domingo, janeiro 16, 2011

A Teta Assustada



 La Teta Asustada
Claudia Llosa
Espanha, Peru, 2009

Fausta tem medo. Mas, ao contrário dos medos que “escolhemos ter” – como diz o jardineiro do filme -, o de Fausta é uma herança passada pelo leite materno. Fausta sofre de um mal a que chamam de “teta assustada”, um medo atávico de sofrer a mesma violência que sua mãe sofreu quando estava grávida.  Esse medo é passado através da amamentação, como se sua alma tivesse sido roubada pelo horror a que foi submetida sua mãe.

“A Teta Assustada” é um filme que, de forma delicada e tênue, passeia pela intimidade do feminino e sua relação com o sexo oposto, numa “contracepção” alegórica, em que a solidão e o medo funcionam como escudo contra o mal do mundo. Mas é também um retrato peculiar da sociedade peruana e dos contrastes sociais e culturais de suas classes.

Fausta é essa jovem que vive aterrorizada pelas histórias da mãe, com quem conversa no dialeto indígena e sempre de forma musical. Em suas “canções”, a mãe de Fausta revive o horror da guerra, quando foi violentada grávida e viu seu marido ser morto pelos soldados. Pelo horror que sofreu sua mãe, por tê-lo “assistido” de dentro de sua barriga e pelo leite contaminado de medo com que foi amamentada, Fausta se torna essa criatura fechada, de expressão triste e medo do mundo. 

Quando Fausta perde sua mãe, lhe resta a família, na figura do tio que, por estar às voltas com o casamento de uma filha, não tem dinheiro para pagar o enterro. Fausta não quer que sua mãe seja enterrada no quintal de casa e precisa conseguir dinheiro para o enterro. Os diálogos entre Fausta e sua mãe traziam em sua forma uma comunicação ancestral, uma preservação e permanente restituição de laços que nunca serão perdidos. Mas que cessaram de súbito, deixando Fausta só.

Há no filme uma permanente relação entra a morte, a misandria de Fasuta e o casamento. Entre a festa e a alegria de noivos e da família, Fausta vivencia solitária a morte de sua mãe, cujo corpo embalsamado ela guarda com carinho e respeito.

Mas Fausta encontrará pistas para se libertar de seus medos quando tiver de trabalhar na mansão de uma rica e solitária senhora. Lá conhecerá o jardineiro Noé, com quem ensaiará uma doce e tênue aproximação, enquanto começará a encarar seus medos e superar sua dor.

Acontece, porém, que Fausta, mais do que a dor e o medo metafísico, carrega dentro de si, de forma fecunda e física, uma coisa que a impede de esquecer o terror do qual tenta escapar todo o tempo. Em uma metáfora dolorida, assustadora e terrível, essa coisa que cresce dentro de Fausta representa seu medo mais intenso, uma proteção dolorosa e uma perene ferida, que Fausta trata, poda e preserva como uma raiz que arraiga seu medo. E quando ela implora que se tire de dentro dela sua dor e seu medo, temos em “A Teta Assustada”, uma das mais belas e cenas do filme, uma entrega e confiança conquistada pela dor e pelo tempo.

A atriz Magaly Solier, que interpreta Fausta, é a grande jóia do filme. Sua interpretação é de uma delicadeza áspera impressionante. A diretora e autora do roteiro, Claudia Llosa, conduz esta narrativa com equilíbrio, competência e tato. Sua história nos revela mazelas sociais, distinção de classes, crueldade e beleza. Como pano de fundo ao drama de Fausta encena-se a beleza da simplicidade de famílias e suas tradições casamenteiras, atreladas não apenas á pobreza, mas também às raízes culturais.

“A Teta Assustada” é um filme que extrai da dor, do medo e da privação, a beleza do recomeço, da libertação e da esperança. Constrói-se com poucas palavras, com belas imagens e com uma interpretação impecável. Uma história de muitos espinhos, mas que quando aparados deixam por fim prevalecer a fé na mudança e no futuro.
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2 comentários:

brunabora disse...

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Alexandre Caetano disse...

O filme faz uma boa síntese de como a cultura indígena incorporou elementos dos colonizadores espanhóis. Tem uma crítica sobre isso em
www.artigosdecinema.blogspot.com/2014/04/a-teta-assustada-la-teta-asustada.html

 

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