sábado, março 17, 2012

Anderson Silva: Como Água



Ao final da sessão para imprensa de Anderson Silva: Como Água, alguém disse: “Entrei sem saber nada dele e saio do mesmo jeito”. Neste documentário sobre o lutador brasileiro, a falta de dados biográficos talvez seja a “guarda baixa” que mais chama atenção. Mas quem conhece o histórico de lutas de Anderson Silva sabe que guarda baixa não é um problema para ele, que gosta de baixá-la e exibir sua ágil esquiva. Como Água não se sai tão bem quanto seu personagem, mas dá conta do recado por outras vias.

Para quem não sabe, Anderson Silva é campeão dos pesos médios do UFC (Ultimate Fighting Championship), a entidade mais bem sucedida da história na organização de eventos com lutas de MMA (Mixed Martial Artes). Dentre todos os contratados do UFC, Silva é um dos que mais se destaca. Ele vem ganhando aura de lendário por deter o título de campeão desde 2006 e por já tê-lo defendido em nove ocasiões, todas com vitória; algumas delas espetaculares; outras, polêmicas.

No documentário dirigido pelo estreante Pablo Croce, a falta de um aprofundamento na história e personalidade de Anderson Silva pode decepcionar alguns. Mas Como Água tem uma proposta clara e específica. Trata-se do registro da preparação de Silva para uma luta que se tornaria histórica, contra o americano Chael Sonnen, que aconteceu em agosto de 2010. Não por acaso, o documentário chega às telas poucos meses antes da revanche entre os mesmos lutadores, que deve ocorrer em junho deste ano aqui no Brasil.

Caça-níquel ou não, o filme tem ingredientes para fazer a alegria dos fãs do MMA. E mesmo quem pouco conhece desse universo pode sair da sessão surpreso pelo quanto de cinematográfico houve no desenrolar dos fatos. A começar pela polêmica luta anterior de Anderson Silva que abre o documentário. Por apresentar uma postura desdenhosa em relação a seu oponente, Damian Maia, e por sua atitude pouca combativa, Silva foi duramente criticado pela imprensa. Mas seu maior crítico foi Dana White, o poderoso presidente do UFC, que ameaçou cortá-lo da entidade caso perdesse a próxima luta.

A outra polêmica surgiu justamente de seu próximo adversário: Chael Sonnen. O americano passou a disparar ofensas e provocações contra Anderson Silva, criando um forte clima de animosidade. É com um apanhado desses fatores, mais os bastidores da dura rotina de preparação do atleta para a luta, que se constrói o documentário. E é justamente por ser um “apanhado” que o resultado é bastante irregular.

O filme abre com algum impacto e emoção. Nos introduz de imediato ao fenômeno Anderson Silva logo após uma citação na figura de Bruce Lee, que justifica o título Como Água. Segundo o mítico lutador de Kung Fu, um praticante de artes marciais deve ser como a água, sem forma rígida e adaptável a qualquer situação. Começando com alta voltagem, mostrando nocautes e golpes de Silva. Depois, passa à polêmica, em seguida à preparação propriamente dita. Então começa a cair.

Na verdade, a irregularidade de Como Água é bastante regular. Isso porque o filme vai gradativamente caindo no quesito interesse à medida que vão se inserindo sequências que não acrescentam nada à narrativa e, possivelmente, estão ali para dar estofo à duração do filme (que tem apenas 76 minutos), evitando que saísse como um média-metragem.

O desinteresse que resulta desse miolo do filme é justamente fruto de uma não abordagem mais próxima da figura de Anderson Silva. Uma opção que poderia dar uma interessante perspectiva à narrativa. Ao invés disso, seguem-se rodeios que não levam a nada, passagens que chegam ao ponto da desconexão com o todo do filme. Chegando ao meio, o filme está em baixa, mas então começa novamente a se erguer ao voltar-se para a luta, para o desafio iminente.

Mesmo que o resultado final seja conhecido, a forma como os fatos se deram garantem emoção e têm, sem dúvida, traços de roteiro de cinema. A luta entre Sonnen e Silva torna-se histórica e sua dramaticidade é bem aproveitada pela montagem que culmina com o combate. Neste ponto, Como Água empolga e surpreende.

Para os opositores dessa modalidade de luta, o filme será visto apenas como um pastiche sobre a barbárie dessa competição. Para fãs – ou mesmo expectadores esporádicos – o filme poderá despertar emoções e mostrar como a vida real pode parecer cinema. Nada disso oculta seu oportunismo de momento, nascido da revanche entre os dois oponentes. E também como mais um esforço para ampliar mitificação em torno de Anderson Silva, que cada vez mais extrapola o octógono do MMA para se tornar uma celebridade e um fenômeno midiático.
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Like Water
Pablo Croce
EUa, 2011
76 min.

Assista ao trailer 

sexta-feira, março 16, 2012

Shame


Não falta material para polêmica em Shame, novo filme do diretor britânico Steve McQueen (que, registre-se, não tem nada a ver com seu homônimo, o ator norte-americano falecido em 1980). O McQueen de quem falamos fez sua estreia como diretor em 2008 com Hunger, um filme que dividiu a crítica e gerou polêmicas. De forma crua e escatológica, o filme retratava a greve de fome que Bobby Sands, ativista do IRA (Exército Republicano Irlandês), realizou nos anos 80 em protesto contra o governo da primeira ministra britânica Margaret Thatcher.

No sentido visual, Shame não causa o mesmo impacto de repulsa que Hunger. Por outro lado, o drama de seus personagens é suficientemente intenso para nos fazer sair do cinema atingidos pela força das imagens e dos desdobramentos da trama. Um efeito que deve à excelente atuação de Michael Fassbender (o Magneto de X-Men: Primeira Classe) grande parte de seu poder atordoante.

Já há algum tempo elogiado por seu talento como ator, Fassbender interpreta aqui Brandon Sullivan, um executivo bem sucedido viciado em sexo. Sem conseguir conter seus impulsos sexuais, ele consome pornografia diariamente, faz sexo com estranhos, masturba-se no trabalho e frequentemente contrata prostitutas para satisfazer-se. Mas o que pode parecer um filme orgiástico, repleto de cenas pornográficas, é na verdade uma trama que trabalha também a sugestão, o implícito. Não que não tenha cenas de sexo e nudez, mas a gravidade dos acontecimentos são construídos mais pelas lacunas de sexo do que pelo explícito dos atos cometidos.


McQueen cria em seu filme um equilíbrio eficaz entre a sordidez da rotina de um dependente de sexo - com sua contínua degradação - e a psicopatologia que o afeta de forma irreversível e penosa. Neste universo sombrio, o estopim da trama inicia-se com a chegada da irmã de Brandon, interpretada por Carey Mulligan (de Drive). Ela é Sissy, uma cantora da noite que está sem ter onde morar depois que terminou com o namorado. Sua inadvertida aparição na vida de Brandon dá-se inicialmente como um pêndulo que oscila entre o desconforto e a tensão, passando pelo carinho.

Como seu irmão, Sissy também apresenta desvios emocionais. Mas os delas se revelam na carência afetiva e nas marcas de lâminas que traz nos pulsos. Parte da intensidade do filme se dá pela relação ambígua entre Sissy e Brandon, uma ambiguidade que surge de impacto desde a primeira aparição dela na tela. Da frieza com que ele a trata à forma como ele a olha, a premissa do incesto vagueia pela química entre ambos; nos gestos de afeto dela e nos confrontos exasperados dele.

É a entrada da irmã na vida de Brandon que parece desencadear uma perturbação maior em seu distúrbio emocional, levando-o primeiro a uma busca afetiva concreta e depois a uma queda em espiral rumo ao mais degradante em seu vício. É pungentemente triste perceber sua inaptidão para as relações sociais afetivas, assim como seu invólucro superficial de dependência, no qual o prazer imediato parece ser a única forma de escape e alívio.


Esta complexidade do personagem é explorada de forma brilhante pelo diretor. Em especial na sequência em que Brandon demonstra toda sua inabilidade em lidar com afetividade durante um desconfortável jantar com uma mulher. O desenrolar desse encontro será a constatação da patologia grave que o afeta, ao mesmo tempo que com outros fatores o levará à espiral degradação.

Quando arrastado pelo redemoinho de uma noite em busca de satisfação, será a voz desesperada de sua irmã, gravada na secretária eletrônica, a única pista do que os fez na vida adulta cair na repetição da eterna insatisfação e inalcançável plenitude. “Nós não somos pessoas más. Apenas viemos de um lugar ruim”, diz Sissy, entregando uma tênue chave para que se compreenda o drama de ambos. Mas esta chave e os acontecimentos seguintes não se definem como a catarse final necessária à redenção e ao recomeço. Fica apenas a incógnita do plano final, uma troca de olhares e a expectativa interrompida entre o desejo e a razão.
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Shame
Steve McQueen
Reino Unido, 2011
101 min.

Trailer

quinta-feira, março 15, 2012

Projeto X – Uma Festa Fora de Controle


Projeto X surgiu como um filme-incógnita. Não apenas pelo “x” do título, mas pelo conteúdo estranho que seus trailers exibiam: cenas de uma festa com aquela estética de comercial de vodka. Mas quando o filme completo se revelou em sua dimensão de absoluto descontrole, surpreendeu imensamente. E causou risos como há muito tempo eu não via – e não ria – em uma plateia de cinema.

Não há nada de genial ou original na composição desta comédia sobre descontrole e ímpeto juvenil. Nem mesmo em sua estrutura, que recorre ao batido recurso da câmera amadora filmando tudo o tempo todo como registro de fatos reais. Este recurso, aliás, já serviu como artifício para impingir às imagens e às histórias uma aura de verdade, de realidade documentada. Hoje, se apresenta apenas como uma muleta que invariavelmente apresenta buracos estruturais e não convence ninguém. Mas até isso funciona de forma integrada em Projeto X, não como um recurso articulado, mas como um efeito intensificador do absurdo.

Thomas (Thomas Mann) está fazendo aniversário; 17 anos. Seus pais vão viajar no final de semana e o jovem, fortemente influenciado por seu amigo Costa (Oliver Cooper) e auxiliado pelo gordo JB (Jonathan Daniel Brown), pretende dar uma festa em sua casa. É claro que seus pais desconfiam disso, mas consideram o filho e seus amigos tão pouco descolados que simplesmente não cogitam que a coisa vá além de algumas pizzas, videogame e meia dúzia de amigos bobocas.

Mas a ideia de Costa é fazer uma festa para mudar a imagem que ele e seus amigos têm na escola. É a chance de se tornarem populares e conseguirem ficar com aquelas garotas que nem sabem que eles existem. Contudo, nenhum deles poderia imaginar que a notícia da festa se espalharia de forma tão rápida e muito menos a proporção catastrófica que as coisas tomariam.

Abusando de piadas sexistas e dando um dedo médio para o politicamente correto, Projeto X abre com uma mensagem se desculpando com as autoridades locais pelo que vai ser mostrado a seguir. Seus 20 minutos iniciais, que mostram os preparativos para a festa, causaram mais risos do que a maior parte das comédias lançadas no ano passado. É besteirol, mas um besteirol que articula e resgata um tipo de irresponsabilidade e excitação juvenil que qualquer um que tenha sido jovem já sentiu. Por isso é engraçado, porque é catártico e porque é realizado com autenticidade, em um tom espontâneo e convincente.

Por ser sexista, pode não agradar ao sexo feminino, que não compartilha do mesmo tipo de humor desbocado e safado que o filme promove. O que, como bem lembrou um amigo crítico, não é diferente da relação masculina com Sex and the City. Talvez para amenizar a resistência do público feminino o roteiro de Projeto X apresenta seu grande defeito quando em meio à anarquia coloca uma dose de sentimentalismo. O “alívio romântico” acaba por desvirtuar o que o filme tem de melhor que é sua anticaretice e total entrega ao anárquico e irresponsável.

Mesmo com esta falha, Projeto X se sai muito bem como comédia. Sem grandes pretensões, atualiza um gênero que tem em sua linhagem filmes como A Última Festa de Solteiro e Curtindo (1984) a Vida Adoidado (1986). Tem personagens impagáveis e um desdobramento de proporções absolutamente inesperadas. É de todo absurdo monumental que vem grande parte de seu humor e talvez um certo fascínio pelo tom lendário que a festa e os personagens vão tomando. E além de boas gargalhadas, há o assombro, que cresce cada vez que se percebe o quanto uma simples festa vai se tornando um evento de descontrole sem precedentes.
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Project X
Nima Nourizadeh
EUA, 2012
88 min.

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quarta-feira, março 14, 2012

Habemus Papam


A cena final de Habemus Papam é feita de uma gravidade trágica. Nela, amarra-se de forma brilhante os laços dispostos ao longo do filme. Levado com o humor cínico e mordaz do diretor italiano Nanni Moretti, mas cercado de uma melancolia doce e sincera, seu desfecho – que naturalmente não será revelado aqui – se dá como uma súbita revelação. É operístico, grandioso e se avoluma dentro dos corações – crentes ou não – como um peso decididamente insuportável. O peso que carrega um Papa.

O filme abre com o funeral de um Papa. Passados os ritos, é hora de eleger um novo sumo pontífice. Começa o conclave para a eleição do novo Papa e desde já o diretor destila seu humor crítico, presente na abordagem das sutilezas dos cânones católicos e seus fiéis representantes. Mas também desde já se percebe que a grita silenciosa geral é de prece rumo a Deus: todos pedem para não ser o escolhido. Na graça cômica da prece está o drama real. Ser Papa é fardo para poucos.


Quando finalmente o cardeal Melville (Michel Piccoli, em uma interpretação sensível e comovente) é escolhido novo Papa, todos os demais se sentem aliviados. Mas na hora de aparecer para os fiéis na sacada da basílica de São Pedro, o Papa recua e com um grito desesperado foge, deixando todos atônitos. Diante do peso da responsabilidade, Melville sofre uma crise de estresse.

Com o anúncio do novo Papa em suspenso, resta ao Vaticano fazer de tudo para convencer o Papa e se anunciar Papa. Sem sucesso, chama-se um psicanalista renomado, interpretado pelo próprio Moretti. Mas a dificuldade em uma análise reservada de seu paciente torna impossível seu trabalho. Pior para o psicanalista, que de repente se vê preso dentro do Vaticano, já que por saber a identidade do novo Papa, só poderá sair quando este for oficialmente anunciado.

É para passar o tempo no cárcere eclesiástico que o psicanalista organiza então um torneio de voleibol entre os cardeais, enquanto o Papa pede mais tempo para conseguir se apresentar como líder da fé católica. Moretti equilibra então o miolo de seu filme entre a leveza do humor inesperado de cardeais para lá de sexagenários em um disputado torneio de vôlei e a angústia que transborda na figura do Papa.


Tudo se representa pela feição e figura de Melville. Está no seu rosto o peso todo. Há em seus ombros uma Igreja, toda uma crença com seus milhões de seguidores. Feito farol desse povo, enverga sobre o peso de tanta fé. Perde-a de si mesmo, embora não de Deus, e se sente oprimido. Nas coisas simples da vida mundana, no resgate de um sonho juvenil, reencontra-se. Mas nada que seja suficiente para leva-lo a um cume verdadeiramente alto e guiar um povo. Reencontrado de si mesmo, percebe seu destino verdadeiro e finalmente se dispõe a assumi-lo, mesmo que isso lhe custe muito caro.

A riqueza do filme de Moretti está no leve absurdo dos eventos e na ironia da situação. Mas também muito se deve à força melancólica da solidão de Melville. É a partir desses elementos que o diretor constrói um drama inusitado com grande sensibilidade. Fino, de humor agridoce e com atuações inspiradas, Habemus Papam se sai como uma experiência humana acima de tudo. Está aí, imiscuída em uma sutil delicadeza melancólica, a crítica de Moretti à igreja e ao peso que esta impõe inadvertidamente a seus fiéis, sacerdotes e a si mesma.
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Habemus Papam
Nanni Moretti
Itália/França, 2011 
102 min.

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Guerra é Guerra



O trio do elenco principal é de fazer suspirar moçoilas e rapazotes: Chris Pine (o capitão Kirk na nova franquia Star Trek), Tom Hardy (de A Origem) e Reese Witherspoon (de Água para Elefantes). Contudo, apesar de tanto charme e simpatia, não sobra muita coisa de interessante nesta comédia de ação feita com pouca ação e quase sem comédia.


Tuck (Hardy) e FDR Foster (Pine) são dois agentes especiais da CIA. O primeiro é separado da esposa e tem um filho de 8 anos. O segundo é solteiro e leva uma vida de playboy sofisticado quando não está a serviço do governo. Ambos se sentem solitários, pois não encontram mulheres que os completem em um relacionamento. A solidão sentimental também afeta Lauren (Witherspoon), que trabalha testando a resistência e funcionalidade de produtos domésticos.


O caminho dos três se cruza após uma amiga de Lauren, sem que esta saiba, fazer um perfil bastante ousado da amiga em um site de relacionamentos. Por uma série de acasos, os dois agentes, temporariamente suspensos depois de uma ação desastrada, passarão a sair com Lauren ao mesmo tempo. Quando descobrem que estão interessados na mesma garota, começam uma competição para ver quem fica com Lauren.

Com um roteiro inexpressivo – que passa tempo demais andando em círculos sem avançar –, o filme traz os exageros típicos do gênero. Como quando ambos agentes colocam o aparato tecnológico da agência do governo para atrapalhar um ao outro e impressionar a garota. As cenas de ação que se poderia esperar ficam restritas ao início e ao final do filme. Já as piadas, dentre as poucas que há, perdem qualquer graça pelo tamanho do clichê de que são carregadas.


Em uma trama monótona em que nem o charme e beleza dos atores segura a atenção, sobressai-se apenas as participações na trama da amiga de Lauren, Trish (Chelsea Handler). É de sua atitude politicamente incorreta e desbocada que sai algumas piadas capazes de produzir alguma graça. Na verdade, parece vir do politicamente incorreto as boas partes do filme. Como na cena em que um dos agentes, para impressionar a garota, entra ensandecido em uma amistosa arena de paintball.

Do restante do filme, não sai nada muito engraçado ou divertido. Apenas a repetição e a monotonia.
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This Means War
McG
EUA, 2012
97 min.

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sexta-feira, março 09, 2012

W.E. - O Romance do Século


Arrisca-se, pela segunda vez, a cantora Madonna na direção de um longa-metragem. A primeira, em 2008, foi com a comédia Filth and Wisdom, que nem chegou a ser lançada por aqui e não obteve sucesso nas bilheterias. Desta vez, a pop star ataca com uma história verídica narrada em paralelo com outra ficcional; duas histórias que se passam em épocas totalmente diferentes.

A primeira, se passa nos anos 30 do século passado. Madonna recria à sua maneira o romance que levou um rei a abdicar de seu trono. É a história de Edward, (James D'Arcy), Príncipe de Gales, herdeiro do trono da Grã Bretanha, e Wallis Simpson (Andrea Riseborough), uma mulher duas vezes divorciada. Após assumir o trono, em 1936, Edward não abre mão de se casar com Wallis, algo que a Igreja Anglicana e a família real nunca tolerariam. Sofrendo pressões de diversos lados, o rei abdica do trono em favor de seu irmão George - o rei gago cuja história foi contada em O Discurso do Rei (2010).

A segunda história se passa nos anos 90, quando conhecemos Wally Winthrop (Abbie Cornish), uma mulher sofisticada cujo casamento com um renomado médico de Nova York não vai bem. Infeliz com o marido sempre ausente e com a dificuldade em conseguir engravidar, todos os dias ela passa horas em uma exposição para leilão de objetos pertencentes à Wallis e Edward. Fascinada pela história do casal e fragilizada por suas insatisfações pessoais, ela conhece o charmoso segurança da exposição Evgeni (Oscar Isaac), com quem passa a conversar frequentemente.

Ao contrário do que ocorre em filmes que usam o recurso de contar histórias paralelas no tempo, o filme de Madonna é exemplar em seguir a definição do termo paralelo. Isso porque em nenhum momento as histórias ganham algum ponto de contato ou aproximação, exceto pelo expediente forçado da obcessão de uma das protagonistas uma com a história da outra.

A transferência por identificação que ocorre da mulher dos anos 90 para a mulher que ela imagina ter sido a Wallis dos anos 30 é um ponto frágil demais para sustentar o contato entre as histórias, que nunca se conectam de verdade. Dessa forma, o recurso soa artificial e forçado, criando um ruído toda vez que a narrativa se alterna.

Isoladas, ambas histórias são também frágeis. Madonna romantiza em excesso a relação de Edward e Wallis. Distorce fatos históricos para criar um drama no qual a figura feminina é a grande vítima, aquela que carrega o maior peso de toda a renúncia do casal. Mas é a segunda história o elo verdadeiramente fraco da narrativa. Sua protagonista e seu drama carecem de um conflito construído de forma convincente. Na forma como é apresentado, a inconsistência das situações revela a fraca sustentação dramática, necessária para convencer como drama e criar empatia.

Na direção, Madonna abusa de alguns maneirismos que não acrescentam nada ao filme e servem apenas como um exercício estético cafona. Isto transforma W. E. – O Romance do Século em um filme pretensioso, cuja fotografia e direção de arte bem trabalhados tentam esconder a falta de substância da narrativa. Falta conflito, falta construção de personagem, falta convencer.

Em vez disso, o que se vê é uma produção arrastada, com uma total falta de ritmo, cheia de passagens que não levam a narrativa adiante, tornando a experiência monótona e cansativa. Longo demais, é excessivo na resolução das tramas, acrescentando, perto do fim, uma série de camadas enfadonhas para amarrar o desfecho. Para quem já foi casada com um diretor bastante bom (Guy Ritchie), Madonna parece longe de um amadurecimento como diretora.
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W.E.
Madonna
Reino Unido, 2011
119 min.

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sexta-feira, março 02, 2012

Billi Pig


Roteiro e pé-na-jaca são os dois grandes problemas de Billi Pig, filme nacional que estreia nesta sexta e traz no elenco Selton Mello, Grazi Massafera e o veterano Milton Gonçalves. O filme é a primeira incursão do diretor José Eduardo Belmonte na comédia e em uma grande produção. Conhecido – e até cultuado – por fazer um cinema independente, que explora dramas existenciais e personagens deslocados no mundo – como em Meu Mundo em Perigo (2007) e Se Nada Mais der Certo (2008) – Belmonte dá uma guinada e arrisca uma homenagem às antigas chanchadas de Oscarito e Grande Otelo. Mas com um roteiro frágil e alguma hesitação em atolar de vez o pé na jaca, o filme fica no meio do caminho, sem alcançar a graça e o escracho indispensáveis ao riso.

Billi Pig é o nome do porquinho de brinquedo de Marivalda (Grazi Massafera). Ele a acompanha desde a infância e é seu maior confidente e também voz de sua consciência, com quem ela conversa regularmente. Casada com Wanderley (Selton Mello), ela sonha em se tornar atriz e ter uma vida de glamour e estrelato, embora não tenha nenhum talento para atuar. Seu marido, um fracassado e gaiato vendedor de seguros que monta um escritório na garagem de casa, não sabe o que fazer para dar à esposa a vida que ela sonha. É quando ele vê em um falso padre milagreiro (Milton Gonçalves) a possibilidade de aplicar um golpe em um desequilibrado e desesperado traficante local, interpretado por Otávio Muller.


A falta de um roteiro consistente, indispensável mesmo em uma comédia popular que se pretende anárquica, como é o caso de Billi Pig, está na base dos problemas do filme. No apanhado, Billi Pig parece uma colagem de situações, tão fraca é a amarração que liga as cenas e os personagens. É pelas brechas dessa falta de consistência que qualquer tentativa de humor se esvai. O clássico timing, tão indispensável ao riso, dilui-se justamente porque a trama não se constrói com firmeza suficiente para sustentá-lo. É por isso que talentos como Milton Gonçalves, Selton Mello e, sim, Grazi Massafera (que embora esteja visivelmente em processo de amadurecimento se mostra com brilho suficiente para surgir como promessa de boa atriz, nem que seja pelo extraordinário carisma que carrega), não funcionam dentro da trama.

Agrava esse quadro a presença inteiramente deslocada de alguns personagens, que não apenas se apresentam completamente fora de contexto, num paralelo absolutamente desconectado do todo, como também não criam qualquer situação digna de riso ou escracho. É o caso dos personagens de Preta Gil e Milhem Cortaz. Ela, dona de uma funerária quase falida; ele, seu funcionário. Suas inserções na trama não acrescentam nada ao enredo. Eles surgem e desaparecem do filme sem qualquer explicação e sem que qualquer de suas ações influam no desenrolar dos fatos. Há também as secretárias da seguradora de fundo de quintal de Wanderley. Duas personagens que estão ali como tentativa de um humor arriscado por brincar com aspectos físicos. Um humor que quando não funciona pode caminhar para algo ofensivo. Não chega a ser o caso em Billi Pig, mas o risco está ali, latente.


Mesmo com toda essa engrenagem funcionando mal, com peças girando em falso, o filme apresenta alguns lampejos que, se explorados melhor, poderiam salvá-lo da falta de graça. É onde faltou enfiar o pé na jaca e assumir o nonsense total. Alguns desses lampejos estão nas duas sequências de musical. Ao introduzir na narrativa o elemento inesperado, a desconexão total com o plausível, ao menos se tem a chance de justificar todas as coisas entregando-se a uma anarquia verdadeira e plena. Com mais números musicais, embora estes serviriam apenas como muleta para manter de pé uma trama sem sustentação, haveria uma saída agradável, divertida e sempre aceitavelmente desorientadora. Daí se extrairia, provavelmente, alguma graça pontual no decorrer do filme e também se abririam novas possibilidades para que a colagem de mais elementos funcionassem em favor do riso. Como está, Billi Pig soa disfuncional demais. Recortes mal tramados de situações cuja possibilidade do riso se dilui numa tentativa de escracho que nunca se realiza inteiramente.
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José Eduardo Belmonte
Brasil, 2012
98 min.

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quinta-feira, março 01, 2012

Entrevista: José Eduardo Belmonte – Parte 2

Em dezembro de 2010, fiz uma entrevista exclusiva com o diretor José Eduardo Belmonte para o Eu, Cinema. Na época, estava prestes a ser lançado seu filme Billi Pig, estrelado por Selton Mello, Grazi Massafera e Milton Gonçalves. Para entrevistá-lo, visitei o set de filmagens de O Gorila, filme que estava rodando, baseado no conto homônimo de Sérgio Sant’Anna. No elenco, Otávio Muller, Mariana Ximenes, Alessandra Negrini e Luíza Mariani. A seguir, o relato desta entrevista, dividido em duas partes.

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Billi Pig marca também a estreia de Grazi Massafera como protagonista no cinema. Sua única experiência anterior na telona foi uma participação em Didi - O Caçador de Tesouros, de 2006. A atriz e modelo conquistou fama ao participar da quinta edição do reality show Big Brother Brasil, em 2005. Desde então, vem trabalhando como atriz em novelas e minisséries.

Por ser uma ex-BBB, Grazi sofreu com o preconceito de parte da classe artística quando começou a atuar. Por outro lado, dona de um carisma monumental, a atriz vem recebendo elogios pela dedicação com que se entrega aos trabalhos e também pelo talento demonstrado. "A Grazi é uma estrela de grandeza infinita, extremamente carismática", rasga-se em elogios Belmonte. Sobre a inexperiência da atriz, enfatiza que nunca foi um problema. Diz que para ele interessa não apenas o ator e sua técnica, mas principalmente a pessoa e sua bagagem de vida. "De certa forma, eu me aproprio muito da pessoa, do ser humano, e aí todo mundo joga igual, não tem essa de inexperiência", afirma o diretor, que revela já querer trabalhar com ela há algum tempo, desde seu filme anterior. "Queria dar a ela um papel dramático."

Foi durante a preparação para Se Nada Mais der Certo que ele a conheceu, por intermédio de seu marido, o ator Cauã Reymond, que atua no filme. "Acabou não rolando por uma série de questões de agenda. Por fim, entrou a Luíza Mariani, que se encaixou perfeitamente no papel."

Sobre as críticas à Grazi por ela não ter formação e ser uma ex-BBB, Belmonte diz não ter preconceitos desse tipo e que críticas assim partem muitas vezes de pessoas com visão estreita e reacionária, além de uma certa preguiça intelectual. "São pessoas que tem uma postura muito dogmática com a vida e as coisas não podem ser assim."

Esta também é a primeira vez que o diretor trabalha com Selton Mello. Ao falar da experiência de dirigir o ator, resume em uma frase: "Selton Mello é um Pelé". Belmonte afirma que ele é um dos melhores de sua geração e que também é uma figura de grande generosidade. "Ele não entrou nessa de preconceito com a Grazi. Muito pelo contrário, se mostrou interessado e foi extremamente atencioso".

Recentemente, na coletiva de imprensa para o lançamento do filme, o ator declarou toda sua admiração pelo trabalho da colega. "Acho a Grazi extraordinária. O que ela faz é algo de muita coragem, de muita humildade e não é qualquer pessoa que tem essa disposição. Nós ainda vamos vê-la fazendo coisas muito boas", enfatizou Selton.

Faz-se silêncio no set. No ar, apreensão e expectativa. Já está valendo. Otávio Muller e Luíza Mariana se abraçam longamente. Separam-se em seguida revelando a profunda consternação de seus personagens. Quando começam a dizer suas falas, um som de motor de carro da Fórmula 1 irrompe do apartamento ao lado. Corta! Sem precisar dizer nada, o diretor olha para os assistentes. Batem na porta do vizinho e pedem, com gentileza, que reduza o volume do videogame. No apartamento, que parece ser dividido por um grupo de jovens universitários, o rapaz que abriu a porta se desculpa e baixa o volume. Vamos para mais uma tentativa.

"Billi Pig é também um ato político muito meu, tanto na anarquia da história quanto na tentativa de estabelecer um outro tipo de diálogo com o público", assume Belmonte. "Aliás, se você prestar atenção, verá que a anarquia é algo recorrente nos meus filmes". Essa anarquia pode ser vista em A Concepção – primeiro longa do diretor no qual os personagens pregam a morte do ego e a experiência de ser uma pessoa diferente a cada dia – e mesmo nos primeiros curtas, como o 5 Filmes Estrangeiros, de 1997, em que uma sucessão de acontecimentos nonsenses acontecem quando um nepalês se revolta por não aguentar mais ser chamado de japonês.

Antes de retomar a gravação, outra batida na porta do mesmo vizinho. Desta vez, por ele estar falando alto ao telefone. Para a equipe, é claramente desconfortável interferir no cotidiano das pessoas do prédio, mas todos sabem que isso faz parte dos desafios de se fazer um filme. Quando tudo está novamente pronto, o diretor dá o sinal verde. Os atores se abraçam novamente, separam-se, conversam. Há tristeza, choro, lamento. Pelo monitor, fora do cômodo apertado onde a cena é gravada, José Eduardo Belmonte acompanha tudo com atenção. Quando Otávio Muller sai de cena pela porta, Belmonte sentencia: "Corta!". Seu entusiasmo com o resultado deste primeiro take se revela numa breve comemoração em que arrisca uns passos de twist no meio do set.

"A vida é muito curta para você viver uma coisa só. Não podemos ficar presos a nós mesmos para sempre", filosofa ao explicar a mudança abrupta de partir para uma comédia como Billi Pig. "É claro que de alguma forma a gente sempre se repete, mas eu prefiro me repetir brincando. Não dá para ficar fazendo sempre o mesmo filme."

Distopia, anarquia, drama existencial, comédia popular com jeito de chanchada, thriller de humor cáustico. Até agora, Belmonte já passeou por todas essas formas narrativas em seus filmes, entre os finalizados e em produção, como é o caso de O Gorila. Qual seria o próximo?

"Um road movie", revela. "Quero filmar do Recife até a Patagônia. O longa deve se chamar A Magia do Mundo Quebrado", conta sem dar mais detalhes

Além desse e outros projetos, um antigo sonho do diretor é filmar um diário do escritor Oswald de Andrade. "Era para ter sido feito depois de Se Nada Mais der Certo. Cheguei a escrever o roteiro, cheguei a negociar os direitos com o Rudá de Andrade [filho de Oswald de Andrade que faleceu em 2009], mas com a morte dele o espólio da família virou alvo de ações na justiça e com a indefinição eu não consegui ainda comprar os direitos", esclarece. "Mas ainda quero fazer esse filme".

Billi Pig deve estrear em cerca de 200 salas pelo país. O Gorila ainda não tem previsão de lançamento. Depois de mais alguns takes gravados – e de mais outros tantos contratempos – me despeço de Belmonte e da equipe. São quase onze horas da noite, que segue tão abafada quanto foi o dia. No set, os trabalhos estão apenas começando.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Drive


Drive é um filme que nos adere em sua textura, feita de uma mistura que equilibra certa intensidade serena com uma irreversível força de violência. A composição dessa textura se monta através da trilha sonora que cadencia a ação, dos diálogos rarefeitos que pontuam o silêncio, das cenas de perseguição que retesam ainda mais o fio narrativo – desde sempre tenso; da violência brutal que explode na tela com a força daquilo que se rompe de repente.


Revestindo e conectando estas camadas está uma fotografia crepuscular, ensaio de atmosfera noir, mas sem os óbvios contrastes de sombras. E também uma montagem afinada, que conduz a narrativa em crescente tensão. O resultado é uma mistura indefinida entre o filme de ação – visceral e franco, como foi em seu tempo Operação França (1971) – e algo mais sutil, um tipo de beleza imperfeita, sedutora e magnética, mas de claro prenúncio trágico.

Ryan Gosling é o protagonista sem nome, conhecido apenas como Motorista. Trabalha em uma oficina mecânica, atua como piloto dublê em filmes de ação e à noite oferece seus serviços como piloto de fuga para assaltantes. Calado e distante, tem sua frieza quebrada quando conhece Irene (Carey Mulligan), sua vizinha de apartamento. Ela trabalha como garçonete e tem um filho de 6 anos, cujo pai está cumprindo pena na prisão.

A sequência de abertura de Drive é matadora. É o prólogo que apresenta esse Motorista em seu trabalho noturno. Uma fuga brilhante, recheada de suspense e tensão, conduzida com uma frieza implacável.


A omissão do nome do personagem de Gosling o insere na mítica do forasteiro errante, como o Shane, de Os Brutos Também Amam (1953). Poucas palavras, um palito na boca, um carisma esquivo. É o sujeito solitário, sem origem e sem destino, que se descobre, de repente, pronto para a redenção.

Esta redenção nasce da afeição que o personagem passa a nutrir por Irene e seu filho. Ela surge como uma promessa não anunciada, súbita. É na composição familiar, quando os três formam a família possível para cada um, que emerge o sonho da redenção do herói sem nome. Mas uma redenção de pecados ainda não conhecidos, que serão presumidos apenas pelo que vem depois, pelo que ele vir a fazer, não pelo que já tenha feito.

Há nisso uma inversão. A redenção buscada antes que se conheça o pecado. Um mal ou fardo insuspeito no rosto quieto, afável e misterioso desse Motorista. A revelação se inicia na cena em que um antigo “cliente” de assalto puxa papo em um bar, e na violência latente da resposta ameaçadora do Motorista. Termina na cena do elevador, quando a porta se fecha depois da ação e o que ela separa naquele momento é o herói de sua redenção. A partir dali não há mais volta, a descida ao inferno começou.

Uma vez desencadeada a violência, ela não cessa até o último homem. É motivada pela vingança, pela sobrevivência, pelo desejo de proteger algo que já não se pode alcançar. Nos gestos, na violência e no silêncio, este Motorista se amplifica; do unidimensional aparente, se desdobra em possibilidades. É complexo, mas não inventa essa complexidade, apenas sugere.

Dirigido pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn, Drive reúne elementos diversos: de atmosfera, temática e ação. Consegue dar unidade a esses elementos e intensidade a seu personagem. O resultado é de uma textura indefinida, um filme diferente, raro em sua composição e marcante em sua fluidez. Não entrega nada novo, mas remonta gêneros com assinatura própria e o faz de forma consistente e indelével.
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Drive
Nicolas Winding Refn
EUA, 2011
100 min.

Assista ao trailer

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Entrevista: José Eduardo Belmonte – Parte 1

Em dezembro de 2010, fiz uma entrevista exclusiva com o diretor José Eduardo Belmonte para o Eu, Cinema. Na época, estava prestes a ser lançado seu filme Billi Pig, estrelado por Selton Mello, Grazi Massafera e Milton Gonçalves. Para entrevistá-lo, visitei o set de filmagens de O Gorila, filme que estava rodando, baseado no conto homônimo de Sérgio Sant’Anna. No elenco, Otávio Muller, Mariana Ximenes, Alessandra Negrini e Luíza Mariani. A seguir, o relato desta entrevista, dividido em duas partes.
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Em uma rua do bairro Santa Cecília, região central de São Paulo, algumas pessoas conversam em frente a um pequeno salão. É fim de tarde de uma segunda-feira de calor intenso que em breve dará lugar a uma noite abafada de dezembro. Quem chega cumprimenta os demais com um "bom dia". Claramente fora de hora, a saudação se explica nos olhos sonolentos de quem acaba de acordar, muitas vezes disfarçados por trás de óculos de sol. Como os da atriz Luíza Mariani. Ela, como toda a equipe técnica, passara a última madrugada gravando. Agora, se preparavam para mais uma jornada noite adentro no set de filmagem comandado pelo diretor José Eduardo Belmonte.

Enquanto a noite e o diretor não chegam, o pessoal da equipe técnica aproveita para fumar na calçada. Em um canto dentro do modesto salão, uma mesa com salgados, frios, sucos, pães e frutas serve de bufê improvisado. No restante do espaço, apenas algumas cadeiras de plástico. O set, na verdade, fica a uma quadra dali, em um prédio residencial de três andares. O filme que estão fazendo chama-se O Gorila, uma adaptação de um conto homônimo do escritor Sérgio Sant’Anna. "É o zoológico do Belmonte", brinca alguém, referindo-se também a seu filme anterior, Billi Pig, que traz um porquinho rosa de computação gráfica como personagem.

O diretor chega de táxi. Corpulento, barba bem aparada que já caminha para tons grisalhos e óculos de armação quadrada. Veste um casaco que não combina com o calor abafado. De aparente bom humor, aperto de mão forte e caloroso, mostra-se bem-disposto, como se o trabalho intenso das últimas noites tivesse efeito revigorante, em vez de exaustivo. Mal chega e já está passando instruções à equipe sobre as marcações de câmera e de atores para a cena que iriam gravar. Só então se permite um sanduíche e um copo de suco. Simplicidade muito diferente do glamour com que sonha Marivalda, personagem de Grazi Massafera em seu filme anterior.

Belmonte filma O Gorila enquanto Billi Pig não fica pronto para ser lançado. "Como tinha muito efeito de pós-produção, atrasou um pouco. Era para estar saindo agora, mas acabou ficando para março", explica. No filme, Marivalda é uma desajeitada aspirante a atriz que sonha com uma vida glamourosa de estrela de cinema. Seu marido, Wanderley, interpretado por Selton Mello, é um corretor de seguros pé-de-chinelo e gaiato que não sabe o que fazer para dar à esposa a vida de luxo com a qual ela tanto sonha. Até que aparece um falso padre milagreiro (Milton Gonçalves), que Wanderley vai usar para aplicar um golpe em um desequilibrado e perigoso traficante da região.

É com essa fórmula, homenagem declarada às chanchadas, que o diretor faz sua estreia no gênero da comédia, tão distante de seus trabalhos anteriores em longa-metragem. "Faz tempo que eu queria fazer uma comédia mais popular depois de fazer tanto filme dramático", afirma.

Natural da capital do país, o diretor formou-se no curso de cinema da Universidade Federal de Brasília (UnB). O marco inicial de sua carreira surge em 1994, quando dirige o clipe de uma banda ainda desconhecida no cenário do rock nacional: Raimundos. O clipe da música Nega Jurema, primeiro hit da banda, fez grande sucesso na MTV e deu a Belmonte a chance de começar a dirigir comerciais. Com o dinheiro ganho, produziu seus primeiros curtas-metragens. Em 2004, estreia na direção de longas com Subterrâneos. Seguem-se A Concepção (2005), Meu Mundo em Perigo (2007) e Se Nada Mais der Certo (2008). Todos filmes marcados por personagens solitários, desajustados com o mundo e que vivenciam intensamente conflitos existenciais.

Perguntado sobre o porquê da mudança radical de gênero ao fazer Billi Pig, Belmonte diz não ver tanta diferença assim. "Entre tragédia e comédia o que muda é só a polaridade”, observa. “O trágico é mais trágico quando se narra em primeira pessoa, na terceira pessoa é mais fácil virar comédia". Ele dá como exemplo o momento em que surgiu a ideia do roteiro de Billi Pig. "Eu estava no Festival de Cinema do Rio e meu filme anterior ainda estava cheio de dívidas, com um monte de problemas pendentes. Estava em uma situação meio dramática. Só que enquanto eu pensava nisso, percebi que estava sentado à beira da piscina de um hotel no Rio de Janeiro. Era algo meio tragicômico, achei aquilo engraçado e comecei a pensar na situação e a esboçar o roteiro."

Aos poucos, as pessoas que estão no salão começam a se encaminhar para o apartamento onde está montado o set de filmagem. O diretor concorda em deixar que eu acompanhe o início da gravação. Caminhamos até o local. Na entrada do edifício, me apresenta para algumas pessoas da equipe. São três lances de escadas. O prédio é antigo, comum na região central paulistana. Quatro apartamentos em cada andar. Para as filmagens, a equipe tem de contar com a colaboração e compreensão dos vizinhos. Qualquer ruído mais alto pode atrapalhar a captação do som ou interferir na concentração dos atores. Além disso, os moradores ainda têm de aturar o barulho da movimentação da equipe durante toda a madrugada.

O ator Otávio Muller chega. Cumprimenta a todos discretamente e se dirige para a maquiagem. A preparação e montagem do equipamento ainda vai demorar algum tempo. Enquanto espera, senta-se ao lado de Belmonte em um sofá. Conversam em voz baixa. No lado de fora, alguns moradores do andar começam a chegar do trabalho. Para entrarem em seus apartamentos, precisam desviar de caixas, cabos e tripés, pedir passagem para as pessoas que transitam de um lado para outro preocupadas com os detalhes da preparação.

A primeira cena a ser gravada será entre Otávio Muller e Luíza Mariani. Quando tudo está pronto, a tensão toma conta da atmosfera. Todos falam baixo. Os atores são conduzidos em silêncio para suas posições, concentrados. Será uma cena dramática, de despedida, e o clima daquilo que será gravado parece contaminar toda a equipe. Quando os atores estão finalmente posicionados e o diretor preparado, tudo pronto. Vai começar a filmagem.

 

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