
É a história dessa relação que o diretor Bruno Barreto reconta
neste belo e sensível Flores Raras.
Um filme de desenvolvimento narrativo afinado e que deve grande parte de seu
feliz resultado ao embate cênico de duas atrizes inspiradas.
Glória Pires faz Lota, uma mulher decidida, segura e de
pulso firme. Gosta de falar de seu trabalho como arquiteta sem qualquer timidez
ou falsa modéstia. A pedido de sua então companheira, Mary (Tracy Middendorf), ela
recebe em sua casa Elizabeth Bishop, interpretada por Miranda Otto.
Bishop é quase o oposto de Lota. É tímida, não se sente a
vontade para ler seus próprios poemas e reage com certa retração ao imediato
choque cultural. Sua atitude é interpretada como esnobismo por Lota, mas logo a
antipatia se transformará em paixão.

Já Miranda Otto compõe sua Bishop com uma fragilidade
enviesada, entre o medo de si mesma, a insegurança quanto à sua poesia e a
inescapável necessidade de escrever. Há nesta personagem algo de uma força
inevitável (a poesia, certamente, mas algo mais) que a fragilidade encobre, mas
não esconde.
Esse amálgama é desenvolvido com a sutileza de uma
interpretação que até comete pequenos excessos, mas que no todo se humaniza imensamente,
auxiliada por flashbacks que remontam a história sofrida da poeta. Mérito da
atriz e mérito também da direção.
Bruno Barreto faz de Flores
Raras uma peça exemplar de narrativa clássica, redonda e azeitada. Não há
solavancos nem artificialismos dramáticos e a música nunca se excede para
forçar o drama.

Barreto filma na convenção. Enquadramentos e sequências são
ordenados e montados sem exercício dialético, com a precisão narrativa que não
subtrai demais nem se estende além. Como a saber que o que interessa são duas
mulheres, o Rio de Janeiro de outros tempos, o amor imperfeito e a desventura
de uma história a ser contada. No caso, muito bem contada.
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Flores Raras
Bruno Barreto
Brasil, 2013
118 min.
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