sexta-feira, outubro 14, 2011

Não Tenha Medo do Escuro



Don’t Be Afraid of the Dark,
Troy Nixey
EUA/Austrália/México, 2010
99 min.

O destaque dado à presença de Guilherme Del Toro como produtor desse filme de terror busca emprestar credibilidade à obra. Contudo, nada mais longe do ótimo trabalho de Del Toro em O Labirinto do Fauno. Estreando na direção, Troy Nixey até faz referências à obra do diretor mexicano. Mas não chega perto de alcançar efeitos tão bons. Leia na íntegra.
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Publicado originalmente no site Cinema O Rama.



A Criança da Meia-Noite


La Permission de Minuit
Delphine Gleize
França, 2011
110 min.

Solidão e busca pelo intangível. É esse o prenúncio da abertura de A Criança da Meia-Noite, quando usa como canção incidental o mesmo tema do clássico de 1954, Rastros de Ódio. Uma canção típica sulista norte-americana como The Searchers , de Stan Jones, em um filme contemporâneo francês pode soar deslocada inicialmente. Mas depois que conhecemos a fundo o personagem David (Vincent Lindon), tudo faz sentido. Leia na íntegra.
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Publicado originalmente no site Cinema O Rama



quinta-feira, outubro 13, 2011

Qual Seu Número?


What’s Your Number?
Mark Mylod
EUA, 2011
106 min.

Ally (Anna Faris) está prestes a pular um muro para invadir uma festa de casamento. Antes disso, correu por toda cidade dentro de um enfeitado vestido rosa. Tudo isso apenas para falar com seu vizinho de apartamento. Mas antes de pular o muro, depois de finalmente encontrar a festa em que ele estava, para por um instante e diz: “como sou burra, bastava ter ido para casa e esperado ele voltar”.

Essa deliciosa desconstrução do ridículo é um dos muitos momentos espirituosos de Qual Seu Número?, divertida comédia romântica que estreia na próxima sexta (15); um filme que, apesar das fraquezas típicas do gênero, consegue provar que tem personalidade.

Ally tem quase 30 anos e já dormiu com muitos caras, mas nunca chegou perto do casamento. Um dia, depois de perder o emprego, lê numa revista que um estudo mostra que a média de homens com que uma mulher americana tem relações antes do casamento é de 10,5 e as que passam de 20 acabam não se casando. Em outras palavras, se depois de dormir com 20 homens você não encontrou o cara certo, não vai mais encontrar.

Depois de fazer as contas, Ally ela descobre que já dormiu com 19 sujeitos. Promete então que o próximo com quem dormir será o cara certo, com quem irá se casar. Esse é o momento que o roteiro surpreende. O que poderia ser um monótono e previsível filme sobre a procura do cara ideal, em poucos minutos se desmonta, quando na mesma noite da promessa, sob efeito de muita tequila, Ally dorme com o vigésimo. Um cara que, definitivamente, não é o cara certo.

Mas essa rápida virada que salva o roteiro, também o leva para a beira do abismo do quase nonsense. Para não passar do número maldito, Ally decide que talvez seu cara certo tenha passado e ela não tenha percebido. Resolve então procurar todos seus ex-namorados, na esperança de que seu cara certo esteja solteiro, disponível e, claro, bem sucedido. Com isso também evitaria passar de 20 o número de caras diferentes quem já transou.

É quando pede ajuda a seu vizinho. Collin (Chris Evans) é solteiro, bonito e acorda a cada dia com uma mulher diferente em sua cama. Sem conseguir controlar o irresistível desejo de dormir com toda mulher bonita que conhece, vive toda manhã o desconforto de não saber como se livrar da estranha com quem acorda. Combina com Ally uma troca: ela deixa que ele se esconda em seu apartamento e ele, que domina as ferramentas da internet, a ajuda a descobrir o paradeiro dos ex namorados.

É da química entre os dois atores que sai boa parte da graça do filme. Ambos revelam um carisma cativante; seja na cafajestagem de Collin, seja na insanidade de Ally.

São esses detalhes, somados ao bom ritmo da narrativa que não deixa o filme cair na monotonia, que fazem de Qual Seu Número? uma comédia romântica acima da média. Se a inverossimilhança da "caçada" obsessiva e sem fundamento de Ally pode parecer muito grande, a mudança do foco subjetivo do filme salva-o do ridículo pelo que trás de entrelinha.

O filme começa como uma alegoria dos tempos de solidão que vivemos hoje. A carência universal e a necessidade de chegar ao casamento parece ser uma das obsessões de nossos dias. Esse enfoque do filme passa pela preparação do casamento da irmã de Ally e a mitologia que isso traz do universo feminino. Mas antes do fim, essa “entrelinha” muda de foco. É quando o filme revela a necessidade de sermos quem somos e de não dar a nossas vidas rumos que servem muito mais para atender as expectativas alheias (família e amigos) do que nossas próprias.

Sem cair em armadilhas de roteiro formatado e previsível, ousando nas curvas da narrativa e com uma dupla que funciona muito bem, o filme se torna uma inesperada boa opção de comédia romântica.
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sexta-feira, outubro 07, 2011

Eu Queria Ter a Sua Vida



The Change-Up
David Dobkin
EUA, 2011
112 min.

Alguns filmes de Hollywood se parecem com aqueles encartes de papelão, com instruções pontilhadas para montar; dobre aqui, cole ali, recorte acolá e pronto, mais um filme lançado. É exatamente o caso da comédia “Eu Queria Ter a Sua Vida”, que repete uma fórmula mais que desgastada em seu roteiro.

Dois amigos de infância têm vidas completamente opostas. Dave Lockwood (Jason Bateman, que esteve ótimo em “Quero Matar Meu Chefe”, mas aqui está decepcionante) é um advogado bem sucedido, casado e pai de três crianças (duas delas gêmeos recém-nascidos que mal o deixam dormir). Mitch Planko (Ryan Reynolds, protagonista da adaptação para o cinema do super-herói Lanterna Verde) leva uma vida de solteiro. Ccom muitas namoradas, vive de trabalhos esporádicos como ator e costuma não fazer nada em boa parte do dia.

Uma noite, ao saírem juntos de um bar, vão urinar em um chafariz próximo. Enquanto fazem xixi, reclamam de suas vidas, até dizerem ao mesmo tempo que queriam ter a vida do outro. Acontece então um súbito blackout na cidade, mas logo tudo parece voltar ao normal. Porém, quando acordam na manhã seguinte, percebem que estão com os corpos trocados. Assustados, voltam ao chafariz para desfazer a maldição, mas descobrem que ele foi removido pela prefeitura. Por causa da burocracia, Dave e Mitch só poderão saber para onde foi deslocado em algumas semanas.

Com as vidas trocadas, Mitch, que não entende nada de advocacia, terá que conduzir uma fusão de milhões de dólares na qual Dave vinha trabalhando. Dave, por sua vez, terá que atuar num filme para o qual Mitch fora contratado, sem saber que se trata de uma produção pornô.

A comédia não apresenta nada de novo em seu formato, limitando-se a fazer previsíveis piadas sobre o comportamento “estranho” que cada um deles passa a ter diante de colegas e família. Além de usar um argumento desgastado e sem surpresas, o filme ainda exibe algumas cenas de qualidade técnica sofrível, dignas do cinema trash. Como em nenhum momento o filme se assume com tal, as cenas não apenas destoam, como também constrangem.

Com poucas piadas que funcionam, a narrativa se arrasta para o previsível sentimentalismo final. Enquanto aproveitam a vida um do outro, percebem o que há de errado com suas próprias vidas e decidem mudá-las para melhor. Mas não tem melhora de vida que melhore um filme tão ruim.
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Copacabana


 
Copacabana
Marc Fitoussi
França/Bélgica, 2010
120 min.

Em toda sua duração, “Copacabana” não tem uma única cena na famosa praia carioca. A única praia que aparece no filme é bem mais modesta em termos de sol e fama: uma estação de veraneio belga em baixa temporada. Nesta comédia francesa, o que justifica o título é a paixão que sua protagonista tem pelo Brasil; além da trilha sonora só com canções daqui.

Babou (Isabelle Huppert, com um carisma contagiante) é uma mulher de meia-idade que não consegue se enquadrar nos padrões convencionais. Dona de efusiva espontaneidade jovial, nunca deu grande importância a coisas como emprego, estabilidade ou status. Leva a vida sempre com bom humor e tem o grande sonho de conhecer o Brasil.

Sua filha Esméralda (Lolita Chammah, filha de Isabelle na vida real) é o oposto. De personalidade forte e caráter conservador, está sempre em atrito com a mãe, que julga infantil e irresponsável. Prestes a se casar, anuncia que o fará na igreja, de véu e grinalda, numa cerimônia que Babou considera careta. Mas o pequeno desagrado se transforma em profunda decepção quando a filha pede a ela que não vá ao casamento. Não apenas porque Babou não tem dinheiro para ajudar nas despesas da festa, mas também por medo de que ela a envergonhe diante de todos.

Profundamente magoada, Babou consegue um novo emprego e se muda para a praia belga de Ostende. Durante a baixa temporada, se esforça em vender apartamentos de veraneio para turistas. Está determinada a provar para a filha que pode ser responsável e bem sucedida. Graças a seu grande carisma, torna-se a melhor vendedora da equipe, sendo rapidamente promovida. Mas sua boa vontade em ajudar o próximo a faz colocar em risco o emprego, enquanto tenta se reconciliar com a filha.

Toda a situação serve de esteira para trabalhar superficialmente os conflitos de gerações, mas de forma invertida. Neste caso, a geração mais antiga se mostra muito menos careta que a juventude. Na figura de Babou, rebelde e humanitária, o filme também alfineta o competitivo mercado de trabalho, revelando uma grande falsidade nas relações profissionais.

Com leveza na interpretação, Isabelle Huppert tempera e dá sabor a um filme cuja trama não chega entusiasmar. Mas se as praias cariocas passam longe dos cenários do filme, a música brasileira presente na trilha surpreende. O repertório é de samba e bossa nova; evita os clichês estrangeiros com nossa música e investe em canções menos óbvias de Jorge Bem Jor, Marcos do Vale e Chico Buarque.

A mistura funciona bem. Especialmente quando Babou se empolga em exibir seu estranho e rígido “gingado”, mostrando que seu amor pelo Brasil está no coração, mas passa longe dos pés e da cintura.
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segunda-feira, outubro 03, 2011

Ano Um



Hoje, o Eu, Cinema completa um ano no ar. São 240 textos em 365 dias. O blog nasceu como um primeiro passo rumo a um sonho. O início de um longo, árduo e incerto projeto pessoal. A partir dele, pretendia fazer contatos, estabelecer conexões, comprovar vocação, talento, vontade, empenho. Para além de todo pragmatismo de projeto, também a paixão pelo cinema e o amor pela escrita.

Agora, em retrospecto, vejo que superou minhas expectativas. Não pelo número de visitas (nunca tive intenção de ser popular por um blog), mas pelas pequenas brechas que me abriu naquele propósito inicial muito específico. Aproveito hoje cada uma dessas brechas que ele proporcionou. Feixes de luz e esperança que já deixam de ser ranhuras estreitas de um universo sonhado para aos poucos se abrirem como portas de uma realidade ainda tênue.

Se ainda não me consolido na realização plena sonhada, sei que caminho consistente para algo menos ordinário que minhas atribuições pregressas. Ao conseguir me desvencilhar do calabouço profissional em que estava afundado e subir à luz de poder fazer o que mais amo e sinto prazer em fazer, parte disso devo ao Eu, Cinema.

Não pretendo abandoná-lo jamais, mas sei também que o futuro pode ser cruel com ele; talvez postergado pelo trabalho e pelo tempo escasso. Mas persistirá sempre como uma reserva de espaço, no qual poderei desenvolver com mais vagar reflexões e opiniões sobre filmes e sobre o cinema, lançando mão de um espaço que a imprensa não dispõe facilmente.

Mas isso é futuro. Por agora, seguirei dando ainda bastante atenção a esse espaço pelo qual tenho grande carinho, onde posso exercitar meu prazer de ver e relatar. Por enquanto, agradeço de coração aos leitores deste blog e não escondo meu profundo orgulho de tê-lo levado ao cabo do primeiro ano.
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sábado, outubro 01, 2011

Contra o Tempo



Source Code
Duncan Jones
EUA, 2011
93 min.

Uma edição competente, que não deixa o ritmo cair, é o melhor achado de “Contra o Tempo”, filme que estreou neste final de semana. Thriller de ficção científica, com princípios quânticos na lógica de seu argumento, o filme poderia escorregar para uma narrativa burocrática. Contudo, isso é evitado graças a explicações simples e ágeis do mecanismo, com metáforas que funcionam para fazer o espectador entender sem se perder em conexões muito complexas.

O piloto da força aérea Colter Stevens (Jake Gyllennhaal) acorda num trem para Chicago, diante de uma mulher que o chama por outro nome. Sem saber o que se passa, afirma que não a conhece. Desconcertado, vê no espelho do banheiro um rosto que não é o seu. Pouco tempo depois o trem explode.

É com essa agilidade que o espectador se vê atirado dentro da trama do filme.

Após a explosão, Stevens acorda em uma espécie de capsula, onde está em contato com a oficial Collen Goodwin (Vera Farmiga). Logo descobre que se encontra dentro do Código-Fonte; um experimento do governo americano que permite que ele “entre” na consciência de um passageiro do trem que irá explodir.

Na verdade, o trem já explodiu e o que ele vivencia são os oito minutos antes da explosão, uma espécie de resquício de luz temporal daquele momento. Sua missão, nesses oito minutos, é encontrar o responsável pelo atentado, não para evitar a tragédia do trem - já ocorrida -, mas para evitar que outra muito maior ocorra.

Stevens fará várias incursões de oito minutos na tentativa de encontrar o responsável e a cada uma delas se afeiçoará cada vez mais pela mulher a sua frente. Vivida pela belíssima Michelle Monaghan, o agente do governo terá dificuldade em conter o impulso de salvá-la, mesmo sabendo que é impossível mudar os acontecimentos.

O ator Jake Gyllennhaal se mostra competente em passar ao espectador a intensidade, desconcerto e pressão a que seu personagem está submetido. A narrativa mantém a tensão constante durante todo o filme e o roteiro amarra  bem o andamento das etapas do filme. Mostra-se inteligente ao evitar um clímax óbvio, preservando a atmosfera uniforme, sem se render a clichês de ação.
 
 Mas não evita, no entanto, que a trama se deixe levar pelo sentimentalismo romântico, estendendo o final a complicações que desconstroem um pouco a simplicidade do início, caindo na tentação dos paradoxos temporais. Como o filme se diz desde o início não como uma viagem no tempo, o paradoxo maior acaba sendo esta contradição do roteiro.
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sexta-feira, setembro 30, 2011

O Dia em Que Eu Não Nasci



Das Lied in Mir
Florian Micoud Cossen
Alemanha/Argentina, 2010
94 min.

A forma muitas vezes contida com que os personagens de “O Dia em Que Eu Não Nasci”, filme que estreia nesta sexta (30), reagem a graves segredos revelados não condiz com o peso dessas revelações. São segredos do passado, que trazem à tona esqueletos em cova rasa e mudam todas as coisas. Nessa apatia do elenco, a exceção fica com Estela (Beatriz Spelzini), que diante da sobrinha desaparecida há mais de 20 anos, se desdobra numa comovente reação, expressa no rosto e nas lágrimas com delicado equilíbrio.

Da Alemanha, Maria (Jessica Schwars) está a caminho do Chile. Enquanto aguarda um voo de conexão em Buenos Aires, ouve uma mulher cantando, em espanhol, uma canção de ninar. Maria, que além de sua língua nativa - o alemão - fala apenas inglês, reconhece a canção. Sabe a melodia e a letra, ainda que não entenda o significado das palavras. Desconcertada, não consegue conter o choro.

O inusitado acontecimento a faz perder sua conexão. Ao sair do aeroporto para procurar um hotel, perde também o passaporte. Telefona para o pai na Alemanha para explicar o contratempo e comenta sobre a canção. Dois dias depois, sem avisar, ele aparece no hotel onde Maria está hospedada.

É entre coincidências e fatos inusitados que vai surgindo um mistério na vida da personagem. Como explicar a familiaridade que ela, que nunca esteve em Buenos Aires antes, sente com a cidade? Diante disso, Maria pressiona seu pai, que reluta em explicar sua vinda súbita à cidade. Mas aos poucos revelará para a filha a verdade sobre seu passado e a ligação que ela tem com a cidade.

Com um bom argumento, o filme desdobra a verdade em camadas. A cada tanto que se aprofunda nos fatos dolorosos do passado, mais a trama cria uma situação complexa, em que Maria se vê diante de um dilema profundo, doído. Estão em jogo afeto, moral, ética e sentimentos conflituosos.

Ao evocar as tragédias da ditadura argentina nos anos 70, o filme registra a indignação e a resignação em porções distintas. Mas esse trabalho é prejudicado pela narrativa burocrática. Acerta ao evitar o dramalhão em que uma história como esta poderia desaguar. Mas ao conter demais as emoções contém também parte da naturalidade dos personagens. Funciona, no entanto, com um bom registro desconstrutivo da identidade de sua protagonista.

Ao caminhar de uma certeza sobre quem é para a incerteza de uma identidade perdida, Maria faz caminho inverso ao natural. Recomeçar a construir a si própria e redefinir sua identidade destroçada é o grande drama dessa personagem. Uma riqueza temática que se dilui bastante no contido das atuações.
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quinta-feira, setembro 22, 2011

Sem Saída



Abduction
John Singleton
EUA, 2011
106 min.

“Sem Saída”, filme que estreia nesta sexta (23), é uma típica produção caça-níquel. No papel principal, o filme traz Taylor Lautner, que ganhou fama graças ao sucesso da franquia “Crepúsculo”. Nos filmes da franquia, ele interpreta Jacob, um lobisomem juvenil que faz parte de um monótono triângulo amoroso entre vampiros, humanos e lobisomens - todos virgens desavisados e bastante tolos.

Com a chegada em breve da primeira parte do último episódio da Saga Crepúsculo, “Sem Saída” surge na urgência de aproveitar o sucesso e a visibilidade de Lautner e faturar em cima disso. Com um roteiro de remendos vergonhosamente mal costurados, o filme tenta ao máximo explorar a figura do ator com seus músculos e o apelo deles junto ao público jovem.

Nathan (Taylor Lautner) é um jovem de 18 anos que vive com os pais. Como todos nesta fase da vida, está à procura de sua própria identidade, de sua autoafirmação. Essa procura sutil e imaterial pela qual todos passamos, vai se tornar algo muito mais tangível para Nathan, sem qualquer sutileza possível. Ao fazer uma busca na internet para um trabalho escolar, ele se depara com uma foto sua em um site de crianças desaparecidas.

Esse bom argumento de mistério é completamente diluído na geleia que se segue. Logo que descobre que seus pais podem não ser realmente seus pais, se vê no meio de uma absurda perseguição, tendo em seu encalço a CIA e um perigoso agente do crime internacional. Sem saber em quem confiar, consegue escapar de todas as armadilhas. Para isso, conta com a sorte de seu pai (ou o homem que acreditava ser seu pai) tê-lo ensinado diversas técnicas de combate.

O elenco conta com duas ilustres presenças: Alfred Molina (o Dr. Octopus de “Homem Aranha 2”), no papel de um ambíguo chefe de operações da CIA, e Sigourney Weaver (a Tenente Ripley de “Alien – O Oitavo Passageiro”), como a psicanalista de Nathan, também envolvida da trama de mistério.

Em meio a clichês óbvios, situações previsíveis e inconsistências do roteiro, o que mais chama atenção no filme é a atuação de Lautner. Sua falta de expressividade, sua limitação como ator, seu estado cru de interpretação atingem um nível dramático de despreparo. Somando-se isso a todo o resto, o resultado é um filme patético e constrangedor em que nada se salva.
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Borboletas Negras


 Black Butterflies
Paula van der Oest
Alemanha/Holanda/África do Sul, 2011
100 min.

Usada em algumas transições do filme, a imagem das ondas do mar quebrando com estrondo nas rochas imóveis é recorrente. Há nesta imagem uma grande força eruptiva. O mar, indomável senhor das paixões volumosas, em incessante e vão combate contra as rochas duras. Em “Borboletas Negras”, filme que estreia nesta sexta (23), o embate da alma - e da poesia - de Ingrid Jonker (interpretada por Carice van Houten) contra a aspereza de seu pai terá a mesma persistência e a mesma inocuidade das ondas contra as pedras.

O filme foca os últimos – e talvez mais intensos – anos da vida desta poetisa sul-africana, sua relação conflituosa com o pai e consigo mesma. Ela, uma escritora tomada pelas paixões, defensora do ideário da liberdade e igualdade; ele, um influente censor do governo sul-africano, defensor do regime do “apartheid” vigente no país. Atuando como um registro quase distanciado e pouco emotivo dos conflitos, traumas e tragédias na vida de Jonker, a narrativa tem seu centro de gravidade na conturbada relação dela com o escritor Jack Cope (Liam Cunningham).

Essa relação servirá como notável contraponto, evidenciando a instabilidade emocional da jovem Ingrid em contraste com o equilíbrio centrado do escritor mais velho. Embora o filme não explore de forma mais intensa as causas da instabilidade da escritora, não deixa de lançar pistas que as enraíza na relação dela com o pai. Interpretado pelo ator Rutger Hauer, que faz uma caracterização precisa composta da dureza inabalável e ríspida sobre uma tênue afetividade oculta, será a figura paterna o rochedo com que se debaterá permanentemente a erupção poética de Jonker.

Apesar de uma história rica em possibilidades, o filme as explora mal. O ritmo da narrativa e a necessidade de conter uma larga faixa de vida (e emoções) no tempo de Jonker, acaba por diluir muito de sua profundidade. Mesmo com atuações excelentes – especialmente Cunninghan, que na figura de Cope toma a tela sempre que está em cena, exercendo uma força magnética e poderosa – o resultado é muito abaixo do que se pode entrever na trama e na história de seus personagens.

Não deixa, contudo, de ser um registro válido da vida de uma importante escritora e de um importante – e triste – momento histórico, mesmo que pouco aprofundado pelo filme. Ingrid Jonker, que cometeu suicídio em 1965, teve o maior reconhecimento de sua obra ao ter seu poema “"The Child (who was shot dead by soldiers at Nyanga)” lido por Nelson Mandela na abertura do primeiro parlamento democrático da África do Sul, em 1994. O poema foi escrito após Ingrid presenciar o assassinato de uma criança negra por soldados do regime.
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domingo, setembro 18, 2011

Sexta edição do Cinetério agita zona norte neste domingo

Evento promovido pelo Centro Cultural da Juventude mistura exibição de filmes ao ar livre com shows e performances. 


Quem poderia pensar que um cemitério viria a ter uma agitada vida cultural? Os mortos que não reclamem, mas a agitação tem sido frequente na praça ao lado o cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo. É lá que a prefeitura, por meio do Centro Cultural da Juventude, tem promovido as edições do Cinetério. O projeto, que neste domingo (18), às 18h30, realiza sua sexta edição, promove exibições de filmes de terror seguidas de apresentações de bandas, DJs e artistas performáticos.

Pela praça, localizada em frente ao prédio do Centro Cultural, já passaram figuras como Zé do Caixão, Rogério Skylab e a banda britânica Fujiya & Miyagi. Esses, entre outros, já serviram de “aperitivo” ou “saideira” para a exibição de filmes como a animação futurista “Metropia”, o clássico do horror “O Massacre da Serra Elética” e a animação francesa “Fear[s] of the Dark”.


Na edição de hoje, o filme exibido será “Baghead”, dos irmãos Duplass, que encerra a Mostra de Cinema Mumblecore (para saber mais sobre a mostra clique aqui). Para completar a programação da noite, apresentam-se os DJ’s da destacada festa itinerante Voodoohop, seguido de um show da banda francesa Poni Hoax, que faz sua primeira apresentação no Brasil.

Destaque na cena indie francesa, o Poni Hoax tem ingressos esgotados para shows na França. Segundo o blog Remix, da Folha de São Paulo (clique aqui para ler), a gratuidade da apresentação da banda aqui no Brasil tem deixado os fãs franceses bastante enciumados.

Poni Hoax - Antibodies
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Serviço:
Cinetério
Centro Cultural da Juventude (na praça em frente ao prédio)
Av. Deputado Emílio Carlos, 3.641.
Tel: 3984-2466
Entrada Franca

sexta-feira, setembro 16, 2011

Cowboys & Aliens



 Cowboys & Aliens
John Favreau
EUa/India, 2011
118 min.

Dois gêneros tão diferentes como o western e a ficção científica convivendo no mesmo filme pode parecer um risco alto de dar errado. Contrariando essa perspectiva, “Cowboys & Aliens” se ajeita muito bem ao unir esses dois gêneros. Mas isso só acontece porque há uma clara ascendência de um sobre o outro.

Daniel Craig encarna o forasteiro sem nome, sem destino e, aparentemente, sem nada a perder. Talvez porque já tenha perdido tudo. Essa figura é emblemática de gênero; poucos a encarnaram tão bem como Charles Bronson em “Era Uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone (1968).

Craig acorda no meio do deserto. Está ferido e traz no pulso um bracelete de metal. Não lembra como chegou ali, como se feriu, como conseguiu o estranho artefato em seu braço, nem seu próprio nome.

Chega a uma pequena cidade para cuidar do estranho ferimento e tentar descobrir quem é. Em pouco tempo, acaba se envolvendo em confusão por dar uns sopapos no arruaceiro e mimado filho do homem mais poderoso da região. Até que finalmente é reconhecido na cidade como Jake Lonergan, um perigoso bandido procurado vivo ou morto e vai parar na cadeia.

Prestes a ser transferido em uma diligência, Jake vê chegar na cidade os homens liderados pelo “coronel” Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford). Ele é um arrogante e temido proprietário de gado cujo negócio praticamente mantém a cidade. Vem para resgatar a força o filho, também preso por ferir um agente federal. Reconhece então o forasteiro como o ladrão que lhe roubou uma boa quantia em moedas de ouro. É aí que surgem as espaçonaves.

Entre cowboys, xerifes, ladrões de ouro, cavalos e diligências, os lasers devastadores, as luzes brilhando no céu e as naves “laçando”, literalmente, as pessoas, cria-se uma sinfonia bastante peculiar na mistura de gêneros. A sequência, muito bem orquestrada, impressiona. E o mistério sobre o forasteiro só aumenta quando na presença das naves invasoras seu bracelete se desdobra em uma poderosa arma que dispara lasers.

É com essa súbita avalanche de improváveis acontecimentos que o filme nos coloca dentro do curioso universo de “Cowboys & Aliens”. Após o ataque, Jake e Dolarhyde irão liderar um grupo de cidadãos que partirá em busca de seus familiares levados pelos estranhos objetos voadores.

Estão lá os desfiladeiros, os índios, as colts. Mais do que isso, está o espírito do velho oeste. É essa construção de gênero que faz do filme uma experiência positiva. Ao caprichar na composição do western com seus planos abertos de grandes paisagens, ao caracterizar com acuidade os personagens dentro da mitologia desse universo, o filme ganha estofo e fundamento. Os aliens aqui, felizmente, são só o complemento exótico. A pegada é toda western.

Ao unir dois gêneros, mas deixar que o de maior peso e importância se sobreponha ao outro, “Cowboys & Aliens” acerta na medida e faz dessa improvável fórmula uma sessão divertida. Não entrega o filme a qualquer frenesi de ação disparatada, mantendo o ritmo da narrativa dentro da atmosfera necessária para uma ambientação precisa e bem cuidada.

Harrison Ford e Daniel Craig não fazem feio ao encarnar personagens marcantes do bom “bang bang”. Seus rostos duros e vincados, pelo tempo e pela anatomia, servem muito bem ao gênero. Com o sucesso da empreitada, não deve demorar a vir uma continuação. Para um filme que se mostrou surpreendentemente bem acabado e bem dosado, é torcer para que isso não se perca no próximo. Nada seria pior do que um futuro título como “Cowboys & Aliens vs. Predador”.
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sábado, setembro 10, 2011

Uma Doce Mentira




De Vrais Mensonges
Pierre Salvadori
França, 2010
105 min.

Graças a seus grandes olhos, o talento de Audrey Tautou muitas vezes fica evidente no olhar. Não apenas nisso. Há ainda o sorriso, a graça e a leveza que a jovem atriz francesa empresta a seus personagens. Mas em “Uma Doce Mentira”, filme que estreou nesta sexta (09), são os olhos da atriz que fazem a diferença. E também o minimalismo de sua atuação.

Uma carta anônima com uma declaração de amor será o pretexto para uma confusão repleta de embaraços. A carta é para Émilie (Tautou), sócia de um salão de cabeleireiros, e pessoa não muito centrada, como logo se vê no início. Quem a escreveu foi um funcionário do salão, Jean (Sami Bouajila), encarregado da manutenção, secretamente apaixonado por ela. Émilie despreza a carta. Depois, tem a brilhante ideia de utiliza-la para levantar o moral da mãe, que vive deprimida por ter sido abandonada pelo marido.

O truque surte efeito e Maddy (Nathalie Baye), sua mãe, se remoça com o falso flerte. Mas por pouco tempo. Fica na ansiedade de uma nova carta do tal admirador secreto. Quando não recebe nenhuma, cai novamente em tristeza. Isso obriga Émilie a “providenciar” outra carta. A partir daí, desencontros e equívocos levarão os personagens a situações mais embaraçosas e complicadas.

O início é excelente. O ritmo afiado azeita com sabor o timing da comédia; tudo faz o riso deslizar fácil no princípio. Há uma química poderosa entre os personagens. Tautou, frágil, ocultando a suscetibilidade de Émilie por trás dos grandes olhos, precisa de um mínimo de gestos para nos encantar. Sua personagem, com boa intenção e o mesmo tanto de inconsequência, provoca uma série de equívocos. Quando percebe, se vê num beco sem saída. Até aí, o roteiro vem tão azeitado quanto todo o resto. Depois desanda.

Há um mal crônico em “Uma Doce Mentira”. Mal que afeta invariavelmente as comédias românticas de hoje em dia. Trata-se da necessidade de, no final, desembaraçar todo emaranhado de confusões que se criou no início para fazer o público rir. E ri-se muito na primeira parte do filme.

Parte do problema é como todos os três personagens envolvidos na confusão passam a se comportar. Há um forte ruído de descompasso na forma como foram apresentados e na maneira como passam a agir quando descobrem o que está de fato acontecendo. Esse ruído não apenas incomoda como desconcerta. Ao ressoar, nos desconecta desses personagens. Desfaz-se a empatia. Sem essa conexão, o restante do filme cai em certa monotonia, com graça apenas aqui e ali, mas sem a vivacidade de sua primeira parte.

As atuações seguem bem, especialmente Tautou, que segura sua interpretação com momentos iluminados, amparados na simplicidade e contenção. Mas o roteiro se arrasta tanto, passando do ponto de encerrar a história, que até ofusca o brilho dos grandes olhos da atriz.

Só não ofusca, contudo, outro grande par de olhos. São os da atriz Judith Chemla, que quando presentes na tela, roubam a cena. No pequeno papel de Paulette, recepcionista inexperiente e bastante atrapalhada do salão, sua participação pontual está entre os melhores momentos do filme.
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quinta-feira, setembro 08, 2011

Larry Crowne – O Amor Está de Volta


 Larry Crowne
Tom Hanks
EUA, 2011
98 min.

Em 1996, Tom Hanks estreou na direção lançando um simpático e ingênuo filme chamado “The Wonders – O Sonho Não Acabou”. A história girava em torno de uma jovem banda que nos anos 60 começa a fazer sucesso. Entre o início da fama, com viagens e shows, os integrantes passam a conviver com o deslumbramento do sucesso e os problemas de relacionamento. Dosado com romantismo e entusiasmo juvenil, o filme não apresenta grandes atributos, sendo uma boa opção para fins de tarde de domingo com a namorada e nada mais.

Só agora, 15 anos depois, o astro volta à direção. “Larry Crowne – O Amor Está de Volta”, que estreia na próxima sexta (9), é uma comédia romântica, também simpática e ingênua, como parece ser do gosto de Tom Hanks, que atua e assina o roteiro. Porém, se na escolha da abordagem pouca coisa mudou, não se pode dizer o mesmo do tema. Enquanto no primeiro filme o diretor trata dos ímpetos da juventude em uma era dourada (os anos 60), agora ele fala da meia-idade em tempos difíceis.

Larry Crowne (Hanks) é um homem bem humorado, otimista e divorciado, entrando na meia-idade. Vivendo só, trabalha há quase dez anos em uma cadeia de supermercados. Seu entusiasmo e dedicação no trabalho já lhe renderam nove indicações a funcionário do mês. Até que é demitido. Segundo normas da empresa, todos os funcionários devem, obrigatoriamente, ter oportunidade de ascensão nos quadros internos. Mas como Larry não cursou a universidade não pode ascender a qualquer outra posição. Para que não se fira o estatuto da empresa, só resta demiti-lo. Uma situação que faria Kafka sorrir.

A única experiência anterior de Larry são os 20 anos que serviu na Marinha, como cozinheiro. Endividado e sem conseguir trabalho, inscreve-se num curso universitário comunitário. É onde conhece Mercedes (Julia Roberts), uma desmotivada professora de oratória que vive um casamento insatisfatório. Entre o entusiasmo de Larry com seu novo aprendizado e a apatia de Mercedes com sua profissão, surgirá uma afetuosa relação e a possibilidade de mudarem o rumo de suas vidas.

“Larry Crowne” é um filme sobre essas mudanças, sobre a coragem de recomeçar mesmo depois de tantas frustrações. É também sobre humildade. Toca superficialmente em temas como o agressivo mercado de trabalho e a questão da educação. Mas tudo isso são apenas pinceladas, o que importa mesmo no filme é o romance adocicado entre o casal Julia e Hanks.

Como em seu primeiro filme, Hanks trabalha a narrativa sem viradas súbitas e sem grandes embaraços na trama. A história simplesmente flui, deixando que os personagens se revelem e se descubram. Isso evita que a história caia nos clichês das comédias românticas atuais, que precisam sempre criar um grande nó para ser desatado no final (de preferência, de forma bem romântica). Essa narrativa fluida, no entanto, escorrega ao não trabalhar melhor a aproximação entre os dois personagens. Causa uma sensação de artificialidade no modo como as coisas acontecem. Um artificialismo agravado pela falta de química entre o casal.

Mas se a Tom Hanks e Julia Roberts falta química como par romântico, em ambos sobra o carisma individual. A imagem de bom moço criada por Hanks – e reforçada no filme – e o sorriso de derreter insensíveis de Julia Roberts tornam seus personagens sempre cativantes. Em “Larry Crowne” não é diferente. Por outro lado, ao requentarem personagens estereotipados de suas próprias carreiras, repetem-se sem grande entusiasmo.

São dois talentos atestados por carreiras e papéis marcantes, “oscarizados”, que neste filme se acomodam no carisma que sabem que têm, sem grande ousadia. Como se não tivessem a mesma coragem de arriscar que têm seus personagens no filme.
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