sábado, fevereiro 12, 2011

O Vencedor


The Fighter
David O. Russell
EUA, 2010

Logo na primeira cena de “O Vencedor” levei um choque. Custei a acreditar que aquele ao lado de Mark Wahlberg era Christian Bale. Não apenas pela caracterização, de uma magreza extrema, mas principalmente pela expressão, pelo olhar, pelo gestual. Naquele momento tive a impressão de que estava diante de um grande ator. Quando o filme terminou não era mais uma impressão, era uma certeza.

Baseado em uma história real, “O Vencedor” narra os percalços de Micky (Wahlberg), um lutador de boxe em busca ascensão, mas que tem sofrido derrotas seguidas. Não quer admitir que é o que chamam no mundo do boxe de “trampolim”, um boxeador usado para impulsionar a carreira de outros lutadores.

Micky é agenciado por sua família, que muitas vezes o coloca no ringue em situação de desvantagem. Ele é treinado pelo irmão mais velho, Dicky (Bale), de quem aprendeu tudo que sabe. Dicky é um ex-boxeador, uma promessa que nunca se confirmou. Sua maior realização foi ter lutado contra o lendário Sugar Ray Leonard e tê-lo derrubado durante a luta. Ou Sugar teria apenas tropeçado?

Se, como já disse uma banda de rock nacional, a dúvida é o preço da pureza, no caso de Dick é o preço de seu único tesouro, seu ápice na carreira, seu troféu intangível. O filme é sobre família, sobre fé e sobre redenção. Quatorze anos depois de ter enfrentado Sugar Ray, Dicky tenta fazer de seu irmão um grande lutador, mas entre eles há mais que o amor fraternal e a admiração do caçula com o mais velho, entre eles há o vício de Dick, consumido pelo crack.

Família

A grande problemática do filme está na família. Será sempre a família o princípio dos problemas e ao mesmo tempo a fonte da força de Micky. Uma relação ambígua na qual se interpõe Charlene (Amy Adams), com quem Mick passa a se relacionar. Será ela o estopim da ruptura e a grande incentivadora de Micky por uma carreira melhor conduzida. Mas a fúria da família - uma típica família proletária, numerosa e de modos nada sutis ou elegantes – não será facilmente contornada.

Na liderança da prole está Alice, a mãe casca dura, sem travas na língua, que não admite ser contrariada e que acha que a família deve vir sempre em primeiro lugar. Em uma interpretação intensa de Melissa Leo, ela representa, com todos seus baixos defeitos, o elo forte, quase sempre discutível e aproveitador, de uma relação com os dois filhos lutadores. Faz vistas grossas para o vício de Dick, seu preferido, e tentar de todo modo conduzir a carreira de Mick, nem sempre pensando apenas nele. O que Alice quer – e talvez não admita nem para si mesma – é que Dick tenha sua segunda chance através de Micky, que a vitória do caçula seja a vitória nunca alcançada do mais velho.

Mas o que realmente faz do filme algo especial é a interpretação de Christian Bale. Basta ver imagens do verdadeiro Dick Eklund para saber que Bale de fato o incorporou, seja na impostura da voz, seja no gestual, seja no olhar. Bale faz uma interpretação visceral, passa com perfeição a fragilidade de Dick diante do vício e de sua carreira frustrada. Um homem que leva consigo apenas a certeza (ou a ilusão) de um dia ter derrubado Sugar Ray Leonard no ringue.

Insegurança

Wahlberg, por sua vez, faz uma interpretação contida, condizente com a personalidade de Mick Ward. Embora seja um ator limitado, essa limitação atua a favor da história e do personagem. Pouco expressivo, demonstra bem a indecisão e fraqueza diante da família. Sabe que precisa, num certo momento, se desvencilhar deles, porque essa relação trás mais danos que ganhos. Por outro lado, se sente inseguro sem eles por perto. Um conflito cuja conciliação parece cada vez mais impossível. 

“O Vencedor” é um típico filme de superação. Mas o que poderia ser um amontoado de pieguice e melodrama se torna uma história emocionante. Com uma trilha sonora excelente, tem a grande qualidade de se esquivar de muletas facilitadoras da narrativa e de evitar o uso de efeitos plásticos nas cenas de lutas. É um filme que entusiasma, comove e faz vibrar. Uma grande história contada com acerto e com grandes interpretações.
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* * *

1 comentários:

Karina Oliveira disse...

Embora as histórias de lutadores sejam muito parecidas entre si, nunca me aborreço vê-las. Descobri o filme Punhos de Aço e adorei. Sou fã deste tipo de personagens. Tem uma história que pode fazer você rir e chorar. Além disso, o elenco e a direção são excelentes! Este tema é um clássico do cinema.

 

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