quinta-feira, agosto 25, 2011

Festival de Curtas Metragens começa em São Paulo

Alma feminina é um dos temas deste ano, que conta com diversos programas especiais e oficinas.


São mais de 400 curtas metragens. Tem para todos os gostos e todos os bolsos, já que a entrada é grátis. O 22º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo abre para o público nesta sexta, dia 26. A cerimônia de abertura, apenas para convidados, acontece hoje, às 21h00, no Sesc Pinheiros. Com exibições em nove salas espalhadas pela cidade, a maratona de curtas segue até o dia 2 de setembro.

No festival, os curtas são exibidos em blocos, divididos por programas. Assim, temos as mostras Internacional e Latino Americana, que reúnem exclusivamente curtas estrangeiros. A mostra Programas Brasileiros se divide em curtas que fazem parte, por exemplo, da Mostra Brasil e Panorama Paulista. Além desses principais programas, há muitas outras opções.


Feminino Plural
Nesta edição, um dos destaques da programação é a mostra Feminino Plural. Dividida nas seções Brasileiras, Diretoras de Outros Cantos, Uma Visão Política e Fale Sem Medo, a mostra busca um diálogo com a produção audiovisual no formato curta com enfoque feminino. Ressaltando a pluralidade da mulher atual, que muitas vezes se divide como mãe, esposa e profissional, o festival relembra os dez anos desde a primeira mostra que exibiu exclusivamente trabalhos com mulheres na direção. O feminino dá o tom desta edição, como se pode ver na vinheta oficial e nos cartazes.

Mas a pluralidade do evento não está só no feminino. Como acontece todos os anos, o festival trás uma programação diversificada, com atividades paralelas e programas segmentados. São oficinas e programas voltados a públicos diversos, como o programa Dark Side, que reúne curtas metragens de terror. Não recomendados para quem tem nervos fracos, a curadoria desse programa é do diretor e montador Paulo Sacramento e reúne produções de Espanha, Inglaterra e Brasil.


Vinheta 22º Festival Internacional de Curtas-Metragens de SP.

Mundo Fashion
O mundo fashion também não está de fora. Dois programas especiais deste ano são dedicados á moda. O programa especial Out of Fashion, que tem curadoria da holandesa Inge de Leeuw, trás uma seleção de curtas que foram exibidos no Festival Internacional de Cinema de Roterdã. A proposta é ir além de coleções e passarelas, evocando conceitos de atualidade e o uso da internet como difusão do audiovisual produzido de forma independente com enfoque na moda.

Já o programa Curta Moda Brasil, com curadoria de André do Val e Eduardo Viveiros, exibe trabalhos nacionais, em formatos experimentais, como a recente produção de videoflyers criados por videomakers para divulgação de eventos.


Crítica e Negócios
O exercício da crítica também tem seu espaço no festival. A oficina Crítica Curta busca estimular a produção de textos críticos sobre curtas metragens, formato muito carente nesse gênero de texto. Os participantes da oficina assistem a filmes de dois programas específicos e escrevem suas críticas. Coordenado pelo jornalista e crítico de cinema Sergio Rizzo, ao final do festival os trabalhos serão editados e publicados em um jornal tabloide.

Para fomentar negócios, em paralelo ao festival, ocorre o projeto Curta & Mercado, que promoverá um encontro entre produtores, realizadores e negociantes interessados no formato curta metragem. O encontro acontece dia 29, na Cinemateca Brasileira e as inscrições para participar podem ser feitas neste link (clique aqui).


O Futuro do Formato
Sem espaço no circuito exibidor convencional, o formato curta tem nos festivais sua principal vitrine de exibição. Contudo, as redes sociais, a internet e os canais de vídeo online, cada vez mais se tronam espaços de distribuição e compartilhamento desse formato. Permitem experiências de linguagem, temática e enfoque. Acima de tudo, permitem a diversidade. Um evento como um festival desse porte é uma boa oportunidade para se aglutinar propostas, traçar um panorama e indicar tendências.

Como ressalta a diretora do festival, Rita Carvalhosa, em carta de apresentação do evento, “o formato curta vai bem, se renova e tem presença marcante no cenário audiovisual mundial e nacional”. Com 22 anos de existência e um volume de mais de 400 filmes, o festival comprova a força do formato curta metragem e sua vocação de apontar o futuro do audiovisual.
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As salas de cinema que exibem a programação do 22º festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo são:

Cinemateca Brasileira (sala BNDE e sala Petrobras)
Espaço Unibanco de Cinema
Cinesesc
Museu da Imagem e do Som
Centro Cultural São Paulo
Cine Olido
CINUSP
Museu do Futebol.

Para mais informações, acesse: http://www.kinoforum.org.br/curtas/2011/
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Com programação renovada, Sessão Vitrine retorna no segundo semestre



Muitos fil­mes pro­du­zi­dos no Brasil não che­gam ao público de cinema. Passam ape­nas em alguns fes­ti­vais, onde são até elo­gi­a­dos pela crí­tica. Porém, na hora de entrar em exi­bi­ção no cir­cuito, sofrem com os meca­nis­mos do mer­cado, sufo­cado pelas pro­du­ções estran­gei­ras. Cria-se então um vácuo entre o público inte­res­sado nesse cinema menos comer­cial — de pro­posta inven­tiva e baixo custo – e as pro­du­ções que não che­gam até esse público.

A fim de pre­en­cher essa lacuna e criar opor­tu­ni­da­des para que esses fil­mes sejam vis­tos, a dis­tri­bui­dora Vitrine Filmes criou o pro­jeto Sessão Vitrine... Leia mais. (Matéria minha publicada na revista eletrônica O Grito)

Esses Amores



Ces Amours-là
Claude Lelouch
França, 2010
120 min.

O diretor francês Claude Lelouch não faz cerimônia. Logo na abertura de “Esses Amores”, seu mais novo filme, que estreia nesta sexta (26), deixa claro que o filme se trata de uma homenagem; uma homenagem a si mesmo, a seus 50 anos de carreira e a seus 43 filmes realizados. Está escrito na tela, textualmente testamentado, com perdão da aliteração. Assim, enquanto entrelaça uma história de amor e destino – dois temas recorrentes em sua obra -, Lelouch aproveita para citar suas referências. As citações passam por Marcel Carné, Victor Fleming, Jean Gremillion e, claro, o próprio Lelouch.

O filme narra a trajetória de Ilva (Audry Dana) pelo século XX, ou pela parte desse século que mais ficou marcada na história: a Segunda Grande Guerra. Ilva é uma mulher que tem o desejo de amar intensamente. Por isso se apaixona fácil e muito. Ela é fruto de um amor que começou antes da Primeira Guerra Mundial, entre um cinegrafista da empresa Lumiere (dos irmãos Lumiere, inventores do cinematógrafo e do que hoje se conhece como cinema) e uma jovem atriz de filmes eróticos. A guerra levou seu pai antes mesmo que nascesse, a doença e a prostituição levou sua mãe. Na vida, sobrou o amoroso padrasto, dono de um cinema em Paris, onde Ilva foi criada.

Quando a França é ocupada pelos nazistas e a resistência francesa passa a promover atentados contra os alemães, seu padrasto é preso acusado de envolvimento. Prestes a ir para o fuzilamento, para tentar salvá-lo Ilva vai até o comando nazista pedir por sua vida, dizendo que ele é inocente. Mesmo noiva, não consegue evitar a paixão pelo oficial nazista. Um amor cujo preço cobrado será muito alto, levando à tragédia e ao abandono. Incapaz de não amar, o tempo trará a Ilva outros amores, como o triângulo entre ela, Bob e Jim. Dois soldados americanos por quem ela se apaixona e se vê incapaz de decidir com qual dos dois ficar. Mas outra vez a tragédia será a marca deixada por esses amores.

O filme atravessa o século em seus momentos mais críticos. Além de Ilva, nos apresenta uma série de personagens que o destino se encarregará de fazer cruzarem-se entre si, formando uma história de amores trágicos, esperanças perdidas e reencontradas. Lelouch não evita que o filme soe presunçoso e autoindulgente. Mas seu maior problema é a falta de emoção. A narrativa, excessiva nos entrelaçados personagens que cria, dilui sua emoção pela falta de objetividade. Ao dispersar seu foco, dispersa os sentimentos.

Não há como não sentir o drama das vítimas dos campos de concentração, mas tudo é tão superficial, que mal temos tempo de sentir. Não há como não se comover com as tragédias da vida de Ilva, mas elas se sucedem com tão pouca intensidade, que mal temos tempo de comoção. Mesmo o otimismo reencontrado de seu desfecho soa fraco, quase artificial.

Pecando pelo excesso (em citações, personagens e atropelos históricos), “Esses Amores” termina por ser um filme morno. Ao pretender falar de grandes emoções, as coloca como adornos de uma vida de amores do passado com um pouco de esperança no futuro. Quer despertar ou demonstrar paixões, mas estas muitas vezes têm de dar espaço à autocongratulação do diretor, também preocupado em felicitar a si próprio pela obra construída nos anos de carreira. Uma homenagem talvez até merecida, mas que não casou bem com a narrativa e os amores. Nesse caso, a paixão ficou apenas na intenção, com perdão da péssima rima.
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terça-feira, agosto 23, 2011

Workshop Lança Cópia Fiel em DVD


Os críticos Luis Carlos Merten e Oscar D’Ambrosio realizaram workshop gratuito para lançamento de filme de Kiarostami


A partir dessa semana você também poderá ter uma cópia fiel de “Cópia Fiel”, último trabalho do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. O filme chega agora em DVD e para promover seu lançamento, a rede de vídeo locadoras 2001 Vídeo promove um workshop com os críticos Luis Carlos Merten e Oscar D’Ambrósio. O evento ocorrerá amanhã (24) no Espaço Cultural 2001 (Av. Sumaré, 1.744), às 19h30. O tema abordado será: Existe arte original ou tudo já foi criado? As inscrições são gratuitas e para se inscrever basta ligar para o número (11) 3873-2356.

“Cópia Fiel” é um filme que discute e joga com os conceitos de cópia e original na arte. A história mostra um escritor britânico que vai á região da Toscana, na Itália, lançar seu novo livro. Lá conhece uma francesa que vive na região e tem uma galeria de antiguidades. Esse casal, aparentemente estranho entre si, irá travar um longo diálogo. No decorrer do filme esse diálogo mudará de tom, passando do cordial para o debate e finalmente para a provocação explícita e a troca de acusações.

Nesse intervalo, o espectador é também provocado pela mudança no tipo de relação que parece existir entre esse casal, percebendo que talvez não tenham se conhecido naquele dia. Kiarostami exibe um domínio exemplar da narrativa e do jogo de cena, criando nuances intrigantes para o expectador que, capturado pela trama, se vê diante da dúvida. A atriz Juliette Binoche é o grande destaque do filme. Sua interpretação acompanha com exatidão as nuances do roteiro e seu olhar, que guarda na maior parte do tempo uma promessa erótica rica em sutileza, hipnotiza e praticamente conduz a história.
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sexta-feira, agosto 19, 2011

Um Sonho de Amor



Io Sono L’amore
Luca Guadagnino
Itália, 2009
120 min.

Questões como redescoberta de identidade e pertencimento estão implícitas na alma desse novo filme do italiano Luca Guadagnino, que estreia hoje nos cinemas. Por cima dessa alma, derrama-se uma história de amor proibido, de paixão sem amarras, de consequências trágicas. É o cinema italiano com sua força dramática e seu episódio de família que se reergue com a força e a delicadeza que sempre o marcaram.

Tilda Swinton interpreta Emma Recchi, dedicada esposa de um rico industrial, membro de uma tradicional e aristocrática família italiana. Mãe de três filhos adultos, ela preserva uma relação especial com dois deles: Elisabetta (Alba Rohrwacher) e Edoardo (Flavio Parenti). A menina é uma jovem artista plástica que esconde sua opção sexual da maior parte da família (exceto de sua mãe e de seu irmão Edoardo). O rapaz é o primogênito que leva sobre si a responsabilidade do sobrenome Recchi e recebe do avô a missão de comandar a fábrica da família ao lado do pai.

Nascida na Rússia, Emma se incorporou com perfeição à família do marido. Discreta e exemplar, ela demonstra um atento zelo nos cuidados com a casa, com os empregados e com os familiares. Não aspira a nada além disso. Até que surge Antonio, um chefe de cozinha que se tornará o melhor amigo de Edoardo. Ele sonha em abrir um restaurante numa propriedade isolada da cidade, onde poderia servir os pratos que gosta de criar. Convidado a preparar um jantar festivo na casa dos Recchi, seus pratos provocarão em Emma um prazer erótico intenso.

Com muito equilíbrio, o filme ressalta a atmosfera aristocrática familiar, as relações cordiais e protocolares de uma família que se assenta na tradição da fortuna e do sobrenome. Para alguns, essa tradição é sempre um peso a ser carregado, sejam filhos herdeiros ou esposas muito conscientes dessa tradição. 

O desequilíbrio desse quadro de costumes começa com a atração que Emma passará a sentir por Antonio. Essa paixão trará a Emma uma nova condição, uma descoberta de algo adormecido no seu íntimo, preservado talvez em sua ligação com a infância e com a pátria de sua origem.

O diretor Luca Guadagnino constrói seu filme com grande sutileza. Sua fotografia filtra uma luz que ora ressalta a frieza aristocrática da tradição familiar, ora revela a luminosidade erótica do desejo. Sua montagem e trilha sonora criam um jogo de cena insinuante e instigante, com tons de mistério e tensão. A cena em que Emma prova um prato de Antonio com o prazer de um orgasmo contido, a forma como se ilumina seu rosto, como se filma o manuseio do prato, a proximidade da câmera e a promessa inebriante de prazer são de uma beleza erótica rara e delicada.

Nessa relação de paixão proibida, tudo converge para o escândalo e para a tragédia. A comida, nesse caso, está presente como elemento descortinador do pecado. O que inclui o filme também no gênero food film. A revelação, acompanhada da tragédia, descortinará uma Emma que não se percebia amarrada e cerceada de sua verdadeira vocação para a vida e para o amor. Seu último gesto diante do Recchi será operístico, dramático, decidido e corajoso. Numa cena final de suspender a respiração, tomada pela música e finalizada com uma troca de olhares surpreendentemente tocante, o título original do filme se faz claro e poético, como se gritasse em silêncio: eu sou o amor!
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Começa hoje a sétima edição do Cinema Mostra Aids


Programação trás 20 filmes, entre ficção e documentário, abordando o problema da Aids


De hoje, 19, até o dia 25, o Centro Cultural São Paulo e a Galeria Olido exibem os filmes do VII Cinema Mostra Aids. A mostra, organizada pela ONG Grupo Vida/SP com apoio da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, apresenta filmes que tragam uma reflexão sobre o problema da Aids no mundo.

O evento conta este ano com 20 filmes. São obras de ficção e documentários, curtas e longas metragens, em que se humaniza um problema muitas vezes visto apenas como dado estatístico. A proposta é levar a uma discussão sobre esse mal que atinge escala global e vem recebendo pouca atenção da mídia. Conscientizar, propor, debater, esclarecer são pontos fundamentais no combate à Aids.

Dentro da programação, destaca o filme “Dzi Croquetes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, documentário que resgata a história do grupo Dzi Croquetes, que nos anos 70 ousou quebrar tabus. Outro destaque é o filme “Rock Hudson – Belo e Enigmático”, que narra a história do astro de Hollywood, símbolo de virilidade, e do escândalo que foi a descoberta de sua homossexualidade e o diagnóstico do vírus HIV, uma doença até então quase desconhecida do grande público.
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Serviço:
VII Cinema Mostra Aids

Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
Tel.: 3397-4002
Galeria Olido
Av. São João 473
Tel.: 3331-8399
Ingressos: R$ 1,00
Mais informações, acesse: http://www.cinemamostraaids.org.br

quinta-feira, agosto 18, 2011

Onde Está a Felicidade?



Comédia boa é comédia que faz rir. Nesse gênero, o restante é secundário. Mas o secundário não quer dizer desimportante.

No caso de “Onde Está a Felicidade?”, que estreia amanhã (19) nos cinemas, há deslizes graves. Alguns bem difíceis de engolir, como o remendo feito no final do filme para retribuir o patrocínio do Governo do Estado do Piauí. O enxerto é, no mínimo, desagradável. Há outros, menores.

Mas o filme faz rir em boa parte do tempo. Tem algumas cenas muito divertidas e alguns diálogos afiados no humor. Se mostra despretensioso desde o início e isso também é bom. Sem se levar muito a sério convence melhor nos destemperos dos personagens, o que ajuda inclusive a amenizar algumas atuações mais fracas, sem timing para a comédia.

Outras interpretações, no entanto, se destacam. Como a de Marcello Airoldi, que está muito bem no papel, descontando alguns momentos em que fica um tom acima do necessário.

O filme é só diversão. E para quem pagou o ingresso para ter diversão, está de bom tamanho. Pelo menos faz rir. Algo que, por incrível que pareça, cada vez menos acontece em comédias. Para ler a crítica completa do Eu, Cinema, escrita quando o filme foi exibido no Festival de Paulínia, clique aqui.
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segunda-feira, agosto 15, 2011

Homenagem a Ruy Guerra na Cinemateca

Ciclo de filmes do diretor celebra seus 80 anos de vida


Em homenagem aos 80 anos do cineasta Ruy Guerra, a Cinemateca Brasileira exibirá, de 16 a 25 de agosto, um ciclo de filmes do diretor. Nascido em Moçambique, em 1931, Ruy Guerra é responsável por algumas obras fundamentais do cinema brasileiro.

Realizador de um cinema engajado em questões políticas e sociais, sua obra-prima “Os Fuzis” (1963) foi premiada com o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1964. O filme conta a história de uma cidade no interior da Bahia que recebe um grupo de soldados encarregado de proteger os armazéns locais de saques realizados pela população faminta.


Um ano antes, Ruy Guerra já havia provocado grande polêmica ao exibir o primeiro nu frontal do cinema nacional. Foi em “Os Cafajestes” (1962), filme no qual um playboy mimado e rico planeja chantagear um tio com fotos comprometedoras. A atriz Norma Bengel protagoniza a cena de nu que escandalizou os conservadores da época, gerando protestos da igreja. Esse foi o filme que consagrou o ator Jece Valadão e o marcou pelo resto da carreira com a persona de machão rude.

Também serão exibidos no ciclo os filmes “Ópera do Malandro” (1986), baseada na peça teatral que o diretor escreveu em parceria com Chico Buarque, “O Veneno da Madrugada” (2004), baseado no livro “La Mala Hora”, do colombiano Gabriel García Márques, e “Estorvo” (1998), baseado no livro homônimo do Chico Buarque.

“Kuarup” (1989) e “Os Deuses e os Mortos” (1970), completam a programação. Os ingressos para as sessões custam R$ 8,00 (inteira) e R$ 4,00 (meia-entrada).
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Serviço:
Ruy Guerra 80 Anos
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
Tel.: (11) 3512-6111 (ramal 215)
Mais informações, acesse: www.cinemateca.gov.br 

sábado, agosto 13, 2011

A Árvore de Vida



The Tree of Life
Terrence Malick
EUA, 2011
139 min.

Logo após assistir a “A Árvore de Vida”, novo filme de Terrence Malick que estreou neste final de semana, você saberá que não acabou simplesmente de ver um filme, mas sim que acabou de passar por uma experiência sensorial. Ter gostado ou não, ter entendido ou não, ter cochilado no meio ou não, fica a critério e disposição de cada um. O cinema de Terrence Malick não é feito de concordâncias e assentimentos de opiniões. De genial a vazio, de obras-primas a embustes, tudo é discordância na análise de seus filmes. Há quem ame, há quem deteste, há quem não se arrisque.


Risco é a palavra-chave na tentativa de qualquer leitura de “A Árvore da Vida”. Da beleza perfeccionista de cada plano (em luz, tonalidades das cores, trilha sonora, sussurros e imaterialidade do tempo e do espaço) até a ausência de uma narrativa convencional, pairando entre a memória, a incompreensão do universo e o significado da vida retido nas palavras Pai, Mãe, Irmão, o filme parece abarcar tanto de uma filosofia, de uma busca de respostas filosóficas ou divinas que facilmente pode ser encarado como grande nada. Como um vazio de sentido obliterado pelas imagens cadentes.

Um telegrama com a morte de um filho, o desencadeamento da dor, da perda. O irmão mais velho dessa família que perdeu um filho, e ele um irmão, décadas depois, entre o vazio dos prédios modernos, a angústia de uma vida que aparentemente não o leva a nada, a lembrança da infância com os irmãos em um subúrbio de uma cidade Texana nos anos 50. A mãe que derrama sobre eles um amor de sublime luz e divino sorriso, o pai que quer forjá-los a ferro e fogo para a vida com a qual ele se decepciona. Os atritos, a felicidade simples, o ódio, o amor e sensação de falta de respostas para sentimentos imperfeitos. Entre isso, o universo. O Big Bang, o surgimento das galáxias, as eras de formação da Terra, o surgimento a vida, desde os seres microscópicos até os dinossauros. Deus.


Tudo isso se desenha entre o onírico da busca por respostas, os sentimentos em busca de sentido e a nostalgia, ora doce, ora amarga, de uma infância comum. Isso é tudo. Para alguns, pode ser nada.


Este filme de Malick trás algo de novo em relação a seus filmes anteriores. Há evidências de fatos autobiográficos, como a infância no Texas, a primogenitura, o irmão morto aos 19 anos. Mas o filme abrange uma dimensão tão ampla de interpretações, que mesmo isso é pouco para uma leitura.

A mim, depois de vê-lo, senti-me satisfeito. Acredito que grandes obras do cinema não precisam de explicação e que gostar de um filme sem saber porquê se gosta é algo que precisamos apreciar. Como disse Pedro Butcher, precisamos reaprender a sair do cinema confusos, sem que isso seja um desconforto ou um fato negativo para o filme.

“A Árvore da Vida” tem esse efeito. Divaga pelo espírito humano, pela busca do divino, pelas perguntas sem respostas, como uma filosofia que vai da afetação macrocósmica ao minimalismo da existência humana. Não se revela nunca de forma clara. Pode até não querer dizer nada, mas o faz com uma rara beleza metafísica e desconcertante.

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sexta-feira, agosto 12, 2011

Balada do Amor e do Ódio



 Balada Triste de Trompeta
Álex de la Iglesia
Espanha/França, 2010
107 min.

Existe algo que vai além do bizarro nas primeiras cenas de “Balada do Amor e do Ódio”, que estreia hoje (12) nos cinemas. Há ali um tom de sublime e grotesco, uma representação feroz de alguma coisa que ainda nos escapa e que só ficará claro muito adiante. A imagem de um palhaço, com vestido e peruca de menina, com sapatos grandes e tudo, em meio a uma batalha sangrenta, empunhando um facão e desferindo golpes mortais nos inimigos não é algo que se assimile com facilidade. O que vem adiante é muito pior e muito mais revelador.

Passado na Espanha, a história começa em 1937. Guerra Civil no país. Em um circo, os palhaços se apresentam. Uma tropa leal à república invade o lugar e conclama todos a lutarem contra os rebeldes. Antes mesmo que pudesse trocar de roupa, o palhaço se vê em plena batalha. Derrotados diante das forças do general fascista Francisco Franco, os sobrevivente são aprisionados. Javier (Sasha Di Bendetto), filho do palhaço, o visita. Diz que quer ser palhaço como o pai, quando crescer.

A história dá saltos no tempo. A um Javier (Jorge Clemente) já quase adulto, o velho palhaço diz que ele, seu filho, nunca conseguirá fazer as crianças rirem, pois sua infância foi de dor e sofrimento. Ele terá que ser o palhaço triste. A não ser que busque vingança pela infância roubada.

Salto no tempo, 1973. Javier (Carlos Areces), já adulto, entra para o circo como o palhaço triste. No circo, a ditadura é do palhaço feliz Sergio (Antonio de La Torre), que, de forma violenta, manda no circo mais que o próprio dono. Ele tem o dom de encantar as crianças e fazê-las rir, rir muito. Mas é cruel e tirânico com todos ao redor. Vive com a trapezista Natalia (Carolina Bang, linda de tirar o fôlego), a quem maltrata frequentemente, numa relação doentia de amor e ódio. Javier é o oposto, é a doçura em pessoa. Numa noite, no bar após o espetáculo, Javier é o único a não rir da piada de Sergio. Ao contestar a graça da piada, dispara sua violência.

Mas as coisas fogem totalmente ao controle quando Javier se apaixona por Natalia e ela, atraída pelo perigo, se sente dividida entre a segurança e o carinho de um e a força dominadora e sexual do outro. O conflito entre os dois palhaços iniciará uma onda de violência de parte a parte, até que o cordato e pacífico Javier, o palhaço triste, se veja completamente transformado. Primeiro num selvagem, depois num monstro assassino.

O registro usado pelo diretor Alex de la Iglesia é de imagens que flertam com o fantástico, em tons muitas vezes oníricos, mas com uma frieza de cores que remete aos tempos sombrios em que vivem os personagens. Conhecido por sua estética violenta e pelo exagero, o diretor conduz a história por caminhos cada vez mais grotescos e absurdos, distante de qualquer realismo, como devem ser as boas fábulas. Pois só depois de compreender o princípio fabular do filme é que a aparente falta de sentido e coerência adquire um propósito pleno, agudo e corrosivo.

“Balada do Amor e do Ódio” é uma visceral e sangrenta alegoria da Espanha pós-guerra civil, quando a ditadura do general Franco permaneceu no poder de 1939 até sua morte, em 1975. Toda a brutalidade, e muitas vezes o disparate absurdo, que se vê no filme é um reflexo alegórico de um período sombrio e traumático da história do país. É a visão estilizada do diretor do tipo de horror, paixão violenta e insanidade política pela qual passou o país.

Estão presentes no filme os símbolos que marcaram esse período atroz, como a questão católica, o poder, a submissão a o poder, a revolta contra esse poder e a escalada da violência, que a certa altura perde seu sentido original e se transforma numa pantomima rica em brutalidade e pobre de significado. É nesse ponto que a desfiguração dos rostos dos dois palhaços simboliza a perda de identidade e de qualquer ideal, igualando-os pela violência, insanidade e ódio.

No final, a tragédia inevitável resulta na morte de qualquer possibilidade. É a perda irreparável de algo sublime pelo qual se lutou no início e que foi esquecido em meio a tanto ódio e desejo de vingança. Do amor, que era sincero em ambas as partes, ainda que diferente na forma e no trato, criou-se o ódio e a violência sem sentido. Quando tudo termina, resta o sangue na cruz imensa e onipresente do catolicismo, tão determinante nos rumos da nação. É o mesmo sangue que manchou e desfigurou essa nação. Aos perpetradores desse sangue derramado, ao fim da história, só resta o choro convulso e a culpa inalienável.
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quinta-feira, agosto 11, 2011

Dylan Dog e as Criaturas da Noite



Dylan Dog: Dead of Night
Kevin Munroe
EUA, 2010
107 min.

Baseado em uma inteligente, original e longeva série de quadrinhos italianos, “Dylan Dog e as Criaturas da Noite”, que estreia nesta sexta (12), é constrangedoramente ruim. Não apenas pela distância que parece manter dos quadrinhos originais de reconhecida qualidade, mas também como objeto isolado.

Na história, Dylan Dog (Brandon routh) é um detetive que investigava crimes cometidos por criaturas sobrenaturais, como vampiros, lobisomens e mortos-vivos. Atuando no submudo dessas criaturas, que vivem entre nós sob disfarces de “normalidade”, Dylan é uma espécie de xerife desse mundo. Mas ele se aposentou, depois de perder alguém especial e se vingar de forma implacável. Contudo, terá de voltar à ativa quando, depois de algumas mortes, percebe que uma trama sombria pode levar a uma guerra entre as criaturas.

Ao lado do parceiro Marcus (Sam Huntington), começa uma investigação. Para obter informações, visita algumas pessoas influentes e bem informadas do submundo dos monstros. Enquanto tenta montar o quebra-cabeça de uma conspiração para dominar todas as criaturas, enfrenta algumas.

O filme é uma sequencia de cenas de investigação, no estilo detetive, com narração em off do investigador e figuras do submundo da noite. A tentativa de parecer um filme noir não passa de uma emulação clichê. Brandon Routh é incapaz de parecer alguém durão o suficiente para o trabalho que excuta.

O roteiro é feito de remendo em remendo, levando a história adiante sem grandes dificuldades para além de uma surra aqui e outra ali. Nesses confrontos, raramente Dylan parece ser alguém pronto para o trabalho sujo, mais apanhando que batendo. Mesmo assim, nunca parece correr perigo de verdade. As pistas que coleciona e as explicações que encontra não são fruto de dedução, mas uma série de explicações dadas por personagens secundários de forma vergonhosamente didática. Tudo muito fácil.

Contudo, o que mais impressiona no filme é a atuação de Brandon Routh. Ele está simplesmente péssimo. Não que já tenha estado bem em algum outro filme, mas dessa vez ele parece o mais raso dos atores em atividade em Hollywood. Sua interpretação é tão destituída de qualquer nuance de expressão ou gestual, que chega a ser constrangedor. Ao longo do filme ele desfila uma meia-dúzia de olhares e feições que em momento algum condizem com a situação do momento. Não dá nem para dizer que está atuando no piloto automático. Simplesmente não está atuando, no máximo dizendo suas falas enquanto pensa em outra coisa.

Contribui para o péssimo filme uma produção vergonhosa em termos de maquiagem e efeitos especiais, além de um desfecho casual e sem emoção. A sequência que deveria ser o clímax do filme acaba se resolvendo de forma sucinta sem nenhum desafio para o protagonista.

“Dylan Dog e as Criaturas da Noite” fica entre os piores filmes do ano. Uma história esvaziada de qualquer emoção ou aventura, uma trama mal trabalhada e infantil, uma atuação de causar vergonha. Diante dos excelentes quadrinhos em que foi inspirado, um filme para ser esquecido.
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quarta-feira, agosto 10, 2011

Tudo Estará Bem




Alting Bliver Godt Igen
Christoffer Boe
Dinamarca/Suécia/França, 2010
98 min.

O diretor dinamarquês Christoffer Boe, que em 2003 venceu o Camera D’or do Festival de Cannes (que premia diretores iniciantes) com o drama “Reconstrução de um Amor”, investe agora num thriller psicológico de paranoia e perseguição. O filme entra e cartaz na próxima sexta (12), no Rio de Janeiro.

Jacob Falk (Jens Albinus) é um roteirista de cinema que não está conseguindo escrever. Sofrendo forte pressão do estúdio para cumprir um prazo que se esgota, sente-se profundamente angustiado. Casado, sofre ainda a cobrança da esposa para que consiga os papeis para a adoção de uma criança, sonho antigo do casal, muito perto de se realizar.

Em uma trama paralela, conhecemos o jovem dinamarquês Ali (Igor Radosavljevic) um descendente de árabes que foi convidado pelas forças armadas da Dinamarca para servir de intérprete no Iraque. Ao voltar do serviço militar trás consigo, escondido na bagagem, fotos de prisioneiros de guerra sendo torturados por oficiais dinamarqueses. Vigiado por homens do governo, tenta não ser pego com as fotos.

Um acidente fará com que Ali e Jacob se cruzem de maneira inesperada e Jacob acabará ficando com as fotos. Começa aí a paranoia do roteirista que, ao tentar divulgar as fotos pela imprensa, suspeitará de uma grande rede conspiratória para impedi-lo. Temendo por sua vida e pela vida da esposa, ele passa a suspeitar de todos ao seu redor.

O filme segue a cartilha do gênero para filmes de paranoia conspiratória, quando é preciso alcançar basicamente dois efeitos para que seja eficiente: deixar o expectador inseguro quanto ao que é real e o que pode ser paranoia nas suspeitas do personagem; e criar uma atmosfera de perigo iminente o tempo todo.

Na condução da trama, Boe consegue realizar muito bem o primeiro efeito. Envolver-se em uma trama conspiratória, escrever às pressas um roteiro de filme e ainda adotar uma criança, resulta em uma mistura estressante e sufocante para a vida do personagem. Sob tanta pressão, tudo pode se confundir na percepção que Jacob passa a ter da realidade e com isso o expectador sente-se inseguro em identificar o que é real e o que é paranoia do personagem. Não há certezas e nessa atmosfera o filme funciona bem.

Contudo, o filme falha muito na construção do segundo efeito, o de perigo iminente. Não se tem, em momento algum, a sensação de perigo real para Jacob, que mais parece fugir de si mesmo e de seus conflitos. A trama e o suspense não são suficientes para nos deixar tensos com a possibilidade de perigo, embora ele exista no contexto da trama. Esse ponto fraco desequilibra o filme e o deixa morno, apesar das incertezas que o roteiro cria. Essas incertezas não são suficientes para nos manter tensos, como dita a regra do gênero.

O resultado final é uma promessa de suspense e tensão ensaiada no início do filme que não se cumpre no seu desenrolar. A coisa fica pior quando finamente temos a revelação do que realmente está acontecendo. Para isso, o filme usa o recurso desgastado do flashback explicativo. Artifício tido como muleta narrativa por si só, nesse caso há ainda o agravante de sua duração muito longa, quebrando completamente o ritmo do filme e fazendo seu desfecho ser menos intenso que seu início. Falta ao filme criatividade e timing narrativo para realizar com competência o que se propõe: uma trama de suspense e tensão. Fica no meio do caminho.
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Festival de Cinema Turco



Só podemos falar do que conhecemos. E nos dias de hoje, não é difícil conhecer as coisas. Sempre me irrito quando algum desavisado vem me dizer que o cinema nacional não presta ou que filme iraniano é tudo chato. São estereótipos de cinematografias sustentados pela ignorância no assunto.

A pergunta que não faço, para evitar desdobramentos desnecessários sobre um assunto de menor relevância na vida de qualquer pessoa, é: quantos filmes iranianos você assistiu nos últimos anos? Quantos filmes nacionais (não valem as globochanchadas) você viu nos últimos anos? Nada me irrita mais que o senso comum propagando desinformação. Sim, há filmes nacionais ruins. Sim, há filmes iranianos muito chatos. Mas para dizer isso é preciso ver uma boa meia-dúzia deles antes.

E o cinema turco?  O que você acha do cinema turco? Antes de torcer nariz e lançar aquela sentença desfavorável (como vem acontecendo com a justiça (!?) brasileira no caso “A Serbian Film”), ou se esconder atrás da desculpa de que é difícil conseguir ver um filme turco, saiba que agora dá.

De hoje até o dia 18 de agosto, acontece no Centro Cultural São Paulo o Festival de Cinema Turco. Serão 12 filmes inéditos, entre clássicos dos anos 70 e 80 e produções contemporâneas. Os ingressos custam R$ 1,00. Acabam-se as desculpas. A não ser que seja mais cômodo revirar os olhinhos de descrédito quando ouvir alguém dizendo que assistiu um filme turco muito legal.
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Serviço:
Festival de Cinema Turco
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
(ao lado da estação Vergueiro do metro)
Tel.:3397-4002
Mais informações, acesse: http://www.centrocultural.sp.gov.br

terça-feira, agosto 09, 2011

Saturno em Oposição



Saturno Contro
Ferzan Ozpetek
Itália/França/Turquia, 2007
110 min.

O domínio do tempo da narrativa é o grande destaque neste filme de Ferzan Ozpetek. Com uma simplicidade de gestos breves, em meio ao tempo de transições e conflitos, os sentimentos se transformam e o modo como se conduz essa transformação trás uma rica beleza de vida, tempo e passagem.

O filme abre com a narração de Lorenzo (Luca Argentero), jovem e belo arquiteto, falando da felicidade que sente de receber os amigos em sua casa, de como gostaria que aquilo nunca mudasse, mas tem a certeza de que na vida nada é para sempre. Lorenzo vive com Davide (Pierfrancesco Favino), um bem sucedido escritor e editor de livros. São um casal apaixonado, parte de um círculo de amigos de muitos anos.

Entre os amigos, há o casal Angélica (Margherita  Buy) e Antonio (Stefano Accorsi), que enfrentarão em breve uma crise no casamento, há o casal Neval (Serra Yilmaz) e Roberto (Filippo Timi), ela falastrona e de personalidade, ele submisso e cordato. E também a jovem Roberta (Ambra Angiolini), consumidora moderada de drogas variadas com problemas emocionais, além de Sergio, solteiro, próximo da meia idade, ex-namorado de Davide, também editor de livros.

É a relação desse grupo diverso e a forma como atravessarão os estágios emocionais a que o filme os levará, a real substância dessa narrativa de Ozpetek. Ao longo do filme, passarão todos pela felicidade, tristeza, perda, luto e restituição das coisas. Nesse processo, haverá crises, discussões, silêncios e as dificuldades de se lidar com a morte, com o arranjo das coisas, com temas delicados e explicações dolorosas.

Na construção dessa narrativa, o diretor demonstra uma habilidade surpreendente em conduzir as emoções e os personagens sem grandes alardes. Seu trabalho é de gestos pequenos, de momentos em que o quadro diz sem precisar dizer, quando tudo se explica pelo silêncio e pelo andamento do tempo. É na condução desse tempo, na perfeita sintonia da transição entre os momentos emocionais do filme, que Ozpetek demonstra um incrível domínio da fluidez acertada, cadenciada, quase musical do tempo narrativo.

As passagens suaves, a expressão dos sentimentos pelos olhares, os movimentos de câmera. Tudo carrega sua carga de emoção e andamento, tudo indica a transformação do íntimo de todos; a dor, o ressentimento, a ausência e a força ou fraqueza em cada personagem. Seu andamento é como música, mas com trilha sonora mínima, um andamento feito de domínio e perfeição. E é nessa cadeia de complexos sentimentos, parte de um círculo de amizade renitente, que se refaz, dos cacos do sofrimento e da perda, a restituição da alegria. Se não para sempre, já que nada dura tanto, ao menos pelo tempo que o tempo permitir durar.

“Saturno em Oposição” é um filme sobre a vida, o tempo e a amizade. Sobre sentimentos impossíveis de serem expressos, apesar de estarem à flor da pele. É uma obra que desliza diante de nossos olhos, levando em sua passagem os sentimentos duros e suaves que a vida nos impõe ou proporciona. Uma história na qual a beleza não está no que se vê de imediato, mas no que se viu enquanto o tempo passava.
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domingo, agosto 07, 2011

Quero Matar Meu Chefe


Horrible Bosses
Seth Gordon
EUA, 2011
98 min.

Invertendo a fórmula mais comum em Hollywood, “Quero Matar Meu Chefe” é um filme que tinha tudo para ser ruim, mas é na verdade uma divertida boa surpresa. Não apenas porque evita o besteirol, mas porque investe em atuações de qualidade, especialmente no elenco de apoio, composto por astros do primeiro time. Uma combinação que dá muito certo, aliada a um roteiro bem arrumado.

A história é sobre três amigos - Nick (Jason Bateman), Dale (Charlie Day) e Kurt (Jason Sudeikis) - que têm chefes horríveis em seus respectivos empregos. Esse é o primeiro grande trunfo do filme. Afinal, quem nunca teve um chefe infernando sua vida?

Nick é um executivo que almeja a vice-presidência da empresa, para consegui-la, se sujeita ao sadismo de seu chefe, interpretado por Kevin Spacey, que faz de tudo para humilhá-lo, como obrigá-lo a beber uma dose dupla de uísque às oito da manhã.

Kurt tem de lidar com um chefe cretino, viciado em cocaína, preconceituoso e paranoico, interpretado por Colin Farrel, que usa um combover (estratégia de ocultar a calvice com os cabelos que restam, exemplo famoso: Donald Trump) assustadoramente feio. Ele quer demitir vários funcionários apenas porque não gosta de gordos e deficientes.

Já Dale parece ter o menor dos problemas com sua chefe, interpretada por Jennifer Aniston, uma ninfomaníaca que o assedia ostensivamente. Acontece que Dale está noivo e não quer trair a namorada. Diante de sua recusa, sua chefe parte para a chantagem.

Fazendo divertidas referências ao clássico de Hitchcock “Pacto Sinistro” (1951) e também ao ótimo “Jogue a Mamãe do Trem” (de 1987, também este uma paródia de Pacto Sinistro), a trama vai levar os amigos a pensarem seriamente em assassinar seus chefes. Mas como nenhum deles tem experiência no assunto, vão atrás de um profissional e acabam caindo nos truques de “Motherfucker Jones”, numa ótima participação de Jamie Foxx. É quando, assessorados por Jones, têm a brilhante ideia de cada um matar o chefe do outro.

Mesmo sem qualquer preocupação com o politicamente correto, o filme consegue ser engraçado sem apelar para o constrangimento de gosto duvidoso. As piadas funcionam muito bem, graças ao ótimo desempenho do elenco de apoio. Não menos cômico está o elenco principal, especialmente Charlie Day, nos momentos em que fica “doidão”.

O roteiro consegue segurar a trama, amarrando de forma bastante boa o andamento da história e as confusões que matar algumas pessoas pode trazer. Não cai nas facilidades do gênero e trás reviravoltas muito engraçadas, para complicar ainda mais a vida dos desastrados matadores de chefe.

Um filme onde tudo funciona bem e faz rir, coisa rara nas comédias atuais, por mais paradoxal que isso possa parecer. A verdade é que esse gênero está infestado pelo óbvio desgastado ou pelo escatológico absolutamente sem graça. Uma comédia autêntica como essa, que não precisa do viés romântico para fazer complemento, é uma ótima surpresa no cinema comercial de hoje em dia. Vá ver e ria muito.
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