Everything Must Go
Dan Rush
EUA, 2010
97 min.
Quem se deixar levar pela figura de Will Ferrel no cartaz de
Pronto para Recomeçar pode se
decepcionar com o filme. Não porque o filme seja ruim, mas porque não é uma
comédia. A confusão é pertinente, uma vez que Ferrel é uma figura ligada à
comédia desde sua estreia na TV, no programa Saturday Night Live. E embora já tenha vivido papeis mais ou menos
sérios no cinema pode ser difícil para o grande público dissociá-lo de seus
personagens em comédias como Dias
Incríveis ou O Âncora: A Lenda de Ron
Burgundy. No entanto, quem for preparado para um drama com notas harmoniosas
e textura na densidade certa, pode sair da sessão recompensado.

Nick se entrega à total apatia diante do desastre que se
tornou sua vida. Ver-se rodeado por inúmeros objetos que colecionou ao longo
dos anos é como um reconforto de normalidade. Por outro lado, o significado que
a maior parte desses objetos tem para Nick é nulo. Sem pensar a respeito, ele
não percebe que o vazio de sua existência não é recente, mas uma jornada sem
significado que já vem de longo tempo. Algo que ele talvez nunca perceba de
forma clara, mas apenas pressinta através dos personagens que orbitarão sua
condição surreal.

Não há objetivo aparente na vida de Nick. Ele não faz
planos, não pensa em arrombar a porta e entrar em sua casa, não pensa em se
mudar para um hotel, ir atrás da esposa ou qualquer outra coisa. Sua
permanência ao lado de objetos de tão pouco valor afetivo é a melhor
representação de seu estado catatônico. Como alguém que desistiu de viver, mas
não se desprende da vida.
É nessas circunstâncias que conhece Samantha (Rebecca Hall),
sua nova vizinha. Visivelmente grávida, ela é uma professora de fotografia cujo
marido foi transferido para a cidade, embora não tenha vindo com ela.
Compadecida pela situação de Nick, ela se aproxima dele, sem tentar interferir
ou aconselhar. Além dela e do garoto, o único amigo que Nick parece ter é um
policial amigo dele e da esposa.

Como uma fábula triste, cercam Nick pessoas cujas vidas
estavam tão estagnadas quanto a dele próprio, sentado em seu gramado tomando
cerveja. Ele, de alguma forma, consegue fazê-las se moverem e, sem grande
alarde, darem um passo a frente. Algo que ele só poderá fazer muito depois,
quando perceber que é hora de deixar as coisas irem. Quando finalmente deixar
que as coisas partam.
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