Atravessar as duas horas e meia de A Humanidade, filme de 1999 do diretor francês Bruno Dumont, é um
exercício de paciência que muitas vezes se aproxima da exasperação. Isso porque,
aos poucos, vai crescendo um desejo de que acabe logo aquele arrasto narrativo
em que quase nada acontece.

Com sua escassez de diálogos, o filme vai delineando seus
personagens com uma vitalidade melancólica intensa que só pode ser construída
pela lentidão com que o filme os atravessa. Na dificuldade de comunicação que marca
suas relações, há um sentimento atravessado que não encontra voz nas palavras, mas
apenas em gestos imprecisos e nos olhares distantes.

Este é um olhar que nasce para o filme quando vemos, logo no
início, Pharaon cair na lama, atônito, depois de ver o corpo de uma menina de
11 anos, morta e violentada. O close que o filme dá na vagina dilacerada da
vítima retrata o choque que não se diluirá ao longo do filme, durante a
investigação do crime.

Na construção de uma peça que revela a incomunicabilidade de
personagens que trazem uma latência de desejo e uma clara insuficiência
afetiva, Dumont cria um universo quase paralelo, de borda da realidade. Um
universo bucólico de pequena cidade em que ambienta uma trama espargida nos
silêncios, nas paisagens e na rua onde moram seus dois personagens principais.

A Humanidade não é
filme de roteiro. É antes um filme-exercício no qual a figura de Pharaon nos
remete a um estado entre a dor e a pureza do homem. Ele e sua intimidade
periférica são o objeto de uma contemplação ante a própria contemplação que o
filme incorpora o tempo todo.
Na longa travessia, o
resultado ao fim não serve de recompensa aos que buscam respostas claras.
Dumnot não está interessado em explicar, embora não use de artifícios para
confundir.

--
L'humanité
Bruno Dumont
França, 1999
148 min.
Trailer
0 comentários:
Postar um comentário