sexta-feira, julho 13, 2012

Na Estrada


Não é possível explicar em palavras o que On the Road, romance de Jack Kerouac publicado em 1957, representou para as gerações dos anos que se seguiram à sua publicação. Hoje, uma pálida ideia pode ser tirada lendo-se o livro. Para mais do que isso seria necessário voltar no tempo e vivê-lo novamente: o tempo em que se viveu a juventude e a liberdade de uma forma nunca vivida até então. Qualquer coisa diferente disso é apenas história.

Considerado a bíblia da geração beatnik – uma geração que mudou comportamentos, pregou a liberdade plena de se viver e experimentar a vida e que tem seus efeitos presentes, mesmo muito diluídos, até a juventude atual –, o livro marcou a vida de muita gente, influenciou artistas, revolucionou perspectivas e plantou a semente do espírito libertário e rebelde das juventudes dos anos 60.

Por tudo isso, uma adaptação da obra para o cinema não apenas gerou grande expectativa, mas também apreensão. Transpor para as telas o que o livro simplesmente transpira em sua narrativa frenética e contundente não seria tarefa fácil. Não por acaso o projeto existe desde sua publicação, tendo fracassado em todas as tentativas.

Coube ao diretor brasileiro Walter Salles a tarefa de finalmente fazer o filme virar realidade. Uma tarefa que, como ele mesmo admite, aceitou com muito receio. O resultado chega aos cinemas brasileiros neste final de semana. E o que se pode dizer de Na Estrada é que se trata de um filme muito correto. Correto até demais.

Sam Riley (de Control, no qual interpreta o problemático vocalista do Joy Division, Ian Curtis) é Sal Paradise, o jovem escritor que empreende uma longa viagem através do país. Boa parte desta viagem é feita na companhia de seu amigo Dean Moriarty (Garrett Hedlund, de Tron: O Legado) e Marylou (Kristen Stewart, a Bella Swan da Saga Crepúsculo), a namorada de Dean.

No elenco do filme, outros nomes de destaque dão vida aos personagens que Kerouac descreveu em seu livro. Nomes como Kirsten Dunst (de Melancolia), Amy Adams (de O Vencedor), Viggo Mortensen (de O Senhor dos Anéis), Steve Buscemi (da série televisiva Boardwalk Empire) e a brasileira Alice Braga (de O Ritual e Eu Sou a Lenda).

Porém, apesar do elenco de primeira, Na Estrada deixa a desejar. Isso porque em uma adaptação de um livro tão seminal e vivo tudo que não poderia faltar é justamente aquilo que mais transborda do livro: alma.

Em sua versão de On The Road, Walter Salles faz tudo certo. Tem um bom roteiro (entre tantos que poderiam nascer a partir do livro), tem atores dedicados que a seus papéis que atuam muito bem, tem uma fotografia inspirada que acerta por não forçar uma atmosfera de época, filtrando uma bem dosada ressonância do final dos anos 40.

Mas tudo isso, ajeitado na tela, num ritmo às vezes irregular, parece não ganhar vida suficiente no decorrer dos 137 minutos de filme. É como se Walter Salles fosse um diretor “correto” demais para filmar uma história que, apesar de não ser necessariamente suja, traz no seu caráter orgânico e nas experiências dos seus personagens uma inequívoca rejeição ao convencional e quadrado. Uma rejeição ao correto.

Como road movie, falta em Na Estrada um pouco da aventura incerta, da aspereza do caminho, da dureza de se cruzar o país mais de uma vez, de se virar com trocados. Essa vida de estrada, na qual viveu Sal Paradise, certamente é bem mais melancólica e difícil do que a mostrada no filme.

Há, na construção que o filme faz dessa vida de estrada, um verniz poético que está de acordo com o livro, mas que por elipses de tempo enfeita demais um caminho que foi árido e sujo. A falta de desafios nessa jornada está entre os elementos que “limpam” demais a experiência do filme.

Mais do que tudo, falta em Na Estrada uma fagulha que ascenda nas imagens o espírito do livro. Não sua literalidade, mas sua alma. Algo intangível que amarre as belas imagens e as ótimas atuações em algo maior do que belas imagens e ótimas atuações.

Na Estrada é, efetivamente, um filme bom. Mostra-se capaz de suscitar emoções, sentimentos e de causar identificação com seus personagens. Apresenta-se até muito bem como catarse de uma América cujo sonho morreu. Mas ser apenas bom é pouco para um filme que se propõe traduzir em imagens um livro que foi ao mesmo tempo profecia e espírito de um tempo. Melhor seria um filme “menos bom” e mais coberto de poeira, uísque e vida.
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On the Road
Walter Salles
França/Reino Unido/EUA/Brasil, 2012
137 min.

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Um Mundo Misterioso


Ás vezes é preciso tirar o espectador da letargia das narrativas clássicas. Para isso, é preciso ousadia, gosto pelo risco. Rodrigo Moreno demonstra essa ousadia em Um Mundo Misterioso, pois se arrisca a incomodar o espectador. Um incômodo que surge quando o filme renega alguns elementos narrativos confortáveis a que estamos condicionados. No lugar, entrega uma desestrutura na qual o conflito, o objetivo e a trama dão vez a um dialético vazio.

Um Mundo Misterioso nos obriga a aceitar que o “nada” também pode ser alguma coisa. Note-se: ser, não necessariamente dizer. É o que deixa claro uma passagem do filme, no qual alguém conta o enredo de um romance de literatura barata e diz que depois do meio do livro não acontece mais nada na história. Quando o outro responde que não há problema algum numa história em que nada acontece, está dada a chave para aceitar o que se segue no filme.

Boris (Esteban Bigliardi) e Ana (Cecilia Rainero) são um casal de namorados que moram juntos. Até que ela pede um tempo. Desconcertado, Boris se muda para um hotel e passa a vagar num limbo existencial. Não parece ter objetivo, vontade ou mesmo empecilho para que seu limbo exista sem culpa ou incômodo. Mas Boris se move. E ao mover-se transita entre situações de apatia, mas que trazem no seu íntimo algum relevo de vida, natural em alguns momentos, insólito em outros.

Como na sequência da festa, em que a trilha sonora suspende a realidade. Boris troca diálogos nonsenses, experimenta a vagueza da noite, conhece estranhos, perambula. Não há tristeza, arrependimento ou euforia. É apenas um homem em si mesmo, sem adereços e sem encantos. Apenas um homem.

De fato, a partir de certo ponto, nada acontece em Um Mundo Misterioso. Vagamos pelo filme com a mesma despretensão que vaga Boris, até que este volta ao ponto em que começamos. Regressa depois de sereias, vazios, aventuras ocas de ação, mas cheias de um “algo mais” menos óbvio que o cotidiano. Como um Ulisses desmascarado e inerte, fuma, ouve uma canção na vitrola e sente-se novamente em casa.
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Um Mundo Misterioso
Rodrigo Moreno
Argentina, 2011
107 min.

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domingo, julho 08, 2012

Movimento Browniano


Os suspiros, os gemidos baixos, a respiração ofegante; o farfalhar de um lençol, o som do manuseio da vagina úmida da protagonista; todos estes sons, ruídos de intimidade ou não, fazem de Movimento Browniano um filme cuja textura quase nos toca. Ouvi-lo é sentir a cena, é se deixar levar pelo tato do que se ouve e, sem tocar, quase se sentir tocando. O efeito é aplicado com sensibilidade pelo filme, concatenado com sua estética clean, de ambientes iluminados e limpos numa assepsia contraditória. Assim como a pele, os olhos, o riso e o distúrbio psicológico de Charlotte (Sandra Hüller).

Ela é uma médica que trabalha em uma pesquisa com novas drogas para um grande laboratório. Casada com um engenheiro indiano, mãe de um menino de 10 anos, parece feliz no casamento e na carreira. Mas coloca ambos em risco ao levar para a cama de um quarto alugado alguns voluntários da pesquisa que realiza. São homens que guardam algum traço incomum, como um nariz esquisito, o corpo com muitos pelos ou a idade avançada.

O termo “movimento browniano” vem da física e, grosso modo, é o estudo do movimento aleatório realizado por certas partículas em determinados meios. Como as partículas em movimento e a própria ideia de aleatoriedade, Charlotte escolhe seus parceiros anônimos pelo acaso, ainda que neles exista a semelhança pelo estranho e incomum.

Dividido em três partes, na primeira etapa acompanhamos essa rotina secreta da personagem. Suas aventuras de prazer com estranhos, sua rotina de mãe e esposa, sua rotina de trabalho. Todas essas coisas se dão dentro da normalidade. Não há, nos gestos ou no rosto de Charlotte, em nenhum momento, algo que diferencie qualquer aspecto dessa rotina de uma normalidade tranquila.

Do prazer com estranhos à leitura de uma história infantil para o filho, tudo transcorre sem sobressaltos. Até que uma coincidência a surpreende, e isso destrava um mecanismo que a desnorteia completamente, e seu segredo é descoberto pelo marido.

Na segunda parte vem o tratamento. Na terceira, uma mudança.

Movimento Browniano pode ser uma antítese da crise conjugal como a conhecemos. No lugar dos diálogos insistentes, de discussões ou explicações exasperadas, o que temos é o silêncio, que ocupa a maior parte do filme. Mas o pouco dito não significa ausência de significados ou de sentidos.

A beleza do filme se encontra em seu mistério. Na forma quieta como transcorre sua trama, na observação do movimento de Charlotte. Está numa certa incompreensão de sua natureza e na forma como mesmo sem diálogos compreendemos os sentimentos dos personagens, mesmo quando imersos em grande confusão.

Se respostas ficam abertas, se a dúvida ou a imprecisão ficam como resultado do filme, vale lembrar da necessidade que deveríamos ter hoje – em dias de um cinema mastigado ao limite da estupidez – de reaprender a sair da sessão sem certezas. A ausência de respostas não deve ser problema, apenas a preguiça de tentar desvendá-las deveria ser. Neste sentido, Movimento Browniano arrisca-se, sai da mesmice e pode desagradar ou frustrar. Mas para quem ainda tem coragem e gosto, fica o desafio e o prazer de se sentir desafiado.
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Brownian Movement
Nanouk Leopold
Holanda, 2010
97 min.

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Até a Eternidade


Quem assistiu ao ótimo Apenas Uma Noite, talvez não saiba que um dos atores, o francês Guillaume Canet, é também diretor. E a julgar pelo excelente trabalho que faz em Até a Eternidade, seu novo filme a chegar por aqui, é de se esperar que venha a ser um grande diretor.

Produção francesa com estreia discreta (apenas uma sala), Até a Eternidade tem no seu elenco um bom punhado de atores. Dos rostos mais conhecidos por aqui, traz Marion Cotillard (de A Origem, Meia-Noite em Paris e Piaf – Um Hino ao Amor) e Jean Dujardin, que recentemente ganhou destaque mundial por sua atuação no badalado filme mudo, vencedor de cinco Oscars, O Artista.

A história é simples, como são as boas histórias. Um grupo de amigos, já bastante adultos, costuma passar as férias juntos em uma praia do litoral francês. Pouco antes da próxima temporada, um deles sofre um grave acidente de moto e fica hospitalizado. Sem ter como ajudar o amigo alquebrado, os demais decidem seguir com as férias, afinal estarão a poucas horas de Paris e poderão voltar rapidamente caso haja alguma novidade na recuperação do amigo.

Dentre as muitas qualidades de Até a Eternidade a que mais se destaca é o modo como o filme trabalha suas camadas, demonstrando uma sensibilidade e uma habilidade fora do comum da direção. Antes de tudo, é uma aula de construção de personagens, na qual ao longo da projeção cada um dos amigos ganha uma personalidade peculiar, nunca rasa ou estereotipada, e surpreendentemente convincente. De forma sutil, a trama consegue criar uma fina camada sob a qual cada um deles não esconde do espectador seus problemas e suas mentiras, embora as escondam de si mesmos e dos outros.

Em contraste com algo de soturno que existe nas mentiras íntimas de cada um, está a luminosidade e o sabor de alegria contagiante que o filme alavanca no seu decorrer. Na construção dessa luminosidade, contribui muito a trilha sonora, que faz um encaixe perfeito, emoldurando cenas em que a amizade, a diversão e o tempo delicioso compõem um quadro tão belo quanto frágil.
Embora o miolo do filme pareça um tanto extenso, parte desse tempo é indispensável para que se dê tempo ao tempo da narrativa, que evoca a maturação das relações, dos conflitos ocultos em cada um dos personagens. Dessa forma, o andamento tem o timing correto, cuja ilusão de demora no desenlace serve como reforço dos impactos que estão por vir no desfecho. Esse tempo a mais, sem que percebamos, nos leva a ficar tão apegados a esses personagens, como se fossem nossos amigos também.

Em seu desfecho, o filme guarda um final arrebatador, de sentimento represado, que desconstrói a todos de uma só vez. Estão ali a dor, o profundo em nós que desaba de repente, a homenagem e a amizade num nível comovente. Até a Eternidade é filme que revela um cinema inteligente sem ser pesado e cansativo, ao mesmo tempo que é divertido, encantador e comovente sem que para isso tenha que ser piegas ou banal.
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Les Petits Mouchoirs
Guillaume Canet
França, 2010
154 min.

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quinta-feira, julho 05, 2012

O Espetacular Homem-Aranha


 “Rebootar” ou não “rebootar”? Quando se trata do novo filme do Homem-Aranha, que reinicia a franquia nos cinemas, a questão ganha destaque. Passados apenas cinco anos desde o encerramento da trilogia dirigida por Sam Raimi – e estrelada por Tobey Maguire – e com tudo ainda fresco na memória dos fãs, a Sony resolveu arriscar e começar tudo de novo.

O resultado chega ás telas no próximo dia 6 de julho intitulando-se”. Na direção, o quase estreante Marc Webb (tem apenas um longa na carreira: “500 Dias com Ela”) e no papel do Aranha, Andrew Garfield. Diante disso, a pergunta que cabe é: o novo filme faz valer todo esforço em deixar para trás o velho cabeça de teia e acreditar nesse novo? A resposta é não. Mas esta negativa não é tão simples, como veremos a seguir.

Ao recontar o início do herói, o filme vai em busca do que aconteceu com seus pais e introduz Gwen Stacy (Emma Stone) como par romântico de Peter Parker. Com exceção desses detalhes, todo o início do novo filme parece uma repetição do filme de 2002, com os personagens vivenciando as mesmas situações, mas em circunstâncias diferentes. Da descoberta dos poderes à noção da responsabilidade que eles trazem, nada de muito diferente acontece.

Para os fãs mais conhecedores das histórias em quadrinhos, a presença da personagem Gwen é a grande novidade. Nas HQs, ela foi uma grande paixão de Peter Parker, antes dele conhecer Mary Jane, com quem veio a se casar. O destino de Gwen, todos sabem, é trágico, e este arco dramático certamente será aproveitado pela nova franquia. Como vilão, o filme apresenta outro personagem emblemático para o cabeça-de-teia. Trata-se do Dr. Curt Connor, o Lagarto, interpretado por Rhys Ifans.

Apesar da repetição, razoavelmente aceitável para uma história que está sendo recontada, o que mais prejudica o filme são os “atalhos” que o roteiro nos empurra. Atalhos criados para desembaraçar acontecimentos e fazer a história seguir adiante, mas que soam artificiais e difíceis de engolir. É como se a produção não se importasse em tramar a história de forma minimamente inteligente e articulada, criando assim coincidências e situações improváveis que simplesmente não convencem.

Mesmo com essas muletas narrativas mal arranjadas, o filme demora a engrenar, deixando a primeira parte monótona. Parte desses problemas são amenizados quando chega a ação e vemos bons efeitos especiais na tela. Contudo, o melhor dos efeitos parece ter sido economizado para o final.

É que durante os dois primeiros terços da fita, nada de muito espetacular acontece em termos de ação. Somente perto do fim o filme libera de verdade todo seu potencial, entregando finalmente alguma vertigem e emoção. Emoção que, em certo momento, repete o acerto do segundo filme da antiga franquia, quando se estabelece uma comovente relação entre o herói e alguns cidadãos de Nova York; além de revelar uma interessante vulnerabilidade do personagem, que fica sempre bastante ferido na ação.

Andrew Garfield não se mostra muito convincente como um adolescente que ganha super poderes, nem consegue uma química interessante com sua parceira romântica, Emma Stone. Mas não chega a ser uma decepção, se mostrando bastante esforçado.

Sendo inevitável uma comparação com os filmes anteriores, pode-se dizer que O Espetacular Homem-Aranha cumpre seu papel como filme de ação, mas fica ligeiramente aquém da antiga franquia. Por apresentar um produto que, com muito esforço e boa vontade, no máximo se iguala ao anterior, não parece haver razão que justifique um reboot tão cedo, a não ser pela lógica caça-níquel de Hollywood.

Isso não significa que o filme seja ruim, apesar de seus defeitos. Diz apenas que diante da filosófica questão “rebootar” ou não “rebootar”, o filme não se sustenta. Talvez fosse melhor esperar mais um pouco.
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The Amazing Spider-Man
Marc Webb
EUA, 2012
136 min.

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terça-feira, julho 03, 2012

A Era do Gelo 4


CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO SITE CINECLICK

A franquia A Era do Gelo foi responsável por catapultar a carreira do brasileiro Carlos Saldanha. Codiretor do primeiro filme e diretor dos dois seguintes, o sucesso no comando das animações permitiu a Saldanha a oportunidade de tocar um projeto pessoal que resultou em Rio, animação escrita e dirigida por ele e ambientada no Rio de Janeiro.

Agora, no quarto filme, Saldanha não está mais no comando, que ficou a cargo da dupla Steve Martino e Mike Thurmeier. A mudança parece não ter afetado a qualidade que os filmes mantêm desde o primeiro episódio. Um caso raro de positiva regularidade ao longo de quatro filmes, todos muito bons.

Em A Era do Gelo 4 reencontramos o improvável bando formado pelo mamute Manny (Ray Romano/Diogo Vilela), o tigre dente-de-sabre Diego (Denis Leary/Márcio Garcia) e a desastrada preguiça Sid (John Leguizamo/Tadeu Mello). E como nos filmes anteriores, a questão da família e do pertencimento a um grupo ocupa o motivo central do filme.

No começo da aventura Manny e sua esposa Ellie (Queen Latifah/Cláudia Jimenez) estão enfrentando os típicos problemas de ter uma filha adolescente. Como toda jovem de sua idade, a garota quer liberdade, mas seu pai não lhe dá uma folga e os conflitos se agravam. Ainda na questão familiar, surgem rapidamente na história os pais de Sid, que, antes de darem no pé novamente, deixam a seus cuidados a avó caduca e encrenqueira.

Tudo piora quando terremotos causados pelos deslocamentos continentais do planeta fazem com que os animais tenham que fugir para outro lugar. No tumulto, Sid, Manny, Diego e a vovó preguiça acabam à deriva no mar sobre uma placa de gelo. Mas logo serão encontrados por um “iceberg pirata”, cujo cruel comandante fará de tudo para que se unam ao grupo ou morram, caso se recusem.

Pode-se dizer que A Era do Gelo é uma franquia de “animação de estrada”, algo como um road movie da era glacial. Isso porque em todos os filmes os animais estão sempre se movendo de um lugar a outro. Esse deslocamento constante contribui para que a aventura dos personagens tenha sempre algo de épico, o que confere emoção à narrativa e uma dimensão grandiosa. Contribui para isso a técnica impecável utilizada em todos os filmes, de texturas detalhadas e profundidade bem acabada, seja com ou sem o 3D o trabalho impressiona.

Nas travessias pelas quais passam, a lealdade entre amigos é a argamassa que une os personagens e faz com que a aventura funcione bem. Neste filme, o tom épico da viagem faz até brincadeira com a Odisseia, de Homero, como se o mamute Manny fosse uma espécie de Ulisses tentando retornar para sua esposa e filha, com direito a sereias e monstros marinhos pelo caminho.

Como animação, A Era do Gelo 4 – e também os anteriores – seduz e envolve pela dose certa de piada e drama. Seus personagens, com exceção da preguiça Sid e de alguns outros personagens periféricos, não são figuras estúpidas e tolas. São criaturas com personalidade, com uma boa história pregressa e uma pitada de drama convincente.

Claro que se trata de uma animação infantil, com toda fantasia que cabe no gênero, mas não é uma diversão abobalhada com piadas a todo custo. É, acima de tudo, equilibrada e sensata na construção tanto da aventura quanto de seus personagens. Um equilíbrio inteligente entre ação, aventura, narrativa e personagens, com espaço para todos na medida certa. O suficiente para fazer do filme uma diversão emocionante e engraçada.
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Ice Age: Continental Drift
Steve Martino e Mike Thurmeier
EUA, 2012
94 min.

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Os Acompanhantes




CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO SITE CINECLICK

Há algo de sedutor na improvável amizade que Os Acompanhantes constrói. Um tipo de charme antiquado, de comédia construída mais pela atuação do que pelas situações. Completa esse charme – atribuindo-lhe certa beleza – o processo de aceitação a que leva a amizade: aceitação de si e aceitação do outro. Um delicado processo de reconciliação nascido da relação entre figuras solitárias e diferentes. Tudo isso moldado pelo humor cuja graça não depende do ridículo e vem sempre acompanhado de uma estranha ternura.

Luis Yves (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) é um jovem professor de literatura que, após um constrangedor incidente na universidade onde leciona, se muda para Nova York. Tímido e de fala cordial, Yves é perseguido por algumas fantasias sexuais que o deixam bastante embaraçado. Na cidade grande, vai dividir o apartamento com o excêntrico Henry Harrison (Kevin Kline, de O Clube do Imperador), um aposentado de discurso assertivo e ideias e hábitos bastante incomuns.

Enquanto consegue um emprego em uma revista sobre meio ambiente, Yves vai descobrindo uma das atividades de seu colega de apartamento. Harrison é o que ele próprio denomina como um “homem extra”, um acompanhante frequentemente solicitado por ricas e solitárias senhoras da alta sociedade.

Mas ele não é um gigolô, pois não cobra por sua companhia. Ele o faz apenas interessado nos bons restaurantes, bons vinhos e bons programas que estas senhoras podem proporcionar. Mais do que um “homem extra” simplesmente, ele se julga um acompanhante essencial, cujos modos, cordialidade e atenção com suas damas o colocam num nível que transcende a mera companhia. Ao menos é como ele se vê.

Dentro da convivência entre eles, surgirá uma relação bastante incomum de companheirismo. Quase sem perceber, Yves se torna um aprendiz de seu amigo acompanhante, ao mesmo tempo que se apaixona por uma colega de trabalho (Katie Holmes, de O Casamento do Meu Ex) e também tenta resolver suas fantasias secretas.

De ritmo bem cadenciado, Os Acompanhantes é uma comédia que aposta na delicadeza do humor. Sua graça nasce do excêntrico, mas não se apoia na esquisitice de seus protagonistas, como se fossem meras muletas para o riso. Seu humor está no carisma que esses personagens transpiram dentro de suas excentricidades. Está também na interpretação inspirada dos atores, com destaque para Kevin Kline.

Não se pode deixar de citar a participação de John C. Reilly (de Precisamos Falar Sobre o Kevin) como Gershon Gruen, um mecânico que trabalha no metrô da cidade e costuma pedalar nas horas vagas. Ele mora no mesmo prédio que Yves e Harrison e terá um papel importante – e não menos delicado e divertido – no desenlace da fita.

Em Os Acompanhantes a reconciliação e a aceitação são como o desenlace de uma fábula, na qual a amizade entre solitários faz deles pessoas melhores.
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The Extra Man
Shari Springer Berman e Robert Pulcini
EUA/França, 2010
108 min.


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domingo, julho 01, 2012

Fausto


Fausto, de Aleksandr Sokurov, é exigente com o espectador. Passar por suas duas horas e vinte minutos exige empenho e esforço. Mas o difícil em Fausto não se constitui de enigmas ou de experimentalismos confusos. Não há quebra-cabeças em sua narrativa linear, não há conexões sofismadas na sua estrutura. Tudo que quer dizer é dito; está ali, ao alcance de todos, velado apenas com a sutileza inteligente da grande arte, mas sem truques.

O que esta obra de Sokurov exige do expectador é a disposição para enfrentar a angústia. Uma angústia construída na prosódia de suas imagens e na prosódia dos diálogos em alemão. Na constância desta roda que range vai-se do questionamento filosófico à ironia perversa. Sua regularidade de perfeição e rangido nos leva a um limbo da alma, em que mergulhamos cada vez mais fundo na sensação de sonho desencantado. Ergue-se, diante de nossos olhos e ouvidos, com imensa riqueza, um universo de beleza mortificada, adensado por uma fotografia arrebatadora de tons desalentados.

Completa esta angústia o fluxo ininterrupto de pensamentos do protagonista, somada à fala provocativa e sedutora da encarnação do demônio que acompanha o desiludido herói pelas ruas de um mundo desordenado, repleto de aflições do espírito e distorções da carne.

Livremente inspirado no poema clássico de Goethe, este filme encerra uma tetralogia que o diretor russo fez sobre o poder. Vieram antes Moloch (1999), sobre Adolf Hitler; Taurus (2001), sobre Lênin; e O Sol (2005), sobre o imperador japonês Hirohito. Ganhador do Leão de Ouro do Festival de Veneza de 2011, o Fausto de Sokurov é um homem obcecado por conhecimento, que se vê falido e faminto por ter dispensado tudo que tinha em busca de sabedoria.

Sem recursos e sentindo-se tão vazio de saber como quando começou, vai a uma casa de penhores para trocar seu último anel por algum dinheiro. Mas o agiota, de grotesca aparência e inconfundível perversidade, recusa a joia. No entanto, não deixar de oferecer ao desiludido homem sua companhia por um passeio pela cidade, no qual a sedição do espírito será o verdadeiro penhor dessa relação.

Vai-se então ao assassinato gratuito, à assinatura dos termos de posse da alma, à obsessiva atração pela donzela, à descida ao inferno sem volta, e a um apoteótico esmagamento das esperanças. Fausto é uma desalentadora viagem pela consciência do homem, um retrato opressivo de nossa moral disforme.

No percurso, os símbolos. A estreiteza de passagens na qual corpos se espremem traz um sentimento de desconforto da alma, da nossa própria estreiteza  ante as possibilidades inalcançáveis de quem busca o absoluto, sempre insatisfatório, como é o caso do poder. Espelho da mentira, da corrompida natureza da ambição, são também as propositais distorções que as imagens sofrem durante a projeção. Um recurso que conduz nosso olhar para uma realidade menos óbvia.


Desde o início, quando vemos um Fasto ocupado na dissecação de um cadáver, buscando a sede da alma dentro do corpo - e até a perda de sua própria alma, sem jamais encontrar a saciedade de suas ambições -, é possível sentir em nossos ombros o peso desta obra de Sokurov, que nos arrasta e nos exige disciplina e vontade.

Se é desnecessário dizer que trata-se de um filme longe de qualquer facilidade comercial, cabe reforçar que tampouco é obra de mecanismos ocultos e oblíquos. A disposição de seu desafio é transparente, apenas sua dinâmica é volumosa, densa. Seu peso é o da iniquidade humana, tão comum e rotineira quanto assustadora, triste e difícil de carregar. Fausto, de Sokurov, não é fácil nem difícil, apenas intenso e assombroso.
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Faust
Aleksandr Sokurov
Rússia, 2011
140 min.

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quinta-feira, junho 14, 2012

Prometheus



Superficialmente, pode-se dizer que Prometeu, na mitologia grega, foi quem roubou o fogo dos deuses e entregou aos mortais. Fogo, que nesta dimensão mitológica, simboliza o conhecimento. Zeus ficou enfurecido com Prometeu. Condenou-o a ficar acorrentado a uma rocha enquanto uma águia comia seu fígado, que se regenerava infinitamente, perpetuando seu sofrimento.

Em Prometheus, novo e aguardado filme de Ridley Scott, é com o nome do herói mitológico que é batizada a nave de exploração científica que viaja através do espaço. A missão da nave não é menor que a amplitude mitológica do herói: encontrar a resposta para a origem da humanidade, a resposta para a pergunta fundamental "de onde viemos?", cujas pistas apontam para um planeta distante.

O caminho desse planeta é dado por escavações arqueológicas na Terra, nas quais uma mesma figura e uma mesma constelação aparecem gravadas em diferentes achados de civilizações ancestrais. Separadas por milênios  e sem nunca terem tido contato entre si, estas civilizações compartilham uma figura similar, que apontam para um distante sistema solar semelhante ao nosso.

A empreitada de exploração é bancada por uma empresa privada, a Weyland Corp. Entre os 17 membros da tripulação, está a fria executiva Meredith Vickers (Charlize Theron), além dos pesquisadores responsáveis pelas descobertas arqueológicas - Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) e Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) - e o androide David (Michael Fassbender).

A grande expectativa em torno de Prometheus está ligada ao fato de Ridley Scott retornar ao gênero da ficção científica 30 anos após Blade Runner: O Caçador de Androides, sua última investida no gênero e que nos legou um clássico cultuado por gerações; e também pela possibilidade do diretor voltar ao universo de outro clássico do gênero que ele também realizou: Alien – O Oitavo Passageiro (1979).

Sim, o filme é a retomada do universo de Alien; mas, não, o filme não se conecta diretamente (pelo menos não ainda) aos eventos da nave Nostromo que tornaram a tenente Ripley (Sigourney Weaver) um arquétipo de sobrevivência e força feminina. E se o leitor achar que isso é um spoiler, não se preocupe, há mais mistérios entre a Terra e o espaço sideral de Ridley Scott do que julga nossa vã filosofia. Lamentável apenas que o diretor pareça ter cedido a convenções subdramática de Hollywood e dispersado parte de sua ótima história com personagens problematizados de forma tão rasa e desnecessária que chega a ser embaraçoso.

Visualmente, Prometheus é esplêndido. Visto em 3D, as texturas, a profundidade de campo, as projeções tridimensionais dos recursos tecnológicos da história ganham uma nitidez impressionante. Mesmo elementos fora da profundidade do 3D são ótimos, como o desenho interno da nave, os trajes e veículos e a engenharia alienígena. Para esses detalhes, Scott contou com o mesmo designer do filme original, o suíço H. R. Giger.

Narrativamente, Prometheus é um filme que nos fisga desde o início e segue alternando em nós curiosidade, tensão, interesse e suspense. Difícil não ser absorvido pela expectativa das descobertas possíveis que a chegada da nave ao planeta de destino instiga. A primeira metade do filme é uma aula de ficção científica, de desenvolvimento de atmosfera, de construção da expectativa. Scott trabalha de forma brilhante sua narrativa, até que a história começa de fato e os personagens se delineiam e algo se perde no caminho. Então, parte da riqueza construída com energia e contenção, cede lugar a desdobramentos mal acabados, respostas superficiais e violência óbvia. 

O medo está lá. Nunca tão intenso e terrível como no primeiro Alien. Mas, especificamente numa sequência, é tão visceral quanto e angustiante quanto. Mas é a trama e a ação de alguns personagens o que acaba por enfraquecer substancialmente o impacto do filme. Assim como algumas respostas mal resolvidas da história, que mesmo sendo visivelmente ganchos para uma possível continuação, mereciam melhor clareza.

No desdobramento do roteiro, por exemplo, é possível notar uma certa preguiça e pressa no encaminhamento da história. Isso leva alguns personagens a tomarem atitudes não condizente com seus backgrounds, o que afeta imediatamente nossa suspensão de descrença (condição de credulidade assumida para que possamos entrar num universo ficcional), tão necessária para uma experiência plena no gênero de ficção científica.

Mesmo a personagem da Dra. Elisabeth Shaw, protagonista de alguns dos melhores momentos e cujo papel é fundamental para o andamento do filme, carrega uma ligação com o passado e um ressentimento íntimo que quase nada acrescentam à trama. Pior, são inseridos nela de forma abrupta, artificializando seu efeito e revelando a precariedade do remendo sentimental absolutamente desnecessário.

Admite-se que, como aventava o trocadilho óbvio com o título do filme, que Prometheus gerou uma absurda expectativa, justificada em parte pelo que ele, de fato, prometia. Dos nomes envolvidos, passando pelo universo revisitado e chegando até o trailer impactante e assombroso, o filme empenhou uma ansiedade dificilmente poderia ser inteiramente atendida. Mas o resultado final fica abaixo do que parecia possível. Longe de ser uma retumbante decepção, acaba perigosamente próximo de uma superficialidade que desintegra boa parte da expectativa.
Como filme de gênero é ótimo. Impecável nos efeitos. Porém, tristemente dispersivo e tolo na dramaturgia.

Ridley Scott construiu um universo estupendo. Mas, neste caso, parece ter dado pouca importância e atenção ao que realmente mantém esse universo em pé: contar uma boa história sem perder o foco. Com uma melhor polida no roteiro e nos personagens faria do filme algo grandioso, monumental, clássico instantâneo. Como está, fica apenas acima da média. O que, por incrível que pareça, é menos do que muita gente esperava.
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Prometheus
Ridley Scott
EUA, 2012
124 min.

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Apenas Uma Noite



Não há qualquer novidade na frase fundamental de Apenas Uma Noite, dita no meio do filme: “Você pode estar feliz e ainda se sentir tentado”. Porém, ela se enquadra no tipo de verdade que, por mais óbvio que seja, precisa ser dita de vez em quando. No caso da muito bem ajeitada trama do filme, ela é a chave que abre a primeira porta de um pequeno labirinto a que todos temos acesso ao menos uma vez na vida: a tentação da infidelidade.

Joanna e Michael Reed (respectivamente Keira Knightley e Sam Worthington) formam um casal moderno de Nova York. Ela é uma escritora que produz artigos para revistas de moda enquanto tenta terminar seu novo romance. Ele trabalha para uma empresa de arquitetura na qual desenvolve projetos em equipe. Em suas vidas, tudo parece bem. São bonitos, bem sucedidos e felizes um com o outro.

Um pequeno complicador surge quando, em uma festa, Joanna conhece a nova colega de trabalho de Michael. Laura (Eva Mendes) é uma mulher muito atraente e Joanna acha naquele momento que o marido sente-se atraído pela colega. Há nesta cena um jogo sutil no modo como a câmera trabalha essa suspeita, captando trocas de olhares, flagrando situações muito tênues. Desenha-se ali a condução suave e inteligente que a diretora iraniana Massy Tadjedin dará a todo o filme. No fim da noite, o casal tem uma breve discussão sobre a suposta atração que Michael sente por Laura, especialmente porque na manhã seguinte eles viajarão juntos a trabalho.

O inesperado, no entanto, acontece com Joanna, que na mesma manhã seguinte encontra um antigo namorado. Ele a convida para se encontrarem a noite e ela aceita.

Começa então o jogo paralelo de sedução, tentações e diálogos francos entre os casais, cada um tendo a sua própria noite de provação. Não há, por nenhuma das partes, a negação da atração e do desejo que sentem e é esta franqueza que torna o filme mais interessante.

Apenas Uma Noite é um filme adulto, para adultos. Não se trata de mais uma história sobre relacionamentos, daquelas que tentam desconstruir a relação, revelar mecanismos ou trazer à tona mágoas e ressentimentos. É apenas um filme sobre algo simples, mas no íntimo complexo: a fidelidade diante do desejo. E apesar de não evitar algumas superficialidades, apresenta uma discussão muito honesta sobre a questão.

Mesmo com gênese para se tornar aquilo que pejorativamente se chama de “cinema falado” (quando as palavras se sobrepõem às imagens), a diretora consegue dar uma azeitada fluência à narrativa. Cria sutilezas, trabalha gestos, investe em ambientes diferentes, dá mobilidade a seus personagens.

Na construção da dúvida, na tensão criada pela possibilidade tão próxima entre prazer e culpa, Apenas Uma Noite se sai como um saboroso diálogo entre desejo e responsabilidade. Sem julgamentos morais e de forma franca, transmite através de seus personagens uma situação da realidade, com a qual relacionamentos sempre se deparam, mas raramente resolvem. Não seria, claro, um filme que o resolveria. Mas dá substância ao assunto ao retratar com sinceridade e delicadeza esta questão inevitável.
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Last Night
Massy Tadjedin
EUA/França, 2010
93 min.

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segunda-feira, junho 11, 2012

Kaboom


 CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO SITE CINECLICK

Enquadrando-se naquele gênero de filme difícil de ser enquadrado em algum gênero de filme, Kaboom exige um grande esforço para ser apreciado ou, pelo menos, aturado. Isso porque sua estrutura, roteiro e dinâmica servem a um projeto de provocação e cinismo nada fácil de ser digerido. Tudo fruto da mente do diretor e roteirista Gregg Araki, conhecido por seus filmes independentes de temática gay e qualidade duvidosa.

Smith (Thomas Dekker) é um jovem gay, estudante de cinema, que tem fantasias eróticas com seu colega de quarto hétero. Mas ele também transa com garotas e é ao voltar para seu dormitório após fazer sexo com uma delas que presencia uma estarrecedora e surreal cena de assassinato, cometido por homens usando máscaras de animais. Ao menos é o que ele pensa, já que desmaia logo em seguida e ao acordar tem dúvidas sobre o que viu. Especialmente porque a garota assassinada é idêntica a uma que aparece em um sonho recorrente seu.

Intrigado com o mistério, Smith pede ajuda à sua melhor amiga, Stella (Haley Bennett), uma lésbica que está saindo com uma feiticeira com poderes sobrenaturais. Enquanto busca pistas sobre o que ocorreu, Smith experimenta o sexo casual com homens e mulheres. Também passa a ser perseguido por sujeitos com máscaras de animais, ao mesmo tempo que ajuda a amiga Stella a fugir da obsessiva lésbica-bruxa. Em meio a tudo isso, descobre os planos de uma seita secreta que planeja o fim do mundo e que está ligada à seu passado e a seu pai, morto num acidente de carro quando ainda era criança.

Este resumo da ópera dá uma ideia do que esperar de Kaboom e sua insana espiral de tipos e situações. Mas é preciso acrescentar que o diretor tempera tudo isso com um visual e ritmo de seriado televisivo. Além de um pouco de escatologia e algumas cenas de sexo. A mistura não é exatamente digestiva, já que alguns excessos e a ausência de uma boa amarração no andamento da trama fazem enjoar rapidamente. Portanto, o risco de abandono da sala é grande, como se viu em 2010, quando o filme foi exibido (fora de competição) no Festival de Cannes.

Cabe reforçar, no entanto, que o diretor caminha pelas vias da provocação e da desconstrução de seus temas recorrentes. Claro que nem sempre acerta, mas vale dizer que o surrealismo faz parte de suas referências, como fica claro em uma cena do filme que faz referência ao cinema de Luis Buñuel. Além da temática gay – aqui tratada muitas vezes de forma banal e rasa – está também presente sua sátira às séries televisivas de comédia e dramas adolescentes.

O resultado de tudo é um filme esquisito, criado dentro de um propósito que parece claro para o diretor, mas muito confuso para quem o assiste. Não se pode, porém, dizer que o filme é irregular, já que a irregularidade é o elemento principal da construção do filme. Ou seja, é proposital. Mesmo sendo o espírito provocativo algo desejável em qualquer cinema, no caso deste exemplar de Gregg Araki a mão pesada fez o molho azedar. Por isso, a digestão de Kaboom não é nada fácil.
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Kaboom
Gregg Araki
EUA/França, 2010
86 min.

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