sexta-feira, junho 10, 2011

Namorados para Sempre



Blue Valantine
Derek Cianfrance
EUA, 2010
112 min.

No final de semana do dia dos namorados já era de se esperar que estreasse na cidade algum filme romântico. A julgar pelo título, Namorados para Sempre, que entra em cartaz nesta sexta (10), é o filme que veio cumprir essa função. Mas é preciso tomar cuidado com as aparências. Quem esperar por um filme doce, cheio de romance, pode se decepcionar. Vai encontrar só metade disso. A outra metade é a vida real e os desafios de qualquer relação, que inclui superar o tédio, as frustrações e o cotidiano que muitas vezes esmaga qualquer história romântica.

Dean (Ryan Gosling, de Um Crime de Mestre) e Cindy (Michelle Williams, de Corações em Conflito) estão casados e têm uma filha de quatro anos, Frankie (Feith Wladyka). Cindy trabalha como enfermeira em uma clínica particular. Dean faz trabalhos esporádicos como pintor de casas.

Cindy encarna o elemento maduro da relação, enquanto Dean é do tipo que não gosta de se prender a horários e responsabilidades sisudas. Isso fica claro logo no início o filme, na relação de cada um com a pequena Frankie. Enquanto a mãe impõe rapidez no café da manhã e pressa em se vestir para que não se atrasem, Dean desce à infância da filha para juntos agirem da mesma forma, brincando com comida e fazendo graça um para o outro.

Quando na mesma manhã o cachorro da família desaparece, um pequeno abalo surge na relação. Para se livrarem de um problema, deixam a pequena Frankie na casa do avô até o dia seguinte. É quando Dean tem a ideia de passarem a noite num motel, sugestão que Cindy recusa prontamente por precisar ir trabalhar cedo na manhã seguinte. Mas Dean não sabe ouvir um não e o casal vai parar numa cafona suíte de motel com decoração futurista. Ali, entre acenos, avanços, recuos, gestos e discussões, virá à tona a erosão da relação desse casal. É quando começam os flashbacks do filme.

A narrativa segue em paralelo, mostrando a corrosão da relação em uma noite no motel e o início dessa relação, quando Dean e Cindy se conheceram por acaso, cinco anos atrás. Esse contraponto faz do filme uma delicada história de amor e um retrato sincero das consequências do desgaste desse amor.

Esse paralelismo da narrativa acentua de forma aguda o abismo que pode haver entre o ideal e o real. A beleza da história de amor entre Dean e Cindy, a forma como superaram dificuldades no início da relação, como se conheceram e se amaram imensamente, dá ao presente de ambos uma grande honestidade. O desenrolar desse início é repleto de cenas românticas, divertidas e também de superação. A forma como se unem e como se mostram dispostos a viverem seu amor de forma intensa e inesgotável enche os olhos e o coração do espectador.

A história do casamento de Dean e Cindy é uma dessas grandes histórias de amor. Foge ao romantismo cênico, de improbabilidades e gestos artificiais de carinho, para nos mostrar o nascimento de uma relação verdadeira, de fibra. A fibra que os ata não apenas pela paixão, pela conquista de um pelo outro, mas também pelo enfrentamento de problemas da vida real, juntos.

Com uma atuação bastante honesta de Gosling e Williams, o filme tem um timing preciso na construção de seu paralelo temporal. É feliz na composição da luz que reforça o frescor da paixão inicial com cenas clara, iluminadas com vivacidade; enquanto que nos momentos do presente as sombras, muito sutilmente, revelam o estado de desgaste e cansaço emocional.

Ao contrapor o romance inicial com a dureza da realidade de um casamento que se desgasta, o filme se mostra disposto a nos colocar no chão, a nos tirar do conforto lírico do romance idealizado. Revela, com isso, que a vida segue em frente. Isso faz lembrar uma frase de um filme que deve estrear ainda este mês, “The Romantics”, quando alguém diz que qualquer um é capaz de um grande gesto romântico, o problema é o que vem depois.

Namorados para Sempre, é um ótimo filme de amor, mas amor na vida real, com tudo que ela pode trazer de desgaste e desconforto. Não se rende a facilidades românticas, embora seja permeado pela beleza de uma relação nascida de uma verdadeira e resistente paixão. Mesmo em seu desfecho não entrega de bandeja o conforto típico de filmes românticos. Traz a beleza, traz a dor e emociona profundamente, porque acima de tudo é um filme sincero.
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quarta-feira, junho 08, 2011

Começa hoje em São Paulo o Festival Varilux de Cinema Francês

Com exibições em 22 cidades brasileiras, festival trás filmes franceses ainda inéditos no Brasil.


Com a presença de uma diva do cinema mundial, a atriz Catherine Deneuve, e apresentando um panorama da recente cinematografia francesa, começa hoje em São Paulo o Festival Varilux de Cinema Francês. O evento, que vai até o dia 17 e tem como objetivo divulgar o cinema francês contemporâneo pelo do mundo, apresenta dez filmes ainda inéditos no Brasil. Na programação, estão obras como o novo filme de François Ozon estrelado por Deneuve, “Potiche: Esposa Troféu”, “Venus Negra”, de Abdellatif Kechiche (do sensível e intenso “O Segredo do Grão”) e uma retrospectiva em homenagem a atriz Sandrine Bonnaire.

O festival ocorre simultaneamente em 20 cidades brasileiras (São Paulo, Belém, Brasília, Campos, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, João Pessoa, Juiz de Fora, Macaé, Maceió, Natal, Porto Alegre, São Luís, Santos, Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Vitória). Fortaleza e Belo Horizonte recebem o festival de 16 a 23 e de 24 a 30, respectivamente. Em São Paulo as sessões ocorrem no CineSESC, Reserva Cultural e Unibanco Arteplex Frei Caneca.

Além de Catherine Deneuve, a organização do Varilux trouxe também ao Brasil a atriz Audrey Tautou. Famosa por seu papel em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, a atriz vem divulgar seu novo filme, “Uma Doce Mentira”, que será exibido durante o festival. Sandrine Bonnaire, homenageada com uma retrospectiva de oito filmes nos quais atua, também está no país prestigiar o evento.

O Festival Varilux de Cinema Francês é organizado pela Unifrance Film Internacional, que é uma associação que promove o cinema francês em diversas cidades ao redor do mundo. Seu principal patrocinador é a multinacional francesa Essilor-Varilux, fabricante das lentes Varilux e Crizal.
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Serviço:
Festival Varilux de Cinema Francês
De 08 a 17 de junho
Para baixar a programação completa de São Paulo, no formato PDF, clique aqui
Mais informações, acesse: www.festivalcinefrances.com

segunda-feira, junho 06, 2011

Não Me Abandone Jamais


Never Let Me Go
Mark Romanek
Reino Unido/EUA, 2010
103 min.

Um barco permanentemente encalhado na areia, diante do mar inalcançável. A imagem da impossibilidade dos sonhos e da aventura. A impossibilidade do porvir. O mar ali, imenso; toda sua grandeza e o inesperado que guarda em suas descobertas. Mas o barco, nascido para todas as possibilidades do mar, disposto ao mar, pronto para ele, está encerrado na sua condição irremediável de encalhe. Está impedido de navegar.

O plano-chave de “Não Me Abandone Jamais” é a perfeita dimensão do drama de seus personagens. Um drama talvez impossível de traduzir, mas que na imagem do barco encalhado na areia encerra sua tradução mais poética e também mais precisa.

Adaptado do livro homônimo de Kazuo Ishiguro, o filme conta a história de três amigos que passaram a maior parte da infância e juventude juntos. Eles cresceram em um orfanato britânico chamado Hailsham, local que tinha um código de disciplina intolerante em determinadas situações e ao mesmo tempo liberal com outras. Essa discrepância se esclarece quando se revela o destino a que todos os internos estão fadados.

Narrado a partir das lembranças de Kathy, a história acompanha sua infância e juventude ao lado dos amigos Tommy e Ruth, desde o orfanato até a vida adulta. Cientes de estarem condenados ao mesmo destino atroz e precoce, suas relações e a forma como lidam com esse destino serão os elementos para uma reflexão sobre existência e humanidade. Contar mais do que isso é comprometer a experiência de se descobrir, junto com o filme, a verdadeira natureza dos personagens e o sentido (ou a falta dele) em suas vidas.

Descoberta é, a propósito, a palavra-lei dessa triste fábula. Contada com delicadeza, a história nos leva a descobrir junto com os personagens não apenas seu destino terrível, mas também suas experiências, angústias e sentimentos. A confusão de suas expectativas, a afetuosidade de suas relações, a ingenuidade de seus espíritos. Embora estejam atrelados pelo mesmo destino, experimentam a vida de formas diferentes, entre o equívoco do egoísmo e a brandura da abnegação, em meio à confusão de suas próprias existências.

Não há, na tragédia que os assombra, um sofrimento intenso, de esmagar. Está tudo nos detalhes, nos gestos e na solidão. É a sutileza da direção, a fotografia de atmosfera melancólica, a passividade da aceitação de seus destinos. Evitando sufocar a história com uma pesada constatação da dor de cada um, opta-se pelo frescor da juventude e pela tristeza intrínseca no sentimento de cada um deles.

“Não Me Abandone Jamais” é um desses filmes que nos acompanha após a sessão, que carregamos conosco por muito tempo. Um filme que revela o sentimento, o afeto, a amizade e o carinho de uma forma tão tranquila e ao mesmo tempo tão urgente que nos contamina e comove.

Para fazer-se inteiro, o filme dispensa grandes gestos dramáticos e se preserva na simplicidade. Guarda sua tradução difícil na imagem de todas as possibilidades - as do mar e as da vida - encerradas na tristeza de um barco encalhado na areia, no limiar de todos os sonhos, impedido de sonhar.

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Fernando Meirelles volta a fazer blog sobre bastidores de próximo filme

Com vídeos e relatos, diretor revela histórias e curiosidades de se trabalhar com atores como Jude Law e Anthony Hopkins


Aconteceu primeiro durante as filmagens de “Ensaio Sobre a Cegeuria”. Com boa regularidade, o diretor Fernando Meirelles não apenas relatava histórias do set de filmagem como também abria, de maneira franca, suas inquietações e dúvidas sobre o projeto. Agora a experiência se repete nas filmagens de “360”, seu próximo filme.

No ar desde fevereiro deste ano, o “Blog do 360” trás vídeos das filmagens, relatos sobre técnicas de atuação dos atores e detalhes dos bastidores das filmagens, além das já conhecidas inquietações de Meirelles. É um material rico em detalhes que ajudam a nos fazer entender como funciona um set de filmagem e os processos para a realização de um filme grande.

“360” é uma produção entre França, Inglaterra e Áustria e que tem no elenco nomes Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Jude Law e atores brasileiros como Maria Flor e Juliano Cazarré. Pelo blog ficamos sabendo como trabalha, por exemplo, Anthony Hopkins, que usa um método de composição de personagem oposto ao do ator alemão Moritz Blerteu. Meirelles relata como uma cena muitas vezes surge dentro do set, através de pequenos acidentes cometidos pelos atores e incorporados ao filme e a sensação de se trabalhar com atores tão diferentes.
Fernando Meirelles e o ator francês
James Debouze 

Para quem se interessa por bastidores e está interessado em saber como funciona um filme por dentro, os relatos de Meirelles são uma fonte interessante e bastante sincera desse material.

O filme “360” é uma adaptação da peça “Reigen”, de Arthur Schnitzler. Tem locações nos EUA e em diversos países da Europa, e conta com um elenco de atores de diversas nacionalidades, sendo um filme que terá diferentes idiomas em cena.

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domingo, junho 05, 2011

Breviário da Semana Nº 02

Um semanário muito breve.





Estreia


Dos filmes que estrearam nesse final de semana, só pude ver dois. “Estamos Juntos”, que vi em cabine e “X-Men: Primeira Classe”, que vi ontem.

X-Men: Primeira Classe
Sobre Estamos Juntos escrevi crítica completa, que pode ser lida aqui. Mas em resumo é um filme que se lança a grandes pretensões e que por isso mesmo se perde em uma superficialidade que não toca o expectador. É esforçado, mas ao querer dizer muito, acaba dizendo pouco. E de sentimento, menos ainda.

X-Men: Primeira Classe reinicia a franquia dos mutantes, que em sua primeira leva nos trouxe, além de uma trilogia (“X-Men: O Filme”, “X-Men 2” e “X-Men: O Confronto Final”), uma aventura solo de seu personagem mais carismático, Wolverine, em “X-Men Origens: Wolverine”.

Nesta nova franquia, que busca contar como tudo começou, o roteiro não é mau, a ação interessante e a relação dramática entre os dois protagonistas (Charles Xavier (futuro Professor X) e Ekik Lehnsherr (futuro Magneto) é bastante aceitável.

A temática de discriminação, aceitação de diferenças e preconceito continua lá, mas o roteiro, em alguns rumos, depõe, ironicamente, contra esses princípios. Isso tem haver com o destino do único personagem negro no filme e com a atitude de uma personagem que era, inicialmente, prostituta. O modo como o roteiro os trata (destino breve) ou retrata (caráter facilmente “distorcível”) revela uma subcamada de moralidade e preconceito típica do pensamento tacanha do americano médio. 

De resto, o filme vai bem. Destaque para a atuação de James MacAvoy como o jovem Xavier. Só uma coisa realmente fica ridícula, embora eu tenha lido – com certo esforço de boa vontade - como uma referência aos filmes de James Bond dos anos 60 (a trama se passa nesse período). O fato é que não se pode ter um vilão com submarino luxuoso. Isso não apenas é cafona como é patético, especialmente depois que Mike Myers e seu Austin Powers desconstruíram alguns clichês da luta do bem contra o mal no cinema de espionagem.



Em cartaz


Singularidades de Uma Rapariga Loura
Acompanhar a obra de um diretor que já vai pelos 102 anos de idade em plena produção, é sempre uma experiência interessante. Manuel de Oliveira, diretor português que apesar da idade não para de filmar, adaptou para o cinema da obra de Eça de Queiroz o gracioso Singularidades de Uma Rapariga Loura. Um filme curto, com pouco mais de uma hora de duração, que nos lança para os mistérios da paixão, da entrega, da fortuna e da sedução. Filmado com esmero e delicadeza, é incrível como a jovem Luísa – a rapariga loura do título – emana para a tela uma sedução inocente e perturbadora através do olhar e dos movimentos de seu leque chinês.


Com um belo atraso, fui ver Cópia Fiel, do iraniano Abbas Kiarostami. Juliette Binoche está incrível no papel de papel trocado. Ela vai de uma sutil sedução a uma amargura rancorosa com grande suavidade. O filme é um passeio e um longo diálogo entre essa mulher, que vive na Itália, e um escritor inglês que está de passagem para a divulgação de seu novo livro. O que inicialmente parece um cordialmente tenso embate de ideias sobre originalidade, mediocridade e verdade, aos poucos se revela um simulacro, um jogo de ironia, sutilezas e admoestação sobre feridas mal disfarçadas de um casamento afundado.


Para conseguir ver Minha Versão do Amor (péssimo título em português para um filme que passa longe de ser romântico), tive que ir à única sessão diária do filme ainda em exibição na cidade, no Museu Lasar Segall. Valeu o esforço. Paul Giamatti, de quem gosto muito, está impecável no papel de um homem cuja vida é marcada pelas mulheres que amou e casou. É um drama com traços cômicos, mas que trás a tragédia e a amargura da vida como real substância de sua história. É desses filmes que nos faz chorar por dentro e por fora. A mim, especialmente, o desabe ocorre na cena em que ele tenta descascar uma banana. Destaque para Dustin Hoffman como o pai de Barney, um policial aposentado sem muitas travas de comportamento e linguagem.


A Marca da Maldade
Mostras, Retrospectivas, DVD


Em casa revi A Marca da Maldade, de Orson Welles. O fabuloso plano sequência que abre o filme deve ter ensinado muito a Hitchcock sobre os fundamentos da construção do suspense. A interpretação de Welles como o policial gordo e implacável ainda é de impressionar. Para ser vistos mais e mais vezes.

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Cinema Japonês no SESC Pinheiros

Mostra de filmes resgata história de antigos cinemas do bairro da Liberdade


O SESC Pinheiros inaugurou na última sexta-feira (03) a exposição “O Japão em 4 Cinemas”. Uma mostra que resgata parte da história da cidade de São Paulo, do bairro da Liberdade e do cinema japonês. Com uma programação de filmes e uma exposição de cartazes da época, a mostra conta a história dos quatro cinemas que existiram no bairro da Liberdade entre os anos 50 e os anos 80 (Cine Tókio, Cine Jóia, Cine Niterói e Cine Nippon) que exibiam exclusivamente filmes japoneses.

A exposição, montada no 3º andar, reúne cartazes de filmes que foram exibidos nesses cinemas, além de fotos e objetos da época. Há também um espaço que permite ao visitante assistir a trechos de alguns filmes que foram exibidos nessas salas. Em paralelo, ocorrerá uma mostra de filmes do cinema japonês daquele período. São filmes importantes da cinematografia japonesa e que já estiveram em cartaz nos cinemas da Liberdade.

Memória Afetiva
Além de fazerem parte da memória afetiva dos membros mais antigos da colônia japonesa em São Paulo, esses cinemas tiveram uma importância fundamental na formação de alguns cineastas brasileiros, como Carlos Reichenbach, Walter Hugo Khouri e Rubem Biáfora. Esses diretores eram frequentadores assíduos desses cinemas, mesmo quando os filmes eram exibidos sem legendas.

Como os filmes vinham direto do Japão para São Paulo, tinha-se um permanente panorama da rica e diversificada produção japonesa da época, que só anos mais tarde seria conhecida e reverenciada no resto do mundo.

Assim, foi com grande antecipação que os frequentadores dessas salas de cinema conheceram as obras de diretores hoje cultuados no mundo todo, tais como Yasujiro Ozu , Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa, Masaki Kobayashi, entre outros.

Histórias e personagens
Muitas histórias preenchem esse período e esses cinemas. Histórias que começam muito antes da inauguração dessas salas e nascidas nas estradas do interior paulista. Em breve, o Eu, Cinema estará publicando aqui uma reportagem completa sobre essas histórias e seus personagens.
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Serviço:
O Japão em 4 Cinemas
SESC Pinheiros – Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros
De 03 de junho a 17 de julho
Entrada Franca
Mais informações, acesse: http://www.sescsp.org.br

sexta-feira, junho 03, 2011

Estamos Juntos



Estamos Juntos
Toni Venturi
Brasil, 2011
111 min.

Novo filme de Toni Ventura, que estreia nesta sexta (03), “Estamos Juntos” é um drama de introspecção e autoconhecimento. Uma jornada de angústia, dúvida e solidão pela qual passará sua protagonista. Um caminho sufocante que a fará perceber que seu mundo não é tão seguro, nem tão equilibrado quanto pensa.

Carmen (Leandra Leal) é uma médica residente que aspira se tornar cirurgiã. Respeitada pelos colegas do hospital público onde trabalha, dedica-se arduamente ao trabalho e aos estudos. Também participa como voluntária de um trabalho de orientação a famílias carentes de uma comunidade do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro). Com uma rotina intensa de trabalho e estudo, não tem muito tempo para dedicar a seus amigos.

Dentre as poucas amizades que Carmen cultiva está a de Murilo. Ele é DJ de uma banda que mistura música eletrônica com instrumentos clássicos. Homossexual assumido, Murilo apresenta Carmen a Juan (Nazareno Casero), um músico argentino incorporado recentemente à banda, por quem Murilo está apaixonado. Mesmo sabendo da paixão de seu amigo pelo músico argentino, Carmen se deixa levar pela atração e inicia um romance com o jovem.

Mas Carmen parece não desenvolver laços íntimos com ninguém, sendo uma pessoa fechada e isolada. Ela se abre apenas para um enigmático amigo (Lee Thalor) que, embora pareça morar no mesmo apartamento que ela, nunca é visto por ninguém.

A vida de Carmen entra em turbulência quando ela descobre que tem um tumor no cérebro em adiantado desenvolvimento. Desnorteada, vai perceber aos poucos que nunca construiu amizades verdadeiras, justamente por sempre se manter distante das pessoas. Entre a iminência da morte e a solidão repentina, Carmen terá que reencontrar um equilíbrio para sua vida, tomar decisões que afetarão seu futuro e aprender a confiar nas pessoas.

A potencialidade dramática do roteiro de “Estamos Juntos” se revela uma armadilha para o diretor Toni Venturi. É evidente, na forma como a narrativa se desenrola, uma pretensão de alavancar diversas facetas filosóficas sobre a solidão e a morte, contrastadas pela vida na cidade grande, no caso São Paulo. Em vez de estabelecer apenas um ou dois focos dramáticos, o filme se multiplica em personagens que muitas vezes, pelo subaproveitamento de seus dramas, soam como arrimos de uma história que não nos comove.

Falta á narrativa uma cadência sólida, constante. Falta uma verdadeira aproximação da personagem de Leandra Leal. A atriz, de já comprovado talento, não consegue transmitir empatia e ficamos distantes de seu drama, incapazes de nos comover com ele. Contribui para isso a fragmentação de seu mundo e a presença de seu amigo secreto, causando um estranhamento que mais afasta que aproxima.

Ao querer preencher o filme com outros dramas que não apenas o da personagem central, o roteiro acaba por dispersar a força da experiência pela qual passa Carmen. A superficialidade de tudo que orbita Carmen contamina sua própria vida, tornando-a também superficial. Desse modo, embarcar na sua dor e nas suas angústias se torna difícil para o espectador e o filme acaba soando raso. Justamente o contrário de sua pretensão e em prejuízo de uma história e de uma personagem de grande potencial.
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80 anos de Jacques Demy

Cinemateca realizara retrospectiva do diretor francês

Pele de Asno
Em celebração pelos 80 anos de nascimento do diretor francês Jacques Demy, falecido em 1990, a Cinemateca Brasileira realizará uma retrospectiva de seus principais filmes. Bem embora pertença à geração da Nouvelle Vague, Demy não se alinhou com os preceitos fílmicos da trupe da Cahiers e seguiu fiel à suas temáticas e seu estilo.

Como muito bem ressalta o site da cinemateca, seus filmes foram sempre marcados pelo romance, pelo musical e por uma alegria expressada pelas cores abundantes. Mas esses filmes eram na verdade parábolas muito bem tramadas e cheias de pessimismo.

Entre os filmes que serão exibidos estão “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de 1963 (vencedor da Palma de Ouro no ano seguinte), “Duas Garotas Românticas”, de 1966 e “Pele de Asno”, de 1970.

Os ingressos custam R$ 8,00 (R$ 4,00 meia). A Cinemateca Brasileira fica no Largo Senador Raul Cardoso, 207. A programação completa você encontra no site: http://www.cinemateca.com.br

domingo, maio 29, 2011

Breviário da Semana Nº 01

Um semanário muito breve.

Minhas Tardes com Margueritte

Dos filmes que entraram em cartaz nesse final de semana, só não vi Se Beber Não Case 2, mas pelo que tenho acompanhado dos amigos de crítica, não estou perdendo grande coisa, pois o filme não passaria de uma reedição das ótimas piadas do primeiro filme. E piada requentada é pior que café requentado. Se for mesmo isso, é uma pena que a continuação de uma das melhores comédias dos últimos anos tenha se acomodado da repetição e aberto mão da originalidade.

Um Novo Despertar
Minha mais forte recomendação vai para Estrada para Ythaca, do qual já falei aqui. Mas é cinema duro, passa longe de entretenimento. Mas para quem embarcar na viagem, será uma experiência incrível.

Algo mais palatável e que figura como minha segunda opção é a sensível comédia dramática Minhas Tardes com Margueritte. Gérard Depardieu interpreta com muita graça um homem de inteligência curta, que passou a infância sendo maltratado pela mãe e que adulto descobre o prazer da literatura em encontros com a doce Margueritte (interpretada por Gisèle Casadesus), uma senhora de 95 anos que vive em um asilo. Um filme sobre um tipo de raro de amor.

Um pouco atrás vem “Um Novo Despertar”, que trás Mel Gibson como um empresário que dribla uma profunda depressão através de um boneco de castor que dá voz a seu subconsciente. Dirigido por Jodie Foster, que interpreta a esposa do empresário, o filme, que se inicia como comédia, vai ganhando contornos dramáticos e sombrios à medida que o castor evoca o lado escuro da psique do empresário.

O Poder e a Lei
O Poder e a Lei”, sobre o qual já falei aqui, trás um advogado de porta de cadeia que tem seu escritório no banco de trás de um Lincoln. Com uma trama fraca e personagens mal delineados, fica como uma opção para quem não resiste a um filme de tribunal.

Por fim vem “Inversão”. O filme me decepcionou muito. É um suspense policial que mostra a inversão de personagens que passam de vítima a algozes, de ingênuos a desiludidos no transcorrer da trama. Com uma estética que serve de verniz a uma certa falta de conteúdo, o filme escorrega em diálogos frágeis difíceis de engolir e numa trama paralela que não ganha corpo justamente pela má construção dos personagens.



Em Cartaz


O que mais gosto ao ver esses filmes de adaptação de quadrinhos é lembrar que, antes de qualquer pretensão intelectual e aprofundada sobre cinema, sou um nerd. Com Thor não foi diferente. Esses filmes sempre despertam o garoto retraído leitor de HQs que fui no passado. O filme sobre o deus do trovão é bastante bom, embora a ação fique devendo um pouco. Por outro lado, as tramas palacianas, de reis e príncipes são interessantes. Equilibrando-se sempre no velho problema de agradar ao público leigo e ao fã de quadrinhos, cumpre bem seu papel. 


Não Me Abandone Jamais
Thor faz parte do projeto da Marvel de lançar filmes solos dos heróis que depois serão reunidos numa equipe em Os Vingadores. Um grandioso projeto que considero ousado e corajoso. Como fã de HQs, fico bastante entusiasmado com ele, embora abarque um grupo de super heróis do qual nunca fui muito chegado. Mas não há dúvida que é algo inédito e só se tornou viável a partir do boom de adaptações de HQs para o cinema, iniciada nos idos de 1989, com Batman – O Filme, de Tim Burton. Vamos ver no que vai dar isso.


Não deve mais estar em cartaz, pois fazia parte da sessão cult que a rede Cinemark promove, mantendo um filme sério em cartaz em uma única sala e único horário, por mais tempo que o habitual. Talvez uma pequena compensação pelo volume de lixo que entope suas salas de exibição. Não Me abandone Jamais, sobre o qual escrevi em detalhes aqui, é um filme excepcional. Conta a história de três jovens fadados a um destino comum terrível e a forma como se relacionam entre si, mesmo sabendo o que os espera. Um dos melhores filmes que vi esse ano.



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Entrevista: Gisele Itié, atriz de “Inversão”

Atriz conta sua experiência nas filmagens de Inversão


Depois de ganhar destaque por atuar no filme de ação “Os Mercenários”, ao lado do astro americano Sylvester Stallone, Gisele Itié está em cartaz com o filme nacional “Inversão”, do diretor Edu Felistoque, que entrou em cartaz na última sexta (27).

No filme, Gisele interpreta Mila, uma criminosa integrante de uma quadrilha que sequestra um importante empresário em São Paulo. Quando a ação não sai exatamente como planejada, precisam improvisar uma fuga de avião. Mas uma tempestade provoca a queda da aeronave e o grupo, junto com o sequestrado e perdido no meio da mata, passa a viver uma situação limite de tensão e paranoia.

Gisele conta que a experiência das filmagens no meio da floresta foi intensa, pois passavam os dias realmente acampados no meio do mato. Apesar das dificuldades, a atriz diz que gostou muito dessa experiência. “Eu adoro mergulhar no personagem. Como atriz, posso dizer que foi uma grande vivência”. Ela conta que sentiu, em determinado momento, certa preocupação do diretor e da equipe com ela, pelas circunstâncias a que estavam submetidos e por ela ser a única mulher daquele núcleo do elenco. Mas diz que encarou as dificuldades sem problemas e no final tudo correu bem.

Ela conta também que precisou, assim como todo o elenco, improvisar muitas falas e ações de sua personagem. Isso porque o diretor Edu Felistoque, na tentativa de obter cenas e interpretações que não soassem artificiais, não deixou que o elenco decorasse todas as falas do roteiro. Ele deixou que o elenco ficasse com o roteiro por apenas dez dias e depois os retirou deles. Gisele diz que não teve dificuldades com isso. “Você já está lá, no meio do mato, então só resta entrar no personagem e fazer da melhor maneira possível”.

A atriz revela também que foram gravadas muitas cenas ocultas. Em momentos de pausa do elenco o diretor permanecia gravando sem que eles soubessem, para captar o cansaço real de todos. “Muitas vezes a gente era pego de surpresa dentro do set”.

Outro fato pouco comum em filmagens e que contribuiu para a intensidade da experiência foi que as cenas na floresta foram filmadas em ordem cronológica. “Isso ajudou muito a vivenciar melhor minha personagem e a situação que ela estava passando”, afirma Gisele.

Sobre como foi trabalhar com o diretor, a atriz não economiza elogios. “O Edu, além de ser um ótimo diretor, é uma figura humana incrível. Ele ajuda muito a gente a encontrar a trilha certa para o personagem. Eu adorei trabalhar com ele e sou muito grata pela experiência. Foi muito bacana vivenciar cada momento”.
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sexta-feira, maio 27, 2011

Entrevista: Edu Felistoque fala de seu novo filme “Inversão”

Filme que estreia nesta sexta (27) fala sobre indistinção entre vítima e algoz.


“Você vai fazer um grande filme!”. Foi com essa afirmação profética que o diretor Edu Felistoque me recebeu ontem para uma entrevista durante a pré-estreia de seu mais novo filme, “Inversão”, que entra em cartaz hoje em São Paulo. Ao me apresentar para a entrevista, Felistoque olhou nos meus olhos muito sério e, antes que eu fizesse qualquer pergunta, perguntou: “Você já fez algum filme?”. Ao ouvir minha negativa, disparou a profecia. “Eu tenho essa percepção. Você ainda vai fazer um grande filme”.

Estávamos no saguão do Cinesesc e os convidados – amigos, equipe técnica e imprensa – começavam a encher o salão. Requisitado a todo momento para cumprimentos e elogios, se desculpa pelas interrupções, “Hoje eu estou vivendo um dia de noiva”. Edu é solícito e atencioso com todos. Abraça, beija, tira foto, agradece. Vendo que não seria possível continuar a entrevista com tantas interrupções, me pega pelo braço e diz determinado, “Vem para o banheiro comigo”. Dentro do banheiro, entre um e outro usuário desconfiado, me concedeu a entrevista.

Edu Felistoque é fotógrafo, produtor, roteirista e diretor. Com mais de 30 anos de carreira, já trabalhou em diversas produções. Foi produtor executivo do filme “400 contra 1 – Uma História do Crime Organizado”, de Caco Souza e dirigiu os longas “Soluços e Soluções”, de 2001, e “Trilhos Urbanos”, em 2007. Também é diretor da série policial “Bipolar”, exibida pelo Canal Brasil. Chega agora aos cinemas seu novo longa-metragem “Inversão”, um suspense policial que busca mostrar as inversões de papéis que muitas vezes ocorrem na sociedade e em situações limites.

O diretor conta que a ideia para o filme ocorreu alguns anos atrás, quando ouvia uma música de Nando Reis gravada pela Cássia Eller que dizia “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Sentiu que havia uma grande verdade naquela frase. Nascido na zona leste de São Paulo, no bairro da Água Rasa, diz que desde jovem sempre achou as pessoas bem vestidas mais perigosas do que as pessoas mal vestidas. “Eu estou mais preocupado hoje como os homens de casaca, do que com os manos da rua”. Foi a partir dessa reflexão que surgiu o roteiro de “Inversão”, assinado por Felistoque em parceria com Maurício Fernandes.

Felistoque acredita que a imprensa tem dado muito mais atenção ao crime da periferia do que ao crime do colarinho branco. “Eu percebo que tem por aí uma coisa muito maior do que aquilo que a gente vê no telejornal”. Ele ressalta a desigualdade com que a justiça trata criminosos de diferentes classes sociais.


Cita, como exemplo, o caso do jornalista Pimenta Neves, réu confesso do assassinato da e ex-namorada a também jornalista Sandra Gomide e que permanecia em liberdade até dias atrás, onze anos após o crime. “Se fosse um garoto da periferia, que não teve a menor chance junto à sociedade, no ato ele vai pra cadeia. Isso se não for executado antes por policiais”.

Perguntado se “Inversão” pode ser considerado um filme político, responde imediatamente que sim e enfatiza: “A gente precisa chocar a sociedade. A classe média falida precisa tomar um choque elétrico”. Diz que embora seja uma ficção, o filme tem muito de documental, de histórias que realmente aconteceram. Por outro lado, Felistoque faz ressalvas quanto ao teor político do filme. Afirma que a narrativa tem duas camadas, por cima está o entretenimento, pois é preciso trazer público para o cinema, mas por baixo há a camada de reflexão da sociedade, da inversão de valores. “Eu quero que o cara venha, compre uma pipoca, assista ao filme, depois saia para jantar e discutir o filme. Para com esse negócio de vem, compra uma pipoca, dá uns beijos na namorada e vai embora sem pensar. Não cobro isso do público, mas acho que meu filme é pra isso.”

O diretor diz não se incomodar com opiniões negativas da crítica. Afirma que o primeiro crítico do filme é ele mesmo e por isso não vê porque reclamar da crítica, pois é isso gera debate e é de debate que ele gosta. Fala também de um caso curioso que ocorreu quando o filme foi exibido no Festival de Toronto, onde ganhou o prêmio de melhor trilha sonora. “Um desconhecido chega para mim e fala: ‘no seu filme, você coloca os bandidos no lugar certo’. Tremi. Depois tentei achar o cara e não consegui.”

Sobre as cenas gravadas no meio da mata, diz que elas são grande parte do que ele considera documental, não apenas na história, mas no registro das imagens. Conta que fechou com o elenco que iriam sofrer naquelas cenas e que todos estavam empenhados em fazer o filme e passar para a tela toda a verdade da situação. “Eu não queria uma Gisele Itié linda e maravilhosa, eu queria uma Gisele Itié sofrida”.

Quando perguntado sobre o próximo projeto, desconversa, mas depois de alguma insistência, entrega a dica. “Anota aí: ‘Photografia’ – com ph – ‘A Coisa de Maluco’. Com Daniel Oliveira e Daniela Escobar. É tudo que posso adiantar.” 

No final, retoma a questão política do filme e da sociedade. Diz que ao ver as chacinas, os tribunais de justiceiros que promovem execuções, sempre se pergunta se isso não é reflexo da sociedade que está cansada de esperar pela justiça lenta e ineficiente. E pergunta: ”Será que a sociedade, ao matar seus supostos algozes, não está agindo em legítima defesa?”. É dessa inversão que o filme também fala, finaliza o diretor.
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quinta-feira, maio 26, 2011

Estrada para Ythaca

Nesta sexta-feira, 27, entra em cartaz “Estrada para Ythaca”.


Está entre os filmes que mais me marcaram desde que passei a exercer a crítica de cinema.

Assisti pela primeira vez no CineSESC, dentro da programação do Festival de Cinema Latino Americano, e depois em uma exibição que aconteceu no Centro Cultural São Paulo.

Não é filme fácil, mas uma vez compreendida sua metáfora o filme alcança qualidades incríveis.

Um road movie metafísico, uma alegoria da passagem, da perda e da viagem como transformação e restauração das coisas.

Recomendo. Mas que se vá vê-lo com os olhos limpos do cinema comercial. É preciso tempo para o tempo do filme, é preciso embarcar na viagem dos quatro amigos. Se assim fizer, sairá recompensado da sessão. Terá vivenciado uma grande experiência.
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O Poder e a Lei



The Lincoln Lawyer
Brad Furman
EUA, 2011
118 min.

Mais um filme de advogado, investigação e tribunal. “O Poder e a Lei”, filme que estreia nesta sexta (27), tem um pouco de cada. Mas passa por cada um desses elementos de gênero sem nenhuma novidade e sem causar grande entusiasmo.

Mick Haller (Matthew McConaughey) é um advogado malandro que costuma defender criminosos de pequeno porte e que já teve até sua licença cassada. Como escritório, utiliza o banco de trás de um Lincoln, conduzido por seu motorista particular. Foi casado com uma promotora (Marisa Tomei), com quem tem uma filha. Normalmente detestado por alguns policiais por conseguir livrar notórios criminosos da cadeia, mantém com alguns desses policiais uma relação promíscua do ponto de vista ético.

A trama se arma quando Mick assume um caso de acusação de estupro e espancamento de uma prostituta por parte de um mimado herdeiro de família poderosa. Vê a oportunidade de faturar alto com o caso e é inicialmente convencido de que o rapaz é inocente e que foi vítima de um golpe da prostituta. Com o andamento das investigações e dos tramites legais, perceberá que o caso remete a um outro caso antigo, do qual ele até hoje tem dúvidas.

O personagem Mick Haller é um tipo sem grandes escrúpulos, que está preocupado apenas em ganhar o seu dinheiro, não importando de onde ele venha. Seu casamento definhou justamente pelo conflito entre os ideais de sua esposa e seu caráter duvidoso. Contudo, ao ver a possibilidade de corrigir um erro do passado, é subitamente atacado pelo desejo de justiça. O grande dilema do filme está no advogado antiético que subitamente se vê preso à ética da profissão e tem de livrar da prisão alguém que ele quer ver preso.

O roteiro, adaptado do livro de Michael Connelly, muitas vezes parece um remendo mal disfarçado. A trama é bastante frouxa, com alta dose de previsibilidade. Para completar, recorre ao pior dos recursos para o desenrolar da narrativa: uma absurda e improvável coincidência.

Outra falta grave do filme é colocar na trama personagens de certa maneira fundamentais para o desfecho e que entram e saem da história sem qualquer grande explicação.

Assim, sabemos que Haller tem uma secretária chamada Lorna (Pell James) que o ajuda em alguns momentos, mas não sabemos onde ela trabalha, que vínculos tem com ele. Ela simplesmente entra e sai de cena. O mesmo ocorre com a personagem Gloria (Katherine Moenning) a quem Haller ajuda e que serve somente como elo para a providencial coincidência que dará ao advogado o trunfo final da história.

Isso sem falar no subaproveitado motorista Earl (Laurence Mason), que num tipo de “Conduzindo Miss Daisy” leva o advogado de um lado para outro sem muita conversa.

Com a pegada de filme policial e de tribunal, mas sem as melhores qualidades de um ou de outro, "O Poder e a Lei" se enrola e desenrola sem surpresas ou reviravoltas surpreendentes. Um argumento interessante, mas que o filme aproveita muito mal.
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