quinta-feira, julho 14, 2011

O Explosivo Cinema Coreano em Mostra do CCSP

Ação, violência, enfrentamentos internos e vingança são temas comuns nos filmes coreanos que o Centro Cultural São Paulo exibe a partir de amanhã.


“Coreia, cinema explosivo: o thriller de vingança” é o título da mostra de cinema coreano que começa amanhã (15) e segue até o dia 30 em São Paulo. Pelo segundo ano consecutivo, a parceria entre o Centro Cultural São Paulo e o Consulado da Coreia do Sul apresenta uma seleção de filmes coreanos ainda inéditos por aqui. A mostra exibe também uma retrospectiva do diretor Park Chan-wook, vencedor do prêmio especial do júri em Cannes 2004, com seu filme “Old Boy”.

O cinema produzido na Coreia do Sul nas últimas décadas tem chamado a atenção no mundo todo. Há nele uma estética, uma narrativa e uma pulsação como poucas vezes se viu. Essa nova geração de cineastas dá bilheteria, amealha prêmios pelo mundo e arrebata fãs ávidos por um cinema que não dispensa influências dos filmes de ação de Hollywood, mas que também bebe da fonte de cinematografias mais densas como a francesa e japonesa.

Entre os destaques da mostra, está o elogiado “Mother – A Busca Pela Verdade”, do diretor Joon-ho Bong, que narra o drama de uma mãe que vê seu filho acusado de assassinar uma garota e que para provar sua inocência está disposta a tudo. Outro destaque é a retrospectiva do diretor Park Chan-wook, que entre outros filmes exibe o intenso e vampiresco “Sede de Sangue”, alem da trilogia da vingança, composta pelos filmes “Simpatia pelo Sr. Vingança”, "Old Boy” e “Lady Vingança”.
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Serviço:
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso
(ao lado da Estação Vergueiro do Metro)
Ingressos: R$ 1,00
Tel: 3397-4002
Mais informações, acesse: http://www.centrocultural.sp.gov.br

terça-feira, julho 12, 2011

Onde Está a Felicidade?



Onde Está a Felicidade?
Carlos Alberto Riccelli
Brasil/Espanha, 2011
110 min.

A plateia riu. Muito. Aplaudiu duas vezes em cena aberta e com entusiasmo no final. A se levar em conta o gosto do grande público, “Onde Está a Felicidade?”, de Carlos Alberto Riccelli, exibido no Festival de Cinema de Paulínia, vai fazer sucesso. Tem potencial para isso, como se comprovou pela reação do público, termômetro mais que qualificado.

Quanto a mim, ri menos. Mas ri. Nas safras recentes de comédias nacionais, poucas conseguem isso. Fazer rir. Quando um filme se propõe como comédia leve e consegue ser comédia leve, já é alguma coisa.

Na trama, Teodora (Bruna Lombardi) é uma apresentadora de um programa de culinária afrodisíaca. É casada com Nando (Bruno Garcia), que também trabalha na televisão, em um programa sobre futebol no estilo “mesa redonda”. Ela não está feliz. Seu casamento não vai bem e seu emprego está ameaçado. Quando descobre que o marido tem um caso virtual e que seu programa sairá do ar porque a emissora foi vendida, perde o rumo. Confusa, quer se reencontrar espiritualmente. Decide ir para a Espanha, percorrer a pé os quase 800km do Caminho de Santiago de Compostela.

Com ela vai Zeca (Marcelo Airoldi), seu diretor no antigo programa, também demitido e empolgado com a ideia de gravar a peregrinação e transformá-la em um programa de TV. Aos dois, junta-se Milena (a atriz espanhola Marta Larralde), uma jovem atrapalhada disposta a fazer a peregrinação. Enquanto isso, no Brasil, Nando curte a dor de cotovelo pela ausência da esposa, desabafando com seus colegas de trabalho.

“Onde Está a Felicidade?”, que estreia nos cinemas dia 19 de agosto, é o terceiro filme em que Carlos Alberto Riccelli trabalha com a esposa Bruna Lombardi. Sempre no mesmo formato: ele na direção, ela como roteirista e atriz. O primeiro filme nesse formato, “Stress, Orgasms and Salvation”, de 2005, é uma comédia filmada na Califórnia, mas que nunca foi lançado no Brasil. De 2007 vem “O Signo da Cidade”, um drama no qual os destinos de vários personagens se cruzam na cidade de São Paulo.

Agora, com “Onde Está a Felicidade?”, Bruna e Riccelli retornam à comédia. O filme é pintado em cores fortes, especialmente nos cenários e nos trajes de Teodora e Milena. A referência é clara aos primeiros filmes de Pedro Almodóvar. Mas fica por aí a semelhança. O humor construído no filme de Riccelli e Bruna é bem menos ácido, contestador ou transgressor. Mas é um humor que, entre clichês, piadas fáceis e estereótipos, funciona bem.

Pontos altos do filme são os diálogos machistas entre Nando e os amigos do trabalho. Embora sigam a linha clichê machista, são bem escritos e o elenco de apoio tem ótimo time para esse tipo de humor. Para dar equilíbrio, as trapalhadas de Teodora, Milena e Zeca, deve agradar mais ás mulheres. Outro destaque que brilha no filme é o ator Marcelo Airoldi, no papel de um neurastênico diretor de TV. Apesar de em alguns momentos subir um pouco demais o tom caricato, sua atuação quase sempre rouba a cena, comprovando ser ele um dos grandes talentos de nosso teatro.

O filme tem alguns deslizes, especialmente de roteiro, que é o calcanhar de Aquiles de toda comédia romântica. Amarrar o final da história de forma convincente depois de tanta comédia é sempre difícil. No caso de “Onde Está a Felicidade?”, há ainda o agravante de alguns compromissos contratuais do filme. Como, por exemplo, o patrocínio que tiveram do Estado do Piauí. Certamente, para cumprir contrato, o filme tem o seu final em uma “excursão” ao estado, algo que ficou completamente fora de sintonia com o filme, chegando a ser constrangedor o tom “informe publicitário” que as últimas cenas tem.

No geral, este novo trabalho de Riccelli e Bruna tem um grande potencial de público. É comédia que tem graça, o que, como já disse, está ficando raro no cinema nacional. Tem a grande vantagem e franqueza de não se propor a mais que isso: ser comédia. Dentro dessa perspectiva é bom filme, suficiente para minimizar os equívocos e fazer o público sair do cinema satisfeito.
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segunda-feira, julho 11, 2011

Começa o 6º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo

Com mais de cem filmes e entrada gratuita, festival será exibido em oito salas espalhadas pela cidade.


Começa nesta terça-feira (12) e segue até o dia 17 a sexta edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Durante o evento, serão apresentados mais de cem filmes entre os programas de mostra contemporânea, mostras de homenagens, especiais, diversidades e documentários para TV.

Os filmes serão exibidos na sede do festival, que fica no Memorial da América Latina, próximo ao Terminal Barra Funda do Metro e em outras seis salas espalhadas pela cidade. Todas as sessões são gratuitas.

Além das duas salas do Memorial da América Latina, também será possível assistir à programação no Cinesesc, Galeria Olido, Centro Cultural São Paulo, Cinemateca Brasileira, Cinusp e Espaço Unibanco de Cinema.

O festival, que nasceu em 2006 com o intuito de promover, através do cinema, um diálogo cultural mais próximo entre o Brasil e os países latino-americanos, trás em sua mostra contemporânea um panorama da produção cinematográfica que se realiza nesses países.


Especiais

Como não só de mostra contemporânea se faz um festival, a programação desse ano realiza algumas mostras especiais e as tradicionais homenagens.

Entre as especiais, destaque para a Mostra Novo Cinema Argentino, que faz um breve retrospecto de 11 filmes realizados entre 1995 e 2008 na Argentina. Nomes fundamentais desse cinema como Lucrecia Martel, Pablo Trapero e Daniel Burman terão algumas de suas obras exibidas.

Outro destaque importante é a mostra “Soy Loca Por Tí América”, seção dedicada á diversidade sexual e que será permanente, trazendo para o Memorial filmes que abordam o universo e a nova formatação da família sob o aspecto da diversidade sexual.


Homenagens

Nas homenagens, o tributo internacional será para o escritor colombiano e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márques. Já a cortesia nacional será para o diretor e roteirista baiano Orlando Senna.

“Gabo”, como é carinhosamente chamado o escritor colombiano, terá exibido no festival seu único trabalho de direção cinematográfica, o curta-metragem de rara circulação “A Lagosta Azul”, de 1954. Também constam na programação filmes com roteiro de sua autoria, como “A Viúva de Montiel”, de Miguel Littín (1979), “Erêndia”, de Ruy Guerra (1983) e “Ninguém Escreve ao Coronel”, de Arturo Ripstein (1999).

De Orlando Senna, será exibido o clássico do cinema nacional dirigido por ele, em parceria com Jorge Bodanzky, “Iracema, Uma Trans Amazônica” (1976), além de filmes em que foi roteirista como “O Rei da Noite”, de Hector Babenco (1975) e “Coronel Delmiro Gouvea”, de Geraldo Sarno (1979).

Também faz parte da programação do festival uma série de debates e encontros com cineastas e roteiristas abertos ao público. Para maiores informações acesse: http://www.festlatinosp.com.br
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Serviço:
6º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo
De 12 a 17 de julho de 2011 

Exibições:
Memorial da América Latina
Av Auro S. de Moura Andrade 664, Barra Funda
Fone: (11) 3823-4608

Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro 1000, Paraíso
Fone: (11) 3397-4002

Cinesesc
Rua Augusta 2075, Cerqueira Cesar
Fone: (11) 3087-0500 

Cine Olido
Av São João 473, Centro
Fone: (11) 3331-8399

Cinusp Paulo Emílio
Rua do Anfiteatro 181 favo 4, Cidade Universitária
Fone: (11) 3091-3540

Espaço Unibanco de Cinema
 Rua Augusta 1475, Consolação
Fone: (11) 3288-6780

Sala Cinemateca
Largo Senador Raul Cardoso 207, Vila Clementino
Fone: (11) 3512-6111 ramal: 215

Breviário da Semana Nº 06

Um semanário muito breve


Numa noite de insônia na semana passada, acabei colocando Taxi Driver, de Marton Scorsese (1976), para rolar no DVD. Não via o filme há cerca de dez anos. Grandes obras são isso, não perdem a força. O filme de Scorsese é uma tensão permanente. A paranoia, obsessiva e desajustada de Travis (Robert De Niro) o torna imprevisível e assustador, mas, de uma maneira muito complexa e sutil, nos permite sentir uma leve empatia pelo personagem. E De Niro está simplesmente perfeito no papel.

Montgomery Clift como o padre de A Tortura do Silêncio
Fui ver Transformers 3 – O Outro Lado da Lua no cinema. Não cheguei a ver o segundo filme da franquia, que dizem ser muito ruim. Da primeira aventura, tenho boa impressão, especialmente pela capacidade técnica do filme em combinar animação digital e cenários supostamente reais. A ação era boa. E só. Neste terceiro filme, a decepção (já mais que esperada) foi grande. Tecnicamente, o filme continua bom, mas algo já não me convence naqueles efeitos de transformação. O roteiro, claro, é digno de ser esquecido. Tinha a impressão que todo o tempo o filme dizia na minha cara que me achava um idiota, por tentar me fazer crer naquela história rocambolesca. Agrava ainda o fato de o filme se arrastar na maior parte com histórias e mais histórias para justificar toda bobagem. Só engrena no final e, como muito bem disse meu amigo Ronaldo Júnior, no final já é final. Bobo demais esse filme

Bruna Lombardi chora as mágoas do casamento
Na mostra Hitchcock, vi A Tortura do Silêncio, de 1954. Uma trama muito bem engendrada de assassinato, falso culpado e renitência abnegada. No filme, um padre é o principal suspeito de um assassinato. Ele sabe quem é o assassino, mas não pode revelar seu nome pelo segredo da confissão católica. Para piorar, não pode apresentar um álibi da noite do crime por risco de comprometer a honra de uma mulher casada. Ele aceita todos os infortúnios tenazmente até o desfecho final, que é comovente e cheios de simbolismos espirituais sobre a alma.

Como lição de casa, tive que ver O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli (2007). Roteirizado e protagonizado por Bruna Lombardi, o filme, de tom claramente exotérico, mostra como diferentes personagens, dramas e tragédias se cruzam pela cidade de São Paulo, como destinos cruzados. O filme tem um ritmo irregular e não dá tempo para que os personagens se desenvolvam a ponto de criar alguma empatia com o expectador. A música, as imagens e as histórias tentam nos emocionar, mas soam um tanto artificiais por falta de substância dramática ou constitutiva. Para piorar, o filme se arrasta para além de onde deveria terminar.

Robert De Niro como o psicótico Travis
Convidado pela assessoria e produção da Onde Está a Felicidade?, (também uma parceria de direção de Carlos Alberto Riccelli com o roteiro e a atuação de Bruna Lombardi) para ver o filme em sua exibição em concurso no Festival de Cinema de Paulínia, encarei as duas horas de viagem até a cidade, em ônibus fretado pela patrocinadora Telefônica. O filme é divertido, o público que lotou o Teatro Municial de Paulínia gostou (e riu mais do que eu). Talvez por não se levar a sério demais, o filme tem a qualidade de encaixar algumas boas piadas. A atuação de Marcello Airoldi, apesar de em alguns momentos ficar um ou dois tons acima do afinamento, é muito boa no geral, com momentos excelentes. Bruna Garcia mantém seu padrão de comédia. No geral, é um filme com bom potencial de público, quando estrear em 19 de agosto. Em breve, escrevo a crítica completa.
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sexta-feira, julho 08, 2011

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres



Gainsbourg (Vie Héroïque)
Joann Sfar
França, 2010
130 min. 

Não espere neste filme uma linearidade clássica ou um realismo de verdades, daquelas cheias de ressentimento. A cinebiografia do polêmico e provocador artista francês Serge Gainsbourg, que estreia nesta sexta (08), é um filme encharcado de fantasia, elipses e música.

Estreia na direção do conceituado quadrinista Joann Sfar, o filme abre mão de qualquer historicismo didático. Para Sfar, o que interessa na vida de Gainsbourg é o mito, a realidade ele deixa para os pobres de imaginação.

Serge Gainsbourg (nascido Lucien Ginzburg) foi mais que cantor e compositor. Foi uma polêmica. Nascido em 1928, viveu os anos 60 como estes mereciam ser vividos: sem pudores, sem retrancas e com muita paixão. Colecionou polêmicas e mulheres deslumbrantes. Juliette Gréco, Brigitte Bardot, Jane Birkin. Nas polêmicas, a mais notável foi a canção “Je T’Aime Moi Non Plus”. De altíssima voltagem erótica, a canção foi composta para Brigitte Bardot em 1968. Bardot chegou a grava-la em dueto com Gainsbourg. Contudo, temendo a repercussão escandalosa que a música teria, a atriz e cantora não permitiu seu lançamento.

A música só seria lançada no ano seguinte, gravada em dueto com a também atriz e cantora Jane Birkin, então esposa de Gainsbourg. O escândalo, como esperado, foi grande. Em seus versos, a canção diz:

“Como a onda irresoluta
Eu vou, eu vou e eu venho
Entrelaçado em seu dorso
Eu vou, eu vou e eu venho
Entrelaçado em seu dorso
E eu me detenho”

Para encenar (e homenagear) a vida desse artista que viveu intensamente seu tempo, Sfar constrói uma narrativa que (sei que me repito na expressão) não tem grande compromisso com a realidade. O diretor recompõe a vida do artista sem distanciá-lo do mito, da infância até o sucesso.

Com uma bela fotografia, recheado pelas ótimas canções de Gainsbourg, o filme tem uma cadência elíptica e vibrante, capaz de nos remeter à efervescência dos anos 60 e 70. Um trabalho de montagem competente que contribui para a aura fantasiosa que o filme, desde o início, apresenta. Pois para um ícone tão a frente de seu tempo, nada mais apropriado que uma generosa dose de fantasia.

Assim, se misturam na narrativa eventos e delírios na composição da personalidade de Gainsbourg, como seu alter ego, personificado em um ser antropomorfo, com nariz e orelhas desproporcionais. Essa espécie de amigo imaginário atua como uma consciência provocativa do artista. Essa opção visual da narrativa embeleza o filme e cria momentos marcantes, como a decisão de Gainsbourg de largar a pintura e o desenho para se dedicar apenas à música.

Nessa narrativa de tom fabular e mítico, um dos momentos mais emblemáticos - e que reforça a intenção do filme em tratar de mitos, não simplesmente de biografias - é a entrada na trama de Brigitte Bardot. Interpretada pela modelo Laetitia Casta, a cena é antológica, com a energia e o poder que merece o mito Bardot.

Na interpretação e composição do mito protagonista, o ator Eric Elmosnino está irrepreensível como Gainsbourg. Não apenas pela imensa semelhança física, mas também pelos gestos e expressões. Com ótima sintonia, sua atuação trabalha em função do imaginário, da construção de uma personificação a altura de um símbolo, a altura de um polêmico transgressor de seu tempo como foi Serge Gainsbourg.

Bonito, vibrante, sensual, delicioso. No título original do filme lê-se, entre parêntesis: “Vie Héroïque” (vida heroica). Uma vida heroica me parece a mais adequada definição do mito Gainsbourg. No propósito de exaltá-la, reescrevê-la e dar a ela a devida dimensão artística e mítica, o filme realiza uma aventura fascinante e magnífica. Por isso encanta, seduz e arrebata.
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quinta-feira, julho 07, 2011

Corações Perdidos



Wellcome To The Rileys
Jake Scott
EUA, 2010
110 min.

Mais conhecido por realizar documentários em vídeo de bandas como U2, R.E.M. e Smashing Pumpkins (e por ser filho do consagrado diretor Ridley Scott), Jake Scott retorna ao cinema depois de mais de 10 anos. Seu primeiro longa-metragem, de 1999, “Plunkett & Macleane”, não foi exatamente um sucesso. Agora, em seu mais recente filme, que estreia nesta sexta (08), o jovem diretor nos apresenta uma bela história de reconciliação com a vida.

Em “Corações Perdidos” temos um casal de meia idade que passa por uma crise de estranhamento e afastamento, consequência do trauma da perda da filha, morta em um acidente de carro. Doug Riley (James Gandolfini), dono de uma bem sucedida loja de ferragens, se desvencilha do drama íntimo de sua casa com a uma amante, por quem tem profundo afeto. Mary (Melissa Leo), sua esposa, sofre com a síndrome do pânico que a impede de sair de casa. Entre remédios e clausura, Mary parece já ter se despedido da vida e do mundo, enquanto seu marido ainda quer viver de alguma forma.

O filme de Scott talvez traga uma inevitável comparação. “Reencontrando da Felicidade”, que esteve em cartaz por aqui recentemente, também trazia um casal que perdera o filho em acidente de carro. Contudo, os filmes guardam interessantes diferenças entre si, ainda que se assemelhem na problematização da perda.

Ambos mostram casais cuja relação saiu dos trilhos depois da tragédia. Mas enquanto “Reencontrando a Felicidade” vai pelo caminho da busca de eixo de equilíbrio e futuro, em “Corações Perdidos” o sentimento é a necessidade de sair do limbo. São diferenças sutis, mas que no desenrolar de cada filme geram sentimentos e situações distintas.

No caso dos Rileys, as coisas começam a mudar quando uma inesperada e dolorosa notícia chega até Doug. Ainda abalado, ele faz uma viagem de negócios para New Orleans. Lá ele conhece Mallory (Kristen Stewart), nome de guerra de uma garota de 16 anos que se apresenta numa casa de strip-teaser.

Depois de um começo ríspido, surge entre eles uma relação na qual Doug, previsivelmente, cria um processo de transferência afetuosa para a jovem garota. A relação, naturalmente, é problemática e tende a se agravar quando Mary descobre o que está acontecendo.

Scott conduz seu filme com uma carga bastante moderada de emoção, fugindo sempre do sentimentalismo. Segue a cartilha do cinema independente americano contemporâneo, com trilha sonora discreta e recorrente, personagens desajustados em seu mundo, narrativa cadenciada sem grandes sobressaltos. Nessa linha, consegue criar uma história interessante, capaz de gerar expectativa pelo seu desdobramento e desfecho.

“Corações Perdidos” é uma história de retomada, da redescoberta de sentimentos trancados no porão da dor e do luto. Sem exageros, mostra a transformação, o expurgo necessário do passado e o desejo de tornar melhor o futuro. Apesar de alguns pontos de verossimilhança discutíveis, é capaz de criar situações interessantes e desenvolver seus personagens de forma a nos parecerem ternos e frágeis, mesmo quando demonstram uma agressividade intensa. São personagens vítimas de certo abandono e desesperança, que tentam, por algum tempo, se agarrarem a uma ilusão de reconforto e restituição.

Contudo, a natureza das ilusões que criam logo se mostra frágil, ainda que não totalmente dissolúvel. Como diz um personagem em certo momento, talvez seja tarde demais para restituir o que todos, em algum momento de suas vidas, já perderam. Mas resta um vínculo de afeto, gratidão e recompensa que perdurará. E isso, para aqueles que precisam ter de quem cuidar (ou aqueles que precisam ter alguém que cuide deles) é algo de valor suficiente para que a vida siga um pouco melhor. Se não plena de felicidade, ao menos com um pouco mais de esperança. Uma esperança presente na capacidade de voltar a sorrir e ter afeto.
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quarta-feira, julho 06, 2011

A Contemplação do Cinema de Terrence Malick

Mostra no CCSP trás obra completa do vencedor da Palma de Ouro em Cannes


Enquanto o aguardado “A Árvore da Vida” - ganhador da Palma de Ouro em Cannes 2011 - não chega aqui, o Centro Cultural São Paulo realiza uma retrospectiva completa do premiado diretor. Intitulada “O Cinema Contemplativo de Terrence Malick”, a mostra começa no próximo sábado, dia 9, e segue até o dia 14 de julho.

Em se tratando do cinema de Malick, dizer que a retrospectiva é completa, com todos seus filmes, pode parecer algo volumoso. Mas não é. Isso porque em 38 anos de carreira o diretor realizou até agora cinco filmes. Como o último ainda não estreou por aqui, a mostra exibe quatro. Mas são quatro que, segundo uma fatia considerável da crítica especializada, valem por muitos.

Terrence Malick é um dos grandes nomes do cinema contemporâneo. Seus filmes são vistos como obras-primas, embora muitas vezes divida os críticos. Muitos consideram sua obra enigmática demais ou – como diz o título da mostra – contemplativa demais. Por outro lado, há quem defenda que Malick seja o diretor que, nos dias de hoje, melhor encarne a ousadia, a originalidade e a inventividade de que o cinema contemporâneo tanto carece.

Refratário à exposição pública, Malick não vai a premiações, não concede entrevistas e não costuma ser fotografado. Seus projetos são sempre cercados de mistério, pois não nunca revela no que está trabalhando. Toda essa reclusão reflete em seu trabalho pelo esmero que dedica a cada projeto, o que explica o longo intervalo entre seus filmes. Sua atenção e acuidade com cada detalhe se reflete na tela. Por isso, goste-se ou não, seus filmes são sempre de uma perfeição técnica irrepreensível. Quem quiser experimentar e tirar sua própria conclusão tem agora uma boa oportunidade.
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Serviço:

Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso
(ao lado da Estação Vergueiro do Metro)
Ingressos: R$ 1,00
Tel: 3397-4002
Mais informações, acesse: http://www.centrocultural.sp.gov.br

segunda-feira, julho 04, 2011

No mês das férias, Cinemateca exibe animações francesas

Mostra Uma História da Animação Francesa, trás obras raras e sucessos de público.


Para quem procura um “esquenta” para o Anima Mundi (que acontece no final do mês) ou um bom programa para a criançada no mês das férias ou simplesmente adora uma animação, não pode perder a mostra Uma História da Animação Francesa, que ocorre na Cinemateca Brasileira de 01 a 31 de julho.

O nome da mostra não é apenas força de expressão. Entre longas e curtas metragens, fazem parte da programação obras fundamentais, históricas e contemporâneas. Desde “Fantasmagoria”, curta de 1908, considerado o primeiro desenho animado do cinema, até obras recentes, como o elogiado “O Mágico”.

Num amplo panorama, nomes consagrados da animação francesa como Émile Cohl, René Laloux e Jean Image dividem a programação com artistas que vêm se destacando no gênero, como Sylvain Chomet e Serge Avedikian.

Em uma mostra de animações francesas, não poderia faltar os dois personagens mais populares dos quadrinhos daquele país, Asterix e Lucky Luke.  Desses personagens, a mostra trás seus primeiros longas de animados: “Asterix, o Gaulês”, de 1967, e “Lucky Luke – Daisy Town”, de 1972.

Especificamente para o público adulto, o evento trás obras marcantes como o policial “Reinaissance”, o sombrio “Chronopolis” e o premiado “Persépolis”. Embora as crianças possam gostar, as animações de Sylvain Chomet – “As Bicicletas de Bellevile” e “O Mágico” -, são sempre cheias de melancolia e agradam mais ao público adulto. O programa intitulado “Curtas Contemporâneos 2”, também não é indicado para crianças.

Para quem vai levar a garotada, é bom ficar sempre atento à classificação indicativa dos filmes, que se encontra nas respectivas sinopses. Isso pode evitar surpresas desagradáveis. Outro detalhe a se ficar atento é o idioma da projeção. Alguns filmes serão exibidos dublados, outros com legenda em português e alguns em francês, sem legenda.

Mais informações, acesse: http://www.cinemateca.gov.br
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Serviço:
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
Tel: (11) 3512-6111 (ramal 215)
Ingressos: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada)

domingo, julho 03, 2011

Breviário da Semana Nº 05

Um semanário muito breve


Como devem ter notado, falhei. Não publiquei o breviário da semana passada. Isso aconteceu porque simplesmente não vi filme algum, pois estava em viagem de prazer por Natal. Quem se interessar por crônicas, venho publicando uma série delas sobre essa viagem no meu outro blog, o Obscenum. De volta às atividades, vamos aos filmes dessa semana.

Em Frenesi, assassinatos assolam Londres
Um Fellini que vinha me escapando algum tempo e que consegui ver em casa, E La Nave Va, de 1983, é cheio de referências ao próprio cinema e sua evolução técnica ao longo do tempo. Sua trama, passada às vésperas da Primeira Guerra Mundial, se concentra nos personagens ilustres que viajam em um navio para a realização do funeral de uma grande cantora de ópera. Fellini destila seu humor crítico para a afetação da alta sociedade e confronta a todos quando numa noite o capitão do navio recolhe um grupo de refugiados sérvios que estavam à deriva. O filme passeia entre o tom documental, logo revelado como farsesco, ao surreal.

Em cartaz nos cinemas, Quebrando o Tabu, de Fernando Grostein Andrade, é um documentário que tenta jogar luz à questão da descriminalização da maconha. Conduzido pela figura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o filme faz uma colagem de entrevistas, declarações e dados estatísticos sobre consumo, combate e problema das drogas ao redor do mundo. Embora apresente informações e análises interessantes, que dimensionam a problemática das drogas e algumas alternativas para seu combate ou diminuição dos danos sociais, o filme se perde sem uma linha clara de defesa.  Ao apresentar um painel multifocal de alternativas, perde seu foco e não desenvolve qualquer teoria, nem deixa claro o que sustenta ou não sua narrativa. Não deixa, contudo, de ser uma experiência interessante e um meio válido para conhecer um pouco melhor e de diferentes ângulos um problema grave de nossa sociedade.

Em cabine para imprensa, vi Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo, novo filme de Hugo Carvana que estreia dia 5 de agosto. É uma comédia protagonizada por Tarcísio Meira e Gregório Duduvier. Falarei mais dela próximo de seu lançamento.

Gainsbourg compõe para Brigitte Bardot
Na Mostra Hitchcock, pude conferir mais um ótimo filme do mestre. Frenesi, de 1973, não está entre seus melhores, mas ainda assim carrega a marca, o humor e o talento desse grande diretor. A trama envolve um serial killer que atua em Londres e tem como marca registrada estrangular suas vítimas com uma gravata. Quando todas as evidências incriminam o inocente Richard (Jon finch), ele se verá obrigado a fugir da polícia, mas uma novas morte o incriminará mais ainda.

Estreou, nesse final de semana, Estranhos Normais, sobre o qual já escrevi aqui. É uma divertida comédia italiana que brinca com a metalinguagem para extrair a normalidade de dentro da estranheza. Apresenta um quadro de personagens peculiares que ao se relacionarem encontrarão novos significados para suas vidas. Embora seu início pareça confuso e atravanque um pouco a narrativa, seu desenrolar flui melhor, depois que compreendemos seu verdadeiro dispositivo. Uma vez fisgados pelo enredo, nos entregamos à diversão e aos personagens.

Revi com a Fernanda, Meia-Noite em Paris, de Wood Allen. O filme cresceu muito na revisão e divertiu muito mais. Francamente não vejo problema na emulação que os atores dos filmes de Allen fazem do próprio Allen ator. Não há segredo que a maioria desses personagens são alter egos do diretor. Por isso talvez eu tenha gostado tanto da atuação de Owen Wilson, que considero um ator não apenas fraco, como irritante. Mas nesse filme ele está ótimo e encarna muito bem a problemática do universo de Wood Allen.

FHC e Dr. Dráuzio Varella em Quebrando o Tabu
Por fim, assisti Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres, que deve estrear no próximo final de semana. Trata-se de uma visão declaradamente não-realista da vida do polêmico compositor francês Serge Gainsbourg. Gostei muito do filme, que tem uma fotografia excelente e, como não poderia deixar de ser, uma trilha sonora ótima. Destaque para a entrada na história de Brigitte Bardot (interpretada pela modelo Laetitia Casta), a cena, para mim, já é antológica. Falarei mais do filme na semana. Mas fica desde já a dica de estreia na próxima sexta.
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sábado, julho 02, 2011

Estranhos Normais



Happy Family
Gabriele Salvatores
Itália, 2010
90 min.

Vincenzo, personagem de Fabrizio Bentivoglio na comédia “Estranhos Normais” - que estreou na última sexta (01) -, é um escritor que, como diz o velho axioma de um blog jornalístico-literário, não tem nenhum compromisso com a realidade. Essa indisposição com o real é o dispositivo fundamental do filme, montado através de uma metalinguagem que às vezes desnorteia. Contudo, é pela desconstrução da verossimilhança, pontuado por personagens estranhos, que o filme revelará a normalidade.

Dirigido por Gabriele Salvatores, o filme nos apresenta Vincenzo como um homem que, após ser abandonado pela namorada, decide escrever um roteiro para um filme. Um roteiro autoral. Através de seu notebook, vai esboçando os personagens desse filme no qual ele também é personagem. São duas famílias cujos filhos de 16 anos decidem se casar, o que gera conflitos e leva os personagens a se apresentarem para a câmera, como já havia feito o próprio Vincenzo no início do filme.

Em cada apresentação vamos conhecendo a peculiaridade de cada um e como essa peculiaridade o torna estranho para o mundo ou para sua própria família. Temos o adolescente que age como homem maduro, o pai que age como adolescente, a filha que acha que cheira mal por ser ruiva, a mãe preocupada com o próprio casamento, o marido que descobre estar com uma doença terminal.

Levados pelo despautério de casamento dos adolescentes e por um pequeno acidente, todos vão se cruzar num jantar e passarão a estabelecer laços de amizade, antipatia ou romance.

Não nos deixando esquecer que são todos personagens de seu roteiro, Vincenzo interfere pontualmente na narrativa, quebrando a fantasia e fragmentando as emoções, como se nos avisasse que a realidade não comporta toda aquela ficção e estranheza. Reforça sua perspectiva ficcional e desconstrói a relação autor/personagem ao interagir, fora do ambiente da ficção, com seus personagens, que cobram dele um melhor destino ou desenvolvimento.

Esse diálogo metalinguístico entre criador e criaturas desnuda a relação difícil de um escritor com seus personagens, mas também revela que a estranheza da vida é inata à sua normalidade.

Retomando a história de seus personagens a fim de arrematar a narrativa, Vincenzo (Salvatores?) busca uma amarração para todos. Nessa trajetória, manipula emoções com um romance enfeitado de clichês, reflete sobre a vida e a morte em uma viagem com ares quase metafísicos e condensa seu desfecho com a normalidade presente no estranho de cada indivíduo. A vida só é normal quando é estranha.

Com “Estranhos Normais”, Salvatores cria com suficiente graça cômica uma narrativa que só engrena depois que compreendemos e aceitamos seu dispositivo metalinguístico. Passada a estranheza inicial, embarcamos na fragmentada metáfora da vida e do absurdo, seduzidos por personagens que podem parecer distantes de nós num primeiro momento, mas que o filme, com competência e também artifícios, aproxima de nós. No final, se torna uma experiência prazerosa, divertida e estranha. Como a vida. Também ela sem qualquer compromisso com a realidade.
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sexta-feira, julho 01, 2011

Balanço Geral... do Semestre



Numa dessas casualidades estranhas, completei 100 filmes vistos este ano exatamente na virada do semestre. O centésimo, como cereja do bolo, foi um Hitchcock em película. Com essas coincidências, resolvi fazer um balanço desse semestre. Lembrando que na conta entram todos os filmes que vi ou revi esse ano, misturando clássicos como “Hiroshima, Meu Amor”, com porcarias como “O Vidente”.

Alguns dados são sintomáticos. Talvez o maior deles seja o fato de em todo esse semestre ter tido apenas uma pessoa como companhia de filmes: a Fernanda. Juntos, vimos 25 filmes. Todos os outros 75 vi sozinho. Nada demais. Vou ao cinema sozinho desde que tinha 14 anos e isso em nada diminui meu prazer ou entusiasmo. A cinefilia, como a leitura e a bronha, são exercícios quase sempre solitários.

No total geral, o local em que mais vi filmes foi em minha casa mesmo (34), seguido da casa da Fernanda (19). Nos cinemas, a sala que mais frequentei foram as do Espaço Unibanco de Cinema (12), seguida pela Reserva Cultural (8). O restante se pulveriza entre salas ótimas, como a do Cinesesc, e estranhas, como a do Museu Lasar Segall.

No quesito cotações, acho que dei sorte ou fui muito benevolente. Com cotações que variam de 1 a 5, a que mais saiu foi a cotação 3, dada a 41 filmes. Em seguida vem a cotação 4, que foi dada a 34 filmes. A cotação máxima foi para apenas 6 filmes. Mas só dois eram lançamentos recentes (“Vincere”, do Marco Bellochio, e “Incêndios”, do Denis Villeneuve), os outros eram clássicos como “Profissão: Repórter”, do Antonioni, ou “A Noite Americana”, do Truffaut. A pior cotação foi dada para apenas 4 filmes. Desses, três são brasileiros.

Agora é ver como fica o segundo semestre.
 

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