sábado, janeiro 08, 2011

A Infância de Ivan




Ivanovo Detstvo
Andrei Tarkovsky
União Soviética, 1962

O primeiro longa-metragem do aclamado diretor russo Andrei Tarkovsky aborda a Segunda Guerra Mundial através da infância perdida de um menino de 12 anos. 

Ivan, numa interpretação fabulosa de Nikolai Burlyayev, órfão de pai, perde também a mãe e a irmã, assassinadas pelos nazistas. Depois de se juntar a combatentes guerrilheiros, acaba por servir ao exército russo, atuando na linha de frente como espião das posições alemãs.

Tarkovsky constrói a figura de Ivan como a criança dividida entre seus sonhos - memória e desejo de uma infância feliz ao lado da mãe e da irmã - e a realidade presente - na qual se mostra um jovem destituído de qualquer ilusão, irremovível na sua obstinada busca por uma vingança.

O olhar duro, a ausência de sorriso, a fala imperativa e a postura inflexível fazem de Ivan o resultado da guerra, o destroçamento de qualquer esperança, mesmo na possibilidade – ainda incerta – de uma vitória sobre os nazistas.

Sua determinação e seu código de disciplina assombram em uma criança de 12 anos. Isso fica claro quando se tenta convencê-lo a ir para uma escola militar, deixando de atuar na linha de frente. Ivan reage com uma impressionante veemência, expressando claramente o quanto não lhe resta mais de ilusões: “só os covardes descansam em tempo de guerra”.

Mais do que o estereótipo da criança órfã de guerra, vivendo uma dramática, triste e miserável jornada pela sobrevivência, Ivan incorpora a transformação, o viés da fortificação, da blindagem. Abandona com isso, sem hesitar, qualquer medo. E vê à sua frente somente a guerra, tendo como sua única opção a luta.

Ivan não é um bravo e destemido herói. É apenas uma criança de quem tiraram a infância e em troca deram a guerra. E ele faz disso sua demanda, pois não tem qualquer outra alternativa, qualquer outra ilusão.

Indo além da construção de Ivan como espólio da tragédia da guerra, Tarkovsky constrói também uma obra de arte impressionante, mostrando-se um genial artista no uso da câmera como instrumento de narrativa e de expressão.

O que se vê, desde os primeiros planos, é um grande domínio da profundidade de campo e do plano-seqüência, além da utilização de enquadramentos incomuns para traduzir sentimentos. Como quando Ivan acorda de um de seus sonhos, e se depara com a realidade novamente. O ângulo inclinado da câmera durante a fuga de Ivan para a outra margem do rio denota claramente a estranheza do novo mundo, o desconcerto da realidade em tempos de guerra, especialmente para uma criança.

Outro exemplo expressivo é quando Ivan chega a uma base russa exigindo, autoritariamente, que avisem determinado oficial de sua presença na base. Quando finalmente é identificado, passa a escrever códigos militares, enquanto um jovem oficial prepara seu banho. Nesta cena, o uso da profundidade de campo nos apresenta um Ivan agigantado em primeiro plano, com o jovem oficial ao fundo, apequenado diante da imponência de um garoto de apenas 12 anos.


É notável também, durante todo o filme, que quase nunca o diretor se utiliza da fórmula campo/contra-campo para os diálogos. Ao invés disso, a narrativa se lança em elaborados movimentos de câmera e disposição dos atores, quem entram e saem do enquadramento à evolução do diálogo e da cena.

É com esse recurso que Tarkovsky monta uma das mais belas seqüências da história do cinema, quando o oficial russo corteja a jovem Macha. Toda a seqüência se passa num bosque e é composta de vários planos-sequências, com magistrais movimentos de câmera que culmina com um beijo plasticamente antológico.

Assim, o que impressiona em “A Infância de Ivan” não é apenas a atuação do jovem ator na composição de um personagem marcante, mas também a expressividade de todo o filme, onde a cada plano o diretor constrói uma pequena obra de arte e uma aula de cinema.
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