que o encerra. Uma canção que sintetiza a existência e o sentimento da cantora. Um artifício de manipulação, sim. Mas que funciona não apenas porque foi brilhantemente executado, mas porque traz em si um sentimento de verdade e compaixão que só uma vida como a de Piaf poderia trazer.
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La Môme
Olivier Dahan
França/Reino Unido/República Checa, 2007
140 min.

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sexta-feira, março 15, 2013

Anna Karenina


Calejado no difícil trabalho de verter obras literárias para o cinema, o diretor britânico Joe Wright inova-se ao adaptar para o cinema o clássico russo “Anna Karenina”, publicado por Leon Tolstoi entre 1873 e 1877.

Com este filme, Wright já soma quatro adaptações literárias em um currículo de cinco longas metragens, entre os quais se destacam Orgulho e Preconceito (2005) e Desejo e Reparação (2007).

A novidade nesta nova investida é a forma que o diretor opta para narrar os complicados dramas do amor e da felicidade presentes na obra original. Wright transforma a literariedade do romance em uma teatralidade cênica. Isso se dá através de um artificialismo calculado que faz do teatro, em sua totalidade física de palco, coxia e plateia o cenário que sustenta a narrativa.

Anna Karenina (Keira Knightley) é a esposa de um aristocrata da Rússia czarista. Eles vivem em São Petersburgo e têm um filho. Bonita e rica, Anna tem tudo para ser feliz. Mas numa viagem até Moscou para tentar reconciliar seu irmão com a esposa, conhece o conde Alexander Vronsky (Raphaël Personnaz), que pouco depois se torna seu amante.

Ao redor desse triângulo amoroso orbitam ainda outros personagens com seus dramas. São conflitos menores dentro da narrativa, mas significativos dentro do que a história concebida por Tolstoi propõe e que é sintetizada na famosa abertura da obra original: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira”.

Todo esse jogo dramático terá lugar nos espaços que fazem parte de um grande teatro, numa indistinção entre plateia, palco e coxia. Com exceção de poucas cenas em externas reais, quase tudo na ambientação do filme vem dessa artificialidade programada e teatral, mas que pela coordenação da mise-en-scène ganha vida própria, flertando com o operístico e com o musical, mas sem entrar em qualquer desses gêneros.

Ao menos na primeira metade do filme, o que não se pode dizer é que a câmera de Joe Wright é preguiçosa. Ela se move constantemente na construção de uma composição cênica cheia de dinamismo, na qual as ações dos personagens se aproximam do gênero musical em uma coreografia constante.

Esta artificialidade teatral pode até roubar parte do peso dramático e das emoções atribuladas que são a razão de ser do romance de Tolstoi. Mas neste caso o recurso funciona porque articula em imagens o que de outra forma poderia se tornar falatório literário, falha comum em adaptações literárias e que termina por tornar a narrativa arrastada.

Wright se arrisca ao escolher essa encenação inesperada, mesmo sob a pena de baixar em demasiado a voltagem do romance ao dar a ele traços farsescos. Na segunda metade do filme, nota-se uma redução dessa teatralidade, o que deixa crescer o melodrama natural da história, mas sem entregá-lo a um realismo que seria esteticamente contraditório.

Visualmente bem acabado, tanto na fotografia como no figurino (levou o Oscar nessa categoria), e em especial no sofisticado e dinâmico mise-en-scène, Anna Karenina escapa da mesmice e tem seguramente a coragem de mostrar respeito pela obra sem exaltar uma reverência subserviente. Especialmente porque se trata, como fica claro, de uma adaptação.
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Anna Karenina
Joe Wright
Reino Unido, 2012
129 min.

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terça-feira, março 12, 2013

Notas: Blade Runner – O Caçador de Androides

sexta-feira, março 08, 2013

Amigos Inseparáveis





Amigos Inseparáveis – mais um exemplar de péssimo título em português – é um filme que alterna de lado o tempo todo. Ora vai para o lado de um filme que constrói com muita correção o peso de seus personagens, assentados na amizade de velhos tempos, na velhice e nas consequências de suas escolhas; ora cruza a fronteira para o lado do filme previsível, com piadas óbvias e desfecho condescendente.

Investidos do charme e da segurança que só o tempo proporciona, Christopher Walken e Al Pacino estão na pele de dois criminosos aposentados pela idade. Aposentadoria que se deu prematuramente, quando Val (Pacino) foi preso, há 28 anos, cumprindo sua pena sem nunca delatar os amigos. É Doc (Walken) quem vai buscá-lo no dia de sua liberdade.

Do reencontro amistoso, logo surgem as contas do passado que ainda não foram pagas. Uma questão de vingança e ameaça, que Doc se viu obrigado a carregar por 28 anos. Por ordem de um implacável e vingativo chefão do crime, ele deve matar Val até a manhã do dia seguinte. E Val não demora a perceber isso.

Com um saudosismo que vai do elegante para o superficial, ambos passarão as últimas horas que lhes restam juntos numa noite de roubo de carros, justiçamento de valentões, acertos familiares e despedida dos velhos tempos.

A direção de Fisher Stevens (ator de rosto conhecido em séries e filmes menores que vem se aventurando na direção) aproveita muito bem o charme e a experiência de seu elenco, que conta ainda com Alan Arkin no papel do antigo piloto de fuga. O filme mantém uma cadência sem pressa, boa parte dela ambientada como uma notívaga aventura irresponsável.

Sem abusar de maneirismos, Stevens salpica a narrativa com referências pontuais. A mais clara é a Quentin Tarantino, presente na participação de Vanessa Ferlito. Ela, que protagonizou em À Prova de Morte (2007) a ótima cena da lap dance (ver aqui), faz uma moça violentada por uma gangue local que terá sua “justiça” com a ajuda dos velhinhos nem tão aposentados assim.

Por outro lado, o filme não deixa de caminhar com frequência para um tipo de registro que passa pela obviedade de situações e pelo subaproveitamento do drama dos personagens. Parece sempre hesitar entre ser uma aventura de “velhinhos batutas” e uma história de redenção com peso e responsabilidade. Não cabe aqui apontar o caminho certo, ainda que o segundo seria mais proveitoso dramaticamente. O problema é a indefinição, que prejudica a boa atmosfera que se cria em alguns momentos.

Pacino está bem em seu papel, mas repete performance, como em alguns momentos que parece estar de volta ao papel do sujeito cego que lhe rendeu o Oscar em Perfume de Mulher (1992). Mas quem carrega de verdade o filme é Christopher Walken. Em seu gestual e expressões, transmite com grande autenticidade não apenas o peso do tempo – com aquele verniz de que algo se perdeu definitivamente –, como também pelo peso da tarefa de que está incumbido. Toda densidade ensaiada pelo filme passa pela atuação de Walken.

Na onda de produções sobre aposentadoria (ou o adiamento dela) de velhos durões, Amigos Inseparáveis é mais um a rondar o tema do peso do tempo. Com esperado saudosismo melancólico, coloca seus personagens com as rugas claras e os vincos dos rostos expostos. Tem momentos autênticos muito bons, mas perde-se na falta de equilíbrio entre ser legal e divertido ou apresentar uma esfera dramática com peso mais sólido. Paira então no superficial, com momentos de brilho espontâneo e outros de total desperdício.
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Stand Up Guys
Fisher Stevens
EUA, 2012
95 min.

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quinta-feira, março 07, 2013

Killer Joe - Matador de Aluguel

Baseado em peça homônima de Tracy Letts (que também assina o roteiro do filme), Killer Joe é o novo trabalho de William Friedkin, diretor de clássicos como Operação França (1971) e O Exorcista (1973).

A exemplo de seus dois filmes mais cultuados, Friedkin traz para Killer Joe a violência e o terror. Ambos, porém, trabalhados na sofisticação de uma trama que quer ir além de um crime de encomenda para revelar a destruição de um núcleo familiar disfuncional.

Chris (Emile Hirsch) desconfia que sua mãe roubou a cocaína que ele ia distribuir. Endividado pela droga, vai até a casa de seu pai, que vive com outra mulher, sugerir que contratem um matador para eliminar sua mãe. A intenção é dividirem o dinheiro do seguro de vida dela, cuja beneficiária é Dottie (Juno Temple), a irmã caçula.

É onde entra Joe (Matthew McConaughey), um detetive da polícia do Texas que também mata por dinheiro. Mas ele só trabalha com pagamento adiantado, coisa que pai, filho e madrasta – todos mentores do crime – não têm. Mas Joe fica seduzido pela inocente Dottie e aceita fazer o trabalho se puder tê-la como “garantia”.

Embora Killer Joe se desenrole como uma comédia de erros, não há no filme qualquer humor. O que há no registro de Friedkin é um tipo de limbo em que a gravidade das situações não se arrastam sob o vergar do peso dramático, nem se deixam levar pelo cômico.

O que se vê é uma textura que equilibra o patético e o grave com tons desconcertantes. Parte desse efeito vem da idiotia de seus personagens. São figuras dignas de pena, cuja maldade não vem exatamente de uma consciência vil, mas do desespero que nasce da ignorância. Nesse sentido, a ambientação no Texas e a constituição de uma família pobre sulista não são elaboradas por acaso.

Sorrateiro e tomado pelo desejo que Dottie desperta, a figura de Joe vai se instalando na trama. Esta personificação que inspira desconforto e medo encontra na surpreendente atuação de McConaughey (um ator que sempre orbitou na mediocridade) um equilíbrio perfeito entre a frieza de sua fala mansa e a perversidade de suas intenções. Ele representa um tipo de cinismo perturbado que sufoca e amedronta. Um calmo devorador da inocência.

Joe faz dos membros da família joguete e de Dottie sua presa. A menina é o elemento mais estranho da narrativa. Nota-se nela um grau de consciência aparentemente muito acima dos demais. Uma noção da verdade sempre disfarçada por sua ingenuidade autêntica. Ainda que conivente com tudo que percebe em torno, resta nela um desprendimento, uma pureza atravessada que resiste a toda sordidez em que está envolvida.

Sem espaço para esperança, redenção, humanidade ou laços de família, Friedkin arma o desfecho dessa trama de desalentada estupidez e ganância mesquinha com uma sequência antológica. Uma explosão de violência, sordidez e covardia. Entre o repulsivo e o desconcertante, será Joe a se arvorar em elemento de punição. Uma punição amoral e implacável, da qual emerge o mais doentio e sarcástico de toda situação construída pela trama. Um final de incômodo sem escape, feito de grossa, indigesta e brilhante ironia.
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Killer Joe
William Friedkin
EUA, 2011
102 min.

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quarta-feira, março 06, 2013

A Parte dos Anjos

Durante o processo de envelhecimento do uísque em barris de carvalho, cerca de 2% de seu conteúdo evapora-se. Essa é a parte dos anjos, brincam os especialistas em bebidas destiladas. Mas nesta comédia de Ken Loach, a parte dos anjos ganha outras conotações, tanto no que tange ao uísque quanto às pessoas.

Na cidade britânica de Glasgow, um grupo de delinquentes é condenado a prestar serviços comunitários. São jovens desajustados; ladrões, beberrões e briguentos que orbitam a periferia entre drogas, álcool e pequenos crimes. Entre eles, um jovem esquentado prestes a ser pai e perseguido por uma gang violenta. Ao escapar por pouco de uma condenação de prisão, ele vê a chance de mudar de vida, junto da namorada e do filho que está por nascer.

Autor de um cinema que frequentemente enfoca classes baixas da sociedade britânica, Ken Loach cria, como já havia feito em À Procura de Eric (2009), uma trama engendrada de forma a exibir o cerco difícil de escapar quando não se tem oportunidades. Um círculo de violência e marginalização que passa de geração para geração.

Em A Parte dos Anjos, Loach revela esse círculo vicioso pelo tom da comédia, mas sem esquecer o peso do drama. Para o diretor, a chave para sair desse ciclo hereditário está na oportunidade oferecida, que no filme é personificada pelo supervisor do grupo de serviços comunitário, o simpático Harry (John Henshaw).

A mudança que Harry provocará na vida desses jovens não virá de nenhum grande esforço dramático de altruísmo. Surge tão somente de um simples gesto de confiança e respeito, algo que esses jovens raramente recebem. Sem nada de exagerado, fica tudo na simplicidade de uma mão estendida e uma eventual dose de uísque para celebrar. É que Harry é um apreciador do destilado e costuma frequentar destilarias para visitas de degustação.

Ao levar o grupo de jovens para uma dessas visitas, se descobrirá em um deles o inesperado talento para a degustação, graças a um surpreendente e sofisticado conjunto de olfato e paladar. Mas como talento não basta para romper o ciclo de marginalidade, entra em ação um plano mirabolante para tentarem recompor suas vidas em um novo começo.

Através dessa ação entre amigos, Loach destilará sutilmente sua ironia e crítica social. Um grupo de jovens à margem e sem cultura que vai expor, mesmo sem dar por isso, o ridículo de uma sociedade entronizada em ritos elitistas.

No cerne dessa ação há uma revanche irônica que revela a tolice e o vazio que há na valorização desmesurada daquilo que é supérfluo. Com uma graça desembaraçada de qualquer pedantismo, o filme aponta seu dedo para uma elite hedonista, mostrando o quanto o rei está nu.

Divertido, simples e sem embaraços artificiais, A Parte dos Anjos tem na sua ingenuidade otimista uma beleza própria. É filme cuja trama flui naturalmente, mostrando um roteiro livre de esquematizações e cujo desfecho até surpreende pelo que tem de descomplicado e simpático.

Nas suas entrelinhas, a história não diz respeito apenas ao uísque que se evapora como a parte que cabe aos anjos. Diz também da parte que deveria caber a todos em uma sociedade, mas que nem sempre é partilhada de forma justa ou honesta. É para reivindicar a parte que lhes cabe que os anjos renegados de Loach existem.
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The Angel’s Share
Ken Loach
Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2012
101 min.

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quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Indomável Sonhadora


 Ao contrário da frase que se atribui a Che Guevara, em Indomável Sonhadora não há muito espaço para ternura no processo de endurecimento infringido à pequena Hashpuppy (Quvenzhané Wallis), uma garota de apenas seis anos.

Porém, se por um lado as pessoas que a cercam persistem no embrutecimento como forma afetuosa de prepará-la para a vida, por outro a menina consegue preservar seu olhar fantasioso para essa tal vida que tanto a desafia. É um olhar terno este que ela lança para o mundo ao redor. Mas é também um olhar duro.

Com apenas nove anos de idade, Quvenzhané Wallis concorre ao Oscar de melhor atriz pelo papel. É a mais jovem atriz a ser indicada nesta categoria, que este ano traz também, por coincidência, a atriz mais velha a concorrer: Emmanuelle Riva, que exatamente no dia da cerimônia completará 86 anos. Ela concorre pelo filme Amor, de Michael Haneke.

A indicação de Wallis é mais que merecida. Na pele de Hashpuppy, ela carrega sobre os ombros um filme duro e desalentado. Seu único escape é a fantasia, mas uma fantasia que na mesma medida serve como fuga do medo, torna-se muitas vezes a própria representação desse medo. Hashpuppy vive com seu pai, Wink (Dwight Henry), em uma comunidade pobre da Louisiana, num cenário de pobreza e devastação, próximo a uma barragem.

De sua mãe conhece apenas as histórias que seu pai conta, sempre em tom mítico. Não é certo se ela morreu ou apenas os abandou. Quando uma tempestade se aproxima, muitos moradores partem para abrigos, mas a menina, seu pai, e outro grupo de insensatos resistentes ficam para testemunhar a grande inundação que se segue à tempestade.

Neste cenário de desolação, Hashpuppy vai tomando consciência que seu pai esconde dela uma misteriosa doença que o está consumindo. A relação entre eles é de permanente tensão, pois são ambos (e também todos que o cercam), sobreviventes da pobreza e da ignorância. Para eles a vida é a luta diária da resistência, além de certo tipo de companheirismo entre amigos.

No mundo de Hashpuppy não há espaço para a fraqueza. É preciso uma força selvagem para resistir e é essa força que todos tentam impor. Assim, Indomável Sonhadora retrata quase que um rito de passagem precoce da jovem menina, no qual a brutalidade das relações não representam desprezo ou ódio, mas uma forma terna, distorcidamente terna, de fortalecê-la para a vida.

É nesse contexto que a atuação de uma atriz infantil surpreende pela força com que alterna essa brutalidade absorvida com uma sonhadora percepção da realidade. Mas aqui não se tem a sonhadora tradicional, que constrói na fantasia um mundo perfeito. Em suas fantasias há a mesma animalidade com que a vida a cerca, uma bestialidade de força e selvageria, que é contra a qual ela terá de aprender a lutar.

No seu imaginário de realismo fantástico, esta força da natureza é personificada em monstros selvagens que se aproximam para devastar. Eles são a representação de seus medos acumulados e é com esses medos que ela terá de se confrontar em algum momento.

Estreia na direção de longa metragem do jovem Benh Zeitlin, Indomável Sonhadora também concorre ao Oscar de melhor filme (além de direção e roteiro adaptado). Com uma beleza extraída da desolação e da aridez das relações, filtrada sempre pelo olhar inocente e ao mesmo tempo duro de Hashpuppy, o filme é contido como apelo dramático, o que evita um descarrilamento para o drama choroso. Suas emoções não são extraídas das lágrimas fáceis, mas da força crescente que se revela em sua protagonista.
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Beasts of the Southern Wild
Benh Zeitlin
EUA, 2012
93 min.

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quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Os Incômodos desse Som ao Redor


Poucas vezes um filme teve um título tão adequado e profético. O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, não apenas justifica seu título nos ruídos da vizinhança que sua narrativa retrata – ruídos esses que fazem parte da construção de uma atmosfera sutilmente opressiva e reveladora – como também vem ressonando para além de suas projeções nas salas de cinema.

Não bastasse a surpreendente repercussão internacional ao ser apontado pelo jornal The New York Times e pela conceituada revista de cinema britânica Sight and Sound como um dos melhores filmes de 2012, o filme vem ganhando um sonoro boca a boca, além de sonoros aplausos por onde passa. Mas essa sonoridade parece estar incomodando alguns opositores desse tipo de cinema, mais preocupado em estimular o pensamento reflexivo do que o riso estéril.

Kleber Mendonça Filho: duelos e ressonâncias
O mais recente fato desse desconforto que o filme parece causar a uma classe desacostumada ao reflexo e à provocação veio do diretor-executivo da Globo Filmes, Cadu Rodrigues. Aparentemente, o executivo não gostou de uma declaração de Kleber Mendonça Filho, publicada no jornal Folha de S.Paulo no último domingo (17), edição que trouxe uma série de matérias a respeito do filme, ressonando ainda mais sua importância para o cinema nacional e para o momento histórico do país.

A declaração em questão é essa: “Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana".

A resposta veio em forma duelística, por meio de um e-mail público de Cadu Rodrigues: “Desafio o cineasta Kleber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil, assume publicamente que como diretor ele é talvez um bom critico[sic]. Vamos ao desafio, caro diretor”.

O convite à peleja circulou pelas redes sociais nesta quarta-feira (20). Muitos defensores tomaram à frente a qualquer resposta de Mendonça Filho e responderam publicamente a Cadu Rodrigues, oferecendo diferentes contradesafios em resposta, nos quais propunham ações à Globo Filmes para que fizesse pelo cinema nacional algo mais do que o puramente comercial.

Para encerrar a rinha, iniciada sem propósito de lógica ou razão pelo executivo melindrado, a resposta oficial do diretor desafiado veio à noite:

“Olá Cadu

Locação de uma das cenas mais emblemáticas do filme
Estava em trânsito o dia inteiro, cheguei em Istambul onde O Som ao Redor será exibido nos próximos dias. O Facebook e a imprensa fervilham com nosso embate.

Preciso lhe agradecer pelo desafio, mas sua proposta associa a não obtenção de uma meta comercial (200 mil espectadores) como prova irrefutável de que eu não seria um cineasta. Isso não me parece correto, pois o valor de um filme, ou de um artista, não deveria residir única e exclusivamente nos número$.

Sobre ser crítico ou cineasta, atuei como ambos e meu discurso permanece o mesmo, e sempre foi colocado publicamente, e não apenas em mesas de bar: o sistema Globo Filmes faz mal à ideia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto.

Devolvo eu um outro desafio: Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo.

Esse desafio visa a descoberta de novos nomes que estão disponíveis, nomes jovens e não tão jovens que fariam belos filmes brasileiros que pudessem ser bem visto$, se o interesse de descoberta existisse de membro tão forte da cadeia midiática nesse país, e cujos produtos comerciais também trabalham com incentivos públicos que realizadores autorais utilizam.

Não precisa me incluir nessas novas descobertas, gosto do meu estilo de fazer cinema. Ainda estou no meio de um grande desafio com O Som ao Redor, 9 cópias 35mm, mais algumas salas em digital, chegando aos 80 mil espectadores em 8 semanas, e com distribuição comercial em sete outros países. A maior publicidade de O Som ao Redor é o próprio filme. Para finalizar, esses embates são importantes, fazemos cinemas diferentes, em geografias diferentes. Obrigado, tudo de bom. Kleber”.

O que se tira disso tudo? Em princípio, o abismo que separa quem está interessado em cinema e quem está interessado em bilheteria. Pode não parecer, mas são coisas completamente distintas, ainda que muitas vezes perniciosamente ligadas. Mas o fato que fica é um conselho: apure seus ouvidos. Esse som ao redor ainda vai fazer muito barulho.
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P.S.: Este é um texto opinativo claramente favorável ao diretor desafiado. Não deixe de procurar outras fontes e opiniões.
P.P.S.: Clique aqui para ler a matéria de Fernanda Mena publicada na Folha de S.Paulo

terça-feira, fevereiro 19, 2013

O Dobro ou Nada


Mesmo sendo uma comédia morna de roteiro frágil, O Dobro ou Nada tem na manga algumas cartas que evitam o completo desastre do jogo. Essas cartas são alguns nomes de seu elenco, cujo carisma torna suportável uma trama quase sem conflitos e tensões. Bruce Willis, Catherine Zeta-Jones e o quase sempre impagável Vince Vaughn são os nomes que orbitam em torno da protagonista vivida por Rebecca Hall.

Dirigido por Stephen Frears – que tem no currículo produções marcantes como Ligações Perigosas (1988), Alta Fidelidade (2000) e A Rainha (2006) – o filme é uma adaptação do livro autobiográfico Lay the Favorite, de Beth Raymer. Conta a história de uma garota ingênua que vai a Las Vegas a procura de trabalho e acaba se envolvendo com um bookmaker boa praça.

Trabalhando como stripper a domicilio, Beth (Hall) decide sair dessa vida depois de um episódio um tanto assustador. Vai então para Las Vegas atrás de algum trabalho bem remunerado. Lá conhece Dink (Willis), que tem um escritório de apostas para todo tipo de competição, de corrida de cavalos a concurso de miss, passando por qualquer liga esportiva conhecida nos EUA.

Demonstrando talento para lidar com números e apostas, Beth é contratada por Dink, mas terá de lidar com a oposição de Tulip (Zeta-Jones), a ciumenta e dominadora esposa-perua de seu novo patrão.

Entre superficialidades de sentimentos e uma relação mal explicada entre Dink e a esposa, o filme se desdobra com a fraqueza de situações sem apelo dramático ou cômico. Rebecca Hall segue o roteiro garota sexy e ingênua que de repente começa a se dar bem no mundo das apostas, ao mesmo tempo que se apaixona pelo patrão. A atriz não apenas está fraca em seu papel como parece deslocada no meio do elenco.

O Dobro ou Nada busca revelar um pouco os bastidores do mundo das apostas e como cotações podem ser manipuladas pelos jogadores de peso que atuam derrubando ou elevando essas cotações. Mas depois de desenhar esse cenário, o filme se encaminha para mais uma lição de moral a respeito de responsabilidade e até de amizade.

Seu grande vazio, contudo, está no modo como o roteiro se desdobra. Se em geral as comédias românticas pecam pelo exagero de suas tramas rocambolescas, aqui há um excesso de fragilidade em como a trama se desenrola. Os conflitos apresentados nunca parecem sérios e a solução deles se dá sempre de maneira simplista. Mesmo para uma comédia, alguma tensão dramática é sempre necessária, mas neste caso parece ter sido inteiramente deixada de lado.

Já a graça e o fazer rir enquanto comédia fica no mais raso do riso, salvo apenas pelas poucas participações de Vincent Vaugh, que faz um bookmaker fanfarrão. Vaugh pode ser visto como uma versão hollywoodiana de nosso Paulo Silvino: ainda que traga sempre os mesmos trejeitos e entonação na fala, sua graça espontânea é quase sempre irresistível.

O que surpreende mesmo em O Dobro ou Nada é seu resultado tão fraco vindo de um diretor como Stephen Frears. Ainda que este nunca tenha alcançado status de gênio e tenha uma carreira de alternância entre filmes autorais e de mercado, esta comédia ingênua passa longe do que se poderia esperar do nome por trás da câmera.
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Lay the Favorite
Stephen Frears
EUA/Reino Unido, 2012
94 min.

Trailer

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Amorosa Soledad


A privada entupida marca o início de uma mudança na vida de Soledad (Inés Efron). A separação do namorado, que quer um tempo para repensar as coisas, deixa-a solitária em seu apartamento. Como para esconder de si mesma sua fragilidade, Soledad decide que vai ficar um tempo só, porque as pessoas solitárias lhe parecem mais felizes.

Amorosa Soledad é uma produção argentina de 2008 que só agora chega ao Brasil. O filme é a estreia em longa metragem de sua dupla de diretores, Martín Carranza (que tem larga experiência como assistente de direção, tendo trabalhado com Pablo Trapero no ótimo Abutres, de 2010) e Victoria Galardi, que também assina o roteiro.

Por roteiro, entenda-se uma tênue história que não escapa, em alguns momentos, de ser esquemática. O que vemos é a rotina dessa jovem em sua solidão. Uma solidão marcada por sintomas que revelam sua dificuldade em lidar com o estar só. Dessa forma, o filme quer alcançar uma poética que se perde na monotonia de seu andamento.

Não é apenas o esquemático, mas as metáforas óbvias do desconforto dessa solidão. A privada entupida que ela abandona o uso, chegando a fazer dela espaço decorativo; sua atitude hipocondríaca e a masturbação discreta no jato de água do bidê, tudo, de forma muito elementar, refletem os sintomas da solidão ingenuamente autoimposta.

O perfil da personagem, com sua vida semi-cosmopolita, de trabalho cheio de informalidade em uma loja de artigos de decoração, mais uma fotografia que não disfarça seu tom de cinema publicitário, dão ao filme uma aparência de propaganda do extinto banco Real.

Toda essa estética artificial, perdida entre o poético, somada a um roteiro frágil, fazem do filme um arrastado debute de direção sem personalidade. Apoiado nas pistas óbvias das mentiras que a personagem cria para si mesma sobre seu desejo de ficar só. O clichê, então, não demora a surgir, na forma de um possível romance, desenvolvido sem qualquer empatia. O resultado é fraco e superficial.
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Amorosa Soledad
Martín Carranza e Victoria Galardi
Argentina, 2008
82 min.

Trailer

 

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