The Woodsman
Nicole Kassell
EUA, 2004Há dois diálogos em “O Lenhador” que funcionam como um claro dimensionamento de seu protagonista, ao mesmo tempo que simboliza o grande abismo no qual ele está afundado e do qual tenta sair. Num primeiro momento, ele pergunta, com uma sinceridade intensa: "Um dia serei normal?". Mais adiante ele afirma – e ao fazer essa afirmação, sabemos que, ele embora queira muito acreditar no que afirma, tem no seu íntimo uma duvida atroz: ”Eu não sou um monstro".
Colocar em pauta (e “indefinir”) a linha que separa o monstro do humano é a grande coragem do filme. Porque ele toca em um tema delicado, polêmico e inflamável e o faz destituído de qualquer maniqueísmo.

Kevin Bacon se mostra muito competente ao interpretar o homem atormentado, consciente de sua degeneração, conhecedor de sua condição doentia e desejoso de esquecer o passado e seguir em frente. Walter é um homem franco consigo mesmo. Admite ter um grave desvio comportamental e busca ajuda para superar esse mal. Sua maior humanização é o modo como luta contra seus instintos e como busca sinceramente se reaproximar de sua irmã.
Essa reaproximação é mais do que dolorosa, pois ele tem uma sobrinha de 12 anos, fator que problematiza sua condição e sua relação com a irmã e sua família.

Agrava-se esse quadro quando Walter nota que nas redondezas há um pedófilo, rondando a escola e assediando as crianças. É através desse elemento que o personagem de Kevin Bacon irá se deparar com um reflexo de si mesmo e ao encarar-se no reflexo verá o tamanho de sua monstruosidade e o quão repulsiva ela pode ser.
A diretora Nicole Kassell trabalha de forma corajosa na construção desse drama que humaniza a figura do monstro. Ao despir o horror de todo maniqueísmo fácil, o filme nos coloca frente a um contraponto que muitas vezes é mais cômodo esquecer ou fingir que não existe: o de que por trás do mal existe o ser humano e é sempre mais fácil “coisificá-lo” como monstro do que vê-lo com a complexidade humana. Não se trata de humanizar o mal, mas de entender que todo o mal que há no mundo é, essencialmente, humano.
A cena chave de toda ambigüidade que habita o personagem de Bacon ocorre num parque deserto, num diálogo tenso entre ele e uma garotinha que observa pássaros. A cena se desenvolve de forma perturbadora e com uma revelação desconcertante.

No fim, para Walter, resta seguir com sua vida, tentando conviver com o inferno dentro de si. Poderá até encontrar afeto, carinho e algum perdão, mas nunca o esquecimento.
“O Lenhador” é um filme desconfortável, porque nos faz humanos, quando queremos ser carrascos. Serve como exemplo da complexidade da vida, distante de simplificações, reducionismos confortáveis, cômodos e desinteligentes. É um filme que nos arranca de uma posição passiva e nos coloca frente à perturbação imensa do ser humano.
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