quarta-feira, agosto 22, 2012

A Arte da Conquista


CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO SITE CINECLICK

Em A Arte da Conquista, o jovem George (Freddie Highmore) está quase sempre vestindo sobretudo. Em determinado momento, justifica o uso insistente do traje dizendo ironicamente que gosta de camadas. Com esta cena, o diretor estreante – e também autor do roteiro – Gavin Wiesen entrega involuntariamente a frágil mecânica de seu filme: uma história conservadora envernizada por uma camada de cinema norte-americano independente e moderninho.

Cursando o último ano do ensino médio, George prefere desenhar e fazer reflexões sobre o sentido da vida do que seus deveres escolares. Diretor e professores sabem que seu grande potencial está perto de ser desperdiçado pelo desinteresse em relação aos estudos. Como todo jovem perto do fim da adolescência, ele experimenta a crise existencial da idade, um sentimento de não pertencimento misturado à percepção de que a vida se desloca rapidamente rumo ao futuro desconhecido.

É no meio dessa ebulição que conhece Sally (Emma Roberts), aluna do último ano. Mas, ao contrário dele, ela não potencializa sua crise tão radicalmente. Cada vez mais próximos, desenvolvem uma amizade espontânea, porém marcada por um claro descompasso. Ele finge ser apenas um amigo (tentando ignorar seus sentimentos por ela), e ela finge não perceber seus reais interesses. Além do sentimento complicado, George ainda precisa lidar com uma crise familiar e com a possibilidade de não conseguir se graduar.

Para emoldurar esta trama juvenil, o diretor usa alguns ingredientes de cinema independente. Há a trilha sonora de composições simples, fotografia sem muitos artifícios e câmera calculadamente vacilante em alguns planos. São elementos que conferem ao filme um frescor juvenil, de cinema despojado. E até que funcionam bem, ajudado pelo bom andamento da narrativa enxuta.

Em seu início, o longa parte de algumas premissas minimamente interessantes e traz certa contestação nascida da rebeldia juvenil. Uma resistência ingênua, naturalmente, mas ao menos sincera. Há ali a promessa de um pouco de inconformismo com o sistema e com os padrões achatados da sociedade.

No entanto, no desenrolar da trama, A Arte da Conquista se rende àquilo que prometia contestar. Suas soluções para os conflitos não são apenas de conformação, mas de grande caretice. Revelam, afinal, que por baixo das camadas moderninhas, escondia-se um conservadorismo bastante comum.

Confirmando a previsibilidade de algumas ações e contaminado pela falta de ousadia em seu desfecho, o que sobra é uma história simpática. Para um filme que prometia ao menos alguma coisa fora da ordem, sua rendição à essa ordem é, no mínimo, decepcionante.
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The Art of Getting By (ou Homework)
Gavin Wiesen
EUA, 2011
83 min.

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sexta-feira, agosto 17, 2012

360



CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO SITE PIPOCA MODERNA

Filmes com muitos personagens e histórias fragmentadas são sempre um desafio para o diretor. Amarrar todas as microtramas, conectar os personagens e ainda causar empatia no público é algo difícil. Talvez dependa até de uma química intangível, impossível de ser explicada, mensurada ou relacionada numa fórmula. É tentativa e erro. Além de sorte.

Em 360, novo filme de Fernando Meirelles, não foi dessa vez que a química ou a sorte funcionaram. E a se ver pelo elenco, a promessa era grande. Jude Law, Anthony Hopkins, Rachel Weisz fazem linha de frente como estrelas internacionais. O filme ainda tem os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré, ambos jovens talentos. O elenco, numeroso como se vê, é completado por outros nomes menos conhecidos por aqui, mas bastante comuns na Europa, como o russo Vladimir Vdovichenkov, definido por Fernando Meirelles como “o Wagner Moura da Rússia”.

Ao longo do roteiro de Peter Morgan (de A Rainha), esses personagens vão cruzar como estranhos. Em meio a viagens, desencontros e decepções, todos carregam alguma amargura. Passam por momentos de conflito, desolação ou infelicidade. A cada encontro casual, uma bifurcação se abrirá em suas vidas. E a escolha do caminho poderá ser a guinada que eles precisam para se reencontrarem consigo mesmos. Um reencontro íntimo através do casual encontro com um desconhecido.

A premissa, baseada na clássica peça de teatro “La Ronde”, do austríaco Arthur Schnitzler, é boa. Mas na tela, algo não encaixa. O mais óbvio para que o filme não nos capture é a falta de aprofundamento dos personagens, que se alternam continuamente. Embora esse seja claramente um dos problemas, não é suficiente para justificar sua falta de fervura, que resulta num filme morno e sem grandes emoções. Não justifica porque outras experiências nesse formato já funcionaram melhor antes, a exemplo da comédia romântica “Simplesmente Amor”, de 2003.

Apesar de certa frieza, o filme tem alguns momentos brilhantes. Um deles é protagonizado por Anthony Hopkins, cujo personagem faz um breve monólogo em uma sessão de grupo de autoajuda. Segundo o diretor Fernando Meirelles, a maior parte desse monólogo é um improviso do ator; as histórias que ele conta são reais, acontecidas com ele mesmo. Outro destaque está na atuação de Ben Foster, que faz o papel de um criminoso sexual em condicional que precisa viajar sozinho e resistir às “tentações” em seu caminho.

Contudo, mesmo esses momentos inspirados não salvam o filme do tédio e da apatia com que suas histórias se desdobram. Apenas a trilha sonora fica como mais um ponto positivo, um alívio bem encaixado para um filme que beira o insosso.

No apanhado geral, a maior parte dos personagens de 360 valeriam um filme solo. Suas histórias são interessantes, assim como a maneira como cada um lida com a sua. Nota-se uma franqueza nas interpretações, um esforço genuíno do elenco. Isoladamente, cada história e personagem acende uma promessa de bom drama. Mas no conjunto, tanta fragmentação funciona mal. A essência se perde.

Em consequência, perde-se a empatia. Esta até ensaia brotar, mas logo morre na cena seguinte, no drama seguinte. Quando eventualmente retorna ao filme, já esfriou. Não tem mais a mesma força. O resultado final é frio e sem graça. O oposto do que cada personagem parece prometer – e nunca alcançar.
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360
Fernando Meirelles
Reino Unido/Áustria/França/Brasil, 2011
110 min.

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Paris-Manhattan



Já foi dito que o sucesso de Woody Allen se deve ao fato de seus filmes conseguirem fazer o público médio se sentir inteligente. Talvez seja essa a aposta da produção francesa Paris-Manhattan, ao rechear sua irregular narrativa com referências ao diretor norte-americano. O truque é claro: se você já viu uns dois ou três filmes de Allen, vai captar as referências - e se sentir esperto por isso.

De família judia, Alice (Alice Taglioni) é fascinada pelo diretor de Hanna e Suas Irmãs desde que tinha 15 anos. Viu todos os filmes e não aceita que falem mal deles. No seu quarto, ostenta um grande pôster estampando Allen com uma expressão interrogativa.

Vem também da juventude seu desacerto com o mundo, um misto de independência e atitude que resultam na sua solteirice, nas discrepâncias com a família e no seu modo de vida. Na farmácia que herdou do pai, além de analgésicos, ansiolíticos e complexos vitamínicos, receita também a seus clientes filmes do seu diretor favorito como solução para alguns males.

A cômica disfunção familiar, o sexo, o “ser judeu”, as citações freudianas, a reverência a Bergman, os diálogos engraçados e alguma filosofia de almanaque - travestidas de piadas inteligentes - também estão lá. No contexto, funcionam tanto como homenagem quanto como riso. É um filme divertido, sem dúvida. Mas cansa.

Seja por querer ser mais woody-alleniano que Woody Allen, ou pela falta de apuro na elaboração do roteiro, o filme margeia um desconfortável tom insólito. Mas não se assume como tal em momento algum, dando à sua narrativa uma irregularidade que achata todos os personagens e fragmenta em excesso o andamento.

De destaque mesmo, apenas o charme divertido do ator Patrick Bruel, ótimo no papel de cínico apaixonado, além de uma surpresa de luxo no final. Um toque que poderia resultar numa muito melhor aproveitada sequência se o filme não tivesse se perdido lá pelo meio do caminho.
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Paris-Manhattan
Sophie Lellouche
França, 2012
77 min.


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sexta-feira, agosto 10, 2012

Marighella


É indiscutível a importância da preservação da memória e da história de um povo. Importância essa que está acima de linhas formais ou estéticas. Este é o caso de Marighella, documentário que pretende desdobrar um pouco mais da vida de Carlos Marighella, controverso líder da luta armada no Brasil durante a ditadura militar.

A linha de partida dessa investigação é a memória afetiva de sua sobrinha, Isa Grinspum Ferraz, realizadora  do filme. Como ela mesma diz no início do documentário, mais do que entender quem foi Marighella, a ela interessava descobrir quem foi seu tio Carlos; um sujeito que aparecia e desaparecia de sua infância, mas que a deixou marcada pela figura amorosa e também misteriosa.

Carlos Marighella foi demonizado pela ditadura militar. Desenhado na época por manchetes que o pintavam como assassino impiedoso e inimigo público de caráter sanguinário, sua trajetória dentro da luta armada clandestina é polêmica e cheia de contradições.

Na esperança de jogar alguma luz sobre a figura do tio - morto pela polícia em uma emboscada em 1969 -, Isa faz uma investigação de pistas que nomeiam os capítulos do documentário. Cada pista/capítulo tenta desvendar uma faceta do mito.

Para costurar esses retalhos de pistas, a diretora se serve de uma prova de física feita pelo tio, quando era aluno de engenharia na Escola Politécnica da Universidade da Bahia. Nesta prova, Marighella, que desde jovem também se interessava por poesia, descreveu a reação da luz sobre superfícies espelhadas em forma de verso. São esses versos que entremeiam os capítulos.

Assim, a cada desdobramento muitas facetas se alternam para formar um retrato (ou um reflexo espelhado) em múltiplas dimensões. Mas são facetas sempre inconclusas, o que é bastante adequado ao Homem. Antes do mito, vem o ser humano: com seus acertos e erros, com suas idiossincrasias e contradições.

Formalmente, o documentário repete o cansativo repertório de “cabeças falantes”. É o nome que se dá ao velho formato que alterna muitas entrevistas (enquadradas em plano médio, daí o termo em inglês talking heads) com imagens de arquivo. Uma fórmula que funciona mal quando o filme se apoia em excesso sobre ela.

Neste caso, para uma personalidade que passou a vida dedicada a uma causa, o resultado acaba por ser frio, distante do calor do momento histórico que revive. O filme também sofre pela falta de imagens de arquivos da época. Em especial do personagem retratado, que por ter passado décadas na clandestinidade deixou raros registros fotográficos. Isso é visualmente notado quando muitas vezes se preenche o quadro com cenas de filmes ou imagens que tentam recriar a atmosfera da época. Uma solução que também enfraquece a narrativa.

Com nada de inventivo em sua fórmula, Marighella é mais uma peça do mosaico que nosso cinema busca sempre compor sobre os anos da ditadura. E sobre as figuras que cumpriram papéis importantes naquele período. Não é pouco, dada à recorrente necessidade que temos de sermos lembrados do passado para não repeti-lo (e mesmo assim, muitas vezes, incorremos nos mesmos erros).

Por esse prisma, o filme é sem dúvida um relevante registro. Porém, enquanto cinema, não alcança uma força construtiva que esteja a altura do personagem e de sua história.
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Marighella
Isa Grinspum Ferraz
Brasil, 2011
100 min.

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quinta-feira, agosto 09, 2012

Renovada, Jornada Brasileira de Cinema Silencioso começa sábado


Além da tradicional seleção de filmes mudos, 6ª edição do evento traz feira que remete ao início do século passado


Já incorporada ao calendário cultural da cidade, a Jornada Brasileira de Cinema Silencioso (evento promovido pela Cinemateca Brasileira que exibe filmes do período mudo) chega a seu sexto ano. Do próximo sábado, dia 11, até o dia 19, a jornada abre suas portas com novidades em relação aos anos anteriores.

A principal delas é o Salão das Novidades, atração que ocupará as áreas livres do antigo Matadouro Municipal onde hoje está instalada a Cinemateca. Com atrações circenses de mágica, teatro e figuras “exóticas” – além de exposições e projeções ao ar livre –, a ideia é reproduzir o ambiente das feiras populares e dos teatros de vaudeville.

Esses eventos eram muito comuns entre o fim do século 19 e início do século 20. Foi como uma atração dessas feiras que surgiu o cinema, invento pelo qual seus inventores, os irmãos Lumière, não nutriam grandes expectativas. Achavam que era apenas uma curiosidade tecnológica passageira, sem nenhum futuro.

Na programação de filmes, um diverso panorama sobre a produção cinematográfica pré-sonorização. Com a seleção Cinema Soviético dos Anos 1920: Massas e Poder, a oportunidade de conhecer filmes de diversos gêneros produzidos sob o efeito da Revolução de 1917. Deixando de lado os filmes ícones dessa fase, já bastante conhecidos, o evento apresenta uma seleção que inclui outros nomes fundamentais desse período, como Aleksander Dovjenko (Arsenal) e Lev Kulechov (As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques).

Expressionismo
O cinema expressionista alemão, referência inevitável desse período, está representado no programa Luz e Sombras. Destaque para o clássico O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, diretor que tem mais dois filmes na programação (As Armas da Juventude e As Mãos de Orlac). Outros destaques são O Gabinete das Figuras de Cera, de Leo Birinsky e Paul Leni; Sombras - Uma Alucinação Noturna, de Arthur Robinson e A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöström.

Da produção nacional, o programa Brasil: O Espetáculo de 1922 traz filmes produzidos e estimulados pelas celebrações do centenário da independência. São documentários que exibem a euforia da época, registrando o entusiasmo da modernização e do nacionalismo em feiras, exposições e inaugurações oficiais.

Em paralelo à programação, haverá um curso sobre o cinema soviético dos anos 20, ministrado por François Albera, professor de História e Estética do Cinema na Universidade de Lausanne. Também uma conferência sobre o cinema brasileiro nos anos 20, será realizada dia 12, com a presença de Rielle Navitski, pesquisadora da Universidade de Berkeley, e Eduardo Morettin, professor da ECA/USP.

Todas as atividades são gratuitas.
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Serviço:

VI Jornada Brasileira de Cinema Silencioso
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
Vila Clementino, São Paulo
Informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)
contato@cinemateca.org.br
www.cinemateca.gov.br

quarta-feira, agosto 01, 2012

Vou Rifar Meu Coração






Mais do que simplesmente falar da música brega – adjetivo que pode englobar um amplo leque de subcategorias musicais – o documentário de Ana Rieper é uma viagem pela natureza sentimental do brasileiro.

Nele, encontramos uma “afetivo-brasilidade” autêntica, sem floreiros e sem maquiagem. São paragens precárias, bares, prostíbulos, casas semiacabadas, pedaços de nossa mazela social. Em todos eles, as dores sentimentais, também conhecidas como “dor e corno”. E qual música melhor representa este sentimento, quando a vida humilde se mistura à infelicidade no amor?

Vou Rifar Meu Coração, título que se refere à letra de uma conhecida canção do gênero, é composto de retratos e canções. São histórias de abandono, dor, traição e situações absurdas. Essas histórias são emolduradas pelas canções e pelos depoimentos de nomes de relevo desse universo artístico. Amado Batista, Lindomar Castilho, Aguinaldo Timóteo, Wando, Nelson Ned, entre outros, exemplificam e explicam a natureza sincera e arrebatadora de suas canções.

Ao buscar histórias de vida cujos fatos se relacionam com as melosas e doloridas letras das canções bregas, o filme faz um retrato que evidencia que na dor da “cornitude” e no fogo da paixão, não se distinguem pobres e ricos. Como afirma um personagem ao dizer que, quando leva um “pé na bunda”, tanto o pedreiro quanto o médico choram e sofrem do mesmo jeito.

Acusado de machista pelas previsíveis patrulhas, o filme traz na verdade uma carga de sinceridade pouco vista no cinema nacional. Sem julgamentos, apresenta o afetivo que reside na nossa simplicidade atávica. Suas histórias, cujo sofrimento não dilui o cômico de algumas circunstâncias, são o reflexo de nossa condição mais verdadeira, na qual o tesão, a paixão e o amor desmedido não encontram barreiras de classe.

No campo da polêmica, a presença de Lindomar Castilho pode incomodar alguns. O cantor assassinou a tiros, em 1981, sua ex-mulher. Tornou-se ele próprio personagem do ciúme de suas canções. Cumpriu pena pelo crime e hoje vive isolado no interior de Goiás. Abandonou a música. Castilho só aceitou dar depoimentos para o filme se o seu crime não fosse citado. Já no campo da saudade, a presença do cantor Wando, falecido em fevereiro deste ano.

Em uma sociedade marcada pela brutal desigualdade, talvez um dos poucos pontos de contato entre classes esteja no sentimento doloroso do amor e da perda. Para dar vazão a todo esse sentimento, criamos um peculiar cancioneiro que, travestidos de uma sofisticação artificial, podemos até renegar. Porém, não escapamos de também sentir, afetivamente, a força desse cancioneiro. Podemos até sair dele, mas ele nunca sai de nós. Vou Rifar Meu Coração mostra isso muito bem.
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Vou Rifar Meu Coração
Ana Rieper
Brasil, 2011
76 min.

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Comédia Estrelada por Marilyn Monroe em Cartaz em São Paulo


Figurando com frequência nas primeiras posições das listas de melhores comédias de todos os tempos, Quanto Mais Quente Melhor (1959), de Billy Wilder, voltará à tela grande em São Paulo. A partir da próxima sexta-feira (03), o filme reestreia no Espaço Itaú de Cinema da rua Augusta.

Com sessões diárias em quatro horários, a iniciativa é parte das homenagens em memória à atriz Marilyn Monroe, que estrela o filme e cuja morte completa 50 anos no dia 5 de agosto.

Protagonizado por Jack Lemmon (1925 - 2001) e Tony Curtis (1925 - 2010), o filme tem parte de seu brilho e mística na figura de Marilyn.

Na história, Lemmon e Curtis são dois músicos de Chicago que testemunham um assassinato e passam a ser perseguidos pela máfia. Para escapar, eles se disfarçam de mulheres e entram para um grupo feminino de música, que tem a ingênua Sugar Kane Kowalczyk (Marilyn Monroe) como uma das integrantes.

A direção é de Billy Wilder (1906 - 2002), cineasta versátil e cultuado, cuja obra passeia por diversos gêneros, indo da comédia ao suspense noir e passando pelo drama.

Engenhoso, mordaz e de espírito crítico, Wilder tem em sua filmografia clássicos como Se Meu Apartamento Falasse, Testemunha de Acusação, Crepúsculo dos Deuses, Pacto de Sangue, A Montanha dos Sete Abutres e O Pecado Mora ao Lado.

O Espaço Itaú de Cinema fica no número 1475 da rua Augusta. Os ingressos custam R$20,00 (meia R$10,00) sexta a domingo; R$16,00 (meia R$8,00) segundas e terças; R$14,00 (meia 7,00) às quartas e 10,00 (meia 5,00) às quintas. Para mais informações, acesse: http://www.itaucinemas.com.br
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sábado, julho 28, 2012

A Vida dos Peixes



A Vida dos Peixes é um filme de textura melancólica, formada por antigas memórias e por uma ausência sentida. A evocação do passado e de uma tragédia, a distância entre amigos. Desta matéria se reveste este drama franco-chileno.

O filme se passa durante uma festa de aniversário e mostra o reencontro de Andres (Santiago Cabrera) com velhos amigos. Vivendo em Berlin, ele trabalha como repórter de turismo e esteve distante por dez anos. Suas viagens pelo mundo o afastaram desses amigos e do passado, ainda que este passado tenha se mantido enraizado dentro dele.

O afastamento foi consequência de uma tragédia, da morte de um amigo, da ferida que isso deixou em Andres. Mas não foi apenas dos amigos que ele se distanciou. Beatriz (Balnca Lewin), seu grande amor da juventude, também foi deixada para trás. Contudo, assim como o passado, também se manteve enraizada em seu coração.

É em torno desse reencontro que a tensão dramática de A Vida do Peixes irá se desenvolver. Beatriz, hoje casada e com duas filhas gêmeas, também ficou marcada pelo que passou e pela ausência de Andres. No reencontro entre ambos, o desconforto aos poucos dará lugar às lembranças e às possibilidades perdidas.

A direção do chileno Matías Bize busca traduzir a tristeza de Andres nos planos que o acompanham pela casa. O aniversário é de um dos velhos amigos e a casa faz parte de sua memória. Nas idas e vindas pelos cômodos, no encontro com pessoas dessa memória, nota-se entre Andres e o espaço uma familiaridade com estranhamento. Tudo é conhecido, mas também distante.

Bize filma muitos planos através de luzes que, desfocadas num primeiro plano, conferem um ar poético às cenas e ao filme. Esta delicadeza poética se confirma na trilha sonora discreta, ainda que um pouco excessiva na repetição. Pautam esta atmosfera semionírica os diálogos em que o silêncio ao redor intensifica um sentimento que mistura culpa, arrependimento e a distância entre todos.

Por outro lado, há no conteúdo de alguns desses diálogos uma ingenuidade que não corresponde à bagagem de vida que trazem os personagens, o que acaba artificializando alguns momentos. Essa falha, porém, se dilui nas ótimas atuações. Em especial, no sentimento revelado pelas trocas de olhares, alguns tão expressivamente bem articulados que dispensariam linhas de diálogo.

Ainda que um pouco esquemático nas suas passagens e por vezes artificial na manutenção de uma situação – como a permanência de Andres na casa, quando logo no início diz que está partindo – este A Vida do Peixes se apresenta como filme delicado, que traz na memória do passado os caminhos desperdiçados, as oportunidades desviadas.

Enxuto na duração, consegue, acima de tudo, manter tesa a corda que sustêm seu drama, nos mantendo ligados aos sentimentos e pesares que recobrem de melancolia sua trama de reencontro doloroso e suave mistério.
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La Vida de los Peces
Matías Bize
Chile/França, 2010
84 min.

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quarta-feira, julho 25, 2012

Aqui é o Meu Lugar


 É difícil lembrar de algum filme recente que tenha andado tão à beira do abismo como este novo trabalho do diretor italiano Paolo Sorrentino. Isso porque no cinema século 21, arriscar-se em uma ideia diferente é algo cada vez mais raro neste segmento onde poucos se arriscam a sair – e também tirar o espectador – da zona de conforto.

Aqui é o Meu Lugar, que estreia neste final de semana, fica como uma agradável exceção à regra. Não que seja filme de grande inventividade. Sua trama - de personagem que emprega viagem em busca de algo e acaba sendo transformado pela viagem, num processo de autodescoberta - está mais do que desgastada. Mas em Aqui é o Meu Lugar todo o processo ganha uma estranheza rica e saborosa, toda ela apoiada no personagem e na atuação de Sean Penn. Pois é da coragem em assumir essa estranheza – e os riscos que ela traz – que torna a experiência do filme algo tão positivo e singular.

Sean Penn encarna Cheyenne, uma figura descontextualizada nos dias de hoje, fruto daqueles estranhos anos 80. Porque antes de existirem os emos, existiram os góticos. É dessa última tribo que veio o sucesso de Cheyenne, líder, no passado, de uma famosa banda de rock gótico. Mas ele abandonou a vida artística depois que dois jovens cometeram suicídio inspirados por suas músicas sombrias. Contudo, mesmo longe dos palcos e dos estúdios, manteve o mesmo estilo de se vestir e maquiar.

Casado, vivendo recluso na Inglaterra, ele se vê obrigado a voltar para os EUA, para o enterro de seu pai, com quem não falava há 30 anos. Descobre então que seu pai, um judeu sobrevivente do holocausto, passou toda sua vida obcecado em encontrar o nazista que o torturou e que vive também na “terra dos livres e lar dos bravos”. Cheyenne decide então terminar a busca do pai.

Misto de fábula cômica com drama quase nonsense, mas sem jamais afundar o pé em qualquer gênero, Aqui é o Meu Lugar se desdobra como filme de estrada. A razão de ser, claro está, é a figura de Cheyenne. Não apenas pelo riso tímido desconcertante, não apenas pelo jeito peculiar de se mover, nem pela fala monocórdia e tampouco pela maquiagem extravagante. Mas principalmente pelo quanto este personagem se encontra perdido de si mesmo.

Como disse antes, o tema da busca de si mesmo não é novo. O próprio filme brinca com isso quando Cheyenne rejeita esta ideia, sugerida pela esposa, dizendo que viajou para o Novo México, não para a Índia. Mas o fato é que sua jornada, desde o início, indica claramente essa busca por si mesmo.

Mesmo com o foco na sinuosa jornada de seu protagonista, o filme não descuida daqueles com quem ele cruza em seu caminho, e cujas vidas acaba tocando (ou sendo ele por elas tocado). De alguma fora, todos estes por quem ele passa ganham também uma dimensão humana. Esta capacidade de fazer um personagem fugaz crescer em poucos minutos é uma das melhores qualidades do filme.

Para os mais necessitados de explicações mastigadas, Aqui é o Meu Lugar pode não agradar. Este é um filme que por onde passa deixa pontas soltas, um problema para quem precisa de explicação e ponto final em tudo. Mas é preciso entender que estas pontas soltas são a própria natureza do filme, cuja intenção é deixar abertas as possibilidades de todos, exceto as de Cheyenne, que terá seu encontro dramático numa ótima cena com o ator Heiz Lieven.

Arrastando seus pés na borda do abismo do caricato e apresentando uma história também sempre perto de não funcionar - mas que acaba funcionando -, este filme de Sorrentino se mostra uma oxigenada surpresa diante da monotonia do cinema atual.
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This Must Be The Place
Paolo Sorrentino
Itália/França/Irlanda, 2011
118 min.

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segunda-feira, julho 23, 2012

Valente

 CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO SITE CINECLICK

Mais do que uma animação para as crianças, Valente, novo longa da Pixar, se lança como uma aventura juvenil. Ao menos é o que faz crer o modo como o filme se vende. A aventura, contudo, fica pelo meio do caminho e o que se vê a partir de certo ponto é um enredo que desconstrói tudo que o filme construiu em seu início tão promissor.

Ambientado numa velha Escócia, a história é sobre Merida (voz de Kelly Macdonald), filha primogênita do rei Fergus (voz de Billy Connolly) e da rainha Elinor (voz de Emma Thompson). A jovem donzela nunca se interessou pelas obrigações e rituais de comportamento de uma dama. Sua realização sempre esteve na liberdade e na prática do arco e flecha, para desaprovação total de sua mãe.

É aí que está o conflito central de Valente. Como muitas adolescentes, Merida não aceita que sua mãe decida como ela deve se comportar ou se vestir. Não aceita, acima de tudo, que ela trace seu destino. Este conflito se agrava quando, pela tradição, os primogênitos dos reinos aliados devem disputar a mão de Merida em um torneio. Transtornada com os acontecimentos, a jovem tem uma séria discussão com sua mãe, foge sem direção e retorna com o que acha ser a solução de seus problemas. Mas a suposta solução dos problemas da jovem rebelde acaba sendo o início dos problemas do filme.

Valente cresce continuamente desde o princípio. Tem uma personagem forte, carismática e atrevida. Ela está disposta a romper com o que foi estabelecido antes dela e também com qualquer coisa que a impeça de escolher os rumos que quer para si. O conflito entre mãe e filha, desenhado com matizes fortes, promete uma aventura de drama convincente. Mas seria demais esperar de um estúdio de animação que tanta rebeldia fosse adiante por muito tempo.

Se o filme tomasse o rumo clichê desse tipo de história (garota rebelde foge, se perde, enfrenta problemas, se arrepende e retorna com a lição aprendida), ao menos restaria a aventura. No entanto, o roteiro do filme toma um rumo inesperado a partir de certo ponto e a história se encaminha por vias que põem a perder a vibrante e promissora primeira parte de Valente. Vai-se a aventura, fica o sentimentalismo conservador e quadrado.

O resultado é uma segunda parte muito mais fraca e sem muita conexão com o que foi ensaiado no início. Vendido como filme de aventura, Valente é na verdade um filme sobre a relação mãe e filha, tratada aqui pelo viés da mãe, como se ela tivesse sempre razão. 

A voz do filme fala muito mais à pré-adolescentes do que a crianças, que podem não se entusiasmar com o drama de Merida. Como toda animação atual, o filme estará disponível também em 3D, mas o efeito nada acrescenta, sua utilidade, neste caso, é só para quem fatura com o ingresso mais caro.
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Brave
Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell
EUA, 2012
100 min.

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sexta-feira, julho 20, 2012

Elles



Elles, da diretora polonesa Malgorzata Szumowska, abre com um contraste que indica desde o início o conflito que se desenhará adiante. Na primeira cena, vê-se um homem perto de chegar ao orgasmo enquanto recebe sexo oral de uma garota. Logo na cena seguinte, uma mulher recebe com irritação a queixa do filho mais velho, que anuncia a falta de achocolatado para o café da manhã.

Nesta rotina de um dia da jornalista Anne (Juliette Binoche), algo parece ter repentinamente perdido o encaixe. Ela precisa terminar uma reportagem sobre garotas que se prostituem para se manter durante a faculdade. Também precisa preparar um jantar para receber o chefe do marido.

Esposa, mãe de dois filhos e com um casamento que passa pelos típicos conflitos do desgaste que os anos trazem, Anne é uma feminista que passa a se ver afetada pela reportagem que está apurando. Quando numa cena é perguntada se tem amigos árabes, responde que não, mas reforça que apenas por coincidência e não por preconceito.

Está nesta resposta, especificamente na palavra preconceito, a chave para entender a transformação pela qual Anne passa. Enquanto a vemos entrevistar duas jovens garotas de programa, não é possível deixar de notar o quão carregada de preconceitos é a abordagem que ela faz do assunto. Ao perceber a negativa das garotas para suas convicções sobre humilhação, submissão e vergonha, fica desconcertada.

Ao mesmo tempo, passa a se sentir envolvida com as histórias que as garotas contam. Surge daí uma fantasia que não se desdobra claramente entre real e o imaginário. Neste terreno nebuloso, reside a sutileza do filme e da personagem de Binoche, que mais uma vez atua exalando uma sensualidade envolvente e discreta, como já havia feito no excelente Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami.

Consumida por histórias de um erotismo que ela em princípio rejeita, também se vê consumida pelo cotidiano doméstico. Desse cotidiano, por exemplo, vem a recorrente dificuldade em fechar a porta da geladeira, um recurso bastante óbvio para revelar a falta de encaixe que tem tomado sua vida.

Elles coloca no centro de sua história uma mulher moderna – profissionalmente estabelecida, casada e com filhos – que passa a notar suas insatisfações através da reportagem que escreve. De fantasias eróticas contaminadas pela resistência em assumi-las à crise conjugal que não se desenrola e fica estancada numa discussão sem proveito, o filme não avança adequadamente em nenhum dos campos que abre.

O resultado final é de possibilidades desperdiçadas, já que a trama, os personagens e principalmente a excelente Binoche, poderiam alcançar um drama mais profundo. Mas o filme apenas desliza pela tela lançando frentes de reflexão que nunca são refletidas plenamente.
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Elles
Malgorzata Szumowska
França/Polônia/Alemanha, 2011
99 min.

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quinta-feira, julho 19, 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge



Chega ao final a saga do Batman de Christopher Nolan. Sim, um Batman de Nolan, já que o diretor, como poucas vezes se viu em mega produções de Hollywood, ditou quem, como e até quando iria seu Batman.

Na construção dessa trilogia, Nolan colocou a seriedade em primeiro lugar, demonstrando pelo personagem um respeito que ficará de lição para o futuro, quando se pensar em adaptação de super-heróis para o cinema. Sua caracterização do maior detetive do mundo, do cruzado de capa, do cavaleiro das trevas ficará como um divisor de águas. Porque acima de tudo houve sempre uma grande consideração pela inteligência do espectador.

O ápice dessa consideração se deu em Batman: O Cavaleiro das Trevas, de 2008. Um filme que, marcado pela atuação antológica de Heath Ledger como Coringa, trazia na sua trama o anúncio incômodo do que aquele justiceiro encapuzado realmente significava: o fracasso. Pois ali se anunciava a sina deste Batman, a sina de nunca atingir seu ideal de símbolo para as pessoas, acumulando apenas tragédias, mortes e fracassos. Com sua carga dramática e seu vilão inigualável, Cavaleiro das Trevas atingiu um grau de realismo e qualidade difíceis de superar neste gênero de filme.

Agora, em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, oito anos se passaram desde os acontecimentos do último filme, que culminaram com a morte de Harvey Dent e a fuga de Batman, acusado de assassinato. Gotham City é agora uma cidade pacificada, tendo o mascarado de capa sumido completamente. Bruce Wayne, aposentado como vigilante e amargurado pelas perdas que sofreu, recolhe-se em sua mansão como um solitário esquecido.

Essa paz em Gothan é resultado do símbolo – e consequentemente da mentira – que se criou em torno de Dent e da culpa de Batman. Mas então surge Bane (Tom Hardy), um terrorista com o plano de levar o caos à cidade. Assim como surge também uma ladra, Selina Kyle (Anne Hathaway), que despertará a atenção de Bruce Wayne.

Ainda que a expectativa seja a mãe da decepção, pode-se dizer que este último filme da saga não decepciona. Mas também é preciso dizer que não alcança o mesmo brilhantismo do filme anterior. Isso porque suas falhas são muito mais visíveis do que as falhas do outro filme.

Há desdobramentos previsíveis, há um vilão que não vai além do satisfatório e tem uma duração que se estende além do necessário. Contudo, o que mais atrapalha é que o filme não consegue a mesma força de embate e de tensão que alcançou o anterior. Nota-se uma sensível diluição no seu foco, nascida da introdução na trama de novos e importantes personagens. Ao equilibrar a importância desses novos agentes, o diretor abre mão de distender com mais intensidade o fio de confronto e terror, como havia feito com muita competência em Cavaleiro das Trevas.

No entanto, este Ressurge não passa nem perto de ser um filme ruim. Dentro do que é seu objetivo – fechar a trilogia – realiza um trabalho mais que satisfatório, dando à saga e ao desfecho toda dignidade que a obra merece. Parte disso se deve ao fato de Nolan preservar em seu roteiro o elemento fundamental que torna a trilogia tão exemplar: sua história não depende de cenas de ação.

O diretor, que coassina os roteiros dos três filmes, criou um arco de histórias que poderiam se sustentar em pé mesmo que não houvesse uma única cena de ação. Claro que elas são indispensáveis, afinal estamos falando de um super-herói de HQs. Mas a estrutura dramática e narrativa criada pelo diretor joga seu foco nos personagens, nas relações de causa e efeito entre eles. A ação é sempre consequência, nunca o foco principal.

Assim, neste epílogo, mantêm-se o tom realista assumido desde o início e esta opção confere às cenas de ação uma textura única, quase uma antítese do espetacular, o que as fazem, paradoxalmente, mais espetaculares ainda. Dos novos personagens, destaque para Anne Hathaway, que incorpora com muita precisão a ironia provocadora de Selina Kyle, e Joseph Gordon-Levitt como o policial John Blake, que desempenha um papel fundamental na trama e no desfecho.

Mesmo com suas imperfeições, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge em momento algum renega o que esta franquia tem de mais essencial: a dignidade e respeito com que o personagem e seu universo são tratados. Esta honestidade do diretor, a forma sem grandes artifícios com que, desde o início, optou por contar sua história e mais todas as coisas positivas que os filmes vêm trazendo desde então, estão lá, para satisfação dos fãs e de quem acompanhou esta trajetória.

Se havia uma promessa quanto a este final, era a de ser fiel a seu início. Quanto a isto, não há dúvida. A promessa foi cumprida.
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The Dark Knight Rises
Christopher Nolan
EUA/Reino Unido, 2012
164 min.

Trailer

Ciclo




(Para a crítica do filme, clique aqui)


É possível que Christopher Nolan, diretor da nova trilogia do Homem Morcego, não tenha se dado conta do que o último filme desta trilogia significa. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge não é apenas o encerramento de um trabalho memorável, talvez até histórico em Hollywood. É também o último episódio de um arco divisor de águas, um arco de três filmes que fecha um período iniciado em 1989, com Batman, de Tim Burton.

O que o filme de Nolan encerra, ao estrear no próximo dia 27 de julho, é a primeira era das adaptações de histórias em quadrinhos de super-heróis para o cinema. Não que antes de 1989 o cinema não já tivesse lançado mão de levar para as telas os heróis fantasiados dos gibis.

Mas é com o sucesso daquele antigo Batman (de armadura inflexível e biquinho inconfundível de Michael Keaton) que esse seguimento nasceu de fato para o cinema de entretenimento pós-Star Wars.

Com ele, nasceu também os fãs ansiosos e ao mesmo tempo temerosos, preocupados com o que os estúdios poderiam fazer com seus heróis favoritos. 

Entre erros dignos de serem apagados e acertos de encher os olhos, chegamos a 2012, quando não apenas Os Vingadores trouxe uma aventura divertida e cheia de luz para os fãs, mas, principalmente, quando Nolan coloca um ponto final em sua saga sombria. Depois desse Batman, os fãs já sabem: nada será como antes quando se pensar em adaptar um personagem de HQ para o cinema. Uma nova era se inicia.

E esta nova era consolida a única lição que um diretor, um estúdio ou quem quer que vá adaptar um desses personagens para o cinema deve saber: tenha respeito. Pois é o respeito que Nolan demonstrou pelo personagem Batman que faz de sua trilogia um sucesso, um marco e uma saga memorável.
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