sábado, junho 11, 2011

Belair



Belair
Bruno Safadi e Noa Bressane
Brasil, 2010
70 min.

Para um país sem memória como o Brasil, que quase não dá importância e valor para sua história e para a história de seu cinema, um filme como “Belair” - que entrou em cartaz na última sexta (10) - é um respiro de alívio e esperança em meio à tragédia do nosso esquecimento.

Belair é o nome da produtora que os cineastas Rogério Sganzerla e Júlio Bressane criaram em 1970. Ela durou apenas quatro meses e nesse curto período os dois diretores realizaram sete filmes de longa metragem. A iniciativa só não frutificou mais porque os néscios que governavam o país, sob ditadura, não viram aqueles filmes com bons olhos. Pressionados, Bressane e Sganzerla saem do país. Seus filmes nunca são lançados.

Os dois diretores são referência naquilo que à época se chamou de cinema marginal. Expoentes desse cinema, os filmes “O Bandido da Luz Vermelha”, de Sganzerla, e “O Anjo Nasceu”, de Bressane, agitaram as rodas de debates cinematográficos e também políticos da época. Com uma estética que não disfarçava a precariedade das produções e ao mesmo tempo compunha a linguagem anárquica da montagem, o tom provocativo das imagens, tendo o deboche e a performance como substância da reflexão, esses filmes incomodavam muita gente. Mas, acima de tudo, estavam a frente de seu tempo.

Com os filmes da Belair não foi diferente. Correndo o risco de caírem no esquecimento e com um desses filmes (Carnaval na Lama) irremediavelmente perdido por deterioração, essa história e esses filmes são finalmente resgatados pelos diretores Bruno Safadi e Noa Bressane.

Mais do que simplesmente contar a história, o documentário “Belair” dialoga com os filmes realizados pela produtora. Essa foi a intenção dos diretores, que desde o início do projeto descartaram fazer um documentário no padrão entrevista filmada, imagem de arquivo, narração em off, entrevista filmada de novo. O caminho que encontraram foi, através das imagens dos próprios filmes da Belair e através de uma montagem que revivesse em parte a linguagem desses filmes, contar essa história e também fazer conhecer esses filmes.

Num caso raro, que transcende a metalinguagem, objeto e objetivação se confundem, se mesclam e se complementam. E, mais importante que tudo, se fazem entender.

“Belair”, o documentário, por si só já seria de suma importância pelo que contribui para a preservação da memória do nosso cinema (e isso vai além do filme pronto, se refletindo no despertar de algumas “entidades” da nossa sociedade para a restauração desses filmes). Consegue, no entanto, ir além e se torna em uma obra não apenas boa (necessária) de se conhecer, mas, especialmente, prazerosa de se ver. Tem humor, tem crítica, tem deboche, tem marginalidade. Tem, sobretudo, alma. Matriz essencial do cinema de Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e de tantos outros que, mesmo estando à margem, insistem em provocar e contribuir.
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sexta-feira, junho 10, 2011

Entrevista: Bruno Safadi

Lançando seu segundo longa, diretor fala sobre a memória do cinema nacional, Rogério Sganzerla e seu ousado projeto: Operação Sônia Silk.

Bruno Safadi: diretor se queixa da má preservação da memória do cinema nacional
No amplo galpão da Cinemateca Brasileira, em uma noite fria do mês de junho, as mesas do café que funciona ali estão quase todas vazias. Exceto uma delas, em que se senta, solitário, o diretor Bruno Safadi. No silêncio do lugar, onde por 40 anos funcionou um matadouro municipal (de 1887 a 1927), a postura de Safadi (pernas juntas, tronco inclinado para frente, braços cruzados diante do corpo) é a típica postura de quem busca se aquecer. À sua frente, pousado na mesa, um pequeno copo com uma bebida de cor âmbar e aroma penetrante.

“É para espantar o frio”, diz ele sorrindo, se referindo à cachaça que o aguarda no copo. Simpático, convida-me a acompanhá-lo. Daí em diante o frio não demora a passar, graças também à boa conversa sobre cinema, memória nacional e projetos de filmes independentes.

Na próxima sexta-feria (10), entra em cartaz o documentário Belair, dirigido por Bruno em parceria com Noa Bressane. O filme resgata a história da produtora de mesmo nome, criada em 1970 por Rogério Sganzerla e Julio Bressane. Esta produtora, que nunca existiu no papel, realizou sete filmes em apenas quatro meses e teve sua duração abreviada pela ditadura.

Os filmes da Belair nunca chegaram a entrar em cartaz e corriam o risco de caírem no esquecimento. Até que em 2000, Bruno e o amigo Leonardo Duarte decidiram recuperar esses filmes e organizar uma mostra para exibi-los. Vendo que também a história por trás desses filmes merecia ser contada, Bruno se juntou a Noa Bressane para fazê-lo. Nasce desse esforço o documentário Belair.

Noa e Bruno não estão ligados a esses filmes e à sua história por acaso. Ela é filha de Júlio Bressane e Bruno começou sua carreira como assistente do diretor. Este é o segundo longa metragem dele, que em 2002 realizou o Meu Nome é Dindi, que tinha no papel principal a atriz Djin Sganzerla, filha do mítico Rogério Sganzerla, morto em 2004. 

Nesta entrevista, Bruno fala sobre o difícil trabalho de realizar o documentário, do descaso com que se trata a memória do cinema nacional e de como foi conhecer pessoalmente Rogério Sganzerla. E fala também de seu próximo projeto, no qual pretende realizar três longas em apenas um mês.

Eu, Cinema: Com apenas 19 anos você foi trabalhar como assistente em um filme do Júlio Bressane, um dos mais sérios diretores do cinema brasileiro. Como vocês se conheceram?

Bruno Safadi: No começo do ano 2000 eu e o Leonardo [Duarte] estávamos começando a organizar a mostra Belair. Eu fiquei responsável por falar com o Rogério [Sganzerla] e ele com o Júlio [Bressane]. Eu não conhecia o Júlio ainda, mas o Leonardo já tinha sido assistente dele. No meio do ano, o Júlio foi fazer o Dias de Nietzsche em Turim e chamou o Leonardo para ser diretor de produção do filme. Como eu já tinha feito um filme com o Leonardo e ele tinha ficado muito agradecido, me convidou para trabalhar também na produção do filme. Chegando lá, o Júlio se aproximou e falou comigo sobre a mostra que eu estava organizando com o Leonardo, falou que achava bacana e foi super receptivo com a ideia. Depois das filmagens, a gente foi ver o copião – naquele tempo ainda se usava copião – e o Júlio me convidou para ser assistente dele na montagem. Foi aí que eu virei assistente dele.
O Júlio Bressane está entre os mais respeitados diretores brasileiros, seus filmes fazem parte de diferentes fases da história do nosso cinema. Como foi trabalhar com um diretor tão experiente e importante sendo você tão jovem?

Foi uma experiência incrível. Mas é engraçado pensar nisso agora, porque quando você vive uma época, vive uma idade, você nunca tem essa dimensão, você apenas vive o presente. Naquela época eu achava que já era um adulto, que já estava fazendo as coisas. O Júlio é uma pessoa muito generosa, mas tem uma carga de erudição muito grande e por isso muita gente tem dificuldade de se aproximar dele. Eu lembro que na primeira reunião de produção do Dias de Nietzsche em Turim, quando eu tinha acabado de conhecer o Júlio, no final da reunião eu perguntei: “Júlio, como é que você pensa em fazer a luz do filme?”. Era uma pergunta completamente descabida para a minha posição, que, por inexperiência, soltei ali na hora. Mas como o Júlio é um diretor muito artístico, que não está ligado nessas coisas de mercado, de hierarquia, nessas coisas de “quem é você pra me perguntar o quê?”, ele gostou da pergunta. E respondeu e começou a falar de como seria a luz no filme. Naquela época, por coincidência, o autor que eu mais lia era justamente o Nietzsche. Tinha lido vários livros dele, muito precocemente, talvez nem preparado para ler aquilo. Mas achava que podia ler e lia. Então eu conseguia conversar sobre o Nietzsche com o Júlio e também sobre a Belair, que pra ele foi a grande coisa que ele fez no cinema. Então todo dia, no final da produção, ficávamos conversando. Ele contando histórias da Belair, histórias do Nietzsche e eu adorando aquilo. Eu estava no paraíso. Estava fazendo um filme com Júlio Bressane, ganhando um salário e ouvindo ele me contar histórias da Belair e do Nietzsche.

Depois dessa primeira experiência, como seguiu sua careira no cinema?

Naquele primeiro momento o Júlio já me dava muita força para eu ser diretor. Ele me deu muito impulso pra começar a fazer curtas metragens. Os curtas saíram, foram dando certo, sendo selecionados para festivais importantes aqui e lá fora. Mas eu fiz também uma longa carreira como assistente de direção, que foi o que bancou meus curtas. Fiz quatro filmes como assistente do Júlio, depois trabalhei como assistente do Nelson Pereira dos Santos, fui assistente do Ivan Cardoso. E ia fazendo curtas, até fazer meu primeiro longa, Meu Nome é Dindi (2007). Que é um orgulho pra mim, porque foi um longa totalmente independente. Foi filmado em uma semana, mas com muito rigor. O Lula Carvalho fotografou, a Djin [Sganzerla], que é filha do Rogério e da Ignês [Helena Ignês, viúva de Rogério Sganzerla e atriz de muitos de seus filmes] foi a protagonista.

Como foi sua convivência com o Rogério Sganzerla?
Conheci Rogério em 2000, quando fiquei encarregado de falar com ele para a mostra Belair, enquanto o Leonardo falava com o Júlio Bressane. O Rogério foi maravilhoso, ficou muito entusiasmado. Era diferente do Júlio, que gostava da ideia, colaborava com as informações, mas sem se envolver, sem sair de casa. O Rogério era diferente, ele ia toda sexta-feira comigo na cinemateca do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Desde o primeiro dia que eu telefonei ele se entusiasmou com a mostra e começou a ir comigo atrás dos filmes. A gente passou cerca de dez meses fazendo isso. Claro que com intervalos, mas quase toda sexta-feira a gente ia lá. E achamos os filmes, foi incrível. Assim, acabei conhecendo e convivendo um tempo com o Rogério.

Você também chegou a trabalhar com o Rogério na montagem de uma peça. Conta um pouco dessa experiência.

Eu trabalhei rapidamente na montagem de Savannah Bay, que o Rogério dirigiu. É um texto da Marguerite Duras e a peça era protagonizada pela Helena Ignês e a Djin Sganzerla. Foi na montagem do Rio que eu tive a oportunidade de trabalhar, de ajudá-los ali. Eu nunca tinha visto o Rogério dirigindo e ali eu tive essa experiência. Foi algo muito forte vê-lo trabalhando. Ele era um diretor de palavras muito precisas e isso me impressionou bastante. A escolha das palavras, a direção que ele dava, era de uma precisão que eu nunca tinha visto. E ao mesmo tempo um gênio. Duro, radical. Muito diferente do Júlio, com quem eu estava acostumado e que é um doce, um gentleman, tudo com ele é com muito carinho, muita educação, fala baixo e tal. E o Rogério era como um raio, era uma explosão, mas de uma precisão realmente espantosa. Mas essa experiência foi no teatro, não foi no cinema. Não tive a oportunidade de fazer um filme com ele, infelizmente.

Na pesquisa para a mostra Belair, como foi esse processo de encontrar os filmes?

Teve momentos lindos e teve momentos muito tristes. A gente contou com a ajuda do Hernani Heffner, que é conservador da Cinemateca do MAM até hoje. O Hernani foi uma pessoa muito importante para o processo. Ele era o cara que realmente metia a mão ali, que ia atrás dos filmes. Um momento triste foi quando a gente descobriu a perda do filme Carnaval na Lama. Quando abrimos a lata, o negativo tinha virado uma gelatina, a prata tinha se soltado. Foi muito triste. Por outro lado, encontramos uma cópia de Copacaban Mon Amour, um filme que estava meio perdido e a cópia estava em bom estado. Se não me engano, é a única cópia que tem dele até hoje.

Quando você e a Noa Bressane resolvem fazer o documentário “Belair”, o material que você já tinha pesquisado para a mostra deve ter ajudado muito, obviamente. Mas, além disso, vocês precisaram levantar muito mais material?

Sim, tivemos que achar muito mais coisa. A mostra foi feita com apenas quatro filmes da Belair, que foi o que a gente achou naquele momento. Foram os filmes Copacabana Mon Amour, Sem Essa, Aranha, A Família do Barulho e Barão Olavo. Passaram-se cinco anos, eu fui fazendo outras coisas. Quando a gente resolveu fazer o filme, com um prêmio que a gente ganhou da Petrobrás para realizar, foi aí que a gente teve que se debruçar pra fazer as coisas. Porque uma coisa é fazer uma mostra, ir lá e exibir os filmes, outra é fazer um filme sobre a história da Belair. Claro que a gente sabia desde o princípio que os filmes é que seriam os protagonistas do nosso filme. Mas quando a gente se aproximou dessa pesquisa da história da Belair a gente viu que não tinha nada.

Então foi quase como começar do zero?

Quase. Tínhamos os filmes, mas precisávamos de mais coisas para contar a história. A gente tinha o Júlio muito próximo, mas precisava mais, até mesmo para a gente. Eu tinha ouvido as histórias durante anos, através do Júlio, mas não dava para fazer um filme só com a voz do Júlio, sem ouvir outras pessoas. Então fomos à cinemateca do MAM, ao arquivo nacional, fomos ao MIS (Museu da Imagem e do Som) e a diversos órgãos de memória e preservação e vimos que não tinha nada sobre a Belair. Nada. Não havia nada. Apenas algumas matérias de jornal, mas que terminavam em 1969 e só voltavam em 1990. O Rogério até escrevia alguns artigos nos jornais, no final dos anos 70, mas também não era sobre a Belair. Sobre a Belair mesmo não tinha nada. Então criamos uma pesquisa. Entrevistamos 40 pessoas, gente que tinha envolvimento direto e indireto com a produtora. Geramos um material enorme de entrevistas. Mas essas entrevistas não tem nenhuma no filme, elas serviram como base para a gente. Foram fundamentais, mas não entraram no filme.

Por que não entraram?

Existia um medo grande nosso. Havia ali uma responsabilidade muito grande. Não se podia fazer um filme sobre a Belair que fosse jornalístico, de entrevistas, careta. Nós tínhamos que fazer um filme que conversasse com a linguagem dos filmes da Belair e esse foi nosso grande desafio.

Foi difícil encontrar o caminho dessa linguagem na hora de montar?

Nós passamos um ano montando. E esse tempo foi fundamental para o filme. Nos primeiros quatro meses a gente só viu as imagens, não montamos nada, só ficamos olhando. Olhando e separando. Então fizemos uma pausa. A Noa foi ter filho e eu fui lançar o Meu Nome é Dindi. Depois, quando voltamos, montamos rápido. Foram quatro meses de montagem, direto.

Depois de todo esse processo, tanto na organização da mostra, quanto na pesquisa de material para o filme, como você vê a preservação da memória do cinema brasileiro?

Muito mal. O que se faz com a memória do cinema nacional é um crime. Até há algumas iniciativas, com patrocínio da Petrobrás, com a Unesco, mas não sei se ainda continua. A verdade é que não há memória do cinema no Brasil. O que se perde de filmes é absurdo. A própria obra do Rogério é um exemplo de descaso. Foi enviado por cinco anos consecutivos o pedido de restauração para a Petrobrás e foi negado todas as vezes. Agora imagina, um dos três maiores diretores do cinema brasileiro! O Copacabana, Mon Amour, a gente levou para um laboratório para escanear os negativos e os negativos estavam totalmente apodrecidos, do primeiro ao último fotograma. Tiramos fotos do estado da película e mandamos para a Sinai [Sinai Sganzerla, primeira filha de Rogério Sganzerla com Helena Ignês]. Ela novamente mandou pedido de restauro para a Petrobrás e mandou as fotos junto. Acho que as fotos foram fundamentais, porque aí eles aceitaram fazer restauro desse filme.

Em São Paulo, Belair entra em cartaz dia 10, certo?

Sim, no Reserva Cultural. Eles pediram exclusividade na exibição do filme, pra poder manter mais tempo. É bom, acho que vão tratar o filme com carinho.

Para você, que conviveu com dois ícones do que ficou conhecido como cinema marginal, olhando agora para a atual configuração do nosso cinema, quem hoje é marginal no cinema brasileiro?

A ideia de marginal mudou muito nesses 40 anos. A ideia de se classificar como marginal, naquela época, foi para marginalizar mesmo. Foi uma nomenclatura muito pejorativa. Imagina, vivendo a ditadura mais feroz, você chamar um artista de marginal. Era pra ficar fora de tudo, para não ter acesso ao dinheiro, foi uma coisa muito negativa. Mas o termo marginal, nesses 40 anos, virou até uma coisa boa e hoje a margem cresceu tanto que virou centro. Hoje é o centro que está indo atrás da margem.

Seu próximo filme vai se chamar Éden e fala sobre os evangélicos. Como está esse projeto?

Está complicado. Você sabe como é difícil fazer cinema aqui no Brasil, no sentido de fazer um filme um pouco mais “oficial”. Para o Éden, eu ganhei um prêmio da Petrobrás pra fazer, de seiscentos mil. E eu preciso de mais quatrocentos mil pra filmar. Faz um ano que estou tentado conseguir esses quatrocentos e até agora não consegui. Mas estou aí, querendo filmar esse ano ainda. Estou tentando conseguir verba de distribuidor, verba de editais. Mas, por incrível que pareça, ainda há uma desconfiança muito grande com esse tipo de filme mais artístico. Principalmente nesse meio do cinema mais “oficial”. Ninguém acredita. Hoje a mentalidade desses agentes de mercado é só dinheiro. Acabou esse negócio de cinema autoral, de acreditar nisso. E o Éden é um filme que vai falar de igreja evangélica, o que poderia trazer público. Mas tem um projeto para fazer antes, esse sim mais radical.

Que projeto é esse?

Chama-se Operação Sônia Silk. Como você sabe, Sônia Silk é o nome da personagem protagonista de Copacabana Mon Amour. Inspirados pelos filmes da Belair, nós vamos fazer três longas em um mês. Eu, o Felipe Bragança e o Ricardo Pretti. É um projeto, assim, pra fazer com nada. Nosso orçamento está cada vez menor. Ontem eu estava com o Ricardo e a gente está pensando em fazer com 40 mil, os três filmes. Pensamos assim: a gente vende pro Canal Brasil por 10 mil cada filme, faz um rateio, cada um coloca mais 3 mil do bolso e faz. Vai ser um filme de cada um, a gente já tem uns roteirinhos. Mas estou achando que vamos ter que enxugar ainda mais, talvez fazer com 30 mil. É muito pouco, mas eu acho que quando você tem pouco dinheiro acaba sendo mais criativo. E a gente tem que radicalizar de alguma forma, porque senão fica essa média que está aí, inexpressiva.
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Namorados para Sempre



Blue Valantine
Derek Cianfrance
EUA, 2010
112 min.

No final de semana do dia dos namorados já era de se esperar que estreasse na cidade algum filme romântico. A julgar pelo título, Namorados para Sempre, que entra em cartaz nesta sexta (10), é o filme que veio cumprir essa função. Mas é preciso tomar cuidado com as aparências. Quem esperar por um filme doce, cheio de romance, pode se decepcionar. Vai encontrar só metade disso. A outra metade é a vida real e os desafios de qualquer relação, que inclui superar o tédio, as frustrações e o cotidiano que muitas vezes esmaga qualquer história romântica.

Dean (Ryan Gosling, de Um Crime de Mestre) e Cindy (Michelle Williams, de Corações em Conflito) estão casados e têm uma filha de quatro anos, Frankie (Feith Wladyka). Cindy trabalha como enfermeira em uma clínica particular. Dean faz trabalhos esporádicos como pintor de casas.

Cindy encarna o elemento maduro da relação, enquanto Dean é do tipo que não gosta de se prender a horários e responsabilidades sisudas. Isso fica claro logo no início o filme, na relação de cada um com a pequena Frankie. Enquanto a mãe impõe rapidez no café da manhã e pressa em se vestir para que não se atrasem, Dean desce à infância da filha para juntos agirem da mesma forma, brincando com comida e fazendo graça um para o outro.

Quando na mesma manhã o cachorro da família desaparece, um pequeno abalo surge na relação. Para se livrarem de um problema, deixam a pequena Frankie na casa do avô até o dia seguinte. É quando Dean tem a ideia de passarem a noite num motel, sugestão que Cindy recusa prontamente por precisar ir trabalhar cedo na manhã seguinte. Mas Dean não sabe ouvir um não e o casal vai parar numa cafona suíte de motel com decoração futurista. Ali, entre acenos, avanços, recuos, gestos e discussões, virá à tona a erosão da relação desse casal. É quando começam os flashbacks do filme.

A narrativa segue em paralelo, mostrando a corrosão da relação em uma noite no motel e o início dessa relação, quando Dean e Cindy se conheceram por acaso, cinco anos atrás. Esse contraponto faz do filme uma delicada história de amor e um retrato sincero das consequências do desgaste desse amor.

Esse paralelismo da narrativa acentua de forma aguda o abismo que pode haver entre o ideal e o real. A beleza da história de amor entre Dean e Cindy, a forma como superaram dificuldades no início da relação, como se conheceram e se amaram imensamente, dá ao presente de ambos uma grande honestidade. O desenrolar desse início é repleto de cenas românticas, divertidas e também de superação. A forma como se unem e como se mostram dispostos a viverem seu amor de forma intensa e inesgotável enche os olhos e o coração do espectador.

A história do casamento de Dean e Cindy é uma dessas grandes histórias de amor. Foge ao romantismo cênico, de improbabilidades e gestos artificiais de carinho, para nos mostrar o nascimento de uma relação verdadeira, de fibra. A fibra que os ata não apenas pela paixão, pela conquista de um pelo outro, mas também pelo enfrentamento de problemas da vida real, juntos.

Com uma atuação bastante honesta de Gosling e Williams, o filme tem um timing preciso na construção de seu paralelo temporal. É feliz na composição da luz que reforça o frescor da paixão inicial com cenas clara, iluminadas com vivacidade; enquanto que nos momentos do presente as sombras, muito sutilmente, revelam o estado de desgaste e cansaço emocional.

Ao contrapor o romance inicial com a dureza da realidade de um casamento que se desgasta, o filme se mostra disposto a nos colocar no chão, a nos tirar do conforto lírico do romance idealizado. Revela, com isso, que a vida segue em frente. Isso faz lembrar uma frase de um filme que deve estrear ainda este mês, “The Romantics”, quando alguém diz que qualquer um é capaz de um grande gesto romântico, o problema é o que vem depois.

Namorados para Sempre, é um ótimo filme de amor, mas amor na vida real, com tudo que ela pode trazer de desgaste e desconforto. Não se rende a facilidades românticas, embora seja permeado pela beleza de uma relação nascida de uma verdadeira e resistente paixão. Mesmo em seu desfecho não entrega de bandeja o conforto típico de filmes românticos. Traz a beleza, traz a dor e emociona profundamente, porque acima de tudo é um filme sincero.
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quarta-feira, junho 08, 2011

Começa hoje em São Paulo o Festival Varilux de Cinema Francês

Com exibições em 22 cidades brasileiras, festival trás filmes franceses ainda inéditos no Brasil.


Com a presença de uma diva do cinema mundial, a atriz Catherine Deneuve, e apresentando um panorama da recente cinematografia francesa, começa hoje em São Paulo o Festival Varilux de Cinema Francês. O evento, que vai até o dia 17 e tem como objetivo divulgar o cinema francês contemporâneo pelo do mundo, apresenta dez filmes ainda inéditos no Brasil. Na programação, estão obras como o novo filme de François Ozon estrelado por Deneuve, “Potiche: Esposa Troféu”, “Venus Negra”, de Abdellatif Kechiche (do sensível e intenso “O Segredo do Grão”) e uma retrospectiva em homenagem a atriz Sandrine Bonnaire.

O festival ocorre simultaneamente em 20 cidades brasileiras (São Paulo, Belém, Brasília, Campos, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, João Pessoa, Juiz de Fora, Macaé, Maceió, Natal, Porto Alegre, São Luís, Santos, Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Vitória). Fortaleza e Belo Horizonte recebem o festival de 16 a 23 e de 24 a 30, respectivamente. Em São Paulo as sessões ocorrem no CineSESC, Reserva Cultural e Unibanco Arteplex Frei Caneca.

Além de Catherine Deneuve, a organização do Varilux trouxe também ao Brasil a atriz Audrey Tautou. Famosa por seu papel em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, a atriz vem divulgar seu novo filme, “Uma Doce Mentira”, que será exibido durante o festival. Sandrine Bonnaire, homenageada com uma retrospectiva de oito filmes nos quais atua, também está no país prestigiar o evento.

O Festival Varilux de Cinema Francês é organizado pela Unifrance Film Internacional, que é uma associação que promove o cinema francês em diversas cidades ao redor do mundo. Seu principal patrocinador é a multinacional francesa Essilor-Varilux, fabricante das lentes Varilux e Crizal.
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Serviço:
Festival Varilux de Cinema Francês
De 08 a 17 de junho
Para baixar a programação completa de São Paulo, no formato PDF, clique aqui. 
Mais informações, acesse: www.festivalcinefrances.com

segunda-feira, junho 06, 2011

Não Me Abandone Jamais


Never Let Me Go
Mark Romanek
Reino Unido/EUA, 2010
103 min.

Um barco permanentemente encalhado na areia, diante do mar inalcançável. A imagem da impossibilidade dos sonhos e da aventura. A impossibilidade do porvir. O mar ali, imenso; toda sua grandeza e o inesperado que guarda em suas descobertas. Mas o barco, nascido para todas as possibilidades do mar, disposto ao mar, pronto para ele, está encerrado na sua condição irremediável de encalhe. Está impedido de navegar.

O plano-chave de “Não Me Abandone Jamais” é a perfeita dimensão do drama de seus personagens. Um drama talvez impossível de traduzir, mas que na imagem do barco encalhado na areia encerra sua tradução mais poética e também mais precisa.

Adaptado do livro homônimo de Kazuo Ishiguro, o filme conta a história de três amigos que passaram a maior parte da infância e juventude juntos. Eles cresceram em um orfanato britânico chamado Hailsham, local que tinha um código de disciplina intolerante em determinadas situações e ao mesmo tempo liberal com outras. Essa discrepância se esclarece quando se revela o destino a que todos os internos estão fadados.

Narrado a partir das lembranças de Kathy, a história acompanha sua infância e juventude ao lado dos amigos Tommy e Ruth, desde o orfanato até a vida adulta. Cientes de estarem condenados ao mesmo destino atroz e precoce, suas relações e a forma como lidam com esse destino serão os elementos para uma reflexão sobre existência e humanidade. Contar mais do que isso é comprometer a experiência de se descobrir, junto com o filme, a verdadeira natureza dos personagens e o sentido (ou a falta dele) em suas vidas.

Descoberta é, a propósito, a palavra-lei dessa triste fábula. Contada com delicadeza, a história nos leva a descobrir junto com os personagens não apenas seu destino terrível, mas também suas experiências, angústias e sentimentos. A confusão de suas expectativas, a afetuosidade de suas relações, a ingenuidade de seus espíritos. Embora estejam atrelados pelo mesmo destino, experimentam a vida de formas diferentes, entre o equívoco do egoísmo e a brandura da abnegação, em meio à confusão de suas próprias existências.

Não há, na tragédia que os assombra, um sofrimento intenso, de esmagar. Está tudo nos detalhes, nos gestos e na solidão. É a sutileza da direção, a fotografia de atmosfera melancólica, a passividade da aceitação de seus destinos. Evitando sufocar a história com uma pesada constatação da dor de cada um, opta-se pelo frescor da juventude e pela tristeza intrínseca no sentimento de cada um deles.

“Não Me Abandone Jamais” é um desses filmes que nos acompanha após a sessão, que carregamos conosco por muito tempo. Um filme que revela o sentimento, o afeto, a amizade e o carinho de uma forma tão tranquila e ao mesmo tempo tão urgente que nos contamina e comove.

Para fazer-se inteiro, o filme dispensa grandes gestos dramáticos e se preserva na simplicidade. Guarda sua tradução difícil na imagem de todas as possibilidades - as do mar e as da vida - encerradas na tristeza de um barco encalhado na areia, no limiar de todos os sonhos, impedido de sonhar.

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Fernando Meirelles volta a fazer blog sobre bastidores de próximo filme

Com vídeos e relatos, diretor revela histórias e curiosidades de se trabalhar com atores como Jude Law e Anthony Hopkins


Aconteceu primeiro durante as filmagens de “Ensaio Sobre a Cegeuria”. Com boa regularidade, o diretor Fernando Meirelles não apenas relatava histórias do set de filmagem como também abria, de maneira franca, suas inquietações e dúvidas sobre o projeto. Agora a experiência se repete nas filmagens de “360”, seu próximo filme.

No ar desde fevereiro deste ano, o “Blog do 360” trás vídeos das filmagens, relatos sobre técnicas de atuação dos atores e detalhes dos bastidores das filmagens, além das já conhecidas inquietações de Meirelles. É um material rico em detalhes que ajudam a nos fazer entender como funciona um set de filmagem e os processos para a realização de um filme grande.

“360” é uma produção entre França, Inglaterra e Áustria e que tem no elenco nomes Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Jude Law e atores brasileiros como Maria Flor e Juliano Cazarré. Pelo blog ficamos sabendo como trabalha, por exemplo, Anthony Hopkins, que usa um método de composição de personagem oposto ao do ator alemão Moritz Blerteu. Meirelles relata como uma cena muitas vezes surge dentro do set, através de pequenos acidentes cometidos pelos atores e incorporados ao filme e a sensação de se trabalhar com atores tão diferentes.
Fernando Meirelles e o ator francês
James Debouze 

Para quem se interessa por bastidores e está interessado em saber como funciona um filme por dentro, os relatos de Meirelles são uma fonte interessante e bastante sincera desse material.

O filme “360” é uma adaptação da peça “Reigen”, de Arthur Schnitzler. Tem locações nos EUA e em diversos países da Europa, e conta com um elenco de atores de diversas nacionalidades, sendo um filme que terá diferentes idiomas em cena.

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domingo, junho 05, 2011

Breviário da Semana Nº 02

Um semanário muito breve.





Estreia


Dos filmes que estrearam nesse final de semana, só pude ver dois. “Estamos Juntos”, que vi em cabine e “X-Men: Primeira Classe”, que vi ontem.

X-Men: Primeira Classe
Sobre Estamos Juntos escrevi crítica completa, que pode ser lida aqui. Mas em resumo é um filme que se lança a grandes pretensões e que por isso mesmo se perde em uma superficialidade que não toca o expectador. É esforçado, mas ao querer dizer muito, acaba dizendo pouco. E de sentimento, menos ainda.

Já X-Men: Primeira Classe reinicia a franquia dos mutantes, que em sua primeira leva nos trouxe, além de uma trilogia (“X-Men: O Filme”, “X-Men 2” e “X-Men: O Confronto Final”), uma aventura solo de seu personagem mais carismático, Wolverine, em “X-Men Origens: Wolverine”.

Nesta nova franquia, que busca contar como tudo começou, o roteiro não é mau, a ação interessante e a relação dramática entre os dois protagonistas (Charles Xavier (futuro Professor X) e Ekik Lehnsherr (futuro Magneto) é bastante aceitável.

A temática de discriminação, aceitação de diferenças e preconceito continua lá, mas o roteiro, em alguns rumos, depõe, ironicamente, contra esses princípios. Isso tem haver com o destino do único personagem negro no filme e com a atitude de uma personagem que era, inicialmente, prostituta. O modo como o roteiro os trata (destino breve) ou retrata (caráter facilmente “distorcível”) revela uma subcamada de moralidade e preconceito típica do pensamento tacanha do americano médio. 

De resto, o filme vai bem. Destaque para a atuação de James MacAvoy como o jovem Xavier. Só uma coisa realmente fica ridícula, embora eu tenha lido – com certo esforço de boa vontade - como uma referência aos filmes de James Bond dos anos 60 (a trama se passa nesse período). O fato é que não se pode ter um vilão com submarino luxuoso. Isso não apenas é cafona como é patético, especialmente depois que Mike Myers e seu Austin Powers desconstruíram alguns clichês da luta do bem contra o mal no cinema de espionagem.



Em cartaz


Singularidades de Uma Rapariga Loura
Acompanhar a obra de um diretor que já vai pelos 102 anos de idade em plena produção, é sempre uma experiência interessante. Manuel de Oliveira, diretor português que apesar da idade não para de filmar, adaptou para o cinema da obra de Eça de Queiroz o gracioso Singularidades de Uma Rapariga Loura. Um filme curto, com pouco mais de uma hora de duração, que nos lança para os mistérios da paixão, da entrega, da fortuna e da sedução. Filmado com esmero e delicadeza, é incrível como a jovem Luísa – a rapariga loura do título – emana para a tela uma sedução inocente e perturbadora através do olhar e dos movimentos de seu leque chinês.


Com um belo atraso, fui ver Cópia Fiel, do iraniano Abbas Kiarostami. Juliette Binoche está incrível no papel de papel trocado. Ela vai de uma sutil sedução a uma amargura rancorosa com grande suavidade. O filme é um passeio e um longo diálogo entre essa mulher, que vive na Itália, e um escritor inglês que está de passagem para a divulgação de seu novo livro. O que inicialmente parece um cordialmente tenso embate de ideias sobre originalidade, mediocridade e verdade, aos poucos se revela um simulacro, um jogo de ironia, sutilezas e admoestação sobre feridas mal disfarçadas de um casamento afundado.


Para conseguir ver Minha Versão do Amor (péssimo título em português para um filme que passa longe de ser romântico), tive que ir à única sessão diária do filme ainda em exibição na cidade, no Museu Lasar Segall. Valeu o esforço. Paul Giamatti, de quem gosto muito, está impecável no papel de um homem cuja vida é marcada pelas mulheres que amou e casou. É um drama com traços cômicos, mas que trás a tragédia e a amargura da vida como real substância de sua história. É desses filmes que nos faz chorar por dentro e por fora. A mim, especialmente, o desabe ocorre na cena em que ele tenta descascar uma banana. Destaque para Dustin Hoffman como o pai de Barney, um policial aposentado sem muitas travas de comportamento e linguagem.


A Marca da Maldade
Mostras, Retrospectivas, DVD


Em casa revi A Marca da Maldade, de Orson Welles. O fabuloso plano sequência que abre o filme deve ter ensinado muito a Hitchcock sobre os fundamentos da construção do suspense. A interpretação de Welles como o policial gordo e implacável ainda é de impressionar. Para ser vistos mais e mais vezes.

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Cinema Japonês no SESC Pinheiros

Mostra de filmes resgata história de antigos cinemas do bairro da Liberdade


O SESC Pinheiros inaugurou na última sexta-feira (03) a exposição “O Japão em 4 Cinemas”. Uma mostra que resgata parte da história da cidade de São Paulo, do bairro da Liberdade e do cinema japonês. Com uma programação de filmes e uma exposição de cartazes da época, a mostra conta a história dos quatro cinemas que existiram no bairro da Liberdade entre os anos 50 e os anos 80 (Cine Tókio, Cine Jóia, Cine Niterói e Cine Nippon) que exibiam exclusivamente filmes japoneses.

A exposição, montada no 3º andar, reúne cartazes de filmes que foram exibidos nesses cinemas, além de fotos e objetos da época. Há também um espaço que permite ao visitante assistir a trechos de alguns filmes que foram exibidos nessas salas. Em paralelo, ocorrerá uma mostra de filmes do cinema japonês daquele período. São filmes importantes da cinematografia japonesa e que já estiveram em cartaz nos cinemas da Liberdade.

Memória Afetiva
Além de fazerem parte da memória afetiva dos membros mais antigos da colônia japonesa em São Paulo, esses cinemas tiveram uma importância fundamental na formação de alguns cineastas brasileiros, como Carlos Reichenbach, Walter Hugo Khouri e Rubem Biáfora. Esses diretores eram frequentadores assíduos desses cinemas, mesmo quando os filmes eram exibidos sem legendas.

Como os filmes vinham direto do Japão para São Paulo, tinha-se um permanente panorama da rica e diversificada produção japonesa da época, que só anos mais tarde seria conhecida e reverenciada no resto do mundo.

Assim, foi com grande antecipação que os frequentadores dessas salas de cinema conheceram as obras de diretores hoje cultuados no mundo todo, tais como Yasujiro Ozu , Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa, Masaki Kobayashi, entre outros.

Histórias e personagens
Muitas histórias preenchem esse período e esses cinemas. Histórias que começam muito antes da inauguração dessas salas e nascidas nas estradas do interior paulista. Em breve, o Eu, Cinema estará publicando aqui uma reportagem completa sobre essas histórias e seus personagens.
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Serviço:
O Japão em 4 Cinemas
SESC Pinheiros – Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros
De 03 de junho a 17 de julho
Entrada Franca
Mais informações, acesse: http://www.sescsp.org.br

sexta-feira, junho 03, 2011

Estamos Juntos



Estamos Juntos
Toni Venturi
Brasil, 2011
111 min.

Novo filme de Toni Ventura, que estreia nesta sexta (03), “Estamos Juntos” é um drama de introspecção e autoconhecimento. Uma jornada de angústia, dúvida e solidão pela qual passará sua protagonista. Um caminho sufocante que a fará perceber que seu mundo não é tão seguro, nem tão equilibrado quanto pensa.

Carmen (Leandra Leal) é uma médica residente que aspira se tornar cirurgiã. Respeitada pelos colegas do hospital público onde trabalha, dedica-se arduamente ao trabalho e aos estudos. Também participa como voluntária de um trabalho de orientação a famílias carentes de uma comunidade do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro). Com uma rotina intensa de trabalho e estudo, não tem muito tempo para dedicar a seus amigos.

Dentre as poucas amizades que Carmen cultiva está a de Murilo. Ele é DJ de uma banda que mistura música eletrônica com instrumentos clássicos. Homossexual assumido, Murilo apresenta Carmen a Juan (Nazareno Casero), um músico argentino incorporado recentemente à banda, por quem Murilo está apaixonado. Mesmo sabendo da paixão de seu amigo pelo músico argentino, Carmen se deixa levar pela atração e inicia um romance com o jovem.

Mas Carmen parece não desenvolver laços íntimos com ninguém, sendo uma pessoa fechada e isolada. Ela se abre apenas para um enigmático amigo (Lee Thalor) que, embora pareça morar no mesmo apartamento que ela, nunca é visto por ninguém.

A vida de Carmen entra em turbulência quando ela descobre que tem um tumor no cérebro em adiantado desenvolvimento. Desnorteada, vai perceber aos poucos que nunca construiu amizades verdadeiras, justamente por sempre se manter distante das pessoas. Entre a iminência da morte e a solidão repentina, Carmen terá que reencontrar um equilíbrio para sua vida, tomar decisões que afetarão seu futuro e aprender a confiar nas pessoas.

A potencialidade dramática do roteiro de “Estamos Juntos” se revela uma armadilha para o diretor Toni Venturi. É evidente, na forma como a narrativa se desenrola, uma pretensão de alavancar diversas facetas filosóficas sobre a solidão e a morte, contrastadas pela vida na cidade grande, no caso São Paulo. Em vez de estabelecer apenas um ou dois focos dramáticos, o filme se multiplica em personagens que muitas vezes, pelo subaproveitamento de seus dramas, soam como arrimos de uma história que não nos comove.

Falta á narrativa uma cadência sólida, constante. Falta uma verdadeira aproximação da personagem de Leandra Leal. A atriz, de já comprovado talento, não consegue transmitir empatia e ficamos distantes de seu drama, incapazes de nos comover com ele. Contribui para isso a fragmentação de seu mundo e a presença de seu amigo secreto, causando um estranhamento que mais afasta que aproxima.

Ao querer preencher o filme com outros dramas que não apenas o da personagem central, o roteiro acaba por dispersar a força da experiência pela qual passa Carmen. A superficialidade de tudo que orbita Carmen contamina sua própria vida, tornando-a também superficial. Desse modo, embarcar na sua dor e nas suas angústias se torna difícil para o espectador e o filme acaba soando raso. Justamente o contrário de sua pretensão e em prejuízo de uma história e de uma personagem de grande potencial.
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80 anos de Jacques Demy

Cinemateca realizara retrospectiva do diretor francês

Pele de Asno
Em celebração pelos 80 anos de nascimento do diretor francês Jacques Demy, falecido em 1990, a Cinemateca Brasileira realizará uma retrospectiva de seus principais filmes. Bem embora pertença à geração da Nouvelle Vague, Demy não se alinhou com os preceitos fílmicos da trupe da Cahiers e seguiu fiel à suas temáticas e seu estilo.

Como muito bem ressalta o site da cinemateca, seus filmes foram sempre marcados pelo romance, pelo musical e por uma alegria expressada pelas cores abundantes. Mas esses filmes eram na verdade parábolas muito bem tramadas e cheias de pessimismo.

Entre os filmes que serão exibidos estão “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de 1963 (vencedor da Palma de Ouro no ano seguinte), “Duas Garotas Românticas”, de 1966 e “Pele de Asno”, de 1970.

Os ingressos custam R$ 8,00 (R$ 4,00 meia). A Cinemateca Brasileira fica no Largo Senador Raul Cardoso, 207. A programação completa você encontra no site: http://www.cinemateca.com.br
 

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