domingo, agosto 07, 2011

Quero Matar Meu Chefe


Horrible Bosses
Seth Gordon
EUA, 2011
98 min.

Invertendo a fórmula mais comum em Hollywood, “Quero Matar Meu Chefe” é um filme que tinha tudo para ser ruim, mas é na verdade uma divertida boa surpresa. Não apenas porque evita o besteirol, mas porque investe em atuações de qualidade, especialmente no elenco de apoio, composto por astros do primeiro time. Uma combinação que dá muito certo, aliada a um roteiro bem arrumado.

A história é sobre três amigos - Nick (Jason Bateman), Dale (Charlie Day) e Kurt (Jason Sudeikis) - que têm chefes horríveis em seus respectivos empregos. Esse é o primeiro grande trunfo do filme. Afinal, quem nunca teve um chefe infernando sua vida?

Nick é um executivo que almeja a vice-presidência da empresa, para consegui-la, se sujeita ao sadismo de seu chefe, interpretado por Kevin Spacey, que faz de tudo para humilhá-lo, como obrigá-lo a beber uma dose dupla de uísque às oito da manhã.

Kurt tem de lidar com um chefe cretino, viciado em cocaína, preconceituoso e paranoico, interpretado por Colin Farrel, que usa um combover (estratégia de ocultar a calvice com os cabelos que restam, exemplo famoso: Donald Trump) assustadoramente feio. Ele quer demitir vários funcionários apenas porque não gosta de gordos e deficientes.

Já Dale parece ter o menor dos problemas com sua chefe, interpretada por Jennifer Aniston, uma ninfomaníaca que o assedia ostensivamente. Acontece que Dale está noivo e não quer trair a namorada. Diante de sua recusa, sua chefe parte para a chantagem.

Fazendo divertidas referências ao clássico de Hitchcock “Pacto Sinistro” (1951) e também ao ótimo “Jogue a Mamãe do Trem” (de 1987, também este uma paródia de Pacto Sinistro), a trama vai levar os amigos a pensarem seriamente em assassinar seus chefes. Mas como nenhum deles tem experiência no assunto, vão atrás de um profissional e acabam caindo nos truques de “Motherfucker Jones”, numa ótima participação de Jamie Foxx. É quando, assessorados por Jones, têm a brilhante ideia de cada um matar o chefe do outro.

Mesmo sem qualquer preocupação com o politicamente correto, o filme consegue ser engraçado sem apelar para o constrangimento de gosto duvidoso. As piadas funcionam muito bem, graças ao ótimo desempenho do elenco de apoio. Não menos cômico está o elenco principal, especialmente Charlie Day, nos momentos em que fica “doidão”.

O roteiro consegue segurar a trama, amarrando de forma bastante boa o andamento da história e as confusões que matar algumas pessoas pode trazer. Não cai nas facilidades do gênero e trás reviravoltas muito engraçadas, para complicar ainda mais a vida dos desastrados matadores de chefe.

Um filme onde tudo funciona bem e faz rir, coisa rara nas comédias atuais, por mais paradoxal que isso possa parecer. A verdade é que esse gênero está infestado pelo óbvio desgastado ou pelo escatológico absolutamente sem graça. Uma comédia autêntica como essa, que não precisa do viés romântico para fazer complemento, é uma ótima surpresa no cinema comercial de hoje em dia. Vá ver e ria muito.
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sábado, agosto 06, 2011

Breve Guia



Pensando em pegar um cinema nesse final de semana? O Eu, Cinema fez um guia rápido, a partir do que já conferiu, do que está em cartaz em São Paulo. Faça sua escolha e bom filme (de preferência, sem barulho de saquinho de bala ou pipoca, nem conversas ou luz de celular, por favor). Os filmes estão na ordem de cotação, dos mais bem cotados aos menos bem cotados*. 

Saturno em Oposição
Outubro
Poucos filmes são tão bem conduzidos no domínio do tempo da narrativa como esse trabalho do turco Ferzan Ozpetek. É a história de um grupo de amigos que atravessam a felicidade, a tristeza, a perda, o luto e restituição da alegria, entre conflitos internos nas relações. Simples, bonito, comovente e humano.

Melancolia
Entre o estado de depressão profunda e o fim do mundo, um filme de rara beleza e muitos significados. Atuações incríveis de Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg e imagens que vão do mais belo enquadramento ao mais assombroso efeito.

Homens e Deuses
Inspirado em fatos reais, reconta o caso dos monges franceses sequestrados e executados por grupos extremistas na Argélia, em 1996. Mais que um retrato político e histórico, uma obra sobre a fibra do caráter, a força da fé e as convicções de homem. Excelente.

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres
Declaradamente fantasiosa cinebiografia do polêmico cantor e compositor francês Serge Gainsbourg. Adorável filme, cheio de fantasia, humor, sensualidade e beleza. A entrada em cena da modelo Laetitia Casta como Brigitte Bardot é antológica. E, claro, recheado com as inesquecíveis canções do compositor.

Meia-Noite em Paris
Minhas Tardes com Margueritte
Novo filme do Wood Allen mostra escritor inseguro em viagem a Paris com a esposa. Em busca de inspiração e apaixonado pela cidade, acabará conhecendo um lado mágico e insólito da cidade. Um filme que fala sobre um sentimento comum no ser humano: a saudade de um tempo que não viveu. Allen desconstrói esse sentimento com maturidade e inteligência.

Outubro
Um recém-nascido é deixado na casa de um solitário agiota. Sem saber como lidar com a criança e sem poder se livrar dela, pede ajuda a uma vizinha. Uma narrativa sobre a solidão, os sentimentos vedados e a possibilidade de afeto e amizade entre os mais brutos e endurecidos pela pobreza.

Vejo Você no Próximo Verão
Um casal promove o encontro de outro casal. Enquanto um par consolida a relação através de afeto, comlucidade e comprometimento, o outro se dissolve pela perda da confiança e pelo desequilíbrio de uma traição. Ainda um pouco cru, Philip Seymour Hoffman estreia na direção. Faz um filme delicado e tocante, mas ainda tem muito a refinar. Mas já apresenta um ótimo começo.

Minhas Tardes com Margueritte
Um homem simples e rústico, casado e com problemas com a mãe rancorosa, inicia delicada e surpreendente amizade com uma senhora muito idosa. Através da literatura, criarão laços de afeto, respeito e carinho. Cinema mínimo, de sentimento humano e verdadeiro.

O Casamento do Meu Ex
Melancolia
Amigos se reúnem para casamento, mas sentimentos e frustrações do passado virão à tona para perturbar o suposto equilíbrio dos noivos. Um filme divertido, suave, bem conduzido e com bons diálogos. Evita alguns clichês, cai e outros e utiliza bem alguns. Ótimo filme para que procura algo leve, sem ser estúpido.

Quero Matar Meu Chefe
Comédia realmente divertida sobre três sujeitos que querem matar seus chefes tirânicos e maníacos. Ótimas piadas e referências, participações de peso como Jamie Foxx, Kevin Spacey e Jannifer Anniston e atuações inspiradas de alguns dos atores principais. Melhor que “Se Beber, Não Case”.

Mamute
Após se aposentar, sujeito atrapalhado precisa ir atrás de seus antigos empregadores para coseguir documentos que o ajudem a ter uma aposentadoria integral. Comédia e road movie no qual o protagonista viverá uma viajem sempre à beira do insólito, na qual descobrirá o prazer em estar vivo e a incrível sensação de liberdade.

Como Arrasar um Coração
Especialista em conquistar mulheres vende seus serviços à famílias que querem separar casais. Boa comédia romântica francesa. Tem os cacoetes do gênero, mas se sai bem na sua utilização. É engraçado e não muito piegas, um equilíbrio geralmente inverso no gênero, daí sua grande qualidade

Potiche – Esposa Troféu
Quero Matar Meu Chefe
Catherine Deneuve e Gérard Depardieu fazem o par ícone dessa comédia sobre a emancipação da mulher. Ambientado nos anos 70, mostra uma dona de casa, esposa de um tirânico industrial, tendo que assumir os negócios da família, enfrentando greves e revindicações sindicais por parte dos trabalhadores.

Quebrando o Tabu
Documentário sobre a descriminalização da maconha. Apesar de um roteiro e de uma montagem que não define a posição do filme quanto ao problema, tem a favor a exibição de dados, fatos e depoimentos sobre o assunto que ajudam a esclarecer o tamanho do problema e o que se tem feito em outros países.

Assalto ao Banco Central
Tentativa nacional de, a partir do roubo verídico do Banco Central em Fortaleza, adentrar no gênero de filmes de grandes e inteligentes assaltos. Peca gravemente por não saber usar os elementos do gênero e tratar o roteiro e o plano com displicência. Nesse gênero, ainda temos muito que aprender. Mas o filme não é de todo ruim. Vale dar uma espiada.

A Inquilina
Mulher independente se muda para apartamento e passa a se sentir vigiada. História fraca, final previsível. Até a metade se sai razoável, depois avacalha nos clichês e na falta de suspense. Um ou dois sustos, nada mais.

Vejo Você no Próximo Verão
Transformers: O Lado Oculto da Lua
A bobagem não tem fim e o filme repete os fogos de artifício dos anteriores. Para levar as crianças e tentar dormir entre as explosões.

Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo
Dois atores mambembes, pai e filho, metidos em confusões. Roteiro mais esburacado que rua de São Paulo, piadas totalmente sem graça. Sobra apenas a boa participação de Tarcício Meira, que consegue alguma graça em algumas cenas.
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(*) O Eu, Cinema não exibe as cotações que dá aos filmes por achá-las uma simplificação reducionista da obra. Entre estrelas, bonequinhos e carinhas, prefere a palavra escrita e a leitura das mesmas por parte do público.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Ilusões Óticas



 Ilusiones Ópticas
Cristian Jiménez
Chile/França/Portugal, 2009
105 min.

Apesar de repetir uma fórmula esquemática cada vez mais desgastada em comédias dramáticas recentes (vários personagens ligados entre si sem saberem, podendo - ou não - se encontrar no final), o chileno “Ilusões Óticas”, que estreia hoje (05) no Rio de Janeiro, é um filme divertido e melancólico em medida bem dosada. Apresenta personagens que se veem desorientados na vida. Personagens que, ou se perderam em ilusões ingênuas, ou conseguiram o que queriam e descobriram a ilusão por trás do sonho realizado. É onde estão as ilusões óticas do título, ilusões que criamos entre o que vemos e sentimos, entre o que desejamos e o que temos.

Os personagens são diversos em “Ilusões Óticas”. Um segurança de shopping que se apaixona por uma ladra, um cego que ao voltar a enxergar e vê sua vida perdendo a direção, um quase desempregado de meia idade confuso, uma grã-fina cleptômana, uma jovem com baixa autoestima e um marqueteiro de uma empresa quase falida.

Esses personagens se ligam não apenas por laços de um destino irônico, ou pela casualidade insólita da vida, mas principalmente porque trazem, cada um deles, um tipo de ilusão, de desejo e sonho que é a causa e consequência das decepções de suas vidas. Seja pela realização desse desejo, seja por sua natureza imensurável de realização.

Nessa miscelânea de vidas frustradas, o expectador irá compartilhar o cômico e o melancólico das situações a que estarão sujeitos essas figuras em busca de suas ambições. Cada personagem será vítima de si mesmo, por ter construído castelos de esperanças em areia movediça.

Talvez pelo número de personagens, “Ilusões Óticas” se mostra um filme irregular, patinando em alguns momentos, dando destaque a histórias mais fracas em detrimento dos melhores personagens. Nesse sentido, há um leve mau aproveitamento do melhor personagem: o “ex-cego”. Tanto pela atuação excelente do ator Ivan Alvarez de Araya, quanto pelo que seu drama tem de cômico, triste e inesperado.

Mesmo com suas irregularidades, esse longa de estreia de Cristian Jiménez alcança uma delicadeza no trato das histórias que comove sem precisar de recursos piegas. Em meio a tantas ilusões e realizações frustradas nas vidas de pessoas comuns, perdidas diante de seus sonhos e desejos íntimos, talvez a solução esteja na frase que fecha o filme. Uma frase que guarda, na sua simplicidade e em seu sentido universal, uma possível resposta para os desalentos da vida. “Mais perto”, dita como é dita no final (e só quem vir o filme vai entender) é o que talvez todos precisemos para dar sentido às nossas próprias ilusões de óticas cotidianas.
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quinta-feira, agosto 04, 2011

Melancolia



Melancholia
Lars von Trier
Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011
136 min.

Entre as muitas belezas de “Melancolia” - novo filme do dinamarquês Lars von Trier que estreia nessa sexta (05) - a que mais me afeta é o enquadramento que mostra Justine (Kirsten Dunst) nua, deitada na relva, sob a luz de Melancolia. A imagem insinua uma tensão erótica improvável entre Justine e o planeta que vem em direção à Terra. Um planeta, de nome Melancolia, que parece exercer sobre Justine mais que uma simples fascinação ou influência de humores. Ele é seu desejo e seu reequilíbrio.

Entre a depressão profunda de Justine, o desnorteio de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e a insólita vinda de um planeta em direção à Terra, “Melancolia” se revela um filme sobre tristeza e serenidade. A serenidade que compreende que o fim da vida no planeta pode ser apenas o restabelecimento de uma ordem cósmica à qual a vida na Terra veio perturbar. Pois como diz Justine, a vida na Terra é má, e quando ela se for, ninguém sentirá falta.

O filme se divide em duas partes. Na primeira, intitulada “Justine”, temos a festa de casamento da própria Justine, bancada por John (Kiefer Sutherland), o rico marido de sua irmã, em uma grande propriedade afastada da cidade. O filme começa com uma aparente felicidade dos noivos, mas no desenrolar da noite, lentamente Justine começa a se distanciar de todos, revelando uma tristeza da qual não pode escapar. Diz se locomover com dificuldade, pois sente que fios de lã cinza se embaraçam em seus pés. Justine se afunda em depressão.

Na segunda parte, cujo título é “Claire”, temos a irmã de Justine perturbada pela aproximação do planeta Melancolia, enquanto a irmã regressa da clínica onde esteve internada em um estado de absoluta apatia, incapaz de sequer permanecer em pé sozinha. Claire, seu marido e o pequeno filho do casal, junto com Justine, vão esperar pela passagem do planeta na isolada propriedade. Apesar de seu marido garantir que não há chance de Melancolia colidir com a Terra, Claire permanecerá aflita com esta possibilidade.

Von Trier elabora seu filme a partir da tristeza inata, da aflição da tragédia iminente e da beleza que se pode extrair do insólito. 

“Melancolia” abre com imagens de encher os olhos, adiantando o que se verá no filme. Essas imagens dialogam com quadros conhecidos, não apenas pela composição de luz e enquadramento, mas pela lentidão dos movimentos, em uma câmera lenta que se aproxima da imobilidade. O claro tom onírico remete à aqueles pesadelos dos quais nos sentimos incapazes de escapar. É o prenuncio da angústia, que nos sufoca desde o início.

Justine (uma interpretação memorável de Kirsten Dunst) personifica a tristeza inevitável, a melancolia muitas vezes necessária para a serenidade. É claro que no cinema de Lars von Trier isso nunca se dará em tons amenos, por isso Justine vai ao fundo e só emerge de lá quando pressente o fim do que considera a maldade, a vida na Terra. Quando em seu casamento, muito antes de descer ao fundo da apatia depressiva, ela diz que sorri, sorri e sorri, como se sorrir fosse tudo que pudesse fazer diante da completa falta de sentido da vida, na verdade ela desmascara a hipocrisia do mundo, que apenas sorri, sorri e sorri para esconder sua tristeza ou maldade.

Claire (em interpretação não menos inspirada de Charlotte Gainsbourg) é a fachada, oposto de Justine. Claire representa as convenções, a necessidade da ordem do mundo. Por isso se perturba tanto com a proximidade de Melancolia e por isso se desespera tanto quando o fim se mostra inevitável. Sua ideia de como devem passar os últimos momentos da vida é ridícula e desmontada sem piedade por sua irmã Justine. É quando se revela a serenidade e aceitação de Justine. É quando ela demonstra compreender que o fim da vida na Terra é apenas a correção de um equívoco cometido pelo acaso. Pois não há vida em qualquer outro lugar do universo.

Atravessar “Melancolia” não é uma experiência pela qual seja simples passar. Lars von Trier nos leva a uma realidade onírica de imagens belíssimas. Imagens que muitas vezes nos provocam uma angústia e um desconforto sutil, mas intenso. Algo que nos incomoda na alma, para além do consciente. Essa perturbação cresce à medida que se aproxima o fim de tudo. E o desfecho nos arrasta, como uma sinfonia cósmica, esmagadora e devastadora, para uma cena final de tirar o fôlego. Como se o planeta Melancolia também nos tivesse atingido.
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quarta-feira, agosto 03, 2011

Resultado da Promoção

O vencedor da promoção Eu, Cinema: "Onde Está a Felicidade?" foi Andrea B. Heidrich.

Parabéns Andrea!!! Entraremos em contato com você pelo e-mail.

Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo



Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo
Hugo Carvana
Brasil, 2011
100 min.

Depois de 21 anos longe do cinema, Tarcísio Meira retorna à tela grande em novo filme de Hugo Carvana. Mas, infelizmente, sua atuação é a única coisa positiva do filme, uma comédia quase incapaz de fazer rir.

“Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo”, que estreia nessa sexta (05), é sobre dois atores mambembes atrapalhados que se apresentam em cidades do nordeste brasileiro. A história é narrada por Lalau Velasco (Gregório Duvivier), filho de Ramon Velasco (Tarcísio Meira). Durante uma apresentação de stand up comedy, Lalau conta as aventuras dele e de seu pai, um especialista em se envolver em confusão e que quando a coisa fica feia repete o bordão: “Não se preocupe, nada vai dar certo”.

A história começa quando a polícia baixa numa rinha de galos comandada por Ramon, que tem de fugir da cidade. Para não abandonar o pai, Lalau deixa para trás Rosa (Mariana Rios), com quem vivia em uma casa na praia. Pai e filho vão parar em Fortaleza, onde Lalau passa a se apresentar em um hotel e onde Ramon retoma um velho caso com a dona de um bordel.

Após uma de suas apresentações, Lalau conhece Flora (Flávia Alessandra), executiva que oferece uma grana alta para o ator se passar por um guru espiritual durante um workshop motivacional de uma grande empreiteira no Rio de Janeiro. Lalau aceita, e parte para o Rio sem avisar seu pai, que, depois de descobrir o golpe do filho, vai em seu encalço.

Na pele do guru Bob Savanandra, Lalau se deixa seduzir por uma das sócias da empresa (Ângela Vieira). Mas ela acaba assassinada a tiros depois de descobrir fraudes em licitações da empreiteira. Preso como principal suspeito do assassinato, Lalau terá que contar com a ajuda de seu pai que, através de vários disfarces, irá investigar o crime e tentar provar a inocência do filho.

Os problemas de “Não Se Preocupe...” começam pelo roteiro, que vai pouco além de uma série de retalhos mal costurados, incapaz de fazer sentido. Tem tantos lapsos que chega a ser constrangedor, mesmo sendo o filme uma (tentativa de) comédia escrachada. Na tela, o que se vê são atuações pífias, pouco inspiradas, e uma direção de arte novelesca, um pastiche de televisão.

A dupla Tarcísio Meira e Gregório Duvivier não consegue criar química suficiente para o humor e o filme simplesmente não consegue fazer rir. Salvam-se, contudo, algumas cenas de Tarcisio, que quando só em cena faz o filme descolar um pouco do raso irrisório, com perdão do trocadilho.

Esses momentos melhoram ainda mais quando seu personagem, utilizando disfarces canastrões, se passa por vários tipos, como embaixador de um país exótico, detetive casca grossa ou advogado experiente. Mas, apesar desses bons momentos, o filme não deixa de ser bastante pífio.

Hugo Carvana se mostra, por fim, um diretor irregular, que vai de obras excelentes como “Vai Trabalhar Vagabundo” e “Bar Esperança” para filmes constrangedores como “A Casa da Mãe Joana” e agora “Não Se preocupe...”. Embora o diretor mantenha seu discurso de que seu cinema é um tipo de cinema despreocupado com a vida séria e que se pretende apenas como leveza para rir e divertir. Ele já provou conseguir fazer esse cinema com muita qualidade e inspiração, sem cair no rasteiro e insosso de comédias precárias, como é o caso desse filme.
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terça-feira, agosto 02, 2011

Andy Warhol Televisivo

Ícone da Pop Art tem seus trabalhos para a televisão exibidos no Sesc Pinheiros


Exposição "Warhol TV" segue até o dia 25/09 e é uma parceria entre o Sesc Pinheiros e a Oi Futuro. A entrada é franca.

Leia matéria que escrevi para a Época São Paulo: Programas de TV de Andy Warhol são tema de exposição

Uma semana de curtas paulistanos

Semana Paulistana de Curta-Metragem exibe trabalhos inéditos no formato


Está em cartaz no Centro Cultural São Paulo, de 02 a 07 de agosto, a Semana Paulistana do Curta-Metragem 2011. Serão exibidos 17 trabalhos inéditos, além de uma retrospectiva com os nove curtas que mais se destacaram na edição 2010. A iniciativa é uma ação da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo em conjunto com o Centro Cultural São Paulo.

A mostra é competitiva, com prêmios em dinheiro para os três primeiros colocados (1º R$ 7.500,00; 2º R$ 5.000,00; 3º R$ 2.500,00), um prêmio especial de R$ 2.000,00 (Prêmio Semana Paulista), além de quatro menções honrosas.

O júri de premiação é composto por Roney Freitas (curta-metragista), Vania Debs (montadora) e André Klotzel (cineasta). O resultado com os vencedores será divulgado no dia 7 de agosto, quando serão reexibidos nas sessões do dia. Os ingressos para as sessões curtam R$ 1,00. Mais informações acesse: http://www.centrocultural.sp.gov.br
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Serviço:
Semana Paulistana do Curta-Metragem 2011
De 02/08 a 07/08
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso (ao lado da estação Vergueiro do metro)
Ingressos: R$ 1,00

segunda-feira, agosto 01, 2011

Retrospectiva Maristela resgata história do cinema paulista

Centro Cultural Banco do Brasil exibe filmes dos estúdios do Jaçanã


Nem só de samba paulista vive o Jaçanã, bairro da zona norte paulistana imortalizado na canção “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa. O bairro também foi palco da história do cinema nacional, quando, nos anos 50, abrigou a Companhia Cinematográfica Maristela.

São os frutos dessa importante passagem do cinema paulistano que o Centro Cultural Banco do Brasil resgata através da Retrospectiva Maristela, que estará em cartaz em São Paulo, de 03 a 14 de agosto. A mostra reúne todas as obras produzidas pelos estúdios da Maristela, que permaneceu em atividade de 1950 a 1958.

Efervescência cultural
A Maristela surgiu em São Paulo na esteira da efervescência cultural que a cidade vivia no início dos anos 50. Contaminado pelo clima de otimismo e prosperidade, Mario Audrá Júnior, um jovem empreendedor filho de prósperos industriais, se une a Ruggero Jacobbi e Mario Civelli, duas figuras importantes nas rodas culturais da cidade para fundar a Companhia Cinematográfica Maristela.

Logo, junta-se aos três o renomado produtor e diretor Alberto Cavalcanti, um dos principais nomes da então poderosa Vera Cruz, que se desligara da companhia por conta de atritos com seu fundador, Franco Zampari.

Meio-termo
A companhia realizou 14 filmes em seus oito anos de atividade. Sua intenção era realizar filmes que fossem um meio-termo: longe do escracho das chanchadas da Atlântida, mas sem a pomposa presunção artística e intelectual da Vera Cruz.

Embora pouco lembrada quando se fala da história do cinema nacional, a Maristela realizou obras importantes, como a primeira adaptação para o cinema de um texto Nelson Rodrigues, “Meu Destino é Pecar” (1952), de Manuel Peluffo. Com Alberto  Cavalcanti na direção, realizou as premiadas comédias “O Comprador de Fazendas” (1951), “Simão, o Caolho” (1952) e “Mulher de Verdade” (1954). Também realizou filmes de suspense policial, como “Quem Matou Anabela” (1955), de D. A Hamza e dramas de violência como “Mãos Sanguentas” (1954), de  Carlos Hugo Christensen.

Concorrência
A exemplo do que aconteceu com as demais iniciativas paulistas de cinema industrial, como a Multifilmes e a Vera Cruz, a Maristela não resistiu à concorrência dos filmes internacionais, que ocupavam o circuito exibidor, sufocando qualquer possibilidade de espaço para suas produções. Com a retrospectiva promovida agora pelo CCBB, surge uma oportunidade de se conhecer o trabalho heroico e sonhador dos que fizeram uma parte da história do cinema nacional.
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Serviço:
Retrospectiva Maristela
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
De 03 a 14 de agosto (de quarta a domingo)
Ingressos: R$ 4,00 (meia: R$ 2,00)
Tel: (11) 3113-3651
Mais informações, clique aqui.

200




Em 03 de outubro do ano passado, o blog Eu, Cinema entrava no ar com uma crítica de um filme pelo qual tenho muito carinho, embora tenha me rendido um pequeno infortúnio. “Estrada para Ythaca”, dos irmãos Pretti e primos Parente, é a prova de que se pode fazer bom cinema com recursos escassos.

Este é o post de número 200 deste blog. Ele nasceu com o intuito muito particular de servir como portfólio e plataforma. Em consequência disso, sempre buscou alguma qualidade, seja na forma do texto, seja no seu conteúdo.

Felizmente, o Eu, Cinema trouxe algum resultado e despertou a atenção de pessoas para quem a opinião é muito importante para mim, que passo há alguns anos por um processo de busca de legitimação. Mas isso é assunto para psicanálise.

Fico muito contente de chagar a um número bom de postagens e textos. Sempre foi para mim um prazer escrever aqui sobre cinema, uma das minhas grandes paixões. Espero poder continuar assim por muito tempo e espero que o conteúdo se mantenha interessante ao leitor.

Obrigado a todos que leem este blog. Bons filmes a todos.

quinta-feira, julho 28, 2011

O Casamento do Meu Ex



The Romantics
Galt Niederhoffer
EUA, 2010
95 min.

O título desse filme pode fazer crer que se trata de uma comédia romântica, mas não se engane. Embora tenha momentos divertidos e seja um filme leve, “O Casamento do Meu Ex” é na verdade um drama romântico. Tem, claro, alguma graça. Mas sua melhor qualidade não é o riso, é lidar com alguns sentimentos de forma suave, com bons diálogos, personagens cativantes e um desfecho pouco óbvio.

Katie Holmes interpreta Laura, uma jovem escritora que vai ao casamento de dois grandes amigos: a contida e pragmática Lila (Anna Paquin) e o emocional e expansivo Tom (Josh Duhamel). Junto com outros cinco amigos que também chegam para a festa, eles formam o que eles mesmos chamam de “Os Românticos” (daí o título original The Romantics), amigos desde os tempos da faculdade e que no passado se relacionaram diversas vezes entre si, sem que jamais deixassem de serem amigos.

Dessas “trocas” de pares, a mais recente e marcante foi o namoro de cinco anos entre Laura e Tom. Um relacionamento que parece ter acabado de forma abrupta e mal resolvida. Com a chegada de todos para o casamento, cresce uma tensão inevitável entre o casal de ex-namorados. Essa tensão afetará a todos de alguma forma, levando-os a discutirem de forma franca suas próprias relações e o rumo que suas vidas vão tomando.

A diretora Galt Niederhoffer, que adaptou o roteiro de seu próprio romance (homônimo ao título original do filme), realiza uma direção que acentua a ambivalência das dúvidas e insegurança dos personagens, evitando torná-los previsíveis. Embora essas dúvidas e inseguranças surjam a partir de Laura e Tom, os “ex” do filme, ela acabam afetando a todos os outros casais, que na melhor sequência do filme reformulam os pares e discutem suas expectativas, desejos e inseguranças.

É nesse miolo do filme que o trabalho da diretora se mostra mais competente, ao estabelecer nessa sequência fragmentada em cada casal, uma tensão sexual cheia de promessas de obviedades que não se confirmam. Ao decepcionar o óbvio, nos entrega personagens mais críveis, e também mais carismáticos. Pena que ao se deter com mais atenção no par principal da trama, a diretora não explore ao máximo a potencialidade do elenco e das situações que o reencontro e os seguintes desencontros entre os demais casais possibilita. É algo que se perde.

Já Katie Holmes está muito bem no papel de uma irresoluta apaixonada, dividida entre a mágoa e o desejo. Claro que isso não é explorado a um fundo dramático pesado, mas trabalhado de forma leve e romântica. A química entre ela e Duhamel é muito boa e a sequência em que travam uma franca e espinhosa conversa, cheia de entrelinhas, olhares, desejos e impossibilidades reafirmadas é o melhor momento do filme.

Embora não escape de alguns clichês típicos de filmes de casamento - como brindes constrangedores, ansiedade pré-cerimônia e a velha expectativa em saber se um dos noivos desistirá na hora decisiva -, o filme repara esses defeitos com um desfecho que, ao menos como estilo, é menos óbvio do que costuma ser.

Com atuações em grande sintonia e uma condução azeitada da direção, “O Casamento do Meu Ex” é um filme saboroso, romântico sem chafurdar na pieguice e divertido sem precisar cair no ridículo. Não é obra-prima ou obra de mestre, apenas um bom filme do qual não se sai arrastando correntes ou carregado de enfado. Em tempos de tanta bobagem ruim, é sempre bom alguma bobagem boa, para nos divertir e fazer sorrir.
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Homens e Deuses




Des Hommes et des Dieux
Xavier Beauvois
França, 2010
122 min.

No filme “Homens e Deuses” a fé religiosa se apresenta ancorada na fibra do caráter e na retidão do pensamento. Ela não é uma dádiva fácil ou um conto para tolos. É antes de tudo uma forja, necessária e algumas vezes fugidia, que pode estar ligada a conceitos não tão distantes como a ética. Porque antes de acreditar em Deus é preciso acreditar no homem.

Em um mosteiro católico no interior da Argélia, monges franceses realizam um trabalho humanitário de assistência à comunidade do entorno, toda ela mulçumana. A importância e harmonia desse trabalho, e seu reconhecimento por parte da população, é tão grande a ponto dos habitantes locais dizerem que o vilarejo só existe por causa do mosteiro. Tudo se dá com grande respeito pela fé de cada um, numa relação quase idílica.

Mas o medo passa a rondar o vilarejo quando uma facção islâmica radical inicia atos de terror na região, promovendo chacinas e retaliações a qualquer um que se mostre flexível na interpretação das leis do Islã. Quando o governo oferece proteção ao mosteiro ela é recusada pelo líder dos monges, que não admite receber ajuda de um governo que julga corrupto e tão assassino quanto os terroristas.

Inicia-se assim, entre os monges, um debate sobre permanecer ou fugir. Divididos, alguns monges se revelarão, nesse momento de real desafio e necessidade de fé e caráter, fracos e temerosos. Especialmente no que se refere à possibilidade da morte. Um temor que descortina a fragilidade da fé e da convicção na missão sacerdotal.

Mesmo os que se mostram desde sempre convictos de seu propósito sofrem o peso da dúvida, o peso da responsabilidade de suas atitudes, decisões e posicionamentos, pois o que está em jogo são vidas humanas. Ficar ou partir está além de uma escolha simples, envolve a comunidade que precisa deles, mas, acima de tudo, envolve suas convicções sacerdotais e sua missão cristã.

Diante desse infortúnio de ordem espiritual e mundana (a fé na missão e a possibilidade de morrer em nome dela) levará todos a uma dolorosa reflexão e à busca pelo elo perdido entre eles. Seja pela fé que alguns deles julgavam ter e veem-se súbito abandonados, seja pela difícil decisão firme de se posicionar e resistir.

O diretor Xavier Beauvois trabalha essa complexa questão de busca e redescoberta com uma narrativa que extrai da imagem a simbologia do homem como parte da grande obra divina. Obra essa que se mostra no detalhe do trabalho simples, na natureza rica em falsos silêncios e cujos ruídos são o testemunho dessa obra. São composições e enquadramentos de simbologia e beleza extrema, momentos em que através da imagem vemos o homem em perfeita comunhão com a natureza na busca de respostas para suas aflições.

Contrapõe-se ao cotidiano os momentos de orações e recolhimento dos monges, numa alternância que parece querer equilibrar o trabalho e a vida cotidiana com a comunhão com Deus. No início parecem coisas distintas, mas ao longo do filme ganham a dimensão de uma coisa só, única e indissolúvel.

Entre uma coisa e outra, há o enfrentamento dos problemas cotidianos, há que prestar assistência média à comunidade, cuidar dos animais lidar com a missão. É com esses elementos diversos que o filme compõe um quadro de beleza humana rara, pelo qual a fé será restituída quando da consolidação do caráter. Somente assim as convicções serão resguardadas e o enfrentamento do medo, da morte e de todas as coisas será possível entre eles, homens de fé e trabalho humanitário.

Quando passam a acreditar em si próprios, passam a acreditar de fato em Deus. E quando isso acontece tudo se torna cristalino. Beauvois se baseou em fatos reais ocorridos em 1996 para realizar seu filme. Consegue assim criar uma obra que nos carrega pela contemplação e compreensão da fé, mas também em um protesto político e denúncia do terror e do absurdo.

“Homens e Deuses” é um filme que diz muitas coisas, nem sempre com palavras, nem sempre fáceis de entender. A mim trouxe, entre outras coisas, a mensagem de que a crença, a fé, seja ela no que for, transforma e fortalece o homem. E o mundo precisa muito de homens transformados e fortalecidos.
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quarta-feira, julho 27, 2011

Promoção Eu, Cinema: Onde Está a Felicidade?

Ganhe um par de ingressos para a pré-estreia oficial do filme “Onde Está a Felicidade?”.


O Eu, Cinema vai sortear um par de ingressos para a pré-estreia oficial do filme “Onde Está a Felicidade?”, que acontecerá no próximo dia 09 de agosto, no Shopping Iguatemi, às 21h00.

Para participar, basta enviar um e-mail para eucinema@terra.com.br respondendo à pergunta: Onde você encontra sua felicidade?. No e-mail também deve constar seu nome , número do RG e endereço completos. O autor da resposta mais criativa receberá em casa um par de ingressos para a pré-estreia do filme.

Mas atenção: a promoção é válida apenas para residentes na cidade de São Paulo. O prazo para participar da promoção é até o dia 03 de agosto, às 22h00. O resultado da promoção será divulgado aqui no Eu, Cinema no dia do encerramento às 23h00. Participe!

terça-feira, julho 26, 2011

Breviário da Semana Nº 08

Um semanário muito breve 


Deve chegar em breve aos cinemas Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino, um ótimo filme sobre família, paixão e tragédia. Mais uma vês, o título nacional colabora para uma ideia errada do filme. Não é uma comédia romântica, nem um filme sobre romance. Nada de açúcar. É filme equilibrado, narrativa sem pressa e uma atuação impecável de Tilda Swinton.

A Mulher de Todos
Em casa vi O Livro de Eli, com Denzel Washington. Um filme pós-apocalíptico que fala sobre fé e redenção, mas construído sobre os pilares do western. Denzel está bem, como quase sempre, e embora o filme peque por algumas superficialidades, é muito competente na construção de uma atmosfera apocalíptica através da fotografia. Uma grande qualidade do filme é não perder tempo com explicações sobre o que aconteceu com o mundo e se focar na demanda do protagonista e sua missão pessoal. A participação de Gary Oldman como uma espécie de xerife ditador e terrível contribui muito para o filme.

Mais que um estudo do cinema nacional, um prazer imenso ver mais um filme do Rogério Sganzerla. A Mulher de Todos segue a mesma linha anárquica, desconstrutiva e provocativa do cinema de Sganzerla. É assombroso ver como a atriz (e esposa do diretor) Helena Ignês, que interpreta Ângela Carne e Osso, tem um magnetismo poderoso nesse filme. Sua atuação, sua presença cênica é feroz e hipnotizante. Gênio, esse Sganzerla.

A Partida
Homens e Deuses, de Xavier Beauvois, é um filme que conseguiu produzir em mim uma experiência de intensidade incrível. Poucas vezes a questão da fé e, acima disso, de caráter e convicções foi tão exemplarmente abordada. Um filme inteligente, sensível, elaborado e vivo. Acho que se perde um pouco no fim, quando poderia resolver mais rapidamente a história. Mas é um grande filme.

O japonês A Partida, de  Yôjirô Takita, trata da morte com uma proximidade física intensa. Nesse ponto, pode até assustar no início os mais frágeis ou sensíveis com o tema. Mas logo se mostra um sentimental e belo filme sobre aceitação, perdão e compreensão. É um tanto melodramático demais, tem problemas de exageros e repetições. Porém, merece ser visto como um bom filme que aborda o ritualismo da cultura japonesa em algo quase tabu para a maioria das culturas: os ritos funerários. Apesar de vários escorregões, seja na atuação, na trilha sonora e na composição de alguns planos, pode ser uma experiência interessante e muito sentimental sobre nossa relação com a morte.

Homens e Deuses
Na cabine de imprensa de Melancolia, de Lars Von Trier, que estreia no próximo dia 5 de agosto, vi um filme intenso, mas que ainda me amedronta, na medida que não o domino. Dividido em duas partes, fala sobre depressão, mas também é um filme sobre o fim do mundo. O modo como cada um dos personagens lida com essas coisas (a depressão como algo inoportuno no outro ou algo inerente em si e o fim do mundo como algo aceitável – e até desejável). Vi também algumas conotações sexuais sobre as quais preciso refletir melhor. Mas é filme que tem de ser visto e comentado.

O peruano Outubro, dos irmãos Daniel e Diogo Veja é repleto de uma secura típica de vidas ásperas e solitárias. Seus personagens são figuras cuja pobreza não se reflete apenas no material, mas também nos gestos. Filme de planos simples, mas eficazes, compõe uma narrativa em que se percebe que há possibilidades de afeto e carinho mesmo entre pessoas tão duras. Um filme digno, competente e simples.

Um Sonho de Amor
Assalto ao Banco Central, de Marcos Paulo, tenta sem sucesso emular um gênero hollywoodiano, o de assaltos planejados com inteligência, ousadia e sem violência. Mas o filme escorrega em muitos detalhes, desde o roteiro capenga até a trilha sonora equivocada. Consegue ser divertido com algumas tiradas e alguns personagens, mas é superficial demais e precário demais como narrativa e como gênero de cinema. Deixa de lado muitas coisas importantes, como a passagem do tempo bem trabalhada, o ápice do desafio, a função de cada elemento do bando, as dificuldades da execução. É filme para se ver e esquecer depois de cinco minutos, sem ao menos a vantagem de se ter aproveitado alguma emoção durante sua duração.
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