
Já em sua estreia em longas, em parceria com Juliana Rojas, Trabalhar Cansa flertava com o
sobrenatural e o insólito. Não apenas na figura inexplicável de uma monstruosa
carcaça emparedada, mas no registro tenso e gélido que ambientava um pequeno
mercadinho de bairro.
Contudo, naquele primeiro filme sentia-se a força de
aspectos sociais, que iam das relações de classe às psiconeuroses de classe
média (um indício, em termos de cinema nacional, do que seria posteriormente
decupado com mais profundidade em O Som
ao Redor, de Kleber Mendonça Filho). Já em Quando Eu Era Vivo, saem os elementos sócio-desconstrutivos para
ficar apenas o mal-estar crescente e perturbador.

Já de início, notamos um constrangido estranhamento entre
pai e filho. Uma situação que vai se agravar à medida que Júnior recoloca na
casa objetos do passado que seu pai mantinha trancados. Resgata-se, cada vez
com mais força, a memória da mãe falecida, que era praticante de ocultismo. Especialmente
uma fita VHS, a partir da qual surgem memórias que se confundem com sonhos que
se confundem com o vídeo.
Marco Dutra assume nesta obra o sobrenatural e o cinema de
gênero, mas se vale de sutileza e personalidade na construção do terror. Acha
um bom equilíbrio entre aquilo que explica e aquilo que fica em suspenso e
utiliza muito bem os elementos clássicos do terror moderno. Efeitos sonoros
precisos, imagens antigas e uma cenografia e iluminação que se transformam ao
longo do filme dão o tom da transformação pela qual o protagonista vai passando.

O gatilho definitivo é uma partitura encontrada com uma
mensagem cifrada no verso. Esse é outro clichê de gênero, mas que aqui funciona
como catalisador de um fenômeno que o filme já construiu com suavidade. Por
isso, a partitura é muito mais um elo do que um eixo. Assim, o melhor de Quando Eu Era Vivo não está na solução
do mistério, mas na sua construção.
Marat Descartes encarna muito bem esse personagem que se
perturba ao cavoucar o passado e sustenta na interpretação a sutileza que o
filme propõe. Antônio Fagundes, que há nove anos não fazia cinema, compõe um
personagem que traz uma leve ambiguidade com tons de fragilidade. Já Sandy, na
contracena com os dois atores experientes, não desaponta, embora na (sempre
injusta, mas inevitável) comparação, destoe sensivelmente, sem que isso,
afinal, prejudique qualquer aspecto do filme.

Baseado no livro A
Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli, Quando Eu Era Vivo utiliza clichês do
gênero terror para construir uma trama que provoca seu efeito mais básico –
medo e tensão – com muita eficiência. Mas o faz sem se valer de facilidades e
estabelece uma ralação mais profunda entre causa e efeito. Aqui, o sobrenatural
não é um mal que se encerra puramente na maldade, mas um fator que evoca, acima
de tudo, os internos aspectos humanos.
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Quando Eu Era Vivo
Marco Dutra
Brasil, 2014
108 min.
Trailer
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