segunda-feira, dezembro 20, 2010

Platoon



Platoon
Oliver Stone
EUA, 1986

O cinema americano dos anos 80 foi recheado de filmes sobre a guerra do Vietnã. Entre o desconsolo e o ultra-patriotismo, os EUA pareciam querer tentar desvelar para si mesmo seu trauma pela guerra perdida e tentar entendê-la.

Contudo, poucos filmes buscaram um mergulho realista, pois quando não eram ufanistas e banais, exaltando o heroísmo dos soldados americanos por trás de uma vilania fabricada do inimigo, buscavam o choque pelo absurdo dentro do absurdo, como na excelente epopéia de Francis Ford Coppola: “Apocalypse Now”.

Mas é em “Platoon”, de Oliver Stone, que se vai muito além de tudo isso, justamente porque não se vai tão longe.

Lançado em 1986, “Platoon” trouxe para o cinema talvez a mais verdadeira história de guerra de seu tempo. Sem maquiar o conflito e nos jogando para dentro de sua mais franca objetividade: a falta de sentido. Se em “Apocalypse Now” Coppola já pincelava o absurdo da ausência de sentido com as cores fortes da esquizofrenia da guerra e seu lado mais lisérgico, em “Platoon” Oliver Stone a revela inteiramente real e desnorteante.

A percepção dessa banalidade bélica é mostrada pela “queda” de Chris (Charlie Sheen), o novato que chega ao pelotão de combate. Vindo de uma família abastada, larga os estudos para se alistar como voluntário, porque acredita em seu dever de defender os ideais de seu país. Sua “queda” inevitável será uma descida sem volta ao inferno. Nessa jornada de despertar, pouco a pouco irá perder sua inocência e tomar consciência da realidade da guerra. Seus ideais se esfacelarão frente a vivência do combate, através do qual percebe que a verdade vive dentro da completa ausência de verdades.

E quanto mais fundo Chris desce na lama da humanidade, mais se vê como parte dela, chafurdando junto aos companheiros, sem mais distinguir humanos de bestas, sem mais distinguir o certo do errado. Ali o que há é o horror. Horror que se manifesta na violência, no ódio, no abuso e na explosão da bestialidade humana. O que ocorre frente aos olhos de Chris é a desmistificação de qualquer ilusão. É a secura da realidade, da natureza humana e de sua animalidade latente vindo à tona em atos de covardia e sadismo.

O filme conta com atuações marcantes de Willem Dafoe e Tom Berenger como dois sargentos antagônicos em métodos e perspectiva de guerra, além da atuação excelente do próprio Charlie Sheen.

No final, “Platoon’ explica-se naquilo que não tem explicação, justamente por explorar a visão de dentro do combate e do dia-a-dia da guerra, transpondo para o expectador a mesma impressão dos soldados: a de absoluta falta de sentido. Não sem propriedade, já que o próprio Stone, também autor do roteiro, combateu no Vietnã e vivenciou a guerra e sua banalidade animalesca.

Em seu filme não nos poupa do horror, mas deixa claro, mesmo sem palavras, muito mais do que o final de “Apocalypse Now” de Coppola, onde as palavras “o horror, o horror” ressoam no desfecho como síntese da guerra. Em “Platoon”, as palavras finais não dizem, mas o que ouvimos de dentro do filme é também a síntese de qualquer guerra: o vazio, o vazio...
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Assista ao trailer de Platoon

2 comentários:

Jonathan Pereira disse...

Olá Rogério,

Encontramos esse belo espaço e por isso resolvemos segui-lo pelo blogroll do nosso 'O Teatro Da Vida'.

Nós também já abordamos Platoon no nosso blog, se tiver interesse, sinta-se convidado: http://oteatrodavida.blogspot.com/2011/04/1001-filmes-platoon-platoon.html

Abraços,

Jonathan Pereira

João Esteves disse...

Este é uma excelente sinopse de um verdadeiro clássico que conta uma realidade que envolve toda a humani
dade o horror de uma guerra e o sentido que ela não tem.

 

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