Un
amour de jeunesse
Mia Hansen-Løve
França,
2010
110
min.
A diretora francesa Mia Hansen-Løve não nega a forte influência que a Nouvelle Vague (movimento renovador do cinema francês, surgido nos
anos 60) tem em sua obra. Nem poderia. Os traços dessa influência são claros em
seus filmes. Adeus, Primeiro Amor, o
mais recente, confirma isso. Mas não com uma submissão mecânica, e sim com uma
fluência delicada muito própria, atual e sensível.

Sem compreender ou
aceitar, Camille resiste e se afunda em uma melancolia que ela mesma assume
como parte de sua personalidade. Antes dele partir, se despedem longamente em
tardes de amor e finais de semana na casa de campo da família dela. Com o
ressentido da perda iminente, Camille oscila entre o drama da recusa e o amor
imenso. Depois que Sullivan parte, só resta a ela as cartas, enviadas sempre de
lugares diferentes. Aos poucos, as cartas vão rareando, até cessarem
totalmente.

Surge então Lorenz (Magne
Håvard Brekke), professor de arquitetura. De origem norueguesa, ele se
apresenta para a primeira aula com uma provocação sobre o “lume” como elemento
de arranjo interior. Instiga a sala a definir seu significado e função.
Coloca-o não apenas como uma fonte para iluminar um ambiente, mas também para
moldá-lo a partir da escuridão; em favor de um sentimento, em favor de uma
memória. Será esse o primeiro encantamento de Camille com o professor, com quem
adiante passará a viver. Até que Sullinvan reaparece.
Composta de largos silêncios, a narrativa de Adeus, Primeiro Amor desliza com uma
textura sóbria e consistente. Seus silêncios, no entanto, não significam
contemplação ou estagnação. São antes o reflexo da passagem do tempo em
amplitudes diversas.
Modulam essa amplitude - com uma intensidade suave, mas
precisa - canções como Volver aos 17 e Gracias a La Vida, na voz da cantora chilena Violeta Parra. Elas fazem parte da trilha sonora, que em
sua eclética mistura – inclui Frank Sinatra e Johnny Flynn – traduz sentimentos
de forma envolvente.
Em sua passagem pela vida, pelo amor, pela perda; com a
partida e o regresso, o renascimento e o desapego, Adeus, Primeiro Amor toca em um sentido particular do sentimento. É
represa em alguns momentos e água livre noutros. Simples, linear. Preenche
lacunas com quietude e esta quietude pode até cansar em alguns momentos.
Contudo, carrega na sua narrativa um frescor, uma energia muito própria.
É melancólico, não melodramático; triste, não pesaroso. Faz
em sua construção uma prece de graças á vida; tem na sua luminosidade quieta um
regresso aos 17; entrega em seu final a plenitude delicada de quem compreende
que a metáfora da vida é um rio. Entre as margens do rio, tudo é possível, mas
nada permanece.
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