domingo, novembro 14, 2010

A Janela

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La Ventana
Carlos Sorin
Argentina, 2008
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Em A Janela, o argentino Carlos Sorin solidifica o tempo numa ampulheta sem urgência. Logo nos primeiros planos temos a tônica do que será o filme, um lento gotejar do tempo e uma melancólica despedida da vida.

A janela do quarto de Antonio está entreaberta, deixando passar uma luz tímida. Com o tiquetaquear dos relógios temos a impressão de que não é a luz que entra, mas o tempo que sai pela abertura. Antonio apenas contempla, quieto, esse tempo quase sólido que se escoa. Impotente quanto ao destino, sabe que é seu o tempo que está partindo.

Antonio é um homem doente, alquebrado. Escritor que passa seus dias na cama, no casarão de sua fazenda. Espera a chagada do filho com quem não fala há anos, e ao despertar no dia dessa tão esperada visita recorda-se de um sonho raro que teve.

Com este detalhe, o diretor não disfarça sua referência a Morangos Silvestres, um dos maiores clássicos de Ingmar Bergman. Entretanto, não se entrega a qualquer mimetismo barato do mestre sueco. Entre A Janela e Morangos Silvestres as semelhanças são tênues e o filme de Sorin caminha com suas próprias pernas.

A Janela é um filme minimalista. Não há ação e a espera é preenchida pela rotina de remédios, das enfermeiras, da visita do médico e a expectativa da chegada do filho. Mas há outros elementos substanciais presentes na narrativa, como o afinador de piano, cuja presença nos possibilita um olhar de fora e que enche a casa com as notas musicais que formam uma trilha insistente e inconstante. E há a epifania da liberdade experimentada numa travessurar fuga ao campo.

Uma epifania que se revela o oposto do quarto, onde o tempo é sólido, arenoso e a janela o gargalo de uma ampulheta emblemática e limitadora. Do lado de fora, sob o imenso céu e o horizonte a perder de vista o tempo não mais existe. Deixa de ser uma medida de fração da vida para se tornar apenas o imenso, sem códigos fracionários, sem ruídos que não o do vento e sem a percepção do finito. Ao não existir o tempo, também não há como existir a morte e tudo parece amplo, simplesmente amplo.

Mas é o arremate do tempo, dentro do minimalismo desse dia de Antonio, o que faz de A Janela um filme singular. Não por acaso são evocados pelo personagem dois clássicos da literatura latino-americana: A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares e História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges. Enquanto o primeiro explora no fantástico a perpetuação da imagem e dos homens, o segundo cataloga a realidade da vilania dos mesmos. Para Antonio, a perpetuação talvez esteja no encontro como o filho; a vilania, talvez, no passado. Não se sabe. E não há porque saber.

O filme não explora ou busca respostas, nem mesmo dá os indícios de quaisquer perguntas. Preocupa-se mais em desvelar a cru e sem grandes gestos o fim do tempo de Antonio e sua percepção desse fim. Através da janela, por onde o tempo escoa ininterrupto, se vê o imenso azul celeste e verde do campo, depois o crepúsculo de tons impressionantes, por fim a noite.

Não há discursos, desespero, despedidas ou gestos sentimentais. No final, até mesmo os sentimentos são minimalistas. Restando somente a recordação de um sonho antigo e o desfecho inevitável da vida.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Três Quintais

34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
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3 Backyards
Eric Mendelsohn
EUA, 2010
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Três histórias em paralelo. Em comum, a vida no subúrbio e a incomunicabilidade de três personagens. Uma partida, uma fábula, uma barreira intransponível. Cada um dos personagens vai vivenciar ao longo do dia uma experiência única e marcante.

Um casal em crise e uma partida inadiável. No aeroporto o voo cancelado. Apesar de morar na cidade, ele vai para o hotel que a companhia aérea disponibiliza. Telefona para casa, fala com a filha. Há muito sentimento represado, longe das palavras. Quando fala com a esposa são reticências, o não-dizer. Há uma dor no que não se diz, nas barreiras do comunicável. Como uma distância próxima, mas difícil de superar.

Uma bisbilhotagem de criança. A pulseira que não deveria estar em seu braço, difícil de sair. A mãe chama, o ônibus escolar chega. A pulseira não quer sair. Na rua o ônibus já dobra a esquina, inalcansável. Chegar à escola torna-se uma aventura por quintais alheios, entre folhagem, grama, cercas. Depara-se com um gigante, encontra cães perdidos e na escola percebe que em algum lugar de sua aventura perdeu a pulseira.

A nova vizinha famosa, atriz de Hollywood, pede um favor, uma carona. Cria-se daí uma expectativa incomum, o inesperado, a ansiedade. Aos poucos, contudo, uma simples carona se transforma no estranhamento, no enigma. Surge uma barreira intransponível.

Nessas três histórias aparentemente sem ligação habita o fantasma de relações cuja intransponibilidade da comunicação se torna um muro quase palpável. Entre a epifania, a fábula e a catarse, cada uma delas seguirá caminhos próprios e seus protagonistas vivenciarão nesse dia um confronto com coisas que não compreendem. Coisas que sabem dentro de si, mas que são incapazes de verbalizar. Como quando se pergunta a um deles por que está chorando e a resposta é a síntese desse estranhamento: não tenho a menor idéia.

Por fim, resta o regresso para casa. De uma forma ou de outra, todos regressam. Mas ao regressarem trarão no íntimo mais dúvidas que certezas. Num filme de sentidos suspensos, impalpáveis, fica mesmo o não dito, mas a possibilidade de um dia dizê-lo.

O diretor Eric Mendelsohn realiza um filme de momentos especiais, de uma beleza contida no sentimento de cada personagem, oculto entre os não-dizeres. O grande equívoco do filme é a trilha sonora, que parece querer impor um clima de contraponto à gravidade das tramas, como uma amenidade de subúrbio. Torna-se inconveniente e irritante. Mas o filme, apesar disso, é bom.
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terça-feira, novembro 09, 2010

Nhém, nhém, nhém...

Nunca filmei. Falo, então, de suposto a mim mesmo, como diria Pessoa.

Não entendo isso de cineasta responder a críticas. Mesmo as pessoais.

Pior ainda quando parte para um achincalhamento de seu opositor “crítico”. Muito mais ruim de pior de ruim mesmo, como diria minha sobrinha, se o achincalhamento vem sob uma presumivelmente vetusta indignação, amparado no maduro discurso do: “ele que começou...” (após as reticências não fica difícil emendar um choroso “mãnhê!!!”).

Menos ainda entendo o crítico que lança mão da afronta pessoal para analisar – e também achincalhar – a obra do cineasta. Fica sempre no fundo da crítica, na raspa de tacho do texto, aquela borra de recalque dizendo: ah, esse cara é muito “forgado” mesmo; quem ele tá pensando que é?

Entre tabefe pra cá, tabefe pra lá, respinga no público, pouco interessado em barraco de programa popular de TV, essa briga de vizinho por cerca em jabuticabeira. E o debate sobre cinema, arte, forma, conceito e estética fica de lado, sem chance de entrar.

Perde leitor (tempo e paciência), perde os envolvidos na celeuma (dignidade e respeito), perde os veículos (feitos varais de lavadeiras) – com todo respeito ás nossas digníssimas profissionais do asseio vestimental.

Arnaldo Jabor no O Estado de São Paulo responde à crítica de Eduardo Escorel na revista piauí. Ficou feio.

Vi o filme do Jabor sábado passado. Achei ruim demais. Fernanda, minha namorada e monja, também não gostou. Nem me animei a escrever sobre o filme aqui no Eu, Cinema. Agora me animo menos ainda. Não por medo da ira do Jabor, que nem sabe que esse blog e seu autor existem. Mas porque depois do que li entre esses dois, fiquei desanimado de tudo.
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segunda-feira, novembro 08, 2010

Vespa

34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
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Vespa
Diana Groó
Hungria, 2010
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Neste road movie húngaro, a diretora Diana Groó conta a história de Lali, um jovem cigano de 12 anos que viaja sozinho para a capital Budapeste. O motivo de sua viagem é um cupom encontrado numa embalagem de chocolate que o torna ganhador de uma moto vespa.

Groó disse na apresentação do filme que através dessa história quis contar um pouco do drama do povo cigano em seu país. Mas preferiu faze-lo através de uma história de inocência e perseverança ficcional, ao invés de um documentário.

Vespa mostra o jovem Lali em uma jornada que tem como pretexto a retirada do prêmio. Mas o que o menino busca na verdade é seu pai, do qual sabe apenas que trabalha em construções na cidade de Budapeste. Essa busca pela paternidade não deixa de ser uma alegoria da busca de identidade. Uma forma de dizer que a condição de cigano não o integra totalmente no mundo e encontrar o pai é uma forma de se sentir mais completo.

Nesse intricando jogo de sentidos, o jovem rapaz não renega sua origem e seu povo, mas não deixa de ver o quanto isso o estigmatiza diante do mundo. A cidade grande não é hospitaleira para seu povo, como não é para ele. Essa noção de rejeição e sua vontade de anulá-la é o que intensifica sua busca pelo pai.

Após seguidas frustrações, Lali conhece um artista de rua. O artista, comovido com a determinação do rapaz em conseguir o que quer, passa a ajudá-lo. À partir daí se inicia uma relação afetuosa, de cumplicidade e ajuda mútua. Os contornos paternais dessa relação são inevitáveis.

Por um tempo, Lali se sentirá como quem encontrou, por um via torta, sua identidade. Tem ali sua figura exemplar, espelho de si mesmo, rejeitado pela sociedade, tolerado como mero passatempo de transeuntes. Mas no destino cigano de Lali nada é certo, nem fácil.

As desventuras e decepções desse perseverante jovem prosseguirão no retorno para casa. Ele regressa não como um Ulisses vitorioso à Ìtaca, mas como o filho desolado, cuja jornada resultou numa descoberta triste de si mesmo e de seu destino sem horizonte. Na hora de dormir, ao lado da mãe, recolhe sua tristeza. Regressa mais desiludido, menos criança, depois de provar um pouco do que o mundo lhe reserva: preconceito e desilusões.
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domingo, novembro 07, 2010

Cabeça a Prêmio

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Cabeça a Prêmio
Marco Ricca
Brasil, 2010
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Em sua estréia na direção, Marco Ricca demonstra segurança e boa mão para conduzir uma narrativa no tempo certo. Cabeça a Prêmio é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. A história se passa numa região fronteiriça do Brasil e tem como trama o envolvimento de um piloto de avião - que faz o transporte de drogas de um lado para outro da fronteira - com a filha de seu patrão.

Mas o filme é mais do que a desventura desse casal. O romance deles trás como pano de fundo a sanha dos poderosos, a soberba e a embriaguez com que muitas vezes o poder encharca as pessoas.

Nesse contexto estão os irmãos Miro (Fulvio Stafanini) e Abílio (Otávio Muller), prósperos pecuaristas que, seduzidos pelo dinheiro fácil e pelo poder, passam também a fazer o transporte de droga pela fronteira.

É o conflito amesquinhado, a tensão superficial prestes a romper-se que dá o tom da relação entre eles. De um lado o irmão mais velho, mão-de-ferro dos negócios, personificado pela obesidade patriarcal e o olhar de dono; do outro lado o ressentido irmão que não se sente respeitado e na sua soberba de vice-rei “enxuga” seu uísque como quem trama a queda do rei.

Há também a dupla de ex-policiais que prestam serviços de “segurança” para os patrões. São o braço cerceador desse poder corrompido, que ameaça, promulga, lavra e executa, sumários, os mandos dos patrões.

O fronteiriço cenário do filme é a metáfora desses personagens, que se dividem, que atravessam suas próprias fronteiras em busca de algo que eles mesmos desconhecem, perdidos que se encontram num mundo de limites e matizes indefinidos.

Como num diálogo emblemático entre os seguranças Albano (Cassio Gabus Mendes) e Brito (Eduardo Moscovis), onde se diz que naquele lugar as pessoas não entendiam o meio-termo; ou se está com deus ou com o diabo, ou é bom ou é mau; no que um deles pergunta: e a gente é o que? E o outro responde: a gente é bom, só que está do lado errado.

Esse diálogo é a chave para se compreender a divisão difusa do caráter dos personagens, dessa história de amor, vingança e recalque. O grande destaque do filme, sem dúvida, é a força de todo o elenco, sem exceções. Todos estão impecáveis em seus papéis.

Mas há ainda que se destacar Fúlvio Stefanini e seu olhar de dono, Eduardo Moscovis e sua dúvida moral expressa nas feições duras, no calado de seu personagem, na atitude que vai da hesitação à ameaça de um olhar onde a morte não tem receio de aparecer. E, por fim, Alice Braga, que na cena final alcança um tom que paralisa o expectador diante de seu gesto, numa cena de força imensa.

Marco Ricca consegue um resultado surpreendente em sua estréia como diretor. Realiza um filme com personagens intensos, marcantes, sem deixar cair a narrativa. Faz o filme se desenrolar num ritmo cadenciado, preciso, nem eufórico, nem sufocante. Conduz a história para o crescente final, onde os conflitos eclodirão com a mesma força contida que seus personagens demonstraram durante todo o filme.

Cabeça e Premio é um filme forte sem precisar ser chocante, trás sua força da história de personagens cujas fronteiras se confundem e cujo desfecho os redime ou os afunda ainda mais em suas próprias indefinições.
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sábado, novembro 06, 2010

À Prova de Morte

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Death Proof
Quentin Tarantino
EUA, 2007
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Com 3 anos de atraso estreou no Brasil À Prova de Morte, de Quentin Tarantino. O filme fez parte do projeto Grindhouse, que Tarantino realizou em parceria com o diretor mexicano Robert Rodriguez. Grindhouse era como se chamavam a sessões duplas de cinema nos anos 70, nos EUA. Exibidas em cinemas baratos, apresentavam sempre dois filmes em seqüência, que invariavelmente eram filmes B, de baixo orçamento, gosto duvidoso e que faziam a alegria de jovens da época.

Há alguns anos Tarantino e Rodriguez se juntaram para homenagear essas sessões e o tipo de filme que apresentavam. Cada um escreveu e dirigiu um filme nos moldes grindhouse, que pretendiam lançar em cópias únicas.

Para serem fieis ao que pretendiam homenagear, filmaram inclusive trailers de filmes falsos que seriam exibidos entre os filmes (um desses trailers fez tanto sucesso que, ao que tudo indica, vai mesmo virar filme). Contudo, por diversas questões, no final Tarantino e Rodriguez optaram por lançar os dois filmes do projeto separados. Robert Rodriguez lançou Planeta Terror e Tarantino À Prova de Morte.

Já tive a oportunidade de assistir a ambos duas vezes. Planeta Terror é um filme que abusa do nonsense ao investir no filme de zumbis. Escatológico, absurdo e exagerado é o mínimo que se pode dizer dele. Não que não seja divertido (ao menos para os fãs do gênero, ainda que mesmo dentre esses muitos desgostaram do filme), mas quando comparado  a À Prova de Morte, fica simplesmente abaixo da crítica.

O que ainda falta em Rodriguez e sobra em Tarantino quando o assunto é referência “B” pode ser explicado em uma única palavra: elegância. Enquanto que do seu lado do díptico de Grindhouse Rodriguez simplesmente empilha referências sem muito critério e com exagerado desleixo, Tarantino pega o fino do gênero, condensa e talha à sua imagem e nos entrega uma obra irretocável.

O diretor do insuperável Pulp Fiction investe no filme de perseguição dos anos 70, com os carrões envenenados, os muscle cars, e seus motores possantes e beberrões, que foram um símbolo de uma época. Mulheres sensuais com shorts jeans, a figura do dublê de filme de ação e seu carro adaptado, está tudo lá. Mas ao contrário de Rodriguez, Tarantino amarra todos os elementos de forma elegante, cadenciada, exibindo seu virtuosismo na construção de diálogos e no controle da tensão.

Na história, Kurt Russel interpreta um dublê de filmes de ação que tem um carro que ele classifica como à prova de morte, pois foi modificado para suportar todo tipo de provação. Num bar de beira de estrada ele trava diálogos com um grupo de garotas. O que elas não desconfiam é das verdadeiras intenções daquele sujeito estranho com uma grande cicatriz no rosto.

À Prova de Morte, como o tipo de filme que homenageia, não possui um roteiro elaborado, nem grandes reviravoltas na trama. Mas é exatamente sua simplicidade e a maneira como ela é trabalhada por um gênio como Tarantino que faz dele um filme acima da média.

Talvez seja preciso um pouco de cultura de filmes B para apreciá-lo por inteiro. Especialmente os “defeitos especiais” que remetem aos filmes antigos do gênero. Coisas como a imitação dos rolos de filmes desgastados e mal conservados da época das grindhouses: riscos na tela, trechos do rolo faltando, som irregular. Tudo para dar o tom certo.

À Prova de Morte condensa todos esses elementos sem nunca perder a medida certa. O faz com equilíbrio e bom gosto, sem também se perder do objetivo, ou seja, sem nunca deixar de parecer um autêntico filme do gênero e da época. Talvez não agrade a todos, especialmente aos não iniciados nos típicos filmes B dos anos 70. Mas é um filme que ilustra com perfeição o cinema de Tarantino, que retira o supra-sumo de um tipo de cinema dito “ruim” e o transforma em obra refinada. Tudo sem deixar a simplicidade de lado e exibindo um bom gosto incrível e um incrível domínio da tensão.

Vale destacar, como sempre, a trilha sonora. Esse é outro ponto que Tarantino sempre acerta. E muita atenção para a antológica sequência de lap dance com a atriz Vanessa Ferlito. Um deleite para os olhos.
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quinta-feira, novembro 04, 2010

Mostra, Fim

Encerra-se hoje a 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Foram duas semanas, 467 filmes. Pessoalmente, consegui quebrar meu recorde de 2 anos atrás, quando vi 11 filmes. Este ano consegui ver 13 e ainda pretendo ver algo na repescagem.

A repescagem é uma esticada na programação em algumas salas, até domingo. Cinemateca, Cinesesc e Cine Livraria Cultura.

Meu balanço foi positivo. Partindo do princípio que busco sempre o risco na montagem da minha programação, evito os filmes badalados. Vou em busca da sorte. E esse ano ela foi generosa, ainda que não exorbitante. Uns dois ou três filmes sofríveis e todos os demais entre bons e muito bons. Especialmente o último, que vi agora pouco no Centro Cultural Banco do Brasil. Aos poucos escrevo sobre todos que vi.

Agora é descansar, voltar a dormir um número digno de horas por dia e me alimentar corretamente. Mas apesar da fadiga que sinto hoje por essas duas semanas de maratona, foi muito bom participar dela.

Para ver a programação da repescagem, clique aqui.
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O Segredo do Grão


Vencedor do César 2008 (o mais importante prêmio do cinema francês) nas categorias de melhor filme e melhor direção, O Segredo do Grão conta a história de Slimane Beiji (Habib Boufares) e de sua família.

Ele é um imigrante árabe radicado na França que, cansado de trabalhar em um estaleiro, decide comprar um barco velho e montar um restaurante dentro. Sua inexperiência no ramo e os recursos limitados para a empreitada vão aos poucos fazendo do desejo de Slimane uma aventura humana, na qual se enredará sua família e amigos.

Mas Slimane, um homem introvertido e silencioso, será muito mais eixo do que lança. Porque será em torno dele que irão se manifestar as tempestades de uma numerosa e particionada família. É que, separado da primeira esposa, com quem compartilha filhos, netos, genros e noras, Slimane vive com outra mulher e uma enteada para quem ele é como um pai verdadeiro.

É a partir dessa cordial, mas sempre tensa, rede de relações familiares que o sonho do restaurante de Slimane despertará emoções de alegrias, ressentimentos, amores e frustrações.

Para dar vida e essa riqueza de conflitos, o diretor tunisiano Abdellatif Kechiche escalou para o filme um elenco de atores amadores e os deixou livres para improvisar. Tudo para evitar a artificialidade.

O resultado é uma rara franqueza de realismo e naturalidade com que as cenas se desdobram. Uma franqueza que pode ser notada na belíssima sequência do almoço em família ou nas discussões dos problemas e pequenezas da intimidade familiar. Há muito dessa franqueza até mesmo em uma estonteante e significativa cena de dança do ventre.

É desse sentimento cotidiano que se extrai a beleza mais pura de O Segredo do Grão. Especialmente no modo como revela, mesmo dentro (e apesar) das pequenas intrigas pessoais, o amor pelo pai e a dedicação a seu sonho.

Mas Kechiche não se limita ao microcosmo familiar e faz de seus personagens a ressonância cultural e étnica da França dos anos 2000. Problematiza a questão da imigração árabe através de uma elaborada construção de sentimento de lugar e de ser.

Assim, nos faz imergir no seio de uma família árabe com suas tradições culturais e com isso cria um sentimento de origem, de raiz cultural. Mas esse sentimento precisa conviver com a nacionalidade francesa dos mais moços, já nascidos no país, e também com a adaptação dos mais velhos, integrados ao país.

Surge daí um sutil conflito que parece evocar em alguns o sentimento de não pertencer ao país (ao lugar). São franceses, mas também são árabes e o lugar a que pertencem parece uma indefinição incômoda que paira sobre suas identidades.

Toda essa riqueza de questões e abordagens entre família, cultura e identidade converge, por fim, no projeto pessoal de Slimane. É a dedicação de todos em torno desse projeto e o esquecimento momentâneo das diferenças em função do pai e de seu sonho que mais comovem e embelezam o filme.

Aqui, o diretor não deposita no objeto do sonho um artificialismo dramático. O que há é a grandiosa demanda da aventura humana. A vida em seu estado natural, sem grandes assombros, mas com todo significado das simplicidades comezinhas.

Por isso, a trama não se permite a obviedade de grandes reviravoltas, o que não tira a tensão do filme, presente até mesmo no prosaico gesto de levar uma panela ao fogo.

Nessa construção, quando nos damos conta, já fazemos parte da família, já somos parte do sonho de Slimane.

É quando, a certa altura, todos os olhos se voltarão não apenas para Slimane, mas para a jovem atriz Hafsia Herzi. Não sendo pouco o talento que ela exibe durante todo o filme, protagoniza ainda, num momento chave da trama, uma hipnotizante dança do ventre.

Revela-se nesta sequência um tipo de erotismo raro de se ver no cinema. Uma singularidade que nos arrasta para o desejo inevitável que guarda também uma certa pureza de intenção e coragem do gesto.

O desfecho de O Segredo do Grão é súbito e pode, num primeiro momento, parecer destituído de sentido, como se toda a riqueza de sua construção levasse para nada.

Mas um olhar mais atento dos últimos gestos dos personagens revelará a amarração de todas as pontas. São fechados os dramas de cada um, sem que isso represente necessariamente um final, apenas a continuação da vida.
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La Graine et le Mulet
Abdel Kechiche
França, 2008
151 min.

Trailer

terça-feira, novembro 02, 2010

Rosa Morena


34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
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Rosa Morena
Carlos Oliveira
Brasil, Dinamarca, 2010
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Rosa Morena é um filme que pode ser divido em dois tempos.

Na primeira metade coloca em pauta a adoção ilegal de crianças, seu comércio para estrangeiros. Thomas é um dinamarquês que vem ao Brasil visitar velhos amigos. É recebido com alegria pelo casal, com o qual tem longa amizade. Não demora muito e confessa que deseja adotar um filho. Por ser homossexual, tem dificuldade em fazê-lo na Dinamarca. Desestimulado pelos meios legais, busca orientação de um advogado de ética duvidosa que lhe apresenta outras possibilidades. Nenhuma delas legais. Thomas recusa.

Thomas, na verdade, é um homem em crise pessoal. Engenheiro bem sucedido, questiona a validade de seu trabalho e o que deixará de importante no mundo. Vê na adoção de uma criança uma forma de preencher sua vida, um modo de lhe dar sentido. Buscará meios de conseguir o que quer, chagando ao ponto de, ingenuamente, colocar sua vida em risco.

Na segunda metade o filme terá como base a construção de relações, a dubiedade de sentimentos e o reforço da ingenuidade generosa de Thomas. Envolvido com uma jovem da periferia grávida e sem condições de criar mais um filho, vê a oportunidade de realizar seu sonho. Faz um acordo com a moça, de nome Maria, e com seus parentes e passa a acompanhar de perto sua gravidez.

É nesse momento que o filme cresce. De forma bastante eficiente se vai construindo na tela os laços afetivos que deixarão Thomas cada vez mais próximo de Maria, de seus outros filhos e do bebê que ela gesta. Cria-se ali uma relação improvável, entre o estrangeiro-primeiro-mundo e a jovem pobre da periferia. Neste ponto o filme é muito competente, criando esses laços de forma natural, às vezes até sutil. Porém, logo essa relação ganhará contornos inesperados, levando os personagens a se confrontarem com interesses e sentimentos de certo modo inconciliáveis.

Rosa Morena é um filme correto. Bem realizado, não chega a entusiasmar, mas segura bem a narrativa e a construção dos vínculos entre os personagens. Seu grande destaque é a atuação do dinamarquês Anders W. Berthelsen no papel de Thomas. É dele grande parte dos méritos do filme, pois sua atuação tem a medida exata e consegue transmitir sentimentos sinceros de afeto, tristeza e dúvida.

Se Rosa Morena não chega a ser um grande filme, é sem dúvida um bom filme. Consegue envolver o expectador, leva-lo para dentro da vida de seus personagens. Não apela para o piegas, nem para o dramalhão. É um filme prazeroso de se ver.
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domingo, outubro 31, 2010

Três em Três

34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Abaixo, três resenhas em três parágrafos de três filmes da Mostra que não valiam três horas na feitura de três críticas completas.


A Graça (Sacràscia)
Bonifacio Angius
Itália, 2010

Tem uma proposta interessante ao flertar com o realismo fantástico. Menino de 10 anos peregrina descalço pelas estradas em busca da igreja do santo que salvou sua vida. Cumpre, assim, uma tradição católica de flagelo pela graça alcançada.

O filme entra numa espiral de cunho fantástico, o crescimento do menino indica que os anos passam enquanto ele prossegue em busca da igreja, sempre com a mesma roupa, sempre descalço, sempre com uma faixa curativa puída na cabeça.

Cruza com personagens bizarros, cíclicos. Apaixona-se, decepciona-se. O filme se torna monótono pela repetição. Pareceu-me um purgatório essa peregrinação, como se a realidade e a vida tivessem ficado noutro plano. Cansativo.
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Impacto (Bay Rong)
Le Thanh Son
Vietnão, 2009

Filme de ação vietnamita. Vai bem enquanto não se leva a sério. Depois cai na mesmice dos filmes de ação. Varia um pouco ao tentar problematizar as relações dos personagens, mas fica só na superfície. A intenção é boa, o resultado medíocre.

Fala, em sua essência e também na sua mesma inocência, de vingança, redenção e restituição. Nisso é até universal. Mas é filme de ação. Entre uma cena e outra de demorada trilha e longa conversa, cansa.

Contudo, tem boas sequências de lutas, com takes de duração dilatada, o que ressalta a boa coreografia. A câmera acelerada dá um bom efeito em alguns momentos. Perde ao querer dramatizar demais alguns personagens. Tem razoável qualidade técnica, mas se arrasta em algumas partes. Vale só por diversão.
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Não Tem Mais Majorette em Villalba (Non C'é Più Una Majorette A Villalba)
Giuliano Ricci
Itália, 2010

Fraco documentário sobre uma cidade no interior da Sicília que tende a desaparecer. Formada quase que só por aposentados, a cidade tem apenas 1800 habitantes e se encaminha para um encolhimento.

O diretor se limita a colher depoimentos de moradores e fazer imagens que retratam o bucolismo do lugar. Os personagens não apresentam nada de diferente, contam histórias do passado e falam que não se importam de morarem num lugar tão bucólico.

O mais próximo que se chega de algo intenso é nas reflexões sobre a morte, natural em um lugar só de velhos. Mas mesmo isso fica muito na superfície. O filme tem seu ponto alto no fim, quando duas solteironas que moram juntas afirmam terem já comprado seus caixões numa promoção: compraram dois e levaram três. Ficam guardados em casa.
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Mamma Gogo

34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
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Mamma Gogo
Fridrik Thor Fridriksson
Alemanha, Suécia, Reino Unido, Noruega, Islândia, 2010
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Em seu início Mamma Gogo parece querer falar da velhice e do tempo. Começa com uma metalinguagem: um cineasta islandês faz a exibição de pré-estréia de seu ambicioso projeto, um filme que fala sobre a velhice e o abandono. Na platéia está sua mãe, a quem dedica o filme.

No desenrolar da narrativa sabemos que o filme vai mal nos cinemas. Ninguém parece interessado num filme sobre a velhice. Endividado, o diretor passa a torcer por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, o que alavancaria a bilheteria do filme. Em meio às dividas e à crise no casamento, sua mãe começa a ter súbitos esquecimentos, até ser diagnosticada com Alzheimer.

O que parecia ser uma promissora reflexão sobre a terceira idade e a memória, acaba por se perder pela falta de um foco definido. Entre os problemas financeiros e conjugais do protagonista e o aprofundamento da doença de sua mãe, o filme não se coloca numa posição definida e dilui qualquer possibilidade de dramatização.

Essa falta de um objeto definido a ser dramatizado se acentua por uma montagem acidentada. Muitas vezes as cenas parecem mal encadeadas, os cortes não seguem uma fluidez narrativa na construção de algo, causando estranhamento. Esses cortes fora de tempo não funcionam como estética de ruptura, de corte brusco, porque o filme não tem qualquer pretensão de experimento formal. É simplesmente mal editado, fazendo com que as cenas não fluam naturalmente.

Dificulta ainda o “embarque” na história e a empatia com os personagens uma grande impessoalidade no modo de construí-los. Elementos básicos e até triviais numa fórmula de construção de laços entre personagens, como fotografias, lembranças do passado ou diálogos íntimos estão ausentes. Isso torna as relações efetivas entre mão e filho pouco críveis, e trás uma artificialidade para a história. Os personagens carecem, efetivamente, de perspectiva e dimensão.

Agrava ainda mais o péssimo e destituído de emoção trabalho do ator Hilmir Snær Gudnason. Sua atuação é realmente sofrível, incapaz de transmitir qualquer sentimento.

Por fim, depois de se perder entre um foco e outro nos 2 primeiros terços de sua duração, Mamma Gogo finalmente se volta para o drama da velhice, do esquecimento e do delírio. A doente Gogo ganha uma dimensão mais humana em seu drama e o filme ganha uma dimensão de drama na figura humana. Cresce nesse final e quase comove. No entanto, é tarde demais para causar alguma comoção verdadeira e intensa no expectador. Quando o filme finalmente se decide, parece tarde demais para isso.

Termina como uma alegoria da morte, da libertação, do encontro póstumo com a vida. Mas as emoções já se perderam no caminho. O que fica no final é só uma promessa perdida do que o filme poderia ter sido e não foi.
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sexta-feira, outubro 29, 2010

Coluna de Cinema


"O diretor não deposita nesse objeto do sonho um artificialismo dramático. O que há é a grandiosa demanda da aventura humana. A vida em seu estado natural, sem grandes assombros, com todo seu significado de simplicidades. Por isso, a trama não se permite a obviedade de grandes reviravoltas, o que não tira a tensão do filme, presente até mesmo no prosaico gesto de levar uma panela ao fogo."


Está no ar minha coluna de cinema no Guia da Semana. Nesta semana falo sobre O Segredo do Grão. Clique aqui para ler.
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terça-feira, outubro 26, 2010

O Segredo de Seus Olhos

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El Secreto de Sus Ojos
Juan José Campanella
Argentina, 2009
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Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro 2010, O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella, conta a história de Benjamin Espólito, um funcionário da justiça aposentado que pretende escrever um romance para ocupar seu tempo livre. Interpretado por Ricardo Darín, o personagem passa então a desenterrar da memória um antigo caso de assassinato, de cuja investigação participou no passado e que nunca conseguiu esquecer totalmente.

O Segredo de Seus Olhos é antes de tudo um filme policial. Os elementos estão todos lá. Um crime mal solucionado no passado, o retorno às investigações, as reviravoltas na trama. Mas o filme tem a virtude de não se prender exclusivamente aos elementos de gênero e abrir possibilidades dentro da trama para o romance e até mesmo para o cômico. Não perde, porém, seu foco policialesco e leva o espectador até um final surpreendente e marcante. Se não tanto pela revelação em si, certamente pelo que nela contém de humano e cruel ao mesmo tempo.

Um filme sobre obsessões. Obsessões que de muitas maneiras - desde as mais inocentes às mais doentias - servem, em última análise, para preencher vidas que se descobrem "cheias de nada". É o tamanho do vazio que determina o tamanho da obsessão. E é assim que Benjamin Espólito se envolve numa trama que o perseguirá por 25 anos, compreendendo que no ser humano tudo é passível de mudança - aparência, endereço, trabalho e até comportamento social. Mas uma coisa nunca muda: suas paixões e obsessões.


Juan José Campanella é imensamente competente na construção de sua trama, no modo como gradualmente faz crescer a tensão na primeira metade do filme. Mesmo recheando o filme com cenas verdadeiramente engraçadas, não perde as rédeas da narrativa. Mantém o suspense em permanente crescendo, culminando em cenas com alta voltagem de tensão. Graças também ao ótimo jogo de cena e às excelentes interpretações dos atores. 

Um destaque a ser notado no filme é a relação dos olhos e dos olhares, que dão sentido ao seu título. Tudo no filme passa pelos olhos dos personagens, pela maneira como eles revelam ou escondem sentimentos, crimes, pecados, culpas e obsessões. E a maneira como Campanella trabalha isso, de forma sutil, sem exageros e obviedades, num jogo discreto, é outro grande mérito do filme.

Contudo, O Segredo de Seus Olhos não é um filme sem defeitos. Embora construído com uma boa escalada de suspense, em alguns momentos perde consistência, especialmente quando faz muitas concessões ao romanesco. Não que a atração subentendida entre dois personagens seja necessariamente ruim, pelo contrario, dá até um certo tempero para a trama e rende ótimas cenas. O problema é que às vezes, por conta de uma certa repetição, esse tempero acaba passando do ponto.

Campanella, entretanto, não é bobo. Embora não enxugue o filme desses defeitos, não perde a chance de transformá-los em piada. Para isso constrói toda uma cena de puro clichê, daqueles bem açucarados, e obviamente improvável. Tudo isso para logo na cena seguinte desconstruí-lo sem piedade, numa auto-ironia refinada. São detalhes como esses que minimizam as falhas do filme e faz de O Segredo de Seus Olhos o melhor trabalho do diretor até então.

E como um bom filme policial algumas reviravoltas acontecerão na trama até o desfecho. Todas muito bem colocadas, sem excessos, sem artificialismos. E tudo a serviço de um final atordoante, agudo, doído, como um dedo no centro de uma ferida aberta por 25 anos. Um arremate que encerra não no ato, mas no teor dele, a máxima de uma obsessão. Uma espécie de justiça que se escreve e se executa de próprio punho, à margem da lei, na solidez de uma sentença perpétua e no quanto pode haver de torto e de doentio em sua execução. Tudo isso faz de O Segredo de Seus Olhos um grande filme.

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