Road to Nowhere
Monte Hellman
EUA, 2010
121 min.
Caminho para o Nada
é um filme que só se explica – ao menos parcialmente – no último plano. É
quando a câmera se aproxima de uma imagem pregada á parede, criando um efeito de
ampliação, enquanto já surgem os primeiros créditos finais. Também nos créditos
há um tipo de revelação a nos trazer de volta para a camada inicial, esquecida
durante um filme que se desdobra dentro de outro filme. Compreendemos então a
armadilha do simulacro e a imprecisão entre verdade e ficção. Mas será, ainda
assim, uma compreensão temerosa, inexata.

O diretor desse filme é Mitchell Haven (Tygh Runyan), que em
busca de uma atriz para viver a protagonista da trama encontra e se encanta
pela desconhecida Laurel (Shannyn Sossamon). Ela fará o papel da mulher fatal
que desencadeia os acontecimentos da trama, chamada Velma. Entre as filmagens,
a obcessão do diretor pela atriz o afastará de seu foco, ao mesmo tempo que as
tramas, ficcionais e supostamente verídicas, se misturam na narrativa, através
de outros personagens misteriosos que vão surgindo.
Como num conhecido jogo de espelhos, Caminho para o Nada nos aplica ilusões de ótica embaralhando suas
narrativas, nos impedindo de distinguir suas camadas. Através desta estrutura o
filme cria um suspense rarefeito, cuja tenuidade não nos afasta nem nos faz
submergir na trama. A verdade, ou até mesmo a realidade, estão em permanente
conflito com a arte que o diretor procura para seu filme. Temos aí o olhar ficcional
sobre uma verdade incerta, que por trás de si oculta fatos cuja precisão se
esvai por entre as camadas sobrepostas.
Em meio a tantos despistes, chega-se ao final da narrativa
com suspeitas cuja solução importa menos que a artimanha de sua manutenção.
Pode ser frustrante para os ávidos por segurança, mas traz na amarração final
uma resposta tão ousada quanto a de Blow-Up,
clássico de Antonioni de 1966. Guardadas, claro, as abissais proporções em
grandeza e refinamento.

--
0 comentários:
Postar um comentário