Matheus Nachtergaele
Brasil, 2008
Em sua estreia como diretor, Matheus Nachtergaele investiga as margens da religiosidade popular em um lugarejo da região amazônica. “A Festa da Menina Morta” é um filme que expõe a fé através de uma subjetividade quase provocativa, na qual os limites entre verdade e farsa estão sempre suspensos.

Quando era criança, Santinho teria recebido os restos do vestido da menina desaparecida, trazidos por cães desconhecidos. O fato foi considerado pela comunidade como um milagre e desde então Santinho é tratado como santo e arauto das revelações transmitidas pela menina.
Durante as preparações para a festa são apresentados os personagens e suas relações e seus vínculos com Santinho, com a menina desaparecida e com a religiosidade.
Fé e superstição
Nachtergaele mostra competência ao compor a narrativa que culminará com a revelação anual da menina e com a inesperada chegada de uma pessoa que desestabilizará completamente o espírito de Santinho. Dosa os elementos de compreensão do todo, como pistas que são dadas para se compreender um quadro, sem entregar todas as chaves. Trabalha entre a superstição, a desconfiança e a fé latente, tudo sempre em margens tênues, subentendidas.
Dessa forma, temos o personagem de Tadeu (Juliano Cazarré), irmão da menina desaparecida. Ele se divide entre o respeito pela tradição e o sofrimento pela tragédia. Nessa corda bamba, pende para o escárnio reticente, ao mesmo tempo que exige respeito pela celebração. Sendo ele parte dos rituais tradicionais da festa, sente-se obrigado ao fardo, da mesma forma que quer fugir dele. Tadeu é a dúvida temente, que não querendo acreditar, crê.

Mas é a figura de Santinho a grande complexidade do filme. Com uma interpretação intensa e dedicada, Daniel de Oliveira cria um personagem de temperamento controvertido, muitas vezes beirando o psicótico, o desequilíbrio. Alterna arrogância, indiferença, crueldade e fragilidade.
Eixo e missão
Santinho é o eixo em torno do qual tudo gira. Acredita sinceramente em sua missão santa, em ser arauto de bênçãos e revelações vindas da Menina Morta. Dedica sua vida a isso, mas ao contrário da beatitude que se espera de um santo, é muitas vezes agressivo e irascível. Indulgente com o comportamento vagabundo do pai, exigente com as mulheres que voluntariam em sua casa, assoberbado com os que vêm receber sua benção.
Todos esses elementos vão nos guiando para dentro dessa comunidade, para o que representa a figura de Santinho e a necessidade da fé, algumas vezes mais forjada do que espontânea, em lugares onde a vida humilde e desesperançada precisa se agarrar em alguma coisa. Qualquer coisa.
Nachtergaele exercita sua direção de maneira cadenciada e correta, não sem cometer alguns deslizes e cair em alguns clichês. Escorrega ao manter cenas desnecessárias, claramente feitas para homenagear, como a participação especial do ator Paulo José, totalmente fora de contexto. Lança mão do lugar-comum na apresentação do pai de Santinho, cuja vida está afundada na bebida, em uma cena clichê para ilustrar alegoricamente sua situação.
Fé pagã

“A Festa da Menina Morta” é uma alegoria de como a fé pagã, enraizada nas culturas supersticiosas e menos esclarecidas, muitas vezes ganha contornos de exploração e contradição. Exibe a força dessas crenças, sua relevância nas comunidades mais distantes das grandes cidades, onde se preserva uma ingenuidade e uma ligação resistente com o divino, sempre através de caminhos imprecisos. Milagre e farsa caminham juntos, indistintos, comungados pelas crenças necessárias. Mas o filme também mostra a via crúcis do personagem Santinho, o confronto consigo mesmo na visita inesperada que recebe na noite da festa.
A estreia de Nachtergaele mostra sua competência em criar algo de grande intensidade através de uma história que nunca nos entrega tudo. É preciso senti-la, vivenciá-la e duvidar e acreditar. As respostas estão lá, mas ocultas pela dúvida e pela fé.
--
* * *
0 comentários:
Postar um comentário