Uma Noite em 67
Renato Terra e Ricardo Calil
Brasil, 2010

A importância do resgate da História já é motivo suficiente para justificar a realização de um documentário. Porém, muitos o fazem de forma equivocada. Ou seguem a linha didática e caem numa monotonia sem fim. Ou vão pelo caminho do exagero - como se pudessem resolver tudo em duas horas - e terminam por confundir mais do que explicar.
“Uma Noite em 67” vai pelo caminho da contenção. Não se atira de forma estabanada, nem quer resolver tudo. Prefere, mais que retratar, reconstruir. Não na imagem, mas no imaginário.

A utilização de imagens de arquivo entrecortadas por depoimentos é uma fórmula base de documentário, mas em “Uma Noite em 67” é utilizada de forma elegante e precisa. As imagens de arquivo trazem material inédito, resultado de um minucioso trabalho de pesquisa por parte dos diretores. As entrevistas com depoimentos, por sua vez, trazem declarações novas, revelam bastidores insuspeitados. O equilíbrio entre uma e outra é o que faz do filme um exemplo de bom documentário.
Entre as declarações de destaque estão as de Gilberto Gil, que afirmou terem sido os anos da Tropicália “os mais agônicos” de sua vida musical. Ou ainda quando Chico Buarque confessa que chegou a participar de algumas reuniões que definiram os rumos do tropicalismo, mas que por ter chegado em quase todas bêbado, acabou ficando de fora.
É a combinação de elementos assim que dão ao filme uma capacidade incrível de trazer para os anos 2000 o clima de animosidade, paixão e envolvimento daqueles festivais. Mas o filme vai além. Não se limita a ficar no universo do festival, que por si só já é amplo e “magnetizante” o suficiente. Consegue ainda reavaliar e colocar em mais uma perspectiva o surgimento da Tropicália e as visões que seus criadores tinham da música em sua época.
“Uma noite em 67” se mostra um filme enxuto, competente. Transmite todo entusiasmo que havia naquelas plateias ensandecidas, entre vaias a aplausos, e todo nervosismo e expectativa que sentiam os concorrentes. Reescreve um capítulo fundamental na história da música brasileira. Reescreve não para mudar, mas para rejuvenescer. Para se fazer lembrar, para melhor entender, para melhor sentir.
Sentimento amplo, que canções e histórias juntas podem elevar a um patamar renovador e apaixonante. No subir dos letreiros finais, fica o eco do tempo, da História, da música. No pensamento, um desejo melódico: quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar.
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