
O filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla tornou-se um mito. Sua estrutura anárquica, estética indecorosa (no melhor e mais libertário sentido do indecoroso); sua agressividade e ausência de ilusões, a acidez debochada e veemente... tantas são suas particularidades que fica difícil descrevê-lo. No momento em que surgiu e diante do despropósito de seu realizador – que jamais o ensaiou como grande obra, mas apenas um filme qualquer, para ser visto e esquecido em qualquer cinema poeira do centro de São Paulo – sua envergadura genial assombrou público e crítica. Hoje, mais de 40 anos depois, é cultuado pela cinefilia, tem forte reconhecimento internacional, tornou-se o símbolo mais bem acabado do chamado cinema da boca do lixo. Tornou-se manifesto e marco.

Menos uma continuação e muito mais um desdobramento
atualizado do filme original, Luz nas
Trevas traz Ney Matogrosso na pele do próprio bandido, 40 anos depois. Mas
como?, pode-se perguntar, uma vez que o bandido morre no final do filme de 68.
Na prisão, é o próprio Luz quem responde, referindo-se ao filme como um filme que
fizeram sobre ele. Está dada a chave e a permissividade para a construção de
uma obra plenamente metalinguística e cíclica, que tem pelo original uma
reverência permanente, mas guarda para si um bom pedaço de originalidade e
personalidade.

Luz nas Trevas é
um diálogo permanente com o filme de Sganzerla. Vai da referência à homenagem,
passando pela reedição atualizada de planos, sequências e diálogos. Na caotização
que preserva do original, insere enxertos de falas, sons, ruídos e as
indefectíveis sirenes que pontuam a cidade e o bandido. É desarranjado e
provocativo, mas não evita uma mimese muitas vezes diluída do que foi o filme
original. Por outro lado, traz sempre uma exuberância renovada, um fio
cortante, elétrico, disseminador de um cinema incorreto, caleidoscópico, aguçador.

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Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha
Helena Ignez e Ícaro Martins
Brasil, 2010
83 min.
Trailer
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