sexta-feira, setembro 30, 2011

O Dia em Que Eu Não Nasci



Das Lied in Mir
Florian Micoud Cossen
Alemanha/Argentina, 2010
94 min.

A forma muitas vezes contida com que os personagens de “O Dia em Que Eu Não Nasci”, filme que estreia nesta sexta (30), reagem a graves segredos revelados não condiz com o peso dessas revelações. São segredos do passado, que trazem à tona esqueletos em cova rasa e mudam todas as coisas. Nessa apatia do elenco, a exceção fica com Estela (Beatriz Spelzini), que diante da sobrinha desaparecida há mais de 20 anos, se desdobra numa comovente reação, expressa no rosto e nas lágrimas com delicado equilíbrio.

Da Alemanha, Maria (Jessica Schwars) está a caminho do Chile. Enquanto aguarda um voo de conexão em Buenos Aires, ouve uma mulher cantando, em espanhol, uma canção de ninar. Maria, que além de sua língua nativa - o alemão - fala apenas inglês, reconhece a canção. Sabe a melodia e a letra, ainda que não entenda o significado das palavras. Desconcertada, não consegue conter o choro.

O inusitado acontecimento a faz perder sua conexão. Ao sair do aeroporto para procurar um hotel, perde também o passaporte. Telefona para o pai na Alemanha para explicar o contratempo e comenta sobre a canção. Dois dias depois, sem avisar, ele aparece no hotel onde Maria está hospedada.

É entre coincidências e fatos inusitados que vai surgindo um mistério na vida da personagem. Como explicar a familiaridade que ela, que nunca esteve em Buenos Aires antes, sente com a cidade? Diante disso, Maria pressiona seu pai, que reluta em explicar sua vinda súbita à cidade. Mas aos poucos revelará para a filha a verdade sobre seu passado e a ligação que ela tem com a cidade.

Com um bom argumento, o filme desdobra a verdade em camadas. A cada tanto que se aprofunda nos fatos dolorosos do passado, mais a trama cria uma situação complexa, em que Maria se vê diante de um dilema profundo, doído. Estão em jogo afeto, moral, ética e sentimentos conflituosos.

Ao evocar as tragédias da ditadura argentina nos anos 70, o filme registra a indignação e a resignação em porções distintas. Mas esse trabalho é prejudicado pela narrativa burocrática. Acerta ao evitar o dramalhão em que uma história como esta poderia desaguar. Mas ao conter demais as emoções contém também parte da naturalidade dos personagens. Funciona, no entanto, com um bom registro desconstrutivo da identidade de sua protagonista.

Ao caminhar de uma certeza sobre quem é para a incerteza de uma identidade perdida, Maria faz caminho inverso ao natural. Recomeçar a construir a si própria e redefinir sua identidade destroçada é o grande drama dessa personagem. Uma riqueza temática que se dilui bastante no contido das atuações.
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quinta-feira, setembro 22, 2011

Sem Saída



Abduction
John Singleton
EUA, 2011
106 min.

“Sem Saída”, filme que estreia nesta sexta (23), é uma típica produção caça-níquel. No papel principal, o filme traz Taylor Lautner, que ganhou fama graças ao sucesso da franquia “Crepúsculo”. Nos filmes da franquia, ele interpreta Jacob, um lobisomem juvenil que faz parte de um monótono triângulo amoroso entre vampiros, humanos e lobisomens - todos virgens desavisados e bastante tolos.

Com a chegada em breve da primeira parte do último episódio da Saga Crepúsculo, “Sem Saída” surge na urgência de aproveitar o sucesso e a visibilidade de Lautner e faturar em cima disso. Com um roteiro de remendos vergonhosamente mal costurados, o filme tenta ao máximo explorar a figura do ator com seus músculos e o apelo deles junto ao público jovem.

Nathan (Taylor Lautner) é um jovem de 18 anos que vive com os pais. Como todos nesta fase da vida, está à procura de sua própria identidade, de sua autoafirmação. Essa procura sutil e imaterial pela qual todos passamos, vai se tornar algo muito mais tangível para Nathan, sem qualquer sutileza possível. Ao fazer uma busca na internet para um trabalho escolar, ele se depara com uma foto sua em um site de crianças desaparecidas.

Esse bom argumento de mistério é completamente diluído na geleia que se segue. Logo que descobre que seus pais podem não ser realmente seus pais, se vê no meio de uma absurda perseguição, tendo em seu encalço a CIA e um perigoso agente do crime internacional. Sem saber em quem confiar, consegue escapar de todas as armadilhas. Para isso, conta com a sorte de seu pai (ou o homem que acreditava ser seu pai) tê-lo ensinado diversas técnicas de combate.

O elenco conta com duas ilustres presenças: Alfred Molina (o Dr. Octopus de “Homem Aranha 2”), no papel de um ambíguo chefe de operações da CIA, e Sigourney Weaver (a Tenente Ripley de “Alien – O Oitavo Passageiro”), como a psicanalista de Nathan, também envolvida da trama de mistério.

Em meio a clichês óbvios, situações previsíveis e inconsistências do roteiro, o que mais chama atenção no filme é a atuação de Lautner. Sua falta de expressividade, sua limitação como ator, seu estado cru de interpretação atingem um nível dramático de despreparo. Somando-se isso a todo o resto, o resultado é um filme patético e constrangedor em que nada se salva.
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Borboletas Negras


 Black Butterflies
Paula van der Oest
Alemanha/Holanda/África do Sul, 2011
100 min.

Usada em algumas transições do filme, a imagem das ondas do mar quebrando com estrondo nas rochas imóveis é recorrente. Há nesta imagem uma grande força eruptiva. O mar, indomável senhor das paixões volumosas, em incessante e vão combate contra as rochas duras. Em “Borboletas Negras”, filme que estreia nesta sexta (23), o embate da alma - e da poesia - de Ingrid Jonker (interpretada por Carice van Houten) contra a aspereza de seu pai terá a mesma persistência e a mesma inocuidade das ondas contra as pedras.

O filme foca os últimos – e talvez mais intensos – anos da vida desta poetisa sul-africana, sua relação conflituosa com o pai e consigo mesma. Ela, uma escritora tomada pelas paixões, defensora do ideário da liberdade e igualdade; ele, um influente censor do governo sul-africano, defensor do regime do “apartheid” vigente no país. Atuando como um registro quase distanciado e pouco emotivo dos conflitos, traumas e tragédias na vida de Jonker, a narrativa tem seu centro de gravidade na conturbada relação dela com o escritor Jack Cope (Liam Cunningham).

Essa relação servirá como notável contraponto, evidenciando a instabilidade emocional da jovem Ingrid em contraste com o equilíbrio centrado do escritor mais velho. Embora o filme não explore de forma mais intensa as causas da instabilidade da escritora, não deixa de lançar pistas que as enraíza na relação dela com o pai. Interpretado pelo ator Rutger Hauer, que faz uma caracterização precisa composta da dureza inabalável e ríspida sobre uma tênue afetividade oculta, será a figura paterna o rochedo com que se debaterá permanentemente a erupção poética de Jonker.

Apesar de uma história rica em possibilidades, o filme as explora mal. O ritmo da narrativa e a necessidade de conter uma larga faixa de vida (e emoções) no tempo de Jonker, acaba por diluir muito de sua profundidade. Mesmo com atuações excelentes – especialmente Cunninghan, que na figura de Cope toma a tela sempre que está em cena, exercendo uma força magnética e poderosa – o resultado é muito abaixo do que se pode entrever na trama e na história de seus personagens.

Não deixa, contudo, de ser um registro válido da vida de uma importante escritora e de um importante – e triste – momento histórico, mesmo que pouco aprofundado pelo filme. Ingrid Jonker, que cometeu suicídio em 1965, teve o maior reconhecimento de sua obra ao ter seu poema “"The Child (who was shot dead by soldiers at Nyanga)” lido por Nelson Mandela na abertura do primeiro parlamento democrático da África do Sul, em 1994. O poema foi escrito após Ingrid presenciar o assassinato de uma criança negra por soldados do regime.
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domingo, setembro 18, 2011

Sexta edição do Cinetério agita zona norte neste domingo

Evento promovido pelo Centro Cultural da Juventude mistura exibição de filmes ao ar livre com shows e performances. 


Quem poderia pensar que um cemitério viria a ter uma agitada vida cultural? Os mortos que não reclamem, mas a agitação tem sido frequente na praça ao lado o cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo. É lá que a prefeitura, por meio do Centro Cultural da Juventude, tem promovido as edições do Cinetério. O projeto, que neste domingo (18), às 18h30, realiza sua sexta edição, promove exibições de filmes de terror seguidas de apresentações de bandas, DJs e artistas performáticos.

Pela praça, localizada em frente ao prédio do Centro Cultural, já passaram figuras como Zé do Caixão, Rogério Skylab e a banda britânica Fujiya & Miyagi. Esses, entre outros, já serviram de “aperitivo” ou “saideira” para a exibição de filmes como a animação futurista “Metropia”, o clássico do horror “O Massacre da Serra Elética” e a animação francesa “Fear[s] of the Dark”.


Na edição de hoje, o filme exibido será “Baghead”, dos irmãos Duplass, que encerra a Mostra de Cinema Mumblecore (para saber mais sobre a mostra clique aqui). Para completar a programação da noite, apresentam-se os DJ’s da destacada festa itinerante Voodoohop, seguido de um show da banda francesa Poni Hoax, que faz sua primeira apresentação no Brasil.

Destaque na cena indie francesa, o Poni Hoax tem ingressos esgotados para shows na França. Segundo o blog Remix, da Folha de São Paulo (clique aqui para ler), a gratuidade da apresentação da banda aqui no Brasil tem deixado os fãs franceses bastante enciumados.

Poni Hoax - Antibodies
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Serviço:
Cinetério
Centro Cultural da Juventude (na praça em frente ao prédio)
Av. Deputado Emílio Carlos, 3.641.
Tel: 3984-2466
Entrada Franca

sexta-feira, setembro 16, 2011

Cowboys & Aliens



 Cowboys & Aliens
John Favreau
EUa/India, 2011
118 min.

Dois gêneros tão diferentes como o western e a ficção científica convivendo no mesmo filme pode parecer um risco alto de dar errado. Contrariando essa perspectiva, “Cowboys & Aliens” se ajeita muito bem ao unir esses dois gêneros. Mas isso só acontece porque há uma clara ascendência de um sobre o outro.

Daniel Craig encarna o forasteiro sem nome, sem destino e, aparentemente, sem nada a perder. Talvez porque já tenha perdido tudo. Essa figura é emblemática de gênero; poucos a encarnaram tão bem como Charles Bronson em “Era Uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone (1968).

Craig acorda no meio do deserto. Está ferido e traz no pulso um bracelete de metal. Não lembra como chegou ali, como se feriu, como conseguiu o estranho artefato em seu braço, nem seu próprio nome.

Chega a uma pequena cidade para cuidar do estranho ferimento e tentar descobrir quem é. Em pouco tempo, acaba se envolvendo em confusão por dar uns sopapos no arruaceiro e mimado filho do homem mais poderoso da região. Até que finalmente é reconhecido na cidade como Jake Lonergan, um perigoso bandido procurado vivo ou morto e vai parar na cadeia.

Prestes a ser transferido em uma diligência, Jake vê chegar na cidade os homens liderados pelo “coronel” Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford). Ele é um arrogante e temido proprietário de gado cujo negócio praticamente mantém a cidade. Vem para resgatar a força o filho, também preso por ferir um agente federal. Reconhece então o forasteiro como o ladrão que lhe roubou uma boa quantia em moedas de ouro. É aí que surgem as espaçonaves.

Entre cowboys, xerifes, ladrões de ouro, cavalos e diligências, os lasers devastadores, as luzes brilhando no céu e as naves “laçando”, literalmente, as pessoas, cria-se uma sinfonia bastante peculiar na mistura de gêneros. A sequência, muito bem orquestrada, impressiona. E o mistério sobre o forasteiro só aumenta quando na presença das naves invasoras seu bracelete se desdobra em uma poderosa arma que dispara lasers.

É com essa súbita avalanche de improváveis acontecimentos que o filme nos coloca dentro do curioso universo de “Cowboys & Aliens”. Após o ataque, Jake e Dolarhyde irão liderar um grupo de cidadãos que partirá em busca de seus familiares levados pelos estranhos objetos voadores.

Estão lá os desfiladeiros, os índios, as colts. Mais do que isso, está o espírito do velho oeste. É essa construção de gênero que faz do filme uma experiência positiva. Ao caprichar na composição do western com seus planos abertos de grandes paisagens, ao caracterizar com acuidade os personagens dentro da mitologia desse universo, o filme ganha estofo e fundamento. Os aliens aqui, felizmente, são só o complemento exótico. A pegada é toda western.

Ao unir dois gêneros, mas deixar que o de maior peso e importância se sobreponha ao outro, “Cowboys & Aliens” acerta na medida e faz dessa improvável fórmula uma sessão divertida. Não entrega o filme a qualquer frenesi de ação disparatada, mantendo o ritmo da narrativa dentro da atmosfera necessária para uma ambientação precisa e bem cuidada.

Harrison Ford e Daniel Craig não fazem feio ao encarnar personagens marcantes do bom “bang bang”. Seus rostos duros e vincados, pelo tempo e pela anatomia, servem muito bem ao gênero. Com o sucesso da empreitada, não deve demorar a vir uma continuação. Para um filme que se mostrou surpreendentemente bem acabado e bem dosado, é torcer para que isso não se perca no próximo. Nada seria pior do que um futuro título como “Cowboys & Aliens vs. Predador”.
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sábado, setembro 10, 2011

Uma Doce Mentira




De Vrais Mensonges
Pierre Salvadori
França, 2010
105 min.

Graças a seus grandes olhos, o talento de Audrey Tautou muitas vezes fica evidente no olhar. Não apenas nisso. Há ainda o sorriso, a graça e a leveza que a jovem atriz francesa empresta a seus personagens. Mas em “Uma Doce Mentira”, filme que estreou nesta sexta (09), são os olhos da atriz que fazem a diferença. E também o minimalismo de sua atuação.

Uma carta anônima com uma declaração de amor será o pretexto para uma confusão repleta de embaraços. A carta é para Émilie (Tautou), sócia de um salão de cabeleireiros, e pessoa não muito centrada, como logo se vê no início. Quem a escreveu foi um funcionário do salão, Jean (Sami Bouajila), encarregado da manutenção, secretamente apaixonado por ela. Émilie despreza a carta. Depois, tem a brilhante ideia de utiliza-la para levantar o moral da mãe, que vive deprimida por ter sido abandonada pelo marido.

O truque surte efeito e Maddy (Nathalie Baye), sua mãe, se remoça com o falso flerte. Mas por pouco tempo. Fica na ansiedade de uma nova carta do tal admirador secreto. Quando não recebe nenhuma, cai novamente em tristeza. Isso obriga Émilie a “providenciar” outra carta. A partir daí, desencontros e equívocos levarão os personagens a situações mais embaraçosas e complicadas.

O início é excelente. O ritmo afiado azeita com sabor o timing da comédia; tudo faz o riso deslizar fácil no princípio. Há uma química poderosa entre os personagens. Tautou, frágil, ocultando a suscetibilidade de Émilie por trás dos grandes olhos, precisa de um mínimo de gestos para nos encantar. Sua personagem, com boa intenção e o mesmo tanto de inconsequência, provoca uma série de equívocos. Quando percebe, se vê num beco sem saída. Até aí, o roteiro vem tão azeitado quanto todo o resto. Depois desanda.

Há um mal crônico em “Uma Doce Mentira”. Mal que afeta invariavelmente as comédias românticas de hoje em dia. Trata-se da necessidade de, no final, desembaraçar todo emaranhado de confusões que se criou no início para fazer o público rir. E ri-se muito na primeira parte do filme.

Parte do problema é como todos os três personagens envolvidos na confusão passam a se comportar. Há um forte ruído de descompasso na forma como foram apresentados e na maneira como passam a agir quando descobrem o que está de fato acontecendo. Esse ruído não apenas incomoda como desconcerta. Ao ressoar, nos desconecta desses personagens. Desfaz-se a empatia. Sem essa conexão, o restante do filme cai em certa monotonia, com graça apenas aqui e ali, mas sem a vivacidade de sua primeira parte.

As atuações seguem bem, especialmente Tautou, que segura sua interpretação com momentos iluminados, amparados na simplicidade e contenção. Mas o roteiro se arrasta tanto, passando do ponto de encerrar a história, que até ofusca o brilho dos grandes olhos da atriz.

Só não ofusca, contudo, outro grande par de olhos. São os da atriz Judith Chemla, que quando presentes na tela, roubam a cena. No pequeno papel de Paulette, recepcionista inexperiente e bastante atrapalhada do salão, sua participação pontual está entre os melhores momentos do filme.
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quinta-feira, setembro 08, 2011

Larry Crowne – O Amor Está de Volta


 Larry Crowne
Tom Hanks
EUA, 2011
98 min.

Em 1996, Tom Hanks estreou na direção lançando um simpático e ingênuo filme chamado “The Wonders – O Sonho Não Acabou”. A história girava em torno de uma jovem banda que nos anos 60 começa a fazer sucesso. Entre o início da fama, com viagens e shows, os integrantes passam a conviver com o deslumbramento do sucesso e os problemas de relacionamento. Dosado com romantismo e entusiasmo juvenil, o filme não apresenta grandes atributos, sendo uma boa opção para fins de tarde de domingo com a namorada e nada mais.

Só agora, 15 anos depois, o astro volta à direção. “Larry Crowne – O Amor Está de Volta”, que estreia na próxima sexta (9), é uma comédia romântica, também simpática e ingênua, como parece ser do gosto de Tom Hanks, que atua e assina o roteiro. Porém, se na escolha da abordagem pouca coisa mudou, não se pode dizer o mesmo do tema. Enquanto no primeiro filme o diretor trata dos ímpetos da juventude em uma era dourada (os anos 60), agora ele fala da meia-idade em tempos difíceis.

Larry Crowne (Hanks) é um homem bem humorado, otimista e divorciado, entrando na meia-idade. Vivendo só, trabalha há quase dez anos em uma cadeia de supermercados. Seu entusiasmo e dedicação no trabalho já lhe renderam nove indicações a funcionário do mês. Até que é demitido. Segundo normas da empresa, todos os funcionários devem, obrigatoriamente, ter oportunidade de ascensão nos quadros internos. Mas como Larry não cursou a universidade não pode ascender a qualquer outra posição. Para que não se fira o estatuto da empresa, só resta demiti-lo. Uma situação que faria Kafka sorrir.

A única experiência anterior de Larry são os 20 anos que serviu na Marinha, como cozinheiro. Endividado e sem conseguir trabalho, inscreve-se num curso universitário comunitário. É onde conhece Mercedes (Julia Roberts), uma desmotivada professora de oratória que vive um casamento insatisfatório. Entre o entusiasmo de Larry com seu novo aprendizado e a apatia de Mercedes com sua profissão, surgirá uma afetuosa relação e a possibilidade de mudarem o rumo de suas vidas.

“Larry Crowne” é um filme sobre essas mudanças, sobre a coragem de recomeçar mesmo depois de tantas frustrações. É também sobre humildade. Toca superficialmente em temas como o agressivo mercado de trabalho e a questão da educação. Mas tudo isso são apenas pinceladas, o que importa mesmo no filme é o romance adocicado entre o casal Julia e Hanks.

Como em seu primeiro filme, Hanks trabalha a narrativa sem viradas súbitas e sem grandes embaraços na trama. A história simplesmente flui, deixando que os personagens se revelem e se descubram. Isso evita que a história caia nos clichês das comédias românticas atuais, que precisam sempre criar um grande nó para ser desatado no final (de preferência, de forma bem romântica). Essa narrativa fluida, no entanto, escorrega ao não trabalhar melhor a aproximação entre os dois personagens. Causa uma sensação de artificialidade no modo como as coisas acontecem. Um artificialismo agravado pela falta de química entre o casal.

Mas se a Tom Hanks e Julia Roberts falta química como par romântico, em ambos sobra o carisma individual. A imagem de bom moço criada por Hanks – e reforçada no filme – e o sorriso de derreter insensíveis de Julia Roberts tornam seus personagens sempre cativantes. Em “Larry Crowne” não é diferente. Por outro lado, ao requentarem personagens estereotipados de suas próprias carreiras, repetem-se sem grande entusiasmo.

São dois talentos atestados por carreiras e papéis marcantes, “oscarizados”, que neste filme se acomodam no carisma que sabem que têm, sem grande ousadia. Como se não tivessem a mesma coragem de arriscar que têm seus personagens no filme.
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terça-feira, setembro 06, 2011

Mostra em São Paulo exibe novo cinema independente americano

Chamado de Mumblecore, movimento chamou a atenção da crítica e do público com filmes improvisados e histórias sobre o cotidiano.



Começa hoje (6) em São Paulo a mostra “Mumblecore – A Estética do Faça Você Mesmo”. Derivado da palavra mumble (resmungar), “Mumblecore” é o nome dado ao novo cinema independente americano. Com filmes de baixíssimo orçamento, atores amadores, histórias simples e diálogos improvisados, essas produções têm chamado a atenção da crítica e agradado ao público. As exibições ocorrem até o dia 18 no Centro Cultural São Paulo, Cine Olido e Centro Cultural da Juventude. Os ingressos custam R$ 1,00.

O movimento “Mumblecore” nasceu em 2002 a partir de conversas de um grupo de jovens durante os intervalos de um festival de cinema independente. O primeiro a se destacar foi Andrew Bujalski com o longa “Funny Ha Ha”, em 2002. O filme foi premiado no Independent Spirit Awards. O prêmio deu notoriedade a Bujalski e chamou a atenção da crítica e da imprensa para o que estava acontecendo onde ninguém estava olhando.

Filmados muitas vezes em vídeo e distribuídos artesanalmente - com cópias em DVD vendidas pelas internet -, os filmes dessa nova geração tratam dos problemas cotidianos, de questões como o desajuste na sociedade e, principalmente, de relacionamentos. Não há como não compará-los a nomes que fizeram cinema independente em outras gerações, como Richard Linklater, Jim Jarmush e John Cassavetes. Nem os novos diretores fazem questão de se diferenciar. Afirmam que querem apenas falar das coisas com as quais lidam no dia-a-dia, sem grandes pretensões.

Com os filmes do movimento participando de mais festivais, o “resmungo” em torno da novidade ganhou corpo. E público. Sinal disso é o fato de em 2010 uma grande distribuidora como a Fox Searchlight ter lançado o primeiro filme com diretores saídos desse movimento. “Cyrus”, terceiro longa dos irmãos Mark e Jay Duplass, chegou aos cinemas com atores conhecidos no elenco, como Marisa Tomei e Catherine Keener. Mesmo com um orçamento maior e uma produtora grande como suporte, a trama mantém a simplicidade e o caráter intimista dos filmes Mumblecore. Sua temática também não é diferente e trata de relacionamentos.

Com 20 filmes na programação da mostra, esta é uma boa oportunidade de se conhecer o trabalho desses diretores enquanto ainda são realmente independentes e livres para filmarem o quê e como quiserem. Se e quando forem engolidos pelos grandes estúdios, certamente terão que fazer concessões. Podem até manter a qualidade e a simplicidade. Mas filmes como esses que estão na mostra, com independência, improviso e simplicidade, talvez não durem muito.
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Para ver a programação completa, acesse:

segunda-feira, setembro 05, 2011

O Planeta dos Macacos: A Origem


 
Rise of The Planet of The Apes
Rupert Wyatt
EUA, 2011
105 min.

As duas grandes qualidades de “O Planeta dos Macacos: A Origem” são o roteiro e os efeitos especiais. O roteiro, por conduzir bem a trama, mantendo a linha narrativa tensa; os efeitos, por serem utilizados em favor da narrativa e do personagem, por servirem ao filme. Ambos apresentam, separadamente, falhas pontuais, quase todas na primeira metade da película. Mas juntos conseguem dar vida e substância à história.

Chama-se “a origem” porque retoma uma franquia que se iniciou com um clássico em 1968. “O Planeta dos Macacos”, naquele ano, era protagonizado por Charlton Heston, em um papel que marcaria sua carreira. Um astronauta que cai num planeta onde macacos inteligentes escravizam humanos. A cena final desta produção é antológica, lembrada até hoje pelo que trazia de surpreendente e desolador. Até 1973 foram quatro continuações, nenhuma com a mesma qualidade do primeiro. Em 2001, Tim Burton revive a franquia, fazendo uma releitura do original, alcançando algum sucesso nas bilheterias. A história e a figura dos macacos falantes se mantém no imaginário do cinema, nunca desvanecendo totalmente. O que talvez explique a retomada da franquia e seu revigorado fascínio.

Para contar a origem dessa história, este novo filme começa com a busca pela cura do Alzheimer. O cientista Will Rodman (James Franco) lidera a pesquisa para o desenvolvimento de uma droga capaz de regenerar células no cérebro. Testada em chimpanzés, faz com que desenvolvam capacidades de aprendizado surpreendentes. Obter sucesso nessa pesquisa dará a Rodman não apenas o status de cientista do século, mas também a cura para seu pai, que sofre com a doença. O cientista, interessado em apressar os testes em humanos, anuncia para investidores os resultados obtidos. No entanto, logo descobre que sua droga pode causar efeitos indesejados. O modo desastroso como isso é revelado quase encerra sua carreira e o obriga a recomeçar a pesquisa do zero. No entanto, após o traumático episódio, indo contra códigos de ética, o Dr. Will leva para sua casa um filhote de chimpanzé cuja mãe, inoculada com a droga, teve de ser sacrificada.

Dando ao filhote o nome de César, o cientista percebe que o jovem chimpanzé herdou da mãe os efeitos positivos da droga, sem os efeitos colaterais. César é o verdadeiro protagonista do filme. Desenvolvido com efeitos especiais de captura de movimento e interpretado por Andy Serkis - mesmo ator que com a mesma técnica interpretou o Golum/Smeagol da trilogia “O Senhor dos Anéis” -, sua presença em cena é marcante.

César cresce escondido da vizinhança no sótão da casa onde Will vive com seu pai. O macaco desenvolve uma inteligência fora do comum, se comunicando por meio de linguagem de sinais. Animado com o grande desenvolvimento de César, Will trabalha em uma nova e melhorada versão da droga. Insatisfeito com a burocracia dos procedimentos, testa a droga em seu pai. Os resultados são rápidos e mais uma vez surpreendentes e ele recebe autorização para uma nova rodada de testes em chimpanzés. Mas um incidente envolvendo César obrigará Will a mandá-lo para um centro com outros símios. César, com sua inteligência desenvolvida e magoado por ter sido abandonado em um lugar hostil, planeja e lidera uma revolta que ganha proporções gigantescas.

Não faltam neste novo filme referências e indicações ao original de 1968. Notícias de uma nave tripulada a marte, perda de contato com os astronautas, somam-se a outras pistas que explicam os acontecimentos do primeiro filme. Mas o foco aqui é César e a história de como o planeta, em pouco tempo, se tornará um domínio dos símios evoluídos. Essa assustadora perspectiva para o futuro da humanidade, que um dia será subjugada pelos primatas, começa a ser montada já na infância de César. Mesmo sendo um dócil e carinhoso animal inteligente vivendo entre humanos, há nessa relação improvável uma sensível incompatibilidade. Mesmo em situações corriqueiras, das mais inofensivas, há sempre uma tensa expectativa pairando.

As cenas da primeira parte do filme mostram a inteligência de César se desenvolvendo enquanto ele cresce com as naturais habilidades de um animal que é atleticamente muito superior ao homem. Os efeitos especiais, neste início, são falhos em alguns pontos. A necessidade da câmera em acompanhar as acrobacias de César pela casa revela a composição digital da cena, uma imperfeição nos efeitos que incomoda. Há ali uma distância entre o que se imaginou para a cena e o que se é capaz de fazer com a tecnologia sem que pareça artificial.

Tão artificial quanto essas cenas de César na primeira metade é o comportamento e as atitudes do Dr. Will. Suas decisões ferem o mais básico da ética científica, como testar uma droga inacabada em um ser humano ou levar um animal de laboratório para casa. Mesmo suas ações sendo justificadas na caracterização humanitária do personagem, elas mais parecem com decisões de um cientista maluco. Esse é um dos pontos em que o roteiro se enfraquece, com o Dr. Will personificado como alguém equilibrado agindo de forma desequilibrada. Melhor seria, talvez, dosar essa personificação com algum desvio, mesmo que leve, para que suas ações não soassem tão disparatadas.

A artificialidade de alguns efeitos especiais e o comportamento destoante do Dr. Will, juntam-se, neste início de filme, a uma montagem que erra a mão. Ao apressar os eventos com saltos mal conectados na narrativa, essa montagem prejudica o começo do filme. São falhas pontuais, presentes apenas na primeira metade da fita. Na segunda parte tudo flui muito melhor. Mas esses pontos fracos, mesmo sem prejudicar o filme de forma geral, impedem que ele se torne algo para o qual poderia estar predestinado: se tornar um épico.

Apesar de alguns pilares fracos, o filme sustenta a tensão do início ao fim, mantendo tesa a linha narrativa, preservando uma crescente expectativa. Parte desse resultado pode ser atribuído ao excelente trabalho de caracterização do César adulto, em especial as expressões em sua face. Mais do que seus movimentos e cenas de ação, é o detalhe de seu olhar, suas nuances – que variam entre afetuoso, confuso, triste, alegre, determinado - que dá o tom do filme.

Desde a fuga liderada por César até o último plano, antes dos letreiros finais (que logo são interrompidos para uma breve continuação de cenas que mostram a extensão apocalíptica do desfecho), o filme se supera com cenas bem montadas, efeitos bem articulados e a explosão de consequências catastróficas com a rebelião dos macacos. O ápice é a cena da ponte, o embate com cores de guerrilha urbana, e uma cena-chave que faz a ligação direta entre este filme e o filme original de 1968.

Não é por acaso que o líder da rebelião se chama César, não é por acaso que sua autoridade e liderança são incontestáveis. São referências shakespearianas que temperam a trama. Um tempero que dá ao filme personalidade. Como quando César, saudado por seu “exército”, vislumbra a extensão dos domínios a serem conquistados por seu iminente império. E então, é como se dissesse: a sorte está lançada.
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sábado, setembro 03, 2011

Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual


Medianeras
Gustavo Taretto
Argentina/Espanha/Alemanha, 2011
95 min.

“Medianeras”, que entrou em cartaz neste final de semana, expõe em sua abertura uma curiosa relação entre a cidade de Buenos Aires, sua arquitetura desorganizada e a solidão das pessoas. No final dessa abertura, quando o narrador enumera alguns males do nosso tempo - como o estresse, a violência, o suicídio, a depressão - e ilustra cada um deles com a imagem de um edifício correspondente, temos a impressão de que realmente somos moldados pela cidade que habitamos.

Conhecemos então Martín (Javier Drolas). Isolado em seu pequeno apartamento, ele trabalha como web designer e pouco sai de casa. Martín sofre de algumas neuroses, tem medo de elevador, ataques de pânico. Em tratamento, sai de casa apenas para ir ao psicanalista, fazer natação ou levar o cão para passear. Também se recupera de uma desilusão: a noiva, que foi passar uns dias nos EUA, decidiu ficar por lá.

Na mesma rua de Martín, em outro edifício, vive Mariana (Pilar López de Ayala). Ela é uma arquiteta que ainda não fez nenhum prédio e trabalha como vitrinista. Está de volta a seu apartamento, que deixou quatro anos atrás para viver um relacionamento que não deu certo. Entre manequins e caixas de papelão, sofre também de fobias como medo de elevador. Sai apenas para montar suas vitrines e praticar natação.

Martín e Mariana vivem sua solidão de modos diferentes. Enquanto ele preenche o vazio de sua vida com banalidades e distrações (jogos, coleções, internet), ela experimenta de forma muito mais intensa esse vazio; chora, enclausura-se. Sua companhia é o silêncio, cigarros, manequins, plásticos bolha.

Ambos ensaiam novos relacionamentos. Uma calada e distante garota que leva cachorros para passear, a música do piano de um vizinho que nunca se viu. Em maior ou menor grau, são relações abstratas. Seus “silêncios” e seus “ruídos” deixam transparecer o quanto não preenchem, o quanto são artificiais.

Como se suas vidas fossem a metáfora dos pequenos e mal iluminados apartamentos em que vivem, sentem que precisam abrir mais janelas. Mais luz e outras perspectivas é o resultado disso, quando quebram a parede do apartamento. Abrem suas janelas na lateral do prédio, na “medianera” do edifício. Sorriem quando começa a surgir essa nova janela. O gesto de fazê-la um pouco com as próprias mãos anuncia o desejo que têm de se abrir mais para o mundo e mais para a vida. Vai-se, pouco a pouco, a penumbra de seus apartamentos.

Estreia do diretor Gustavo Taretto em longa metragem, o roteiro enxuto e a narrativa dosada trabalham com inteligência, humor e carisma a solidão desses personagens. Apesar das semelhanças e da proximidade geográfica entre eles, é a cidade - e seus edifícios - que os distanciam.

Na ironia dessa cidade, muitas vezes se cruzam na multidão, mas não se veem. Um paradoxo poético, azeitado com a delicadeza dos personagens,  uma direção de grande sensibilidade e um final criativo.
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quinta-feira, setembro 01, 2011

A Viagem de Lúcia



Il Richiamo
Stefano Pasetto
Itália/Argentina, 2009
93 min.

Um encontro capaz de mudar uma vida e a viagem que a modifica. É com essas premissas que “A Viagem de Lúcia”, que estreia na próxima sexta (02), apresenta suas personagens. É assim com Lúcia (Sandra Ceccarelli), que para se reencontrar precisa se perder. É assim com Lea (Francesca Inaudi), impulso da viagem, que segue a mesma trilha para também se reencontrar. No fundo, quando partem, buscam apenas o regresso.

Lúcia e Lea são opostos. A primeira, comissária de bordo de uma companhia aérea; a segunda, operária de uma indústria de frangos. Lúcia está na meia-idade. Casada com um médico bem sucedido, leva uma vida ordenada e um casamento que se afunda na incomunicabilidade. Lea, jovem e cheia de vida, vive com um tatuador que quer se casar, mas ela resiste. Ambas vivem em Buenos Aires e esperam algo mais da vida, mas não sabem o quê.

O caminho delas vai se cruzar quando Lúcia tem uma gravidez interrompida. Afastada do trabalho, volta a dar aulas de piano. Lea se torna sua aluna. Há o choque entre a liberdade extremada de Lea e a rigidez conservadora de Lúcia. Um gelo que aos poucos sucumbirá a uma atração e a uma partida para a Patagônia, onde Lea realizará seu sonho de estudar biologia. Lúcia parte com Lea não em busca de sonho, mas em fuga da notícia que recebera pouco antes, algo que muda completamente sua perspectiva de vida.

Até a partida - ruptura de ambas com a vida que levam e divisão da narrativa - o filme segue bem, tem força e ritmo. Com a mudança, desliza para uma demora maior, mais contemplativa e sem a mesma força. É o tempo de maturação da mudança, mas que afeta o tom da narrativa, deixando-a inexpressiva.

Para Lúcia, longe é um recomeço. O novo, que chegou tão depressa, dá o tempo e a distância que ela precisa. Aprende que a vida não deve ser linear ou previsível. Aprende, com algum sofrimento, que o idílio dura pouco e sempre vem o naufrágio. Entre um e outro, o reencontro de si. Tanto para Lúcia, quanto para Lea. Talvez entendam que precisavam de um porto para suas emoções. Ao encontra-lo - ou não - na companhia uma da outra, descobrem a fragilidade de tudo. Um novo aprendizado. Talvez mais compreensão, equilíbrio e aceitação. Talvez o regresso, e mais um recomeço.
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Um Conto Chinês


Un Cuento Chino
Sebastián Borensztein
Argentina/Espanha, 2011
93 min.

Num primeiro momento, talvez você não associe o nome à pessoa, mas provavelmente já o conhece. Ricardo Darín. Ele é o grande nome do cinema argentino. Prova disso são os muitos filmes que protagoniza, sempre com ótimas atuações. “O Filho da Noiva”, “Nove Rainhas”, “Abutres” e “O Segredo de Seus Olhos” - este último vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2010 - são alguns exemplos.

Em “Um Conto Chinês”, simpática comédia dramática que estreia na próxima sexta (02), Darín interpreta Roberto, um homem solitário e sistemático. Vive em Buenos Aires, administra uma pequena loja de ferragens deixada pelo pai e gosta de colecionar coisas, especialmente recortes de jornais com notícias absurdas. Seu único amigo é Leonel (Ivan Romanelli), jornaleiro que traz os periódicos que recorta. Apegado á sua rotina, resiste às investidas da cunhada de Leonel, Mari (Muriel Santa Ana), apaixonada por ele.

A segurança e o conforto de Roberto serão drasticamente alterados quando Jun (Ignácio Huang) “cai” em sua vida. Jun é um chinês recém-chegado à cidade, que foi roubado por um taxista e atirado para fora do carro. Ao testemunhar a violência de que Jun foi vítima, Roberto, um pouco a contragosto, tenta ajudá-lo. O jovem chinês não fala uma palavra em espanhol e Roberto não tem muita paciência. Um endereço tatuado no braço de Jun será a pista inicial para uma solução. Pista que acaba dando em nada e Roberto se vê obrigado a levar o chinês para sua casa.

“Um Conto Chinês”, tradução literal do título original, é uma expressão portenha que significa grande mentira, algo como a nossa expressão “história de pescador”. Jun saiu de seu país após perder a noiva em um acidente surreal e procura por seu tio, que vive há muito tempo em Buenos Aires. Mas o velho se mudou e não deixou rastro. A busca pelo tio de Jun faz o filme patinar um pouco sem sair do lugar. O drama do chinês e a falta de habilidade de Roberto para lidar com a situação equilibra o filme entre o cômico e o sóbrio. É divertido sem precisar ser muito engraçado, humaniza os personagens e dá vida a uma fábula insólita de riso com um pouco de tristeza.

A convivência com Jun, sempre difícil para Roberto, o leva a enfrentar situações novas, o coloca em conflito, fora de sua zona de conforto. São mudanças. Como as cenas em que Jun passa a limpar e organizar o quintal atulhado de Roberto. A mudança clara que sofre aquele espaço depois da limpeza torna-se um sutil espelho das mudanças que Roberto terá de fazer dentro de si mesmo.

Nos desdobramentos da narrativa, desdobra-se também os traumas e ressentimentos que Roberto tem com a vida, que julga absurda e sem sentido. Talvez, por descobrir em Jun uma inesperada comunhão na tragédia, Roberto repense seu fechamento para o mundo e descubra que ainda há tempo para viver, para dar uma nova chance à vida. Mesmo que ela seja sempre tão cheia de absurdos, como num conto chinês.
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