Como ano passado, pelos próximos dias as atualizações acontecerão na página especial de cobertura da 36ª Mostra Internacional de Cinema.
http://mostra36.blogspot.com.br/
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No cinema de Wes Anderson, o fabular sempre ronda. Porém,
nunca contamina em excesso o estilo particular do diretor. É por isso que a tristeza,
assim como a inocência, estão aqui pinceladas com graça e delicadeza,
equilibradamente diluídas em uma narrativa de sabor incomum.
A observação é pertinente. Com o tanto de filmes
superficiais, fabricados em série para serem consumidos sem que se precise
prestar muita atenção – quanto mais pensar –, não é difícil que qualquer filme
que exija um pouco mais de reflexão seja taxado de chato.
Sua proposta é menos narrativa e muito mais construtiva. Não
se trata de uma história, mas da construção de um sentimento de relação, no qual
a sutileza dos gestos, quando lidos com atenção e paciência, dizem tudo sem que
se precise de palavras.
Para chegar ao resultado final, o diretor não se apressa.
Sabe que a construção de algo tão sutil exige tempo. É esse tempo que pode
levar os incautos e apressados a desistirem. Quem resistir e se deixar levar
pelo tempo do filme, entenderá no final seu propósito, que está mais para a
delicadeza do que para a explicação.
Em sua narrativa, O Exercício
do Poder lança holofotes sobre Bertrand Saint-Jean (Olivier Gourmet), ministro
dos transportes da França. É sua rotina – iniciada em madrugada de sono
interrompido por um acidente envolvendo adolescentes – que o filme acompanha.
Desde o princípio, vê-se, esta rotina será marcada pelas aparências, peça chave
no jogo político que o filme esmiuçará com inteligência e dinamismo.
Está claro, desde o princípio, a importância da aparência.
Do gelo no rosto para reduzir a expressão de sono, da troca de gravatas imposta
pela assessora para que ninguém se destaque mais que o ministro, dos discursos
redigidos e refeitos à força do momento e do efeito esperado. Em tudo há o
cálculo dos efeitos, a inautenticidade que rege os princípios dos cargos
públicos.
Nessa composição, entre a tragédia que surpreende, mostra
também um Estado francês falido, tão falido quanto ideais ou interesses
legítimos. Mas O Exercício do Poder
não “vilaniza” as figuras do Estado, apenas lhes atribui sua cota de seduzidos
ante o cargo, sua cota de indiferença ante as tragédias, a pobreza ou o estado
das coisas do Estado.
Terra, trabalho e capital: nos ensinaram os primordiais
estudos de economia. O tripé que susteve o mundo até pouco tempo atrás e sobre
o qual se depositou a fé do mercado e a lógica do capitalismo. Uma lógica que, pouco a pouco, tecnologicamente, se dissipou em números fugazes em telas
translúcidas. Não se vê mais a terra, não se vê mais o trabalho, não se vê mais
o capital. Tudo são evaporações que correm o globo, mudam de mãos, inundam
desertos e secam oceanos sempre virtuais, sem que nada se faça além de apertar botões ou
correr os dedos por telas sensíveis ao toque.
Em sua trajetória pela cidade faz sexo, é examinado por um
médico, discute o absurdo com diferentes personagens. Não busque sentido nos
diálogos. Estes muitas vezes existem para personificarem em palavras o
desajuste das coisas, o incompreensível do todo “minimalizado” no interior da
limusine. Nesse universo, Eric soa como um avatar que passa a crer em si mesmo
não como avatar, mas como elemento natural do absurdo. No processo,
desconstrói-se.
Neste Cosmópolis,
mais uma vez Cronenberg nos coloca em desconforto. Agora, não pela violência
explícita, não por um psicologismo perturbador. O que perturba aqui é o visível
que não queremos ver. É o fim que sabemos próximo, de uma violência presente no
cotidiano inofensivo de uma época tão impalpável e dissoluta como a que vivemos
hoje em dia.
No entanto, no desenrolar da trama, A Arte da Conquista se rende àquilo que prometia contestar. Suas
soluções para os conflitos não são apenas de conformação, mas de grande
caretice. Revelam, afinal, que por baixo das camadas moderninhas, escondia-se
um conservadorismo bastante comum.
Em 360, novo filme
de Fernando Meirelles, não foi dessa vez que a química ou a sorte funcionaram.
E a se ver pelo elenco, a promessa era grande. Jude Law, Anthony Hopkins,
Rachel Weisz fazem linha de frente como estrelas internacionais. O filme ainda tem
os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré, ambos jovens talentos. O elenco,
numeroso como se vê, é completado por outros nomes menos conhecidos por aqui,
mas bastante comuns na Europa, como o russo Vladimir Vdovichenkov, definido por
Fernando Meirelles como “o Wagner Moura da Rússia”.
No apanhado geral, a maior parte dos personagens de 360 valeriam um filme solo. Suas
histórias são interessantes, assim como a maneira como cada um lida com a sua.
Nota-se uma franqueza nas interpretações, um esforço genuíno do elenco.
Isoladamente, cada história e personagem acende uma promessa de bom drama. Mas
no conjunto, tanta fragmentação funciona mal. A essência se perde.
De família judia, Alice (Alice Taglioni) é fascinada pelo
diretor de Hanna e Suas Irmãs desde
que tinha 15 anos. Viu todos os filmes e não aceita que falem mal deles. No seu
quarto, ostenta um grande pôster estampando Allen com uma expressão
interrogativa.
Seja por querer ser mais woody-alleniano que Woody Allen, ou
pela falta de apuro na elaboração do roteiro, o filme margeia um desconfortável
tom insólito. Mas não se assume como tal em momento algum, dando à sua
narrativa uma irregularidade que achata todos os personagens e fragmenta em
excesso o andamento.
A
linha de partida dessa investigação é a memória afetiva de sua sobrinha, Isa
Grinspum Ferraz, realizadora do filme. Como ela mesma diz no início do documentário,
mais do que entender quem foi Marighella, a ela interessava descobrir quem foi
seu tio Carlos; um sujeito que aparecia e desaparecia de sua infância, mas que
a deixou marcada pela figura amorosa e também misteriosa.
Para
costurar esses retalhos de pistas, a diretora se serve de uma prova de física
feita pelo tio, quando era aluno de engenharia na Escola Politécnica da Universidade da Bahia.
Nesta prova, Marighella, que desde jovem também se interessava por poesia,
descreveu a reação da luz sobre superfícies espelhadas em forma de verso. São esses
versos que entremeiam os capítulos.
Neste
caso, para uma personalidade que passou a vida dedicada a uma causa, o
resultado acaba por ser frio, distante do calor do momento histórico que
revive. O filme também sofre pela falta de imagens de arquivos da época. Em especial
do personagem retratado, que por ter passado décadas na clandestinidade deixou
raros registros fotográficos. Isso é visualmente notado quando muitas vezes se
preenche o quadro com cenas de filmes ou imagens que tentam recriar a atmosfera
da época. Uma solução que também enfraquece a narrativa.
Ao buscar histórias de vida cujos fatos se relacionam com as
melosas e doloridas letras das canções bregas, o filme faz um retrato que
evidencia que na dor da “cornitude” e no fogo da paixão, não se distinguem
pobres e ricos. Como afirma um personagem ao dizer que, quando leva um “pé na
bunda”, tanto o pedreiro quanto o médico choram e sofrem do mesmo jeito.
No campo da polêmica, a presença de Lindomar Castilho pode
incomodar alguns. O cantor assassinou a tiros, em 1981, sua ex-mulher.
Tornou-se ele próprio personagem do ciúme de suas canções. Cumpriu pena pelo
crime e hoje vive isolado no interior de Goiás. Abandonou a música. Castilho só
aceitou dar depoimentos para o filme se o seu crime não fosse citado. Já no
campo da saudade, a presença do cantor Wando, falecido em fevereiro deste ano.
A direção é de Billy Wilder (1906 - 2002), cineasta versátil
e cultuado, cuja obra passeia por diversos gêneros, indo da comédia ao suspense
noir e passando pelo drama.
O afastamento foi consequência de uma tragédia, da morte de
um amigo, da ferida que isso deixou em Andres. Mas não foi apenas dos amigos
que ele se distanciou. Beatriz (Balnca Lewin), seu grande amor da juventude,
também foi deixada para trás. Contudo, assim como o passado, também se manteve
enraizada em seu coração.
Bize filma muitos planos através de luzes que, desfocadas
num primeiro plano, conferem um ar poético às cenas e ao filme. Esta delicadeza
poética se confirma na trilha sonora discreta, ainda que um pouco excessiva na
repetição. Pautam esta atmosfera semionírica os diálogos em que o silêncio ao
redor intensifica um sentimento que mistura culpa, arrependimento e a distância
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